Odyr, ogro adorável

Érico Assis

Revisão das provas da versão em quadrinhos de A revolução dos bichos, no Instagram da Quadrinhos na Cia.

 

Toquei a campainha da casa. Vi alguma coisa se mexendo pela janela. Ninguém atendeu. Toquei de novo. Nada. Fui embora.

Mandei uma DM. Não quero fazer pressão e as DMs do Twitter são o método de comunicação digital que me parece menos insistente – responde-se quando quiser. Combina, no nosso caso. Mandei uma DM e disse que tinha passado por lá, perguntei se por algum milagre ele havia saído de casa. Duas horas depois, resposta:

Cheguei num outro nível da liberdade pessoal, que é: não me sentir obrigado a atender a campainha. Veio depois de ter desistido do telefone, toda uma preparação para viver numa caverna. Então – me avise por aqui, combinamos.

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Moro a quatro quadras do Odyr. Três em linha reta em direção ao porto, uma para a esquerda. Me mudei há menos de um ano para este endereço, ele está ali há mais tempo. Nós dois somos pelotenses que passaram vários anos fora e voltaram pra terrinha. Nos vemos raramente. Raramente.

Nos conhecemos há uns... quinze anos? Mais? Lembro de um site com tiras, um personagem, Heitor, que lamentava que todo mundo queria escrever o Grande Romance Americano mas ninguém queria escrever o Grande Romance Brasileiro. Lembro de um projeto de uma HQ maior, Cidade da Névoa. E que o blog se chamava Sad Comics.

Literatura, névoa e tristeza. Bem Pelotas.

Ele se mudou para o Rio de Janeiro, virou a cabeça gráfica da saudosa Desiderata. Pensou o visual daquelas antologias de Jaguar e Henfil, fez Copacabana com o Lobo, trabalhou nas reedições do Millôr. Tenho aqui um e-mail de 2006 em que ele me descreve a primeira visita ao Millôr:

Millôr é um ogro adorável. A caverna em que habita é exatamente o modelo que eu teria. Livros, livros, livros por todas as partes (estantes, mesas, chão, em todas as línguas possíveis) mesas de desenho cobertas de material, computador quase perdido nesse sebo e uma tevê enorme que ficou a tarde toda na RAI. A primeira explicação foi de que ele gostava de ver os italianos falando. A segunda, já com um sorriso, foi de que ele gostava de ver as moças italianas. E assim passamos a tarde conversando coisas com aquelas moças e suas pernas incríveis cruzando e descruzando para os olhos do mestre.

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Conforme solicitado, combinei que ia passar na casa dele entre 13h30 e 14h, depois de deixar minha filha no colégio. Toquei a campainha, a maçaneta tremeu, a porta abriu uma fresta suficiente para ele enfiar a cabeça pra fora.

– Não vou deixar você entrar porque tu é uma pessoa decente, que tem filhos, e essa casa não tá pra pessoas decentes.

Tudo tranquilo. Só queria entregar o livro. Tá aqui.

– Que lindo. Obrigado. Desculpe, a casa está impraticável.

Ele fechou e trancou a porta.

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No sábado último, tendo marcado com antecedência e avisado que queria ver algo do A revolução dos bichos, entrei na casinha de esquina do porto do Odyr. Tem livros, livros, livros por várias partes. Não em estantes, mas no chão, às pilhas. Ele gosta de paperbacks em inglês e espanhol. Vi Cortázar, vi Raymond Carver e vi um Mattotti em italiano. Em vez de quadros, tem paletas penduradas na parede.

Não há TV, só um monitor que parece ligado numa CPU, que na verdade está ligado no notebook do lado. “A CPU pifou, peguei o laptop velho da minha mãe.” É dali que ele pilota seus principais canais de comunicação com o outro lado da porta: Twitter e Facebook. O Instagram é via celular.

No Twitter, além de mostrar quadros e cartuns que lhe ocorrem, ele também comenta seriados e filmes. Anda obcecado pela Marlene Dietrich, posta fotos com os olhos-agulha da atriz. Nos desenhos do Odyr, por outro lado, sempre acho que os rostos ficam escondidos ou nublados, à moda Hopper. Quando ele me mostra as páginas de A revolução dos bichos – no ateliê contíguo à sala: só uma mesa de desenho, uma prateleira, coisas pelo chão – diz que quis colocar o mínimo de expressão nos animais.

(“Animais”, ele diz, como no original, Animal Farm. “Bichos” ele acha muito fofo.)

E continua vendendo as telas por encomenda?

– Eu nunca pintei por encomenda.

Minha pergunta foi mesmo uma gafe. Odyr não pinta por encomenda. Ele pinta e as pessoas encomendam o que ele pinta. Há um tempo, ele escreveu um post que ficou famoso, onde convidava seguidores a não se acanhar, perguntar quanto custam seus quadros – que ele sempre exibe nas redes – e, se for o caso, encomendar. Mandou telas para vários estados do Brasil e para Portugal.

Tem saído de casa?

– Não.

Mas vai no correio, né?

– Ah, sim. Correio, supermercado. Estou pensando em voltar a caminhar. Mas todo dia eu fico alguns minutos aí na frente, me recarregando no sol. Quando tem.

Só que é julho em Pelotas. Tinha chovido a semana inteira.

***

A revolução dos bichos, versão em quadrinhos do famoso livreto de George Orwell, todo pintado por ele em acrílica, sai em setembro no Brasil, pelo selo Quadrinhos na Cia. A HQ também vai sair na Espanha, Itália, possivelmente em outros países. Tem outro livro de cartuns, No fundo do poço tem uma piada, pronto e com a editora. Ele já começou um terceiro.

Se dez porcento dos seus seguidores de redes sociais comprarem os livros... “Um a dez porcento, é o que dizem que dá pra esperar”, ele me conta, com um otimismo que achei inesperado, mas sensato. Também contou que vinha pagando o aluguel com seu Apoia-se.

Se dez porcento dos seus seguidores de redes sociais comprarem os livros...

Bom, eu tenho esse sonho de morar em um lugar onde só faça sol.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Desenhados um para o outrohttp://ericoassis.com.br/

 

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