Os Eisners

Érico Assis

Por Érico Assis

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Fábio Moon e Gabriel Bá estão concorrendo ao Prêmio Eisner. Anunciada na semana passada, a lista de indicados de 2016 inclui Dois irmãos -- ou Two Brothers -- na categoria “melhor adaptação de outra mídia”. Moon e Bá não são estranhos ao prêmio: já têm, cada um, três estatuetas. É a primeira vez, porém, que concorrem com um projeto que teve origem no Brasil.

Os Eisners são o Oscar dos quadrinhos: um prêmio de indústria, que cita destaques do ano que passou na vasta produção desta indústria e convida a própria indústria a votar nos melhores. A indústria, no caso, é a norte-americana. Se você pegar os números de faturamento dessa indústria, vai ver que mais de metade dela é focada em super-heróis. Nos Eisners, porém, super-heróis são minoria.

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Os líderes de indicações, por exemplo, são Bandette -- HQ digital que segue o estilo das BDs europeias --, March -- série de graphic novels que conta a luta pelos direitos civis nos EUA --, Hip-Hop Family Tree -- a história do hip-hop na estética de HQs Marvel -- e O Eternauta -- a primeira tradução para o inglês da clássica HQ argentina dos anos 1950. Nenhuma destas é sucesso de vendas, mas consegue angariar seguidores dentro do segmentadíssimo público norte-americano.

As mais indicadas apontam tendências do prêmio. A primeira é o gosto pela HQ de aventura infanto-juvenil, gênero que vive mais de nostalgia do que de novos exemplos. Quando estes exemplos surgem, porém, invariavelmente acabam nas categorias do Eisner.

A segunda tendência, colada na primeira, é o foco na formação de leitores. Se as categorias “melhor publicação para primeiros leitores (até 8 anos)”, “melhor publicação para crianças (9-12 anos)” e “melhor publicação para adolescentes (13-17 anos)” já não deixam claro, as obras e autores que figuram nelas também costumam pipocar nas categorias mais prestigiadas, como “melhor roteirista” e “melhor desenhista”. É uma tendência prudente: a indústria só vai continuar existindo com a entrada de novos leitores, então que se estimule quem produz para eles.

A terceira tendência, talvez mais recente, é de internacionalização: embora Eternauta só concorra em categorias editoriais (edição de obra estrangeira, projeto editorial, design), o argentino Liniers aparece entre os concorrentes, assim como o belga Max de Radiguès, os franceses Riad Sattouf e Arthur de Pins, a chilena Claudia Dávila e, claro, os brasileiros -- não só Moon e Bá, mas também o gaúcho Rafael Albuquerque. Diferente de um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, porém, os autores precisam ter publicado por editora dos EUA, em inglês.

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Um dos marcos do ano é a quantidade de mulheres quadrinistas: 49, distribuídas por 61 indicações, pouco mais de 1/3 das vagas. Proposital ou não, é um contraste com o Prêmio do Festival d’Angoulême, francês, que este ano não indicou nem uma mulher ao seu Grand Prix -- e soltou uma longa lista masculina.

Ainda em termos de diversidade, ninguém conhece as caras dos quadrinistas o suficiente para saber se ficaram só tons de leite -- como os que geraram discussão no Oscar deste ano. Uma das indicadas a “melhor HQ digital ou webcomic”, porém, trata justamente da cor de pele dos heróis de HQ. (E pode ser lida aqui.)

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Assisti à entrega dos Eisners uma vez, em 2013. A cerimônia não é transmitida pela TV, não tem palco (só um palanque), nem apresentação musical. Nem mesmo é concorrida. É um jantar no salão de um hotel, ao qual se convida todos os indicados e mais umas figuras importantes. A atmosfera lembra encontro de Rotary Clube. Celebridades de TV passaram a entregar os troféus depois da morte de Will Eisner, em 2005. Antes, era o próprio Eisner quem entregava os Eisners.

Eu era um de meia dúzia de jornalistas cobrindo a cerimônia. Como ela acontece bem no meio da Comic Con de San Diego, uma megaconvenção de cultura pop, tem muita coisa interessante acontecendo fora daquele salão de hotel.

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Os indicados são escolhidos por um comitê que muda todo ano. A votação é aberta a quem for profissional da indústria. Assim como no Oscar, os votantes tendem a escolher o que encontram de mais famoso em cada categoria: é praticamente impossível você ter lido tudo. Two Brothers, fora ser uma ótima HQ, tem vantagem de vir de uma editora conhecida (Dark Horse) e de autores mais renomados que os concorrentes na categoria.

Já se inventaram fórmulas para medir o impacto do Oscar na bilheteria de um filme. No caso dos Eisners, essa fórmula não existe -- e se imagina que a influência nas vendas seja baixa. Autores, porém, ostentam “vencedor do prêmio Eisner” junto ao nome por toda a carreira.

A lista completa de indicados ao Prêmio Eisner 2016 está aqui.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

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