Os hipopótamos das galáxias

Luisa Geisler

Foto: Shutterstock

 

Douglas Adams dizia que amava prazos. Amava o som apressado que faziam enquanto passavam (porque iam cada vez para mais longe). Neil Gaiman, em sua palestra-que-virou-livro clássica, Faça boa arte, explica a tríade do sucesso: entregar o trabalho no prazo, ser fácil de lidar e entregar bom trabalho. Cá entre nós, não é só por isso que Neil Gaiman faz sucesso.

No caso, Gaiman diz que só são necessárias duas das habilidades citadas para ser um freelancer de sucesso. As pessoas tolerariam se você desagradável se você entregasse bom trabalho no prazo. As pessoas aguentam atrasos se o trabalho é bom e elas gostam de você.

O capitalismo funciona baseado em prazos. O mercado literário (destaque no “mercado”) também. Mesmo que você esteja pouco inserido nele e mais aspire a entrar, prazos são ainda mais rígidos. Editais, bolsas, prêmios, esses têm prazos até mais rígidos e difíceis de consertar do que “desculpa a demora pra responder”.

Quem já leu duas entrevistas minhas, em especial sobre processo criativo, sabe que não sou fã de inspiração. Sou fã de ter inspiração por duas semanas, em que faço uma estratégia. Nestas semanas, planejo, planejo, planejo. Divido a maioria dos livros em blocos, capítulos e, depois dos capítulos, o que acontece em cada capítulo. É um capítulo em que um casal termina? Pois tem que ter a cena pré-briga, a cena da briga e a cena pós-briga. A cena da briga, por exemplo, é composta do diálogo da briga, alguns pratos jogados e xingamentos. Minha terapeuta uma vez me disse para quebrar atividades em blocos cada vez menores. Era um jeito de lidar com ataques de pânico e ansiedade. Mas virou técnica literária.

Com tanto planejamento e, por tanto escrever, entendo quanto tempo demoro para escrever. Consigo criar prazos internos calculando inversamente, do tipo: se preciso ter doze capítulos em outubro, preciso ter quatro capítulos em agosto. Se preciso ter quatro capítulos até o final de agosto, então tenho que escrever um capítulo por semana. Por mais que esteja falando de romance, isso vale para desde antologias de contos a redações de vestibular.

Inclusive, invento prazos para pessoas que não vão me cobrar. Por exemplo, comento com um amigo: acho que vou ter quatro capítulos no final de agosto. Ele vai me cobrar? Nunca. Mas eu vou saber que ele sabe que eu disse que teria.

É esse meu jeitinho.

Não estou dizendo que é o único jeito de lidar com um projeto — mas é assim que eu faço. Cada processo de criação é único, coisa e tal.

Não se preocupem, eu faço terapia. Sei que é um processo controlador. Um sintoma das pessoas altamente inseguras é uma tentativa de controle máximo do espontâneo. Quanto mais circunstâncias minúsculas eu controlar, mais eu me sinto calma e consigo só escrever.

Porque esta é uma grande dificuldade de quem trabalha no mercado literário (destaque no “mercado”). O só escrever. O não pensar nas tretas do Facebook, não pensar se vão gostar ou não. Controlo tudo para poder só escrever.

E algo estranho acontece quando só escrevo. O controlador se torna espontâneo. Um personagem que apareceria em só uma cena, um personagem que eu tinha um perfil seco na minha mente (nome, idade, ocupação, histórico) me ganha. Foi assim que surgiu Dante no Luzes de emergência se acenderão automaticamente. Para quem não leu o livro: Dante iria aparecer só numa cena numa casa da praia, um desses amigos-dos-amigos-do-irmão. Ele iria ilustrar o perfil de amigos da Scila, e era um personagem bastante utilitário. Até que comecei a escrevê-lo, pensar em sua linguagem, pensar suas opiniões. E Dante cresceu em mim. Cresceu no livro.

Voltei para todo o planejamento, e Luzes de emergência se acenderão automaticamente virou o livro que virou. Dante é o personagem que mais aparece, depois do protagonista. Ele aparece mais do que o receptor das cartas de Ike, Gabriel. O De espaços abandonados, apesar de ser um livro escrito dentro de um manual de escrita, teve um momento parecido. É assim que perco um prazo.

Porque a gente nunca estrutura completamente.

Então todos esses prazos e tabelas no Excel se tornam maneiras de tentar controlar o caos. Uma maneira de tentar guiar uma manada de hipopótamos-que-eram-de-Pablo-Escobar-mas-que-agora-estão-circulando-livremente-na-Colômbia para dentro de uma área específica. Para dentro de um zoológico, de volta para a África, de volta de onde vieram.

Os prazos fazem aquele barulho apressado quando passam, que não é um barulho de hipopótamo-que-era-de-Pablo-Escobar-mas-que-agora-está-circulando-livremente-na-Colômbia. O barulho é o mesmo do tom de voz do terapeuta quando diz que isso é muito interessante, mas o nosso tempo acabou. É o mesmo barulho que uma maquininha faz quando solta o número para você ser atendido no cartório para fazer o atestado de óbito da sua mãe. É o barulho de que, sim, você tem uma vida, e sua vida é criativa e livre e incontrolável. Mas o sistema está aqui, as estruturas. É esse barulho.

Dizem que a editora de Douglas Adams ia à casa dele forçá-lo a parar de procrastinar. Ela ficava do lado de fora do quarto, editando, enquanto ele escrevia. Para obrigá-lo a terminar. O mundo tinha pressa para ler o final do Guia do mochileiro das galáxias. Porque por mais que o texto tenha o seu próprio tempo, o resto do mundo também tem.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, De espaços abandonados foi publicado pela Alfaguara em 2018. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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