País dos caracóis (homenagem a Chico Alvim)

Marília Garcia

Foto de Bel Pedrosa (2000)

 

A poeta Marília Garcia, autora de Câmera lenta (2017, indicado ao 60º Prêmio Jabuti), estreia sua coluna mensal sobre poesia no Blog da Companhia.

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Muitas vezes, sinto como se estivesse dentro de um poema.

E, neste outubro em que estamos, só poderia ser um poema do Chico Alvim. Me refiro aqui aos poemas mais curtinhos, compostos por vozes e falas capturadas do dia a dia, que muitas vezes encarnam tipos, personagens anônimos mas reconhecíveis, espécies de personagens-falas. Não à toa, Roberto Schwarz diz que as falas destes poemas “saltam de dentro do livro para a vida do leitor”. Além de reconhecê-las do lado de fora do livro, também passamos a identificar novos personagens. A operação é tão eficaz que aprendemos a ver o mundo a partir da lição dos seus poemas: “Quer ver? // Escuta”.

 

Ele

Quero uma metralhadora
pra matar muita gente
Eu mato rindo

 

Existe uma via de mão dupla: por um lado, o poema se nutre do real; por outro, nomeia e inventa este real. A ‘escuta’ é pausa, mediação que abre espaço para o diálogo. O dito se transforma em linguagem por meio de recursos como o corte do verso, o uso do título e da elipse. É vertiginoso o sentimento de estar dentro de seus poemas neste momento em que tantas falas públicas, frases feitas e hashtags vão se sucedendo e ficamos sem fôlego para seguir adiante.

 

Você sabe

rico é diferente

 

Você sabe

rico é tudo igual

 

Mas não são apenas os poemas mais curtinhos de Chico Alvim que passam a povoar nossa vida. Há um importante corpus lírico em sua produção, como chamou atenção Lu Menezes, que traz alta carga de lirismo e plasticidade e levam a uma espécie de alumbramento com o corriqueiro, a um tipo de pausa diante do mundo. “O céu que é mais um mar sobre a cidade”, diz um verso e, depois dele, passamos a erguer o olhar em busca deste mar no alto.

Há alguns domingos estava indo votar a pé quando notei, no meio do caminho, uma pequena mancha no chão. Me abaixei para ver o que era e deparei com um minúsculo caracol que atravessava lentamente a calçada de concreto. Por pouco não piso na conchinha. Esta “marca no chão” teria passado desapercebida, não fosse o contraste de tudo: a lentidão do bicho diante da pressa do resto, a miudeza do acontecimento ao rés-do-chão diante das questões coletivas daquele dia. Na mesma hora, me ocorreu outro poema de Chico Alvim, chamado “Lupa” (dedicado a Torre Eiffel):

 

“Esta árvore não tem raízes
colocaram-na no chão como a um copo sobre a mesa

Torre
torre sem raiz

Do alto
o país é diferente:
amontoado de sons que o ouvido
vai lá embaixo escutar

É pelo ouvido que o país entra [...]
Ou melhor: pela linguagem
pois o país
não é de carne
é de conceito

[...]”

 

Do alto, enquanto caminhava, vi aquele outro país, rente ao chão, país dos caracóis, e me abaixei com uma lupa na mão para tentar colar o ouvido na concha e captar o som. Será que daria para escutar alguma coisa e talvez entender um pouco do que está acontecendo agora?

*

Neste outubro tumultuado, Chico Alvim completa 80 anos de vida (e 50 desde a sua estreia, em 1968). Sobretudo numa hora dessas, no meio do redemoinho e no calor da hora, celebremos sua poesia que consegue criar um quadrado de respiração no meio desse amontoado de vozes.

 

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017).

 

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