Para Ler os Donalds

Érico Assis

Foto: Peter Miller

Como entrei na faculdade de Jornalismo no século passado, foi inevitável me deparar com Para ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Se não foi leitura obrigatória de disciplina, foi citado por algum professor e chamou minha atenção por motivos óbvios.

É um livrinho, cento e poucas páginas. Alguns chamam de panfleto – inclusive no sentido de incitação revolucionária. Tem um Pato Donald meio maquiavélico na capa. A proposta: fazer uma leitura marxista dos quadrinhos Disney. Biblioteca básica de curso de Humanas no Brasil nos anos 1980.

É fruto do governo Salvador Allende no Chile (1970-1973), primeiro regime socialista eleito na América Latina, em plena Guerra Fria. Ariel Dorfman, formado em Literatura, era conselheiro de Allende; Armand Mattelart, belga radicado no Chile, um sociólogo de renome. Eles queriam mostrar que o imperialismo norte-americano se infiltrava no país por coisas ínfimas, como gibis do Pato Donald. O subtítulo não podia ser mais claro: manual de descolonización antinorteamericana.

O imperialismo norte-americano acabou vindo por meios não-ínfimos: a CIA financiou militares do Chile a dar um golpe de Estado. O palácio presidencial foi invadido, Allende foi suicidado. Dorfman ia trabalhar no palácio naquele dia e trocou o turno com um colega. O colega morreu. O novo governo começou a organizar queimas de livros contra o regime. Para ler o Pato Donald aparecia nas pilhas em chamas. Dorfman e Mattelart deixaram o país.

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Por que os patos protagonistas da Disney são tios e sobrinhos e pouco se fala em pais e filhos? Para desmanchar a hierarquia familiar e fundamentar a hierarquia econômica, baseada na posse. Por que os patos estão sempre viajando a países imaginários onde a população é bárbara ou atrasada? Porque são representações do Terceiro Mundo, de países que devem aprender a cooperar com um forte país capitalista para se desenvolver.

David Kunzle, que traduziu Para ler para o inglês, foi o primeiro a notar que, embora muito do que Dorfman e Mattelart escreveram fizesse sentido, tinha algo de estranho nos diálogos ou cenas que eles citavam dos gibis. Ao buscar os originais destes gibis em inglês, descobriu que os tradutores chilenos talvez fossem uns sacanas.

No final de “Perdidos nos Andes”, uma das histórias mais conhecidas do período de ouro dos gibis Disney por Carl Barks, o chefe da civilização andina perdida e quadradesca pede que os patos ensinem alguma coisa para elevar o espírito do povo. “We’ll teach ‘em square dancing!” (“A gente ensina dança de quadrilha!”), dizem Huguinho, Zezinho e Luisinho. Na versão chilena, os sobrinhos dizem: “Los enseñaremos a cuadrarse ante sus gobernantes" (“Vamos ensiná-los a bater continência aos governantes”).

Aí, por conta disso, você vai encontrar gente dizendo que Dorfman e Mattelart basearam sua tese em traduções mal-intencionadas – na prática, HQs que só se liam, com aquele texto, no Chile –, que essas traduções os direcionaram a pensar em entrelinhas imperialistas e que o panfleto inteiro é uma furada. Também vai encontrar gente dizendo que não se mexe com quadrinhos de Carl Barks, senhorzinho que produzia esses gibis por conta própria, com mínima interferência da corporação Disney, baseando suas “civilizações perdidas” em matérias da National Geographic. Há até quem diz que “Perdidos nos Andes” é uma crítica ao capitalismo.

E, antes que se bote minha classe na fogueira: o anônimo tradutor chileno provavelmente usou “cuadrarse ante sus gobernantes" por ser a primeira solução que lhe veio à cabeça para manter o tema dos quadrados que atravessa a HQ (vide a “square dancing”). Não porque queria fundamentar teorias marxistas. A propósito, na última tradução de “Perdidos nos Andes” no Brasil, por Marcelo Alencar, os sobrinhos dizem: “Serve a canção do Pintinho?” E tocam a cantar: “O pintinho quadradinho / Cabe aqui na minha mão…”

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Dorfman ressurgiu na minha vida estes dias em um texto comemorando a reedição de Para ler o Pato Donald nos EUA. Depois de fugir do Chile por conta do golpe financiado pelos EUA, o autor passou um período na Europa e acabou fixando-se... nos EUA. É professor de literatura e estudos latino-americanos na Duke University desde 1985.

Não que tenha diminuído as críticas ao imperialismo. No texto, conta a história de Para ler no Chile, das fogueiras de livros e da curiosa chegada do seu panfleto à versão em inglês. Impresso na Inglaterra, o primeiro lote da tradução que chegou aos EUA foi apreendido pelo Tesouro norte-americano, acusado de violação de direitos autorais. Depois de discussão judicial por mais de um ano, parte do lote pôde ser comercializada no país que criticava: exatamente 1500 exemplares. Hoje, uma raridade.

Dorfman também comenta os últimos acontecimentos em Charlottesville, a “terapia de choque” friedmanesca a que seu Chile foi sujeitado nos anos 1970 e não consegue deixar de gracejar: “Finalmente [o livro] chega propriamente à terra que inventou Pato Donald e Donald Trump. Em momento tão horrível, espero que seja modesto lembrete de que não temos que deixar o mundo tal como o encontramos quando nascemos. Se eu pudesse, talvez mudasse o título. Que tal: Como Ler Donald Trump?”

Logo abaixo do texto de Dorfman, uma nota diz que a primeira edição legitimamente norte-americana de Para ler o Pato Donald sai no país com o título How to Read El Pato Pascual. Pato Pascual? Eles nem podem mais falar em Donald? Antes que você crie as mesmas teorias conspiratórias-tradutológicas que se geraram na minha cabeça, tem explicação: o panfleto vai sair dentro do catálogo de uma exposição de diversos artistas latino-americanos que fizeram obras sobre a relação entre a Disney e a América Latina (no MAK Center, em Los Angeles, até 14 de janeiro). A exposição chama-se How to Read El Pato Pascual em referência à mascote de uma empresa mexicana que teve problemas jurídicos com a Disney. Calma lá.

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Falando em Para ler o Pato Donald e tradução, vale lembrar que o tradutor da edição brasileira foi Álvaro de Moya. Moya faleceu no último 14 de agosto, aos 87 anos, e foi devidamente lembrado em todo o mundo como um dos grandes propulsores do pensamento crítico sobre quadrinhos. Como organizador da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (em São Paulo, 1951), como autor de vários livros, como quadrinista, como professor e como tradutor, deixou um universo para quem lê, gosta e pensa HQ.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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