Para bem pensar a utopia dos trópicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Se “prefácios são inúteis”, como afirma Eduardo Giannetti em Trópicos utópicos, o que dizer de uma resenha como esta? O mais recente livro do autor de Auto-engano; O valor do amanhã; A ilusão da alma; Vícios privados, benefícios públicos; Felicidade, entre outros, é um desafio e tanto para quem se propõe a comentá-lo. Afinal, o filósofo e economista volta não só a temas que são recorrentes no conjunto de sua extensa e importante bibliografia, como faz escolhas muito ousadas no conteúdo, na abrangência, e, sobretudo, na forma e na estrutura do texto. Diante disso, o melhor é escrever “junto” ou “com” Giannetti -- portanto, não estranhem as aspas.

Mas comecemos pelo começo; algum começo. Em primeiro lugar, Trópicos utópicos mais se parece com uma obra de vida inteira dedicada às ideias, à filosofia, à economia e a pensar o Brasil e tentar sentir-se brasileiro. De certo modo, o autor segue a veia dos grandes intérpretes do Brasil, que a cada geração, como bem mostrou Roberto Schwarz em Nacional por subtração, criam novas formas de se olhar e reconhecer (ou se estranhar). Foi assim com o grupo romântico palaciano que cercava Pedro II -- que elegeu um indígena idealizado como modelo da nacionalidade —, foi também dessa maneira com a geração realista de 1870, que negou as interpretações anteriores e viu na mestiçagem existente no país um sinal de degeneração racial e falência nacional. Não foi diferente com os modernistas dos anos 1920 e 30, que inverteram os termos da equação e descobriram um país divinamente mestiço: nos costumes, nas ideias, nas cores, nos cheiros, no dia a dia. Como um modelo só existe na contraposição que estabelece com os anteriores, nos anos 1970, com o advento da linguagem dos direitos civis, vimos que “mistura” não é sinônimo de “igualdade”, pois carrega muita “diferença”. O país podia apresentar padrões culturais “misturados”, mas na educação, na saúde, na criminalidade, nas taxas de nascimento e de morte era profunda e perversamente “diferente”.

O fato é que países de passado colonial estão sempre “atrás” da sua identidade. Não só atrás, mas na “frente” também, como bem mostra Giannetti. Vão projetando para si novos desenhos, novas pinturas na parede e fotografias 3 por 4. E o retrato de Giannetti se parece com uma versão contemporânea, muito contemporânea, dessa nossa história que vai acumulando excelentes ensaístas, os quais, vez por outra, encontram um bom espelho em que possamos nos mirar.

Já que anunciei lá no começo um “primeiro lugar”, gostaria de arriscar um “segundo”: vale a pena explorar o trocadilho presente no título desse livro. Nos idos de 1955, Claude Lévi-Strauss publicou Tristes trópicos, uma obra tão magistral quanto nostálgica e irônica acerca desse país com sede de novidade e que carrega progresso e decadência lado a lado. O título do novo livro de Giannetti há de brincar com esse, do etnólogo francês, que confessa seu desencanto com as viagens, a morte do exotismo e o fim da jornada rumo ao “outro”. No caso de Trópicos utópicos, entretanto, há menos desalento, digamos assim. No final do livro, o filósofo brasileiro encontra um país mestiço, “genética e culturalmente fusionado”, e cujo “traço” é aquele que “melhor nos define”.

Mas há outros paralelos entre esses dois livros. Tanto um quanto o outro são inclassificáveis enquanto gêneros literários. A obra de Lévi-Strauss ganhou todo tipo de definição: livro de viagem, de etnologia, de memória e até de ficção. Em Trópicos utópicos a tarefa é igualmente complicada. Dividido em 124 seções -- que numa quase homenagem ao Manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, dele guarda alguma semelhança pelo uso de aforismos, distintos em Giannetti por sua autossuficiência argumentativa —, o livro se organiza, ainda, em quatro partes diferentes, porém integradas. Se nas três primeiras o autor trata de temas já extensamente abordados em sua obra -- ciência, tecnologia e crescimento econômico —, bem como das consequências e dos problemas que advém do verdadeiro fascínio que temos por esses assuntos; na quarta entramos no terreno brasileiro e na escorregadia questão da identidade nacional.

Claro está que todas essas seções e partes dialogam entre si, numa arquitetura muito bem construída e sustentada por uma escrita primorosa. É por isso que esse livro nos convida a desistir da resenha e a confessar sua impossibilidade. Algo do tipo, “esse livro escapa a qualquer definição”. Mas, teimosa que sou, vou arriscar algumas.

Trópicos utópicos pode ser lido de forma preguiçosa (mas gostosa). Ele parece aqueles antigos livros de provérbios, frases e ditos, em que se podia encontrar uma sentença para cada ocasião. Por exemplo: “Anatomia do impasse. A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença”. Ou então: “Valor e preço. Qual a diferença entre um cínico e um sentimental? Oscar Wilde responde: o cínico é aquele que sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada; o sentimental vê um absurdo valor em tudo, mas não sabe o preço de nada”. E ainda: “Os dois caminhos da felicidade -- nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade”.

Mas ficar coletando frases deslocadas é exercício fácil, que com certeza não dá conta do edifício montado por Giannetti. Na verdade, penso que é preciso tomar a sério a noção de trópicos e utópicos. Erudito, o autor vai nos levando pela mão aonde quer. No fundo, trata-se de pensar o Brasil dentro de uma orquestração maior, na qual o país se inclui e se destaca. Trata-se também de entender que “a realidade objetiva não é toda a realidade” (grifos de Eduardo Giannetti), “uma vez que a vida dos povos, não menos que a dos indivíduos, é vivida em larga medida na imaginação”.  O autor não abandona, portanto -- ao contrário: sublinha —, a noção de que sonho e desejo fertilizam o real, e não apenas o oposto.

Aí está a suprema utopia do título: destacar e perceber certa “alma” do brasileiro; “a utopia brasileira no concerto das nações”. Giannetti localiza, ainda, uma “teimosa vocação de felicidade” nos brasileiros, mesmo que em meio à “precariedade da vida material”. E é nessas brechas que ele se detém, com grande sensibilidade e identificação, quando vai terminando o livro. Para o filósofo, mesmo com o nosso passado colonial e com as populações indígenas e, sobretudo, africanas sendo submetidas a violentos processos de subjugação, por aqui teria perseverado um maior “clima de permissividade”, diferentemente do que ocorreu no hemisfério norte. Nos trópicos teria vingado um “clima temperado”, em que “não obstante a opressão”, a “revolta”, persistiu a “vitalidade e a alegria de viver dos africanos”. Por isso é que a “África salva o Brasil”.

Não é preciso concordar com tudo para reconhecer o imenso valor e coragem de um livro como esse. Mais ainda, é comovente ler a “alma” de Giannetti. Ele parece estar tão  mergulhado em sua obra que, em determinados momentos, quase que conseguimos ouvir o autor contar uma boa história: a sua história neste país, a nossa história na dele.

Segundo o filósofo somos “miméticos e proféticos”. Nenhuma das posições em separado, mas as duas coisas ao mesmo tempo. “Tupi and not tupi”. Mas Giannetti não se imagina, ele próprio, profético. “O que é bom para nós”, escreve, “não se pretende bom para toda gente, mas é o nosso bem”. Enfim, o filósofo procura e encontra “um Brasil digno de sonho”, pensado com “afeto”. Com nossos vícios e virtudes; nossos acertos e desacertos; nossos egoísmos e nossas generosidades. Um país do e; não do ou.

Pensar quem somos e o que nos define é tema que entra e sai da nossa pauta desde que o Brasil ainda não era nem ao menos Brazil. Foi Cabral pisar nessas terras, e a desavença em torno do nome começou. Para alguns, a Igreja, seríamos Terra de Santa Cruz, por conta do lenho sagrado e da primeira missa. Para outros, os comerciantes, seríamos Brasil por causa da primeira riqueza que por aqui se encontrou. Na falta de ouro, exportou-se o pau-brasil, essa madeira boa para fazer móveis, e de cujo veio corria uma tinta vermelha. E assim as dúvidas sobre a nossa identidade já começaram nos primórdios do século XVI: uma terra santa ou um lugar vermelho-sangue, da brasa do inferno?

Naquele contexto, vingou a segunda opção. Mas quem sabe Giannetti nos anime a pensar numa terceira via, ou melhor, nas duas juntas. Ou melhor ainda, a pensar que os brasileiros sempre buscaram driblar isso tudo, inventando formas próprias de felicidade. Afinal, como cantava a marchinha: “Quem foi que descobriu o Brasil, foi seu Cabral, foi seu Cabral, no dia 21 de abril, dois meses depois do Carnaval”.

Esse povo festeiro, que mistura costumes, que pratica uma “compreensão amável e lúdica” da vida... é disso e muito mais que trata o novo livro de Giannetti, e com muita poesia. Como certa vez definiu o antropólogo Clifford Geertz: “Cada povo inventa sua própria forma de sentir e de ser feliz”. A nossa felicidade estaria, de certa forma, conectada aos trópicos e a uma certa utopia coletivamente partilhada.

Por essas e por outras, Trópicos utópicos chega em excelente momento. Num contexto em que andamos cabisbaixos, desacreditando de nós mesmos -- do nosso passado, do nosso presente e também do nosso projeto de futuro, distante e imediato -- Eduardo Gianetti nos dá, de presente, uma boa utopia em que acreditar. Nem cópias nem tão somente originais, o Brasil e os brasileiros teriam “uma perspectiva”, como diz o subtítulo do livro, a oferecer diante da “crise civilizatória” que, bem sabemos, se não é privilégio nosso, tem causado ultimamente muito desconforto e sofrimento.

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Eduardo Giannetti autografa Trópicos utópicos em São Paulo no dia 27 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073).

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

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