Pênises

Érico Assis

 

Petit Paul, último álbum do francês Bastien Vivès (O Gosto do Cloro, Uma Irmã, Polina), foi alvo de um abaixo-assinado que exige da editora Glénat tirar o quadrinho das livrarias e pedir desculpas públicas pelo conteúdo. O personagem titular de Petit Paul é um garoto de dez anos cujo pênis de elefante é disputado pelas mulheres.

O abaixo-assinado diz que é representação de pedofilia. A Glénat diz que é humor: “não fica dúvida quanto à natureza totalmente irreal, tanto do personagem quanto de sua ambientação”. Vivès diz que o erotismo da sua HQ é tão absurdo quanto a violência num filme de Tarantino.

Duas redes de livrarias francesas, a Cultura e a Gibert Joseph, tiraram o álbum das estantes. Na Fnac e Amazon de lá, está esgotado. É óbvio.

O “Pequeno Paul” – não se sabe se o autor tem ciência da ironia sonora em português – já tinha aparecido em outra obra de Vivès, Les melons de la colère. Os “melões” do título são os seios descomunais da protagonista, irmã de Paul. Vivès nunca escondeu a megalofilia.

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O caso com Vivès e Paul aconteceu agora, na última semana de setembro. Menos de uma semana antes, Batman: Damned n. 1, estreia de mais uma minissérie “para adultos” com o herói morcego, também trouxe um pênis. O pênis de Batman.

É uma cena em que o herói chega em casa e começa a andar nu pela Batcaverna, desnorteado pelo transtorno mental da última aventura. Apesar de usar muitas sombras, o desenhista Lee Bermejo deu contornos a corpo e glande do membro masculino.

A editora DC Comics recebeu reclamações de alguns lojistas, então tomou duas atitudes: a edição digital de Batman: Damned saiu com sombras que apagam de vez o pênis; futuras edições impressas da revista sairão também sombreadas. Os 100 mil exemplares da primeira tiragem viraram item de colecionador.

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Não foi em setembro de 2018 que os pênis estrearam nos quadrinhos. Watchmen, uma das HQs mais famosas da história, tem seu Dr. Manhattan em vários nus frontais. Crumb desenha o próprio pênis há cinquenta anos. Os irmãos Hernandez nunca foram pudicos quanto a mostrar a vida sexual (de todas as cores) em Palomar e nas Locas. Existe quadrinho pornográfico desde que existe quadrinho.

Mas a coisa vem tomando outros contornos. Em Tokyo Ghost, outra HQ norte-americana, fica a impressão de que Sean Gordon Murphy tinha uma balança do lado da prancheta para equiparar as vezes que desenhava seios e pênis. Tangencialmente relacionado aos quadrinhos, Neil Gaiman declarou orgulho pelo seriado American Gods mostrar mais pênis do que nudez feminina.

Coincidência ou não, as polêmicas surgem no exato instante em que circula a descrição que uma atriz pornô fez do pênis do presidente dos EUA.

Os pênis à mostra eram para ser… uma coisa boa? Tentativa de compensação histórica em relação ao que já se explorou do corpo feminino nas HQs? Signo de maturidade (“somos quadrinhos sérios, tem até pênis, ó”)? Símbolo da cabeça aberta dos autores (“sim, a gente também desenha pênis, e daí, qual é o problema?”)? Erotismo?

Chama atenção que todas as obras – em destaque, as polêmicas – são de autores que têm seus próprios pênis. Além disso, aparecem num momento em que a discussão sobre pênis indesejados está, merecidamente (e tardiamente), a todo pau. Mas eles compensam alguma coisa? Deixam o quadrinho mais descolado? Servem só para polêmica?

A única conclusão que eu tiro é que, se até os franceses, tão avançados e tão blasé, conseguem polemizar com um pênis caricato, a realidade anda dura.

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho e Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 
 
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