Petelecos

Érico Assis

Um amigo:

“Putz, Érico. E aquela discussão lá do Repeteco, hein? As pessoas ODIARAM mesmo. Sei lá se tava faltando assunto naquele dia ou é por causa das pessoas que a gente segue, mas o troço virou O assunto, né? Como é que conseguem se dedicar a reclamar tanto dum troço?”

Perguntei o que ele tinha achado do título.

“Horrível.”

* * *

Títulos. No primeiro livro que eu traduzi, o editor me explicou que títulos eram com o andar de cima. Com os cabeças, com os superiores, acima do meu nível e do dele. Evidente que eu podia e devia sugerir a tradução do título, quem sabe até dar mais de uma opção. Mas eu, tradutor, definitivamente não ia bater o martelo.

(Blankets, sugeri, seria Cobertos – mais perto do original, cobertos de neve, debaixo das cobertas... Ficou Retalhos.)

Na verdade isso vale para cada palavra que eu entrego como tradutor. O processo de tradução pode começar comigo, mas o texto passará por revisores, preparadores, editores, letreiristas e possivelmente outras pessoas na editora. A tradução publicada, a totalidade dela, é resultado de um processo do qual eu, apesar de creditado “o tradutor”, fui uma peça entre várias.

Mas títulos são um ponto de destaque neste processo. O título do livro, por si só – sem a capa, sem que você conheça o autor, muito menos o conteúdo – tem que criar alguma relação com o leitor potencial: uma curiosidade, um estranhamento, uma vontade, um sorriso. Alguma provocação. No caso de obras traduzidas, caso se julgue que a provocação que o título original faz não funciona no novo idioma – e novo público – é preciso um novo título.

(Eu adorava o título Moonwalking with Einstein, mas entendo o raciocínio que o transformou em A arte e a ciência de memorizar tudo na edição brasileira. Não que eu tenha me envolvido neste livro.)

O tino para entender público e conhecer relações que os títulos podem ter com o público não é uma coisa que entra nas qualificações de qualquer tradutor. Faz sentido que o martelo fique com a editora. Mas se a editora tem o martelo, o tradutor é a testemunha chave do processo e dá seu depoimento esperando que o juiz decida bem informado.

* * *

Propus que Seconds, de Bryan Lee O’Malley, se chamasse Repeteco na edição brasileira. No documento de tradução, mandei a seguinte nota:

Discussão do título: vamos lá.

Há três significados principais de Seconds para a obra: (1) encaixa-se no contexto alimentício ao lembrar a frase I’ll have seconds (vou repetir o prato); (2) relaciona-se ao recurso principal da trama, que é a personagem poder corrigir os erros que cometeu e, assim, ganhar segundas chances; (3) é o nome do restaurante onde se passa a maior parte da trama.

O termo repeteco encaixa-se nos significados (1) e (2) com entendimento fácil, a meu ver. Quanto ao significado (3), ou seja, pensar Repeteco como nome de restaurante, acredito que o termo encaixa-se no estilo que o restaurante quer transmitir: tem atendentes jovens, atrai público jovem (Scott Pilgrim e Ramona Flowers jantam lá) e deseja passar um tom descolado. Seconds, o nome original do restaurante, também é descolado ao basear-se na oralidade do I’ll have seconds.

 

Na grande maioria das vezes, após a entrega da tradução à editora, só a vejo de novo publicada. No caso de Seconds/Repeteco, perguntei ao editor como tinha sido a receptividade. Parece que houve uma discussão rápida sobre manter o título em inglês ou usar o proposto em português. Os argumentos que eu havia mandado ajudaram.

* * *

Tradução é tomada de decisão. E tomada de decisão com justificativa. Você tem que ter justificativas, pelo menos para si, das decisões que tomou ao traduzir. Achei Repeteco justificado, dentro do meu serviço de verter uma HQ chamada Seconds para o português, com aquela história e as intenções que eu percebi na obra.

Mas o processo não acaba nas justificativas. Principalmente com o título, pelos motivos que eu mostrei acima. E por outros: como é a sonoridade desse título? Não existem outros livros com o mesmo título em português? O livro vai virar ou já virou filme / seriado de TV / videogame / linha de brinquedos e, se for o caso, que nome esta adaptação (ou produto que o livro adaptou) tem ou vai ter por aqui?

(Vide uóquinded.)

Mais uma coisa: optar por Repeteco significaria redesenhar o letreiro do restaurante nas 18 vezes em que vemos sua fachada, o que demanda perícia e tempo do letreirista. Isso pesa na decisão.

E outra: o que o autor acha?

* * *

Às vezes o contrato exige que o autor seja consultado quanto à tradução. Não sei o quanto Bryan Lee O’Malley entende de português, nem como lhe foi explicado “repeteco”. Mas sei que ele tuitou e instagramou a capa da edição brasileira assim que conseguiu uma imagem. Aí vieram os comentários:

Gente que tradução estranha

Naaao que nome é esse gente para

MORTA TIPO ENTERRADA E..... wtf, que titulo eh esse

MENTIRA QUE TÁ TRADUZIDO ASSIM EHSUEBEISBSISBSOSG aiai love brazil

REPETECO SOCORRO SKSOSKSPSKDPDKD QUEM INTITULOU ISSO SE APRESENTE KAOAKSSKSOAK

HAHAHAHAHA repeteco. I swear I don't even understand my own country, but I am very excited for this.

AHHAHAHA O NOME

Pq repeteco? N é seconds? WTF vou comprar pq to esperando esses anos todos msm kkkk

"Repeteco"? Se tá de brincadeira né

lol, you couldn't stop  Cia das Letras putting that ugly name, ya?

aaa esse nome !!! vou comprar essa versão só de raiva

mano q diabo de traduçao AHSUAHSUAHU o bagulho chama Seconds, cara, you had one job, one fucking job...rs

 

Para ser justo, tem “Por mais ridículo que o título pareça, faz todo sentido” e similares no meio dos comentários. E até alguns elogios.

O’Malley, quatro minutos depois do tuíte com a capa:

 

* * *

A maior dificuldade em qualquer tradução é achar a palavra certa para comunicar aquilo que eu quero comunicar – que parte do que o autor, pelo que interpreto, queria comunicar – com a provocação certa que eu gostaria que tivesse na cabeça do leitor.

Às vezes isso exige correr alguns riscos. Às vezes é uma corda bamba. E às vezes as pessoas começam a me mandar links de “Engenho de Dentro”, do Jorge Ben Jor (“Ela quer um repeteco”).

* * *

Sem mais, só digo que senti o mesmo friozinho na barriga ao propor a tradução de Space Dumplins, de Craig Thompson. Mas já digo que, na Espanha, eles chamam de Almóndigas del espacio.

 

* * * * *

 

Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

Neste post