Por que lemos sobre tragédias?

Por Daniela Duarte

Livros sobre tragédias não são exatamente um gênero literário — ficam sob o guarda-chuva da não ficção, na categoria livro-reportagem —, mas têm, não por acaso, uma legião de fãs. Estou entre eles. Dos livros que mais me impressionaram estão No ar rarefeito e Endurance, duas joias dessa literatura, ainda que totalmente diversos entre si.

Quando li No ar rarefeito, no meio da história, conhecendo intimamente cada personagem, parei a leitura para pesquisar quem morreria e quem sobreviveria. Precisava, de alguma forma, me preparar para o que viria. Com Endurance aconteceu o inverso. Já se sabe que a tripulação do navio — que em 1914 partiu rumo à Antártica e afundou lentamente no mar gelado do Polo Sul —, depois de alguns meses, regressou sã e salva à terra firme. O que nos prende a essa jornada são a luta pela sobrevivência numa região inóspita e a figura lendária de Shackleton.

Entre os autores brasileiros, Ivan Sant’Anna é um especialista neste tipo de narrativa. Em sua obra, que também inclui ficção, há uma parcela dedicada aos desastres, a maioria deles aéreos. Sua paixão por aviões acabou contagiando a escrita, e Voo cego, que a Objetiva lança agora em fevereiro, é seu quarto livro sobre o tema.

Como editora, comecei a trabalhar com Ivan em Perda total. Isso foi em 2010 e até hoje lembro vivamente da Rebeca, a jovem torcedora do Grêmio Porto Alegrense que morreu em um dos três acidentes descritos no livro. O nome dela e a tristeza que senti nunca mais me saíram da cabeça. Então por que lemos sobre tragédias? O embate do ser humano pela vida talvez seja um dos assuntos mais batidos e mais atraentes de livros, filmes, peças etc. Queremos entender os porquês, saber como foi. O fato de ser uma história real nos aproxima de um jeito quase hipnótico desses relatos. Podíamos ser nós ali, ou nossa família, ou nossos amigos. Também não lemos esse tipo de livro pelo suspense. Já sabemos o que vai acontecer, e talvez esteja aí parte da atração. É aterrorizante e ao mesmo tempo divino saber com antecedência que uma tragédia aguarda a todos logo ali, nas próximas páginas. Esses livros mexem com nossos medos mais profundos, falam de pessoas que ultrapassaram seus próprios limites e sobreviveram — ou não.

Voltando ao Voo cego, Ivan Sant’Anna se juntou ao piloto Luciano Mangoni para escrever sobre um desastre que ocorreu por motivos absolutamente incompreensíveis. Tanto que virou caso de estudo nas escolas de aviação comercial do mundo. Enquanto acompanhamos, passo a passo, a trajetória do AVA 052, um Boeing 707 que saiu da Colômbia em direção aos Estados Unidos, é impossível não nos sensibilizarmos com o destino que aguarda cada passageiro e tripulante do voo. Não quero dar spoilers, mas o mais angustiante neste livro é que não há aviso, não há preâmbulo para a tragédia.

* * * * *

Daniela Duarte é editora da Objetiva. 

Neste post