Por que quadrinhos?

Érico Assis

Uma das missões autoimpostas desta coluna é responder: “Por que quadrinhos?”. E responder não a quem tem paredes forradas de gibi, mas ao leitor relativamente recém-chegado. Quem sabe àquele leitor de literatura que ainda tem medo de colocar o pé nesse laguinho, mas que ouviu dizer que rola boas leituras nas HQs. Até porque, por exemplo, a editora do José Saramago, do George Orwell, da Patti Smith, da Svetlana Aleksiévitch e do Daniel Galera também publica quadrinhos, e a maioria não é para criança.

Não sou o único que faz isso. Tem algum elemento mal explicado nessa cultura dos quadrinhos que faz os leitores virarem evangelizadores, batendo na porta dos que ainda não conhecem a palavra + desenho. Tem um pouco de síndrome de vira-lata nisso aí. Talvez seja viralatismo fingido, talvez – com os filmes derivados fazendo bilhões e os selos de quadrinhos em editora de respeito – seja desnecessário ficar evangelizando. Mas enfim.

O caso é que a Hillary Chute lançou mais um livro. A proposta do livro parece ser da evangelização e o público-alvo tem todo jeito de ser aquela figura intelectualizada, grande leitor de prosa, que está em dúvida quanto ao maiô ou sunga para entrar no supracitado laguinho. (Resposta: venha com a roupa que quiser; não é um laguinho.) E Chute batizou o livro com o nome mais bonito e sintético que se pode ter pra essa missão: Why Comics?, “Por Que Quadrinhos?”.

Já falei da autora por aqui. Em 2014, ela lançou um livro de entrevistas com os luminares dos quadrinhos dos EUA. Fora outros dois livros sobre HQ e várias matérias que publica por aí, também foi ela que tirou MetaMaus do Art Spiegelman – o livro cuja espinha dorsal é uma longa entrevista entre ela e o autor de Maus (e que sairá pela Companhia algum dia).

Chute sabe quais autores e quais HQs quer apresentar aos evangelizados. E confia que o burburinho sobre algumas delas já chegou aos ouvidos desse público: “parece que tem muita autobiografia, né?”; “tem muita história com doença”; “não tem super-herói em tudo?”; “tem bastante história gay”; “é meio pornô, né?” O sumário serve de guia para responder essas dúvidas, com nomes de capítulos em forma de perguntas: “Why superheroes?” (por que super-heróis?), “Why sex?” (por que sexo?), “Why queer?” (por que elegebetequetcetera?).

A cada pergunta, Chute faz um apanhado do que esse tema tem de histórico nos quadrinhos (norte-americanos, sobretudo) antes de focar em uma ou duas obras que analisa com mais profundidade. O primeiro capítulo, “Why disaster?” (por que desastres?), enfoca Art Spiegelman de Maus a À sombra das torres ausentes, fazendo um paralelo com Gen, o relato em primeira pessoa da bomba atômica em Hiroxima, por Keiji Nakazawa. “Why sex?” conta a história dos Crumb – Robert e Aline Kominsky, que expõe suas safadezas individuais, de casal e coletivas em público desde os anos 1960 – e a visão mais delicada sobre sexo adolescente, de Phoebe Gloeckner em O diário de uma garota normal.

“Why the Suburbs?” ressalta que existe uma visão bastante crítica à vida suburbana desde as tiras (Belinda, Peanuts) até obras recentes como Black Hole, de Charles Burns, e Building Stories, de Chris Ware. “Why Cities?” (por que cidades?) cruza American Splendor, de Harvey Pekar, com Love & Rockets, dos irmãos Hernandez. Joe Sacco (“por que guerra?”), Marjane Satrapi, Lynda Barry (“por que minas?”), Allie Brosh (“por que doenças e deficiências?”) e outros e outras têm seu tempinho de holofote crítico.

Chute adora fazer links, pois tem um conhecimento enciclopédico de citações, de curiosidades, de cenas nas obras dos autores e suas biografias. O capítulo “Why punk?”, por exemplo, faz o trajeto coalhado de ramificações que conecta Black Flag, Gary Panter, Os Simpsons, Sonic Youth e a Etsy. A autora também adora fazer fofoca. Quem foi o semifamoso que a Lynda Barry namorou aos 20 e poucos, com quem o Gary Panter dividia apartamento e você sabia que o nome real da Marjane Satrapi não é Marjane Satrapi? (Eu não sabia.) Boas fofocas.

Apesar de os títulos de capítulos terminarem em pontos de interrogação, Chute não dá respostas simples a nenhuma pergunta. Você que tente juntar as pecinhas para confiar no argumento dela de que sexo, subúrbios, punk, desastres e guerras são temas que cruzam muitas HQs.

Quanto à pergunta do título, também não há uma resposta clara. Mas a leitura do sumário já anuncia uma das justificativas que os evangelizadores tentam apontar como ponto forte dos quadrinhos: ela é a mídia marginal por excelência. Ou onde os marginais se reúnem: os punks, as vítimas dos subúrbios e as vítimas das guerras, os doentes e deficientes, as meninas sub-representadas, os/as/xs queer. Todos estes conseguem se mostrar e mostrar os seus, em traço, cor e fala, sem os apetrechos e custo do cinema e sem a pompa da literatura, mas com a vivacidade da representação gráfica embalada em narrativa. Basta papel, caneta e alguma coisa pra botar pra fora.

Por isso, quadrinhos.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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