Pouco a pouco — Lendo Dostoiévski

Raquel Toledo

Dostoiévski em 1872, por V. G. Perov/ Imagem contida no livro Dostoiévski: Um escritor em seu tempo

 

Pouco a pouco, constantemente.

Devo confessar – afinal, o que é blog, se não um espaço de confissões – que Dostoiévski sempre foi uma barreira ao longo dos meus anos de dedicação à literatura russa. Li Crime e castigo assim que meu interesse pelos eslavos começou e, bem, não foi tão fácil assim chegar ao final. É claro: o percurso foi fascinante em muitos momentos, mas me lembro de sofrer por ter a sensação de que muito do que estava acontecendo ali passava ao largo da minha compreensão.

Como acadêmica aspirante que era, decidi não desistir e li vários títulos menores do autor. Conheci outro Dostoiévski. Não se apagaram da memória os diálogos líricos, delicados de Noites brancas, por exemplo, que até hoje está entre meus livros do coração (já falei sobre ele aqui na coluna, vale ler).

Não demorei muito para perceber que tinha diante de mim um artista múltiplo, que não se pode resumir em uma ou duas obras. Tive então a ideia de ler os romances de Dostoiévski de forma cronológica, buscando entender, ano a ano, os caminhos que levaram o autor a escrever livros tão distintos entre si e, ainda assim, tão seus.

Mas a realidade da graduação e, em seguida, do mestrado acabaram me desviando desse propósito e segui por outras veredas — são tantas interessantes na arte literária russa. Até que em algum momento entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018 vi um story da Isa Vichi (leitora incrível e dona do canal Lido Lendo no YouTube) em que ela propunha justamente esse projeto que há tantos anos eu deixei morrer.

Não deu outra: encontrei aí a oportunidade de me reconectar com o famoso 'Dostô' e deixar de vez a sensação de que não conheço tão bem um dos maiores nomes da literatura. E, acreditem, não apenas eu, mas mais de uma centena de pessoas espalhadas pelo país estão lendo conosco no projeto #dostoesselindo. É uma experiência incrível poder dividir com tantos leitores esse momento de encantamento, afinal, a leitura de toda a obra de um autor é um exercício longo e sem pressa, como subir uma alta montanha em uma trilha. Muitas vezes sabemos que é necessário desacelerar, tomar fôlego e só então, continuar.

A leitura cronológica nos permite enxergar vida e obra numa relação muito íntima. No caso dostoievskiano, isso é ainda mais latente: sua biografia é interessantíssima (e, nisso, a leitura de Joseph Frank é essencial, se não obrigatória). Entender as mudanças que os percalços da vida trouxeram ao projeto literário que o autor persegue ao longo de sua produção é uma forma de entender as polifônicas facetas de Dostoiévski.

Pela organização cronológica do projeto, ainda não chegamos a 1870, mas precisei adiantar a leitura em nome da curiosidade. Afinal, justamente em 1870 foi publicado O eterno marido, o provocante romance em que Dostoiévski debate um assunto que é tabu desde que o casamento está no mundo: o adultério feminino. E o faz de maneira inovadora, pois toda a ação se dá com a esposa infiel longe de cena. Explico.

Marido e amante se conhecem após o falecimento de Natália, esposa infiel, e o cenário que tinha tudo para ser dos mais tensos, aos poucos, encontra aquele humor desdenhoso, aquele riso amarelo e os tons de comicidade que muitas vezes Dostoiévski nos deixa entrever entre assuntos seríssimos (quem leu O jogador sabe bem). A vingança é servida à mesa e a relação de presa e predador se estabelece entre os “viúvos”.

Trussótski (o viúvo oficial) e Veltchanínov (o amante) encarnam esses papéis tão típicos do universo do autor. Porém, com destreza, a tensão é ora elevada, ora diluída, e os papéis também se tornam fluidos: muitas vezes quem começa ameaçador acaba por se tornar ameaçado. Além desse, é possível ver outros tipos importantes para o projeto literário de Dostoiévski, como representa Liza, filha de Natália, que encarna uma das várias crianças sofredoras da galeria dostoievskiana.

A personificação nesses homens das formas da paixão despertada por Natália é o ápice da narrativa e demonstra (de olho na cronologia) que esse texto é mesmo fruto de um autor maduro, pleno em seu ofício. Frank nos lembra que antes de O eterno marido, Dostoiévski trabalhava no romance O grande pecador (que deu origem, anos mais tarde, a Os irmãos Karamázov) e depois de finalizá-lo escreveu Os demônios, dois livros fundamentais da literatura mundial.

Muitas vezes, ao ler Dostoiévski, me sinto como esses homens que precisam encarar desafios pessoais mesmo diante da ausência daquele que os desafia. Natália não viveu para ver o encontro de seu marido e seu amante, mas Dostoiévski ainda vive, de certa forma, em sua biografia e sua obra. Assim, nos convida a conhecê-lo e, com coragem, a transpor a barreira que um autor de seu porte pode significar. Eu ainda pretendo seguir por muito tempo nesse caminho. Pouco a pouco, constantemente.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. Escreve para o Blog da Companhia sobre literatura russa.

 

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