Quadriculando o círculo do romance pós-guerra: Geração perdida

Por Silviano Santiago

Foto: Shane Gorski

Carson McCullers, Gore Vidal e Truman Capote. Nos anos 1950, nenhum crítico literário poderia imaginar que esses três romancistas jovens e irreverentes estariam não só passando a perna nos famosos escritores pertencentes à conhecida “geração perdida”, para usar a etiqueta inventada por Gertrude Stein em Paris, como também botando a maior banca na segunda metade do século XX. Os desconhecidos e audaciosos jovens escritores são os primeiros a pôr contra a parede os notáveis romancistas que, durante os primeiros 50 anos do século XX, transferiram a ficção da sua matriz europeia para a filial norte-americana. Destaco Ernest Hemingway, John dos Passos, John Steinbeck, Scott Fitzgerald e William Faulkner.

Caso todos esses e outros romancistas não tivessem sido precedidos pela obra de dois intelectuais norte-americanos com larga e notável experiência no Velho Mundo, talvez não tivessem sido tão elogiados pela crítica nacional e internacional. Refiro-me a dois anfíbios (se me permitem o substantivo). Ambos se sentiam bem de um lado e do outro do Atlântico e também a navegar pelo oceano. Os dois anfíbios é que possibilitam o trânsito pausado, medido e confortável da escrita ficcional da tradição europeia, incluindo a experiência chocante de James Joyce, para as inovações revolucionárias propostas a nós, americanos, pela complexa experiência social do colonialismo e pelo avanço científico e tecnológico no Novo Mundo.

Refiro-me, primeiro, ao romancista Henry James, contemporâneo do nosso Machado de Assis. Os vários prefácios que antecedem seus romances alimentaram a arte poética codificada pelo crítico Percy Lubbock no memorável A técnica da ficção, publicado em 1921 (Cultrix, 1976). Este livro, por sua vez, foi retomado e atualizado em 1961 por Wayne Booth noutro clássico, The Rhetoric of Fiction. Nos anos 1920, o jovem prosador norte-americano já tinha à mão informações seguras sobre o novo artesanato (craft) em ficção e, a partir dos anos 1960, seu herdeiro já poderia dominar algo um tanto mais luxuoso e complicado, sua retórica. De sobra, ainda em língua inglesa, pense-se na contribuição oferecida por Aspectos do romance (1927), de E.M. Forster (Globo, 1998), notável romancista britânico.

Refiro-me, em seguida, a Gertrude Stein. Instalada em Paris com sua companheira Alice B. Toklas, ela dá régua e compasso a todos os “autoexilados” (dentre eles o norte-americano Hemingway e o espanhol Picasso) com a sua admiração à escrita da imagem, julgando-a a mais poderosa das representações da modernidade. Retomo passagem da Autobiografia de Alice B. Toklas, a sair pela Companhia das Letras: “eu sinto com meus olhos [...] com meus olhos eu vejo palavras e frases”. Gertrude compõe a página com os olhos, assim como Cézanne, Picasso e Matisse compunham a tela. No convívio diário com os grandes pintores cubistas em Paris, interessou-lhe a feitura da obra artística, ou seja, a arte da composição e a ética da forma. Transpunha o saber visual para a escrita literária. Leia-se o indispensável How to write (1931).

O final 1 é número cabalístico no avanço metódico e formal do romance norte-americano pela literatura universal: 1921, Lubbock, 1931, Stein, 1961, Booth.

Caso passássemos do relato sobre a prosa de ficção para a reflexão sobre a poesia e o ensaio literário norte-americano, teria de acrescentar um terceiro anfíbio à primeira dupla. Refiro-me ao poeta londrino T. S. Eliot, nascido no berço do jazz e do blues, em Saint Louis (Missouri), e à sua presença marcante na lírica moderna e na formulação do new criticism. Falta, enfim, uma palavra altamente elogiosa ao abominável homem do fascismo italiano, Ezra Pound.

De volta a Hemingway, dos Passos, Steinbeck, Fitzgerald e Faulkner, lembro que Claude-Edmonde Magny, crítica francesa, foi quem provou no livro L’Age du Roman Américan (1948) que foram os romancistas da “geração perdida” que incorporaram à forma do romance europeu no século XVIII, tal como seria exposta por Ian Watt em The Rise of the Novel (1957), a descrição narrativa comportamental, desenvolvida à exaustão e precocemente pelo filme hollywoodiano de sucesso. Incorporação foi fomentada não só pela apropriação de personagens desconhecidos e atuais no universo artístico europeu como também pela reflexão dos escritores sobre o uso a ser feito da montagem cinematográfica no romance. Bastava seguir de perto os princípios estabelecidos por teóricos da Sétima Arte como os soviéticos Lev Kulechov (v. efeito Kulechov) e Sergei Eisenstein (Film Form & the Film Sense), e o francês André Malraux (a invenção do close-up é analisada em Esquisse d’une psychologie du cinema).

Assim sendo, a forma do romance ou do conto moderno – cujos pontos altos no século XIX foram ditados pelos canônicos Gustave Flaubert e Guy de Maupassant − perdia a composição linear proposta pelo desenvolvimento cronológico da trama, enquanto os personagens se distanciavam das sutilezas oferecidas pelo romance e a novela de análise psicológica (roman d’analyse), cujo modelo nos fora legado por Madame de La Fayette ao publicar em 1678 La princesse de Clèves.

Leia-se principalmente a obra de Faulkner. Abriam-se as comportas da ficção pequeno-burguesa para que figuras humanas aventureiras, broncas e medíocres – muitas delas miseráveis habitantes do submundo urbano ou rural, machos e brancos − entrassem ficção adentro não pela porta da introspecção, mas pela do comportamento (behaviorismo). A leitura do romance ou do conto se aproxima da resolução de um quebra-cabeça. Como resumo, cite-se cena sintomática do romance Santuário (Abril Cultural, 1980), de William Faulkner. O personagem Popeye violenta uma moça com uma espiga de milho.

Ao contrário do contemporâneo Norman Mailer, que dá continuidade à prosa violenta e machista da geração perdida, os jovens Carson McCullers, Gore Vidal e Truman Capote são romancistas sensíveis e sinceros que, ao negar direito de cidadania aos autores já clássicos da primeira metade do século, buscam se afirmar na cena literária por estilo e trama alternativos. Estilo e trama alternativos não encontram seu modelo de escrita nos Estados Unidos como não encontrarão seu modelo no Brasil para a nossa Clarice Lispector, que estreia nas letras em 1944. Para os americanos, a escrita alternativa vinha sendo exposta como feridas abertas na prosa de ficção por duas notáveis escritoras, a neozelandesa Katherine Mansfield e a britânica Virginia Woolf, falecidas em 1923 e 1941, respectivamente.

Por outro lado, McCullers, Vidal e Capote são contemporâneos e muito próximos dos primeiros 18 mil informantes voluntários do Dr. Alfred Kinsey, o pesquisador que, a partir de 1948, publica sucessivas obras capitais para o melhor conhecimento em dados estatísticos do comportamento sexual do norte-americano. Ironia maior. À semelhança do cineasta experimental underground Kenneth Anger, assumidamente homossexual, os três jovens romancistas – ou os narradores e os personagens dos respectivos romances, todos com fortes marcas autobiográficas – poderiam ter sido os mais atrevidos e temerários informantes do Dr. Kinsey.

O primeiro relatório Kinsey estoura que nem bomba atômica em Hiroshima. Comportamento sexual e orientação sexual (objeto dos futuros estudos de gender) entram de supetão cá na ficção e lá no tratado sociológico. Masturbação masculina e feminina, orgasmo infantil, sexo oral e anal, homossexualidade, bissexualidade etc. tornam-se café pequeno na conversa à mesa da família mais desinibida. Ganham a manchete de jornais como o New York Times.

Assinale-se que os dados estatísticos revelam que o comportamento sexual do cidadão e da cidadã norte-americanos comuns os distancia dos modelos conservadores até então dados como prevalentes na sociedade protestante daquele país. Levanta-se uma revoada interminável de questões humanas e de subsequentes problemas paralelos. Estes se expandem até as grandes conquistas do século XX, levantadas pelos revolucionários e estudantis anos 1960 e sedimentadas no século XXI durante a presidência de Barack Obama. Setenta anos mais tarde, em 2017, essas conquistas seriam negadas e seus defensores perseguidos pela insensatez governamental e legislativa do presidente Donald Trump.

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Na próxima quarta-feira, publicaremos a continuação do artigo de Silviano Santiago.

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Silviano Santiago nasceu em 1936, em Formiga (MG). É autor de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti. Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro e acaba de relançar pela Companhia das Letras Stella Manhattan.

 

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