Quadriculando o círculo do romance pós-guerra: Políticas de identidade

Por Silviano Santiago

Leia aqui a primeira e a segunda parte da série de Silviano Santiago. 

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Saul Bellow, Philip Roth, James Baldwin, Bernard Malamud e Juan Pedro Soto. Não se poderia esperar que as subjetividades dramatizadas na ficção de alto teor homoerótico não se inserissem posteriormente em conflitos sociais e econômicos na nação construída pelo genocídio indígena, a escravidão negra, a imigração dos pobres e a diáspora judaica. O cadinho do melting étnico norte-americano não aparece tão equilibrado, harmonioso e íntegro se aquecido pelo maçarico do poder nacional, estadual e municipal. Pelo contrário, a intolerância (título do famoso filme de 1916 de D.W. Griffith) é a regra geral. A sociedade norte-americana continuava governada por WASPs, anglo-saxões brancos e protestantes. No plano religioso, o católico John F. Kennedy foi a primeira exceção, assim como o foi no Brasil o protestante general Geisel. No tocante ao mundo anglo-saxão, leiam-se os belos contos de Bernard Malamud em The magic barrel (1958) que desenham, bem antes do G.W. Sebald de Os Emigrantes (1992), a vida cotidiana e pobre dos imigrantes judeus no Lower East Side de Manhattan.

Mal se abre a década de 1960, começam a pipocar por todo o território norte-americano os protestos públicos e a indignação contra a intolerância, o preconceito de cor e a discriminação social – e também contra a guerra no Vietnã. Esses movimentos sociais são devidamente reforçados nos campi universitários pelo trabalho didático do filósofo Herbert Marcuse e os discursos inflamados da jovem Angela Davis. Docentes e discentes se organizam em torno da SDS (Students for a Democratic Society) e se interessam pelas novas ideias difundidas por intelectuais europeus, como Michel Foucault e Gilles Deleuze, que surgem na Paris a se transformar revolucionariamente em maio de 1968. Os narradores e personagens dos cincos romancistas acima destacados perdem grande parte das respectivas vozes individuais. Passam a lutar pelos valores que podem resgatar comunidades discriminadas, representando-os em escrita artística que defende as políticas de identidade das minorias.

Num dos extremos do resgate de comunidade discriminada, estão os romances de Saul Bellow, futuro prêmio Nobel. A publicação em 1953 do picaresco As aventuras de Augie March já anuncia sua atitude integracionista e cosmopolita no pós-guerra, a esboçar de maneira alegre o futuro da comunidade judaica na América. A primeira frase do romance que escolho para representá-lo tornou-se de citação obrigatória: “I am an American, Chicago-born”. A cidade de Chicago não é apenas um acidente geográfico na recente diáspora dos judeus europeus; ela é antes o sinal seguro da possibilidade da integração do imigrante judeu à nação norte-americana e sua outra e consequente visibilidade mundial. Não foi difícil para a crítica comparar o romance de Bellow ao clássico da literatura norte-americana, As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. Inscreve-se o romance na longa lista que descreve os processos positivos da aculturação por que passam as diferentes etnias no Novo Mundo colonizado pela Europa: americanização, abrasileiramento, mexicanização etc.

No outro extremo do resgate de comunidade discriminada, está o livro de contos Adeus, Columbus (1959), que marca a estreia de Philip Roth. O humor irreverente de Roth, fundamento de suas melhores incursões na literatura, a que são mescladas deliciosas descrições confessionais e desequilibradas sobre os abismos da heterossexualidade, não perdoa o comportamento vexaminoso da classe média judaica nos Estados Unidos. O romancista inflige uma das leis não escritas do judaísmo moderno. Estava armada uma das grandes polêmicas da década e das seguintes, já que os contos de Roth – se lidos nas saliências impróprias – jorrariam água no monjolo do antissemitismo.

Roth se defende em ensaio de 1963, “Writing about Jews”, hoje na coleção Reading myself and others. Defende-se dizendo que sua intenção era a de explorar um conflito interno, que oscila entre o apelo à solidariedade judia e o desejo de se abrir à discussão e ao questionamento dos valores e da ética da classe média judaico-americana, prisioneira da sua própria insegurança, já que coagulada em fins puramente hedonistas em tempos de assimilação cultural comprometedora e ascensão social e financeira.

Vencedores ou vencidos, pouco importa, já que a estreia na literatura de Bellow e de Roth é marcada pela polêmica, sim, mas também pelo sucesso de crítica e de venda dos livros. James Baldwin se situa num extremo de mais difícil compreensão em época de políticas de identidade, já que, sendo negro e homossexual, torna-se receoso da sua aceitação como romancista e passa a ancorar sua escrita nos velhos mestres americanos às voltas com o autoexílio na Europa, como Henry James e Ernest Hemingway. Ao contrário de Truman Capote, que faz questão de emprestar sua biografia ao romance que publica, James Baldwin quis sair pela tangente. Negro e homossexual, trop c’est trop, teria dito Blaise Cendrars.   

Em recente prefácio para a reedição de Giovanni’s room, o irlandês Colm Tóibín nos informa que, em 1948, aos 24 anos, Baldwin vai viver na França, onde conhece o suíço Lucien Happersberger, de quem se enamora. Quatro anos mais tarde, em 1952, já morando na Suíça, termina e publica seu primeiro romance, Go and tell it on the Mountain, cuja ação tem lugar no bairro de Harlem e dramatiza, evidentemente, experiências humanas na famosa comunidade afro-americana em Manhattan.

No ano seguinte, Baldwin volta a morar na França e escreve o livro em que poderia ter associado a questão gay à política de identidade negra. Grande surpresa aguarda o famoso editor Alfred Knopf. Espera de Baldwin um segundo romance sobre a vida cotidiana dos afro-americanos no Harlem, chega-lhe às mãos o manuscrito de Giovanni’s room, cuja ação se passa na Europa. Todos os personagens são brancos, com destaque para o louro David e o italiano Giovanni. Knopf recusa publicar o livro. Escreve Baldwin que os editores lhe disseram que, na condição de escritor negro, ele não deveria alienar os leitores já conquistados. Em seguida, o romancista transcreve a fala dos editores: “O novo livro irá arruinar sua carreira [...] e nós não o publicaremos; é um favor que fazemos a você”. Nenhuma editora o edita em 1953. O romance só será publicado por outra editora, a Dial Press, em 1956.

Baldwin se justifica: “Evidentemente, eu não poderia possivelmente ter que lidar – não naquele momento da minha vida – com outro grande peso, ‘o problema negro’. A perspectiva sexual e moral já era coisa difícil de ser trabalhada. Não poderia ter manejado as duas proposições no mesmo livro. Não havia lugar para o problema negro [num romance homossexual].”

Como escritor latino que procura destacar-se na elite literária norte-americana, o porto-riquenho Pedro Juan Soto sobrevive na obscuridade dos romances publicados. Sem dúvida, de todos os escritores mencionados, é o que menos se preocupa com a assimilação cultural, com a aculturação do porto-riquenho. Pelo contrário. Ao inventar seus romances, denuncia de todas as formas possíveis os engodos que a situação latina em território norte-americano – a se expressar em língua diferente da nacional, o inglês – suporta e padece. Um dos seus livros de contos, Spiks (1956), atinge diretamente o vocabulário do norte-americano comum no que ele tem de pior – a designação discriminatória e ofensiva para os membros duma comunidade pobre. Em geral, as políticas de identidade questionam precisamente esse abuso linguístico dos poderosos, como é o caso do vocábulo nigger, verdadeiro tabu, nunca a ser pronunciado por quem não for afro-americano. (Lembre-se do escândalo que Quentin Tarantino causou recentemente com o filme Django livre.) Seu outro romance, Usmail (1959), retoma a sigla U.S. Mail (Correios norte-americanos) e é também o nome próprio que uma jovem mãe porto-riquenha, seduzida por norte-americano, dá ao filho. Nele preserva a esperança. Talvez algum dia lhe chegue às mãos a desejada e definitiva carta de amor pelo U.S. Mail.

O escritor e ensaísta John Barth, colega e amigo meu quando ensinei literatura francesa na State University of New York, em Buffalo, é quem pontua em 1967 o romance norte-americano pós-guerra por um chocante e fascinante ensaio, “The literature of exhaustion”, publicado na revista The Atlantic. A ideia básica de Barth é a de retomar ao pé da letra a lição dada por Jorge Luis Borges, Samuel Beckett e Italo Calvino. A produção literária moderna tinha exaurido as suas possibilidades de inovar e não há motivo para desespero. Seu ensaio não se enquadra, portanto, na série infinita de trabalhos sobre a morte da literatura. Criação e leitura passam a se confundir para o escritor que busca a virtuosidade na sua arte. Anos depois de ter escrito o ensaio, Barth confessa que, para ele, “o virtuosismo é uma virtude, e o que os artistas sentem sobre o estado do mundo e o estado da sua arte é menos importante do que o que eles conseguem fazer com esse sentimento”.

Entraríamos, então, no campo da pós-modernidade. Em 1981, eu estaria publicando o romance Em liberdade, um diário falso de Graciliano Ramos, escrito no momento em que ele deixa a prisão nos anos 1930. Em seguida, em 1985, Stella Manhattan.

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Silviano Santiago nasceu em 1936, em Formiga (MG). É autor de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti. Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro e acaba de relançar pela Companhia das Letras Stella Manhattan.

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