Quadriculando o círculo do romance pós-guerra: Weirdoes e freaks

Por Silviano Santiago

Leia aqui a primeira parte.

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Aos 23 anos de idade, Carson McCullers se apresenta como o porta-bandeira que comanda o bloco de personagens weirdoes, para usar o vocábulo da época, ou de freaks, para avançar até o tempo do rock’n’roll e das drogas e dar voz às canções de Jim Morrison e do grupo The Doors. (Lembre-se que a tradução de freak não é estranha à língua literária brasileira. Bernardo Carvalho estreia no romance com os contos reunidos em Aberrações, em 1993.) Em 1940, Carson publica o romance O coração é um caçador solitário (Antares, 1983) e, no ano seguinte, Reflexos num olho dourado (José Olympio, 2010).

No primeiro, dramatiza-se inicialmente o relacionamento entre dois surdos-mudos, John Singer e Spiros Antonapoulous, que por dez anos dividem a morada numa cidade interiorana dos Estados Unidos. A amizade entre John e Spiros é narrada com sutilezas que bordam uma relação homossexual guardada no armário. De repente, o protagonista de inesquecível nome grego começa a se comportar de maneira lunática, levando o amigo a interná-lo em hospício. Segue-se o encontro de John com uma série de personagens (adultos, adolescentes e crianças) incompreendidos pela família, desorientados profissionalmente ou simplesmente desprezados pela comunidade. Numa palavra, autênticos misfits, ou seja, pessoas que não são aceitas pelo grupo social dominante pelo comportamento errático ou pelas ideias não convencionais.

Em entrevista posterior, Carson McCullers estabelecerá o princípio básico da sua criação literária: “Sinto-me de tal modo absorvida pelos meus personagens, que as intenções deles se tornam minhas. Quando escrevo sobre um ladrão, transformo-me num; quando escrevo sobre o Capitão Penderton, transformo-me num homossexual masculino. Transformo-me nos personagens sobre os quais escrevo e abençoo o poeta latino Terêncio que disse ‘Nada do que é humano me é estranho’”. Não estaria aí o germe moderno da futura autoficção?

Talvez por vir de família com tradição nas forças armadas e na política, a estreia de Gore Vidal em 1948 se apresenta envolta em escândalo. Seu romance, The city and the pillar, causa furor por representar sem disfarces ou fantasias o jovem Jim Willard, que assume a homossexualidade e um consequente relacionamento homoafetivo com Bob, seu melhor amigo. O romance é dedicado a J.T., iniciais de James Trimble III, morto na batalha de Iwo Jima, em 1945, única pessoa que o autor – confessa Vidal, posteriormente − realmente amou. Um dos companheiros de Jim Willard, Sullivan, descreverá sucintamente o périplo da experiência gay: “Começa na escola. Você é um pouquinho diferente dos outros. Às vezes é tímido e um pouco frágil; ou talvez precoce, ou bonito demais, um atleta, apaixonado de si mesmo. Depois começa a ter sonhos eróticos com outro garoto...” – e por aí segue a história da iniciação homoerótica até que o rapaz se torna, retomando a palavra-chave de Carson McCullers, um “caçador solitário”.

 

A foto de Truman Capote na quarta capa das primeiras edições de Other Voices, Other Rooms (1948) é em si mais escandalosa que o romance. Um jovem baixinho, rechonchudo, evidentemente afeminado, recostado num braço do sofá, trajando colete e gravata borboleta, de olhos sedutores e direcionados para a câmara, em pose lânguida que lembra a Maia desnuda. Capote causa tanto escândalo quanto Vidal, já que é pessoa por demais conhecida nas redações da melhor imprensa nova-iorquina.

A estranha figura se tornará célebre nos Estados Unidos pelas suas apresentações divertidíssimas nos talk shows da televisão e, no mundo inteiro, graças a duas notáveis atuações por atores com físico e voz correspondentes ao dele na vida real. Lembro o ator Peter Lorre (do clássico M, o Maldito) no filme Beat the Devil (1953), dirigido por John Huston e coescrito pelo próprio Capote, e, mais recentemente, o ator Philip Seymour Hoffman no filme de 2005 que leva por título apenas o sobrenome do escritor.

Trago como argumento a imagem real e a artística de Capote para demonstrar como ele, no grupo de escritores do pós-guerra, é tão performático quanto Hemingway e Fitzgerald o foram durante e após os crazy twenties. É impossível não associar o retrato perturbador do romancista à imagem dos personagens. No caso de Truman Capote, por ter ele ganhado notoriedade em seguida aos revolucionários e midiáticos anos 1960, o acasalamento de imagens semelhantes acabou por se tornar, para retomar uma frase de que se valem os jornalistas para a nossa Rogéria, o gay da família norte-americana. A ambientação do filme Capote oscila de maneira extraordinária entre o provincianismo tolerante de cidade perdida no mapa e o mundanismo cosmopolita de Nova York.

Por outro lado, o acasalamento da imagem do autor à imagem do produto, da biografia do romancista à personalidade dos personagens do romance que ele escreve e publica monta dois pilares em meados da segunda metade do século XX. Um deles encaminha a produção literária para a política da celebridade, de que será exemplo no Brasil os primeiros autores pop dos anos 1970 (leia-se o prefácio de Roberto Drummond ao livro A morte de D.J. em Paris [Ática, 1983]) e, evidentemente, Paulo Coelho. O outro pilar sustenta as futuras políticas de identidade. Estas, no seu extremo, apelam para a autenticidade ética da escrita ficcional que, bem dosada em complexa bibliografia crítica, irá inaugurar – no interior da teoria literária – os estudos culturais (cultural studies) e consagrar, na América Hispânica, um novo gênero (genre), el testimonio. Nos estudos culturais, a teoria queer terá boa visibilidade, ao lado das teorias femininas, étnicas etc.

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Leia a terceira parte.

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Silviano Santiago nasceu em 1936, em Formiga (MG). É autor de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti. Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro e acaba de relançar pela Companhia das Letras Stella Manhattan.

 

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