Quadrinhos, Dois Mil e Dezessete

Érico Assis

O balão-sanduíche do Juan Saenz Valiente em "La madre de todas las desgracias", página 7 (de 10). “Una mentira escondida entre dos verdades”. E a história inteira, curtinha mas das melhores que li este ano. Para ler completa aqui.

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Uma Irmã, do Bastien Vivès, e como parece que ele quer ir francesamente contra a corrente do quadrinho atual, com medo de ser tachado de machista, mas consegue ser contemporâneo, tradicional e (eu diria que) não machista.

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“O que eu sinto hoje é tal como eu me sentia quando era criança e o filme chegava ao fim. Começavam a rolar os créditos. Começavam a acender as luzes. E eu ia andando de ré pelo corredor inclinado do cinema, bem devagar, de olho na tela, tentando fazer o filme durar o máximo possível.”

Dik Browne (1917-1989), o criador do Hagar, em uma matéria sobre Fairfield County, o antigo subúrbio dos cartunistas em Connecticut.

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Verões Felizes, de Zidrou, Jordi Lafebre e Mado Peña. A cena do velório. A bomba, a cena final, a estrutura de Rebels n. 7 (Brian Wood, Matthew Woodson, Jordie Bellaire) com a história de Molly Pitcher. O cara mijando fora do vaso e bradando “Trabalha, bicho!” no Mensur, do Rafael Coutinho, e o tanto que eu acho que essa cena fala do Brasil.

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“Essa tira rodou muito. Mas rodou muito no Facebook, que, na verdade, é um gueto. O próprio algoritmo procura afastar o pensamento distinto. O Facebook é você falar com as pessoas que pensam mais ou menos como você. De modo que não serve pra nada, porque não existe o debate de rua. É uma forma sucinta de despolitização. Não acredito que charge ou quadrinho nenhum mude o mundo.”

André Dahmer, na revista Plaf.

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A categoria de História em Quadrinhos no Jabuti. Que teve uma de suas origens numa proposta aqui neste Blog e virou realidade este ano. A relação de dez finalistas é a melhor lista para começar a conhecer o quadrinho brasileiro atual.

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O álbum (que eu traduzi) e que virou matéria de portal com o título “HQ polêmica usa a Bíblia para falar que Maria, mãe de Jesus, era prostituta”, três horas depois com o título “HQ polêmica usa a Bíblia para falar que Maria, mãe de Jesus, não era virgem” e, uma hora depois, com o título “HQ revê certezas do cristianismo e levanta polêmica sobre Maria”.

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Minha Coisa Favorita é Monstro, de Emil Ferris. Que acho difícil de avaliar porque não tive o distanciamento para pensar “só” como leitor. Mas a frequência com que está aparecendo nas listas de melhores do ano – em primeiro lugar de várias – talvez justifique o que eu pensei lendo como tradutor.

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You & A Bike & A Road, da Eleanor Davis, entrou para aquela listinha de livros que se deixa à vista na estante para de vez em quando puxar, abrir em qualquer página e viver mais um pouco.

Reler Gus, do Christophe Blain. Ler, finalmente completa e praticamente de uma sentada, Demon, do Jason Shiga. Reler, no ano em que Jiro Taniguchi faleceu, O homem que passeiae fechar o livro, dar uma caminhada, voltar e ler de novo.

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Os longos scrolls da Madeleine Witt, tipo “America Goes Dark” ou “Under the Water”. A imaginação visual do Grant Snider nos Incidental Comics. O soco no estômago que foi “The Fuck You Forest”, da Leela Corman.

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Chris Ware entrevistado pelo Charlie Rose. Em dado momento, Charlie Rose mostra o clipe da entrevista que o próprio Charlie Rose fez, naquele mesmo programa, naquela mesma bancada, com Charles Schulz, herói pessoal de Ware, e você tenta enxergar nos olhos de Ware o que significa estar na mesma bancada, no mesmo programa de TV, entrevistado pelo mesmo cara que entrevistou seu herói pessoal.

Uma semana depois, Charlie Rose seria demitido por assédio sexual às colegas de trabalho.

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Ainda quero ler Angola Janga, do Marcelo D’Salete. Ainda quero ler Alho-Poró, da Bianca Pinheiro. Ainda quero ler El amor vendrá al rescate, do Kioskerman. Dois mil e dezessete ainda tem umas páginas.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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