Quando gênios colidem

Por Alexandre Rodrigues

Num meio tão cheio de vaidades como o literário, um choque vez ou outra não é incomum. Uma palavra aqui, uma frase enviesada ali, mas geralmente as armas são recolhidas antes de algo mais sério acontecer. Poucos são os casos de autores, como nas polêmicas protagonizadas pelo inglês Martin Amis ou mesmo na célebre rivalidade entre David Foster Wallace e Bret Easton Ellis, capazes de levar uma briga adiante a ponto da inimizade. Essa ausência do recuo estratégico é o que impressiona na rivalidade entre dois dos mais geniais inventores da história, Nikola Tesla e Thomas Edison – rivalidade contada em detalhes e de forma extraordinária em Os últimos dias da noite, de Graham Moore.

Tesla era um dínamo de ideias: excêntrico, profundo conhecedor da ciência e mais preocupado com as grandes invenções do que em ganhar dinheiro. Edison, mais inventor do que cientista, foi também um homem de negócios e criador de um dos primeiros laboratórios de pesquisas da história, o lendário Menlo Park, em Nova Jersey, onde uma equipe de engenheiros foi responsável por criações como o primeiro projetor de cinema e o fonógrafo. Era quase inevitável, vivendo na mesma época, o final do século XIX, que eles se tornassem competidores. Mas esse choque de gênios foi muito mais longe.

A “guerra das correntes”, iniciada em 1888, é ainda hoje considerada a maior disputa científica de todos os tempos. Do ponto de vista comercial, opôs Edison, criador do sistema de corrente contínua, e o industrial George Westinghouse, que de repente se viu processado pelo inventor em 1 bilhão de dólares (da época, hoje equivalentes a 280 bilhões) por quebra de patentes. Para sobreviver, decidiu financiar as ideias de um sérvio de sotaque quase incompreensível recém-chegado aos Estados Unidos, que desenvolvia motores baseados em um novo sistema, usando corrente alternada. Seu nome: Nikola Tesla.     

A grosso modo, tratava-se da competição técnica entre dois sistemas para fornecer energia. Com as primeiras lâmpadas elétricas, Edison havia começado por volta de 1870 a iluminar as cidades americanas. Os lampiões a gás ainda predominavam, mas nos bairros mais ricos de Nova York e outras cidades, graças à luz elétrica, os bares e cafés agora ficavam abertos até de madrugada e as mansões brilhavam como nunca antes. A imprensa saudava que o mundo finalmente havia saído da penumbra.

Mas havia um problema: a eletricidade era distribuída por corrente contínua, inventada por Edison, que se dissipava facilmente. O sistema funciona a partir de uma ideia simples: a energia flui do polo positivo para o negativo, como nas pilhas e baterias. Para se ter uma ideia, as usinas ficavam no máximo a 800 metros das casas e demais locais que tinham de iluminar. Já na corrente alternada, graças ao uso de imãs, os polos se invertem dezenas de vezes por segundo e a eletricidade corre em zigue-zague, sem perdas. Tesla idealizou um sistema com grandes usinas produzindo energia, que era transportada para as cidades em cabos de alta tensão. Transformadores depois reduziam a tensão para fornecer eletricidade aos consumidores sem que ninguém fosse eletrocutado. Ou seja, o sérvio criou o mundo de hoje.  

Era um aperfeiçoamento do sistema anterior. Mas Edison não recebeu nada bem a novidade, pois tornava inúteis as patentes da corrente contínua e ameaçava seus negócios. Edison se engajou então numa campanha para desacreditar a invenção de Tesla. Patrocinou o primeiro uso da cadeira elétrica, alimentada por corrente alternada, para executar um preso, e também eletrocutou em público cães, gatos, cavalos e até um elefante, uma cena que mesmo vista quase 130 anos depois (os vídeos estão no YouTube) impressiona pela crueldade. É possível que fosse sincero ao considerar a corrente alternada uma invenção perigosa. Mas também é verdade que Edison não estava feliz com Tesla.

O sérvio, de seu lado, tinha motivos suficientes para odiar o rival. Ex-empregado de uma oficina de Edison em Paris, trabalhou para o inventor em vários motores e dínamos quando chegou aos Estados Unidos, com a promessa de um bônus de US$ 50 mil (US$ 1,4 milhão hoje). Mas, ao ser cobrado, em 1885, Edison respondeu que Tesla “não conhecia o humor americano”. Revoltado, ele se demitiu e nunca perdoou o ex-patrão.

A briga entre os dois mobilizou a imprensa e o público nos Estados Unidos, com defensores dos dois lados. Tesla acabou vencedor porque seu sistema era mesmo mais eficiente. A partir de então não só deixou sua marca na corrente alternada como estabeleceu as bases para a invenção do rádio, do radar, da lâmpada fluorescente, do controle-remoto e dos celulares. A paixão de sua vida era a busca de uma forma de transmissão sem fio que ofereceria eletricidade de graça para todos, algo ainda por descobrir. Essa generosidade fez dele amigo de artistas e intelectuais e atraiu admiradores como o físico Albert Einstein e Elon Musk, criador da Tesla Motors, a principal fabricante de carros elétricos hoje, que pegou emprestado seu nome.

É verdade que depois de sua morte, em 1943, Tesla passou décadas no esquecimento até ser redescoberto pela internet. Os fãs atuais de Tesla, no entanto, exageram com o rival. Thomas Edison não era um monstro ganancioso, como costuma ser pintado. Só se vestia com ternos baratos e desprezava mansões e iates dos ricos, chamando-os de brinquedos fúteis. Se Tesla adorava passar dias trancado com seus inventos se alimentando só de biscoitos Oreo e leite – um detalhe delicioso do livro de Graham Moore –, Edison quase não saía de seu laboratório, vivendo de uma dieta composta de tortas de maçã.

Depois da “guerra das correntes”, a inimizade sobreviveu. Diz a lenda que nenhum dos dois nunca recebeu o Nobel de Física porque, quando ambos foram indicados, se recusaram a dividir o prêmio. Mas também houve momentos de ternura. Certa vez Edison tentou assistir incógnito a uma palestra de Tesla e o sérvio não só o identificou na plateia como incentivou uma salva de palmas dos presentes. Quando ocorreu um incêndio no laboratório de Tesla, Edison ofereceu a ele um novo.

O que leva a meu momento preferido de Os últimos dias da noite, esse romance surpreendente que narra esta história espetacular: quando Tesla, Edison e Westinghouse estão reunidos em um coquetel e, abismado, Paul Cravath, o jovem advogado e protagonista do romance de Moore, descobre que eles não se odeiam tanto assim. Trocam elogios, falam de amenidades e, refletindo sobre Isaac Newton e Charles Darwin, lembram que estes outros dois gênios não ganharam um centavo com suas descobertas. É assim com grandes cientistas.

Mesmo quando brigam, só há uma vencedora: a ciência.  

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Alexandre Rodrigues é escritor, autor de Veja se você responde essa pergunta (Não Editora).
 

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