Quando você lê?

Érico Assis

No sábado. Sábado é meu dia livre.

Segunda a sexta é trabalho; não gosto do domingo – eu e o domingo temos problemas –, por isso também trabalho no domingo. Então o sábado é dia de pegar na estante o que eu estiver a fim e ler. Os bons costumes recomendariam pegar leituras pela metade, mas nem sempre – quase nunca, para dizer a verdade – são. Sábado é livre.

Sábado é dia de ler quadrinhos, sobretudo quadrinhos. Os de papel. Quadrinhos de papel têm uns probleminhas de design: são leitura muito rápida para uma viagem longa ou têm dimensões avantajadas demais para você ficar carregando por aí. A maioria é maior que o bolso, tem vários que não cabem na mochila e, se se sustentam por uma viagem longa, pesam que nem um tijolo. Então, sábado é dia de ler quadrinho, quadrinho de papel, avantajado e tijolar, em casa, no sofá.

Sim, também leio quadrinhos no tablet. Toda quarta-feira o tablet se enche de gibis novos. Dá para ler uns 4 ou 5 na cama, antes de dormir. Nunca estou em dia. Às vezes levo o tablet em viagem, respeitando aquela regra de preservação do tablet quanto a onde você pode puxar um tablet da mochila.

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Na esteira da academia.

Eu sei que essa é estranha. Explico.

Não sou daquelas 0,1% de pessoas que acham exercício físico uma coisa linda e alegre. Sou das 99,9% de pessoas que, porém, precisam se mexer porque alguém mandou. Não consigo ficar assistindo Ana Maria Braga nem conversando com a esteira do lado. E não tenho paciência alguma pra esperar os 20, 30 ou 40 minutos que tenho que ficar ali.

Coincidência ou não, meu Kindle encaixa certinho numa ranhura do painel da esteira e fica bem equilibrado mesmo quando eu corro. Se eu posicionar direitinho, ele até tapa o relógio e eu não vejo o tempo não passar.

Uso o leitor de e-book principalmente para ler coisas que não são e-books. Tudo da internet que eu não preciso ler na hora e que vai me exigir mais que um minuto – reportagem, entrevista, resenha, New Yorker, piauí – vai para o leitor. Uso esse app aqui: dois cliques e o texto cai no Kindle. O tabletinho tá sempre bem abastecido.

Também tenho e-books. Aliás, anda difícil ler livros – os de prosa – que não sejam e-books. O caso é que eu levo o tabletinho para onde quiser e troco de livro quando estou a fim. Voltando pra casa depois de deixar a filha no colégio. Na fila do supermercado. Na fila do correio. Dirigindo: uma ou duas páginas a cada sinal vermelho, várias quando dá algum engarrafamento. Dependendo da leitura, até seria bom se o engarrafamento demorasse mais.

São bons pro Kindle aqueles livros que você pode ler às pancadinhas. No momento estou em Viva a língua brasileira!, do Sérgio Rodrigues, que é excelente neste sentido (e em todo e qualquer outro sentido, se você trabalha com escrita ou tem o mínimo de curiosidade). Mas se não for um livro de ler às pancadinhas, dá para você se impor metas de porcentagem de leitura por dia e vencer um tijolão. Esses dias foi a biografia do Charles Schulz, que não seria lida de outro jeito.

Enfim: leitores de e-book. Como viver sem? Quem ainda insiste que livro tem que ser de papel é porque não gosta de ler. Ou tem tempo de sobra. Só quadrinhos que, no Kindle, por enquanto, ainda não dá.

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No banheiro, não. No banheiro eu jogo Sudoku.

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De manhã, bem cedinho, quando a casa ainda não acordou.

Começo por uma coisa difícil. Um livro teórico pro doutorado. O pedaço de um gibi ou livro em língua que eu leia mais arrastado, tipo francês ou espanhol.

Depois, algo que eu tenha que ler por obrigação e que não seja tão complicado. Um capítulo do livro que for.

E termina com um capítulo ou trecho de alguma coisa – livro ou gibi – que seja muito boa e que eu tenho que me esforçar pra não ler tudo de uma vez.

Na verdade, não sou das pessoas que consegue passar horas e horas concentrado em um livro só. Aliás, acho que nem uma hora. Meu negócio é ler vários livros ao mesmo tempo, aos pedacinhos.

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Estou falando de ler sobretudo por prazer. Também leio várias coisas nas horas de trabalho porque meu trabalho é, em grande parte, ler. Mas queria saber do seu ler por prazer. Quando? Como? Onde? Estou curioso.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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