Quem é Helena?

Por Fernanda Pantoja

Em 2016, fui a Pelotas, no Rio Grande do Sul, tentar descobrir quem era Helena. Eu já tinha lido o manuscrito do livro, um impactante relato pessoal sobre sua bipolaridade, e as experiências narradas sugeriam que Helena não me passaria despercebida. Por sugestão dela, marcamos num ponto de encontro tradicional da cidade, o Café Aquários. Eu conheço bem a região, tenho família lá. Naquele dia, chovia e fazia muito frio. Além de conhecê-la pessoalmente, precisávamos conversar sobre a edição do livro, que seria lançado no ano seguinte.

Eu não sabia como ela era, nem o Facebook me indicara a sua fisionomia, mas logo que entrou no café, soube reconhecê-la. Seu lado frágil era perceptível a distância. Ela quis chá, eu precisava de café. Enquanto conversávamos, não pude deixar de observar as belas feições, a cor deslumbrante de seus olhos. Tirados os anos de tanta medicação — 40 mil comprimidos, segundo ela — e as inúmeras internações, o que eu via era uma mulher linda. Quando começamos a discutir partes extremamente delicadas do livro, fiquei um pouco sem jeito. Ela não. Despia-se sem pudor, lendo em voz alta trechos que me faziam desviar o olhar. A mulher que eu via agora era forte, um titã. Tinha sobrevivido, e estava ali, diante de mim, narrando, altiva, as suas batalhas.

Fazia mais de dez anos que ela não era internada, mas naquele momento passava por uma fase delicada. Estava um pouco deprimida, o lítio a tinha intoxicado e agora precisava se adaptar a uma nova medicação. Algumas semanas depois do nosso encontro, ela me enviou um e-mail dizendo que não queria mais publicar o livro, que ele não seria útil a ninguém e que ela agora sabia disso. Não respondi. Senti que ela precisava de mais um tempo. Alguns dias depois, mais um e-mail, dessa vez sem sentido, sobre o transporte público de Pelotas e partidos políticos. Fiquei preocupada. Resolvi ligar, sem sucesso. Enviei uma mensagem e recebi uma resposta de seu marido, me informando que, infelizmente, ela voltara a ser internada.

Ainda assim, continuamos a editar o livro. Em breve, eu precisaria reencontrá-la. Aprovar a capa, o texto final, preencher algumas lacunas. Soube então que ela voltara para casa, que estava bem e tinha voltado a trabalhar. Marquei uma nova ida a Pelotas. E lá estava outra Helena, animada, o olhar mais vivo, mais bonita.

Em março de 2017, mês anterior ao lançamento do livro, Helena foi internada novamente. Como assim? Duas internações em menos de um ano. Em uma de nossas conversas, ela me disse que gostaria que a noite de autógrafos fosse em Porto Alegre, no dia 19 de abril. A previsão de alta era fim de março. Propus ao marido dela, que agora fazia a ponte entre nós, que mudássemos a data, que adiássemos um pouco o lançamento para que ela já estivesse plenamente recuperada. Ela insistiu, queria manter o cronograma, estaria bem.

E assim foi. O olhar parecia um pouco distante, mas ela estava inegavelmente feliz. Os amigos presentes eram de verdade. Amigos de longa data, apaixonados por Helena, pessoas interessantíssimas, com quem eu poderia passar horas batendo papo. Embora para a Helena seja difícil saber quem ela é, todos ali sabiam muito bem. Hoje eu também sei. 

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ME DIGA QUEM EU SOU
Sinopse:
Como num grito de alerta, Helena Gayer transmite as nuanças de uma pessoa apunhalada pelo transtorno bipolar. Com crueza, minúcia e fervor, a autora narra seus mergulhos ora em depressão ora em mania e as muitas experiências por que passou, correndo risco de morte e abusos. Ao se abrir e descrever com detalhes as inúmeras tentativas de ter uma vida normal, os episódios de completa alienação e as internações, ela deixa escapar, a cada linha, um pedido tênue, uma súplica fugaz, para que tenhamos um olhar mais apurado em direção à pessoa, não só à doença. Helena nos apresenta um relato íntimo sobre como é viver, sobreviver e constantemente se rearranjar nessa realidade tão dura e tantas vezes negligenciada. Diagnosticada aos 21 anos, ela remove e nos mostra cada estilhaço de sua trajetória, enquanto seguimos com ela numa jornada de dor e descoberta, mas, acima de tudo, de superação.

Me diga quem eu sou já está nas livrarias e foi lançado pela Editora Objetiva.

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Fernanda Pantoja é editora do selo Objetiva.
 

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