Raspútin: Fé, poder e o declínio dos Románov

Kelvin Falcão Klein

 

Depois da queda dos Románov, em 11 de março de 1917, o novo governo estabelece uma comissão de investigação do antigo regime, chamando para depor muitos dos altos dignatários agora presos. É aí que começa a se formar a aura ambígua e incerta de Raspútin, Grigóri Iefímovitch Raspútin, escreve Douglas Smith em seu monumental estudo sobre a figura – diabo santo, camponês iletrado, favorito da dinastia real, profeta.

Ansiosos para marcar distanciamento do antigo regime, os depoentes da comissão usaram Raspútin como uma espécie de bode expiatório, um recipiente mágico no qual cabiam todos os descalabros e absurdos possíveis – ou aquilo que imaginavam que os revolucionários gostariam de ouvir a respeito da decadência do poder real. As histórias foram se repetindo de relato em relato por décadas, consolidando a lenda de Raspútin como maquiavélico manipulador do poder. O colapso da União Soviética em 1991 foi o início também da abertura de arquivos nunca visitados por pesquisadores de fora da Rússia. É nessa brecha que o trabalho de Douglas Smith se encaixa.

“O poder de Raspútin existia, em grande medida”, escreve o autor, “na cabeça dos outros, onde crescia a cada ano”. Por conta de sua proximidade com o casal real, Nicolau e Alexandra, Raspútin era intensamente invejado por todos aqueles que queriam tal posição, mas que não tinham acesso a ela. Saído do interior gélido da Rússia e encaminhado ao centro do poder pela força de sua fé – abraçada pela imperatriz de fortes tendências místicas –, Raspútin se acreditava e apresentava como um enviado direto de Deus. Essa crença, contudo, se espalhou como um vírus, atingindo com força tanto aqueles que se alinhavam com a visão de Raspútin quanto aqueles do lado inverso.

A história de Raspútin, trágica e enigmática, é como a história de tantos outros favoritos reais, na Rússia e fora dela. “A lista é longa e macabra”, escreve Smith: Sejano, favorito de Tibério, foi estrangulado e despedaçado; Gaveston, favorito de Eduardo II, foi decapitado por um grupo de aristocratas vingativos; Álvaro de Luna, favorito de João II, foi decapitado a mando da segunda mulher do rei. Raspútin, contudo, permanece na memória coletiva. Ele “veio de fato da lama, mas, ao contrário dos antecessores”, ou seja, de favoritos anteriores, “jamais saiu dela”: “Não se tornou criatura permanente da corte, tentando limpar seu passado e integrar-se, com ansiedade um pouco excessiva, às fileiras da aristocracia, agarrando-se a títulos, ordens, propriedades e dinheiro. Pelo contrário. Raspútin não enriqueceu, nem adquiriu títulos e terras, preservando suas ligações com a família, a classe e a casa de origem”.

De resto, era exatamente isso que era esperado de Raspútin da parte daqueles no poder: devoção e abnegação ou, ao menos, a imagem pública da devoção e da abnegação. Com isso, também todo um conjunto de atributos e liberdades, sendo a principal delas a sinceridade. Smith cita cartas do imperador a seus ministros nas quais ele fala de Raspútin como o único que lhe diz a verdade e que lhe dá conselhos sinceros.

À semelhança, contudo, de nosso Antônio Conselheiro, a postura de Raspútin diante do poder repercutia em uma movimentação dos traços habituais do poder, e isso não podia ser tolerado. “A Rússia recebeu a notícia do assassinato de Raspútin com alegria quase universal”, escreve Smith, e mais adiante: “Os assassinos eram saudados como heróis”. Fascinante em suas especificidades, a história de Raspútin, no entanto, é arquiconhecida, e pode ser resumida na célebre frase de Hamlet: “tudo que vive deve morrer, atravessando a natureza rumo à eternidade”.  

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Saiba mais sobre Raspútin, de Douglas Smith

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Wilcock, ficção e arquivo (Ed. Papéis Selvagens, 2018). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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