Reflexões sobre "Cosmos", de Carl Sagan

Por Neil deGrasse Tyson

Foto: Trevor Owens

Publicado pela primeira vez em 1980, Cosmos reúne alguns dos conhecimentos mais avançados da época sobre a natureza, a vida e o Universo — e se mantém até hoje como uma das mais importantes obras de divulgação científica da história. Embora diversas descobertas fascinantes tenham ocorrido nos últimos quarenta anos, o tema central deste livro nunca estará desatualizado: nosso fascínio pelo conhecimento e a prática da ciência como atividade cultural. 

No dia 6 de novembro, uma nova edição do livro mais aclamado de Carl Sagan chega às livrarias, uma nova oportunidade para conhecer um dos cientistas que mais contribuíram para a divulgação da ciência e das maravilhas do nosso Universo. Além do prefácio de Ann Druyan, a nova edição também contém um texto de Neil deGrasse Tyson, que você pode ler a seguir.

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Nem todo aquele que consegue impactar corações e mentes de uma geração inteira terá essa aceitação de sua influência nas gerações posteriores. O continuado sucesso de Cosmos, a obra‑prima de Carl Sagan, depõe fortemente a favor da afabilidade e inteligência de seu autor. Mas também revela uma ânsia oculta de todos nós por conhecer o lugar que ocupamos no universo e compreender por que isso é tão importante em termos intelectuais, culturais e emocionais.

Essas propriedades distinguem a obra de Carl Sagan e seus colaboradores de todas as outras iniciativas de divulgação científica. A maior parte dos bons livros do gênero lhe ensina o que o autor supõe que você deva saber no campo de sua especialização — aquilo que é “quente”, que é interessante — numa linguagem clara e simples. Mas raramente essa informação tem o cunho de algo maravilhoso, que é o fundamento da visão de mundo de Cosmos. Seria ousadia minha afirmar que Cosmos maneja esse poder de uma forma que influenciou de maneira profunda o modo como observamos, interpretamos e conduzimos nossas vidas?

Um dos fatos menos observados no que concerne a Cosmos, mas que talvez seja sua mais significativa contribuição à cultura humana, é como essa obra repetidas vezes poliniza, cruzando e entrelaçando, ciências tradicionais — astronomia, biologia, química e geologia. Tomados separadamente, cada um desses campos é nobre e consagrado pelo tempo. Mas quando vistos em conjunto — quando Cosmos os entretece numa tapeçaria de concepções sobre nosso lugar no universo —, sua justaposição torna‑se potente e indelével. Cosmos foi um dos primeiros, se não o primeiro, nesse empreendimento. Nas décadas que se seguiram à sua publicação, veríamos o surgimento de campos de estudo híbridos, como a astrobiologia, a física de astropartículas, a astroquímica, a geologia planetária — alguns ainda vestindo seus hífens ou juntando seus termos.

Porém a publicação e o sucesso de vendas de Cosmos realizou muito mais do que isso. O tratamento que o livro dá aos temas científicos está sempre mesclado com outros campos de estudo tradicionais, como história, antropologia, arte e filosofia, mostrando pela primeira vez como e por que os leitores devem abranger todas as formas de ciência que importam em nossa cultura.

Na época, não havia nada mais inovador, mais edificante ou mais capacitante do que os temas e as mensagens de Cosmos. Talvez pela primeira vez, em qualquer mídia, a pessoa que lhe estava ensinando ciência — Carl Sagan — preocupava‑se com os intricados caminhos mentais que podem nos privar de uma forma racional de pensar. Sua motivação era falar com você, não lhe dar uma aula. Nesse nível de conforto pedagógico, milhões de pessoas por todo o mundo convidaram sua imagem televisiva a entrar em suas salas de estar, e suas palavras impressas a compartilhar suas poltronas de leitura.

Quando Cosmos apareceu pela primeira vez, em 1980, a corrida armamentista da Guerra Fria estava diminuindo, mas assim mesmo continuava a manter as nações do mundo reféns de um arsenal nuclear de imenso poder destrutivo, oriundo das mentes de físicos. A exploração espacial, contudo, ainda era promissora. A Nasa já havia pousado a Viking em Marte, sete anos depois de termos caminhado na Lua. E as sondas espaciais gêmeas Voyager prosseguiam em seu voo de passagem pelos planetas jovianos, em seu caminho de saída do sistema solar. Isso tudo eram notícias dignas de manchetes. Mas muito mais ainda estava por vir. O ônibus espacial ainda não tinha sido lançado. A Estação Espacial Internacional só existia no papel. O Telescópio Espacial Hubble estava a onze anos de ser projetado. Os primeiros exoplanetas — ou planetas extrassolares, que orbitam outros sóis, que não o nosso — estavam a quinze anos de serem detectados. A rede mundial de computadores ainda estava uma década distante de se tornar uma utilidade doméstica. E mais dezenas de missões espaciais ainda seriam lançadas e chegariam a seus respectivos destinos.

Num campo que se desenvolve com tanta rapidez como a astrofísica, poderíamos pensar ser impossível escrever sobre ele um tratado atemporal. Mas em Cosmos você nunca está focado na última palavra do desenvolvimento da ciência. Isso está sempre mudando. Em vez disso, o foco é aquilo que a épica aventura da investigação científica significa para a Terra, para nossa espécie — para você. E essa receita funciona em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer geração.

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Neil deGrasse Tyson é astrofísico do Museu Americano de História Natural, onde atua como diretor Frederick P. Rose do Planetário Hayden. Foi o apresentador e narrador do relançamento na TV, no século XXI, da série Cosmos, transmitida pelo canal FOX em 2014.

 

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