Ritmo, movimento e a inflexibilidade dos privilégios

Por Clarissa Wolff

 

 

A fisiologia da dança segue o ritmo de uma genética impiedosa. A curva aguda do dorso do pé, a hiperextensão de tendões que é a fada madrinha da flexibilidade, a rotatividade da articulação femoral. Tudo isso é o assoalho da construção artística do balé. A precisão e a técnica são apenas o básico, condição sine qua non a partir da qual surge a expressão da arte, e minibailarinas ainda na primeira infância são descartadas como carne de segunda após a medição milimétrica de seus membros, a análise atenta de sua capacidade de alongamento. É todo um futuro impresso em uma combinação fenotípica.

Da protagonista de Ritmo louco, último romance de Zadie Smith, é roubada essa vida, mesmo com a dedicação iludida em aulas de dança durante toda a infância. É lá que ela conhece Tracey, sua então melhor amiga, seu ponto de identificação e diferença. É, como ela, a única aluna birracial. Mas Tracey e sua família quebrada, sua realidade mimada e a confiança de criança talentosa em nada se parece com a narradora, que vive o começo do desmembramento familiar cuja causa é a emancipação feminina. Sua mãe tem mais interesse em se tornar uma intelectual política do que na maternidade, em que a filha serve principalmente como prova de sua própria diferenciação: existe um controle sobre a criança para que siga desde cedo os passos da independência e da inteligência, e em certo momento a narradora, arrumando as roupinhas da Barbie na casa de Tracey, reflete como na própria casa tal atividade seria proibida pelos seus ecos de opressão doméstica. “Colocamos a vida daquela pequena mulher branca em ordem.”

Para o resto da vida, é o que vai fazer – mas a mulher branca não é mais plástica e de brinquedo. Aimee é uma estrela da música pop e a protagonista, sua assistente pessoal a acompanhando dos palcos urbanos a missões humanitárias na África Ocidental. A narradora imprime nas páginas as pegadas de um racismo sutil, quase invisível, que a persegue da infância à vida adulta. Mas isso também é colocado em perspectiva ao pisar na África, onde pela primeira vez ela é obrigada a se reconciliar com os próprios privilégios de ter nascido na Europa e de ter a pele clara – dos males, o menor. Como no balé, é uma sequência genética por trás de um futuro roubado.

Os temas que Smith trabalha durante as mais de 500 páginas exaltam a consciência millennial de quem se rotula com o neologismo americano "woke": a síndrome de colonizador que vai salvar os mal afortunados, a apropriação cultural de uma cantora rica que faz caridade, a competição entre melhores amigas, a independência feminina e seus impactos, a consciência de sexo, raça, classe, e principalmente o quanto a própria felicidade perde a subjetividade quando julgada pelo olhar de outra pessoa. O controle que desejamos ter sobre a própria imagem pode ser superlativo em épocas de atenção monopolizada pelas redes sociais, mas segue ilusório, e Smith discute o tema com uma narrativa sofisticada em primeira pessoa.

O livro tem ritmo, beleza e movimento, construindo-se como uma dança e nos levando para lugares inesperados. Tracey vai sumindo conforme o romance avança, para aparições pontuais e significativas ao longo do tempo. Ao contrário da protagonista, ela não viajou o mundo: ficou no mesmo lugar, o talento desperdiçado por outros determinismos sociais – menos imutáveis que o genético, mas ainda assim implacáveis. Mas a narradora também não se livra da promessa de um potencial que não se cumpre, e é no prólogo que ela percebe finalmente viver na luz de outros e experimentar a própria existência como uma espécie de sombra.

O autoboicote é direcionado, na verdade, à própria mãe, o trauma do relacionamento a impedindo de desenvolver qualquer desejo pela maternidade também. Em certo momento, ao declarar isso em voz alta, é confrontada por uma Aimee escandalizada: “bom, eu sou mãe solteira e eu garanto que meu bebê não me impede de fazer nada”, ela relata, enquanto a babá cuida do bebê em questão. A cegueira social de Aimee, tão evidente nesse momento, em outros reverbera na própria narradora. Chegando ao Togo, ela pergunta sobre o local para um homem que só esteve em outros países africanos: “se estivéssemos na Europa e você quisesse saber como é a França, ajudaria se eu explicasse a Alemanha?”, ele responde.

É essa a relativização que talvez seja o principal tema de Ritmo louco, no qual não existe experiência ou ideia absoluta. As experiências da narradora se transformam de forma inconsciente em um espelho dos seus próprios julgamentos, expostos um após o outro quando ela mesma é jogada em situações com as quais não está acostumada. Discussões raciais – “No Brasil, não nos consideramos brancos – você acha que sou branco?” – se chocam com questões de fé, a religião e a política em um embate que só é possível através de uma experiência pessoal e individual capaz de deslegitimar qualquer argumento: “Existem tantos jeitos diferentes de ser pobre.”

A história que nasce com duas pequenas bailarinas e evolui, em saltos cronológicos e geográficos, até o escândalo que faz a narradora ser demitida pela sua chefe popstar é como uma digital da experiência humana e suas diversas diferenças, universais mesmo quando específicas.

“Você acha que ela está feliz?”, a narradora pergunta, quando se depara, incrédula, com uma escolha surpreendente de uma amiga que ela achava conhecer muito bem. A resposta, de novo, coloca em questão a própria validade do questionamento – e, de certa forma, de todos os questionamentos:

“Ah, sim, para vocês essa é sempre a pergunta mais importante.”

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Clarissa Wolff é escritora. Seu primeiro romance, Todo mundo merece morrer, foi publicado pela Verus em 2018, e ela já escreveu para veículos como Folha de S.Paulo, Rolling Stone, Cult, CartaCapital e outros.

 

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