Road comics, 2017

Érico Assis

Página de You & A Bike & A Road, de Eleanor Davis.

Jason é o pseudônimo de John Arne Sæterøy, quadrinista norueguês bem conhecido por HQs com personagens antropomórficos em linha clara. Este ano saiu no Brasil Sshhhh!, primeiro trabalho dele que aparece por aqui. No resto do mundo, seu álbum do ano é On the Camino.

Quando completou 50 anos, Jason resolveu fazer o Camino de Santiago de Compostela. O quadrinho é o relato dessa caminhada, que durou 32 dias. É muito apropriado ao autor fazer um relato sobre uma caminhada – um dos principais comentários às suas HQs é que, nelas, acontece pouquíssima coisa (e fala-se ainda menos). O que você tem a relatar depois de fazer o Caminho de Santiago é: caminhei, encontrei gente caminhando, escolhi o albergue da noite, caminhei, tratei as bolhas, lavei as meias e caminhei.

Logo no início, Jason encontra um brasileiro: Helio, dentista. Jason pergunta se pode colocar as meias na secadora do albergue junto às roupas do desconhecido. Helio diz: “Claro”. No dia seguinte, eles se encontram no caminho. Jason pergunta: Helio trouxe a pedra para deixar na cruz de ferro (uma tradição dos caminantes)? Não, não trouxe. Pois é, Jason trouxe. Ok. Eles seguem caminhando.

Digamos que a HQ não é tão prosaica o tempo todo. Assim como em seus outros álbuns, Jason sabe que não pode fazer um quadrinho absolutamente sobre nada. Embora as outras pessoas que ele encontra pelo camino rendam conversas tão empolgantes quanto as com Helio (talvez culpa do próprio autor, dada a índole escandinava de não dar muito papo), a melhor companhia de caminhada de Jason é sua imaginação. Ele se imagina marchando sob ordens do sargento de Nascido para matar ou, ao encontrar a placa de uma cidade chamada Estella, gritando e rasgando as roupas como Marlon Brando em Um bonde chamado desejo. Também se recrimina por fazer ou pensar em fazer piadas com um filme em que Martin Sheen fez o camino (“Tem alguma cena do filme que mostre ele lavando as meias? Rá, rá.”).

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No ano passado, Eleanor Davis planejou cruzar o sul dos EUA de bicicleta. Saiu da casa dos pais em Tucson, Arizona, para ir até sua própria casa em Athens, Georgia. Dá quase quatro vezes o Caminho de Santiago, mas de bicicleta dá para fazer quase no mesmo tempo que o Jason: um mês e pouco. Ela transformou a viagem em livro: You & A Bike & A Road (Você & uma bicicleta & uma estrada).

Davis começou a viagem em fins de março, quando o país já estava na discussão ferrenha que acabaria/continuaria em Trump. Progressista de carteirinha, ostentando sovacos cabeludos, cruzando os estados mais conservadores dos EUA – e, vale lembrar, de bicicleta – é claro que permeia o relato ciclístico um papo sobre imigração, preconceitos, religião e desavenças ideológicas. Ao lançar o livro este ano, ela disse: “Lembro que, na época, eu tive medo. Mas era o temor quanto a um futuro possível. Estamos naquele futuro”.

Em maio último, a quadrinista foi presa por protestar contra políticas anti-imigrantes no país. Saiu sob fiança no mesmo dia.

Davis é uma ilustradora brilhante e, aparentemente, rápida. Ela escolhe ângulos que ao mesmo tempo aproveitam a dimensão da página, estabelecem uma composição dinâmica e aproveitam a beleza natural que quis retratar – ganha destaque a vegetação de cada estado por onde ela passa. Boa parte do livro foi desenhado durante a viagem, no intervalo entre os 60 ou 80 km pedalados no dia, enquanto o gelo acalmava os joelhos aos gritos.

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Em 1997, o francês Christophe André passou três meses indo de lugar nenhum a lugar nenhum. Funcionário administrativo da Médicos Sem Fronteiras na Inguchétia, André foi sequestrado por terroristas chechenos que queriam 1 milhão de dólares da organização humanitária pelo seu resgate.

André acabou fugindo – e isto não é spoiler, pois é o título de seu relato em versão quadrinhos, S’Enfuir. Em inglês, o álbum ganhou outro nome: Hostage (“refém”). Quem conta a história do sequestrado é Guy Delisle, franco-canadense conhecido por quadrinhos autobiográficos sobre suas visitas a lugares tensos (Pyongyang, Shenzen, Crônicas Birmanesas, Crônicas de Jerusalém). É a primeira vez que ele tira o "auto" da biografia.

Em termos de road comics do ano, S’Enfuir é o mais comprido: 432 páginas, mais que a soma dos livros de Jason e de Eleanor Davis. E três quartos destas páginas tratam dos cento e poucos dias que um cara passou dentro de quatro paredes, cativo de gente que nem falava uma língua que ele entendia. Apesar da fuga eventual, é uma HQ sobre ficar parado. Por que resolvi falar dela junto com duas HQs sobre viagens?

Bom, pode ser só porque eu li esses três bastante próximos. Mas, fora a proximidade de lançamento e o fato de serem relatos biográficos, os três ainda tratam de uma trajetória, de ir de A a B. E mesmo que você saiba que o desfecho é B – terminar o camino, chegar em casa, fugir do cativeiro – tal como nos road movies, o que importa é o trajeto.

Nem Jason, nem Eleanor, nem André (na interpretação de Delisle) terminam seus relatos dizendo que aprenderam tal e tal coisa. O sentido não é chegar a um entendimento só – assim como a narrativa não trata só de chegar a algum lugar – mas atravessar aquela experiência. De novo: o que importa é o trajeto. Quem pode encontrar algum sentido nestes trajetos, se quiser, é o leitor. Mas atravessar estes relatos, pelo menos estes, já vale como melhor dos sentidos.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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