Rumo a "Esta terra selvagem"

Por Isabel Moustakas

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Acho que é impossível dizer com precisão como tudo começou. Mas lembro-me do seguinte: era tarde de domingo, fazia sol e eu estava sentada na beira da piscina, no sítio de um amigo, quando me veio a imagem de uma faca perfurando o olho de alguém. Do nada. Fiquei olhando para as minhas pernas dentro d’água, tentando entender de onde aquilo tinha vindo. Depois de uns cinco minutos, ainda meio atordoada, levantei-me e fui fazer outra caipirinha. É claro que não vou dar spoilers aqui, mas posso dizer que essa imagem é bem importante em Esta terra selvagem.

Quando já estava de volta a São Paulo, um colega advogado comentou sobre o caso de alguém, um nordestino, que tinha sido espancado por um bando de skinheads. Sem planejar nada, comecei a pesquisar sobre esses grupos, navegando por sites assustadores e até indo a um bar em Osasco onde me deparei com uns sujeitos ostentando tatuagens de runas nórdicas iguais às das SS nazistas e do número 88 — a oitava letra do alfabeto é “H”, daí que “88” é “HH”, Heil Hitler. Para resumir, vou dizer que os caras deixaram bem claro o quanto a minha presença ali era desaconselhável. Voltei para o Limão em tempo recorde. Penso que tive muita sorte.

Depois disso, eu me concentrei na segurança das pesquisas virtuais. Descobri que há toda uma variedade desses grupos, que vão desde neonazistas a anarquistas, passando por nacionalistas e até mesmo antifascistas. Eles se diferenciam uns dos outros, entre outras coisas, pela cor dos cadarços dos coturnos. Por exemplo, em alguns casos, o uso de cadarços vermelhos pode indicar uma tendência comunista.

Então, certa manhã, uma história começou a se formar na minha cabeça. Imaginei o quanto seria terrível um grupo skinhead muito bem organizado agindo em São Paulo, perseguindo nordestinos, imigrantes latino-americanos, gays etc., por meio de ações tão brutais quanto cuidadosamente planejadas, e em um número cada vez maior. Eles usam cadarços verde-amarelos e são investigados por um jornalista que, no começo do livro, é colocado em uma situação das mais chocantes. Com o passar do tempo, em paralelo ao que acontece na cidade e numa atmosfera crescente de pesadelo, o protagonista se vê cada vez mais encurralado. Ele não é um herói, mas uma pessoa ordinária atirada numa situação extraordinária.

Eu tinha as linhas gerais da história e uma ideia mais ou menos clara de quem era o meu protagonista. Fiz um esquema, dividindo tudo em capítulos. E logo de cara percebi que, para funcionar, Esta terra selvagem teria de ser curto. Claro, também porque sou uma autora estreante, eu não poderia me dar ao luxo de ser prolixa. O risco de me embananar e diluir a tensão seria grande demais. Assim, resolvi que faria capítulos curtos, com os fatos atropelando o personagem principal numa velocidade cada vez maior, sobretudo a partir de uma passagem no meio do livro. Tentei criar algo febril, intenso e compacto, do tipo que as pessoas leem de uma só vez, sem parar. E, a julgar pelas palavras generosas do escritor Raphael Montes neste blog, parece que acertei em algumas coisas.

Para concluir, quero dizer que acho importante retratar a violência que não só esteve sempre presente como parece aumentar a cada dia, ganhando corpo nesse período complicado pelo qual passa o país. A selvageria é cotidiana. Procurei refletir um pouco sobre ela.

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Sinopse: João é um repórter policial de um grande jornal paulistano. Aos trinta e dois anos, já coleciona um casamento fracassado e ainda não fez nada de muito grandioso na profissão. Mas o envolvimento na investigação de um crime hediondo irá transformar sua vida de modo devastador. Uma jovem que assistiu à tortura e ao assassinato brutal dos pais — um boliviano e uma descendente de italianos —, e que depois fora abusada das piores maneiras, ainda não havia falado com a imprensa. Sete meses após esses crimes, João é o primeiro jornalista a ouvir o relato de cada detalhe perturbador do que ela havia presenciado. Ao final do depoimento, a garota tira a própria vida diante dos olhos dele. A partir deste terrível episódio, o repórter irá seguir pistas que o levarão a um suposto grupo racista que vem cometendo atrocidades contra imigrantes, negros, judeus, nordestinos, gays e quaisquer pessoas que considera impuras. O pouco do que se sabe sobre eles é que usam coturnos pretos com cadarço verde-amarelo. Neste romance de estreia, Isabel Moustakas cria uma trama extremamente ágil e violenta, que mal permite um respiro do leitor.

Esta terra selvagem já está nas livrarias.

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Isabel Moustakas nasceu em Campinas, São Paulo, em 1977. É formada em direito e vive na zona norte de São Paulo, com o marido e a enteada.

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