Rupturas - Mateus Baldi entrevista Luiz Ruffato

Mateus Baldi
Por Mateus Baldi
 
Encontrei Luiz Ruffato poucas horas antes de começar o lançamento carioca de A cidade dorme, seu novo livro – o primeiro de contos. Mineiro de Cataguases, Ruffato estourou logo no primeiro livro, o aclamado Eles eram muitos cavalos, em que reconstrói um dia na cidade de São Paulo a partir de diversos pontos de vista formais.
 
Seu último livro inédito, Flores artificiais, saiu em 2014. Em meio às reescritas da pentalogia Inferno provisório e do romance De mim já nem se lembra, Ruffato sentiu necessidade de dar ao público algum material novo. Peneirando narrativas escritas entre 2001 e 2017, encontrou um fio condutor que unisse as 20 histórias selecionadas para A cidade dorme.
 

 

Foto: Adriana Vichi

 
Penso em termos de espaço e tempo – explica. – Os contos nascem em Cataguases, caminham até São Paulo e vão embora até virar um espaço sem espaço, que é o "Destinos". E o tempo caminha de um tempo específico, década de 60, até um tempo indeterminado. A ideia que tentei pegar era esse fluxo. Os contos do livro não foram publicados cronologicamente. Pensei cronologicamente no tempo de 1960 até século 21. Tem contos que dialogam formal e tematicamente com Inferno provisório, De mim já nem se lembra, e outros que dialogam com Eles eram muitos cavalos

 

 
- Você já declarou diversas vezes que tem um projeto literário que visa dar voz à classe média baixa. Como esse projeto se insere na hora de escrever um conto?
 
- Essa classe média baixa não necessariamente é operária. Pega os bolivianos em São Paulo, por exemplo. Estão lá há muitos anos e ninguém fala dos bolivianos. E tem um conto, "¡Gua!", que fala de uma menina boliviana. Não falo disso porque é pra fazer, falo porque eu vejo, tenho olhos e vejo. Escolho e vejo esses aspectos da sociedade. Uma amiga falou pra mim que nunca tinha pensado num Papai Noel comendo no intervalo de trabalho e eu fiquei pensando que aquele cara é humano, aquilo é trabalho. 
 
Ruffato respira, observa as garçonetes apertadas no entremesas do bistrô e continua: 
 
- Talvez meu vício seja esse, ver trabalho. Todo lugar que eu vejo é trabalho, inclusive porque uma coisa que me incomoda na literatura brasileira é o não-trabalho dos personagens. Os personagens nunca trabalham. Mesmo tendo a profissão, eles não trabalham, ou então é escritor, puta que pariu, acho uma chatice escritor que escreve romance sobre escritor. Que interesse que tem nisso? 
 
- Você reescreveu a pentalogia Inferno provisório e boa parte destes contos para o livro. Como é esse processo? Por que reescrever após a publicação?
 
- Veja bem, eu tenho pra mim que literatura é linguagem. Ponto. Mais que isso – literatura é a busca por transcendência. E o que é a transcendência pra mim? É você escrever sobre um espaço específico, em um tempo específico, e poder ser compreendido em outro espaço, outro tempo. E isso se dá, no meu ponto de vista, pela linguagem. Eu tenho pra mim que o trabalho do escritor é encontrar a expressão ideal para o que ele quer exprimir. Essa expressão ideal se dá em um trabalho enorme de reescrita do livro. Quando eu publico um livro, esse trabalho não terminou, foi provisoriamente concluído. E quando o livro sai, eu pego o livro e começo a remexer porque tento, numa busca insana, já derrotada em princípio, encontrar a expressão ideal. Uma das coisas que fui eliminando foram os maneirismos. E o que chamo de maneirismos? Uma desnecessidade de excesso formal, coisas que botei porque achava que tinha de mostrar que tinha lido isso, que sabia fazer aquilo. Eram cinco volumes. Virou um livro com um prólogo, um epílogo e quatro partes. Tá tudo lá, só que reorganizado. É outro livro? Não. Mas é um livro diferente? Sim. Agora acho que o leitor vai ter oportunidade de ler aquelas histórias juntas e ter uma outra percepção do conjunto do processo. Agora me conta: o que você achou do último conto do livro, "A alegria"?
 
- É insano – admiti. – Não entendi nada. Tem algum fluxo? Sei lá, parece existir um descolamento entre linguagem e narrativa, como se fossem coisas separadas. Um clima vitoriano, uma linguagem rebuscada, mas ao mesmo tempo a Cataguases do presente. Conversei com umas pessoas. Muita gente não entendeu. Parece algo meio de sonho, sei lá, uma linguagem onírica de Ruffato, um Ruffato Wake.
 

 
Foto: rawpixel.com on Unsplash
 
Ele gargalha e estende as mãos, feliz, admitindo o nonsense. Então me explica como se deu o processo de feitura da quase-novela:
 
- Eu vejo aquilo como um sonho. Um grande devaneio. Desde Inferno provisório, escrevi umas histórias coladas de um jeito esquisito. Tem uma chamada "O ataque", que um menino sonha que vai ser atacado pelos nazistas, e tem "O segredo", sobre a crucificação de um sujeito em Cataguases, e as duas estão em um contexto realista, mas têm a ver com meus sonhos.  Eu não lembro dos meus sonhos, tem isso, e um dia eu virei para uma namorada e falei – Que curioso, eu lembrei desse sonho. E aí contei tudo, e ela disse – Não é um sonho, não tem uma lógica. Sentei no computador e escrevi. Comecei a estender, estender e quando terminei era essa história. Absolutamente onírica. Não tem, digamos assim, uma âncora realista, apenas algumas chaves de leitura que são imagens, é uma história absolutamente imagética. Em determinado momento eu tentei entender, encontrar uma explicação, mas acho que é para o leitor entender, pra sentir uma explicação. A grande questão que está ali é ver que o narrador se surpreende com absolutamente nada. O sonho, o título. Tudo é um registro onírico, então preferi não mexer. Não sou o melhor leitor dessa história. O que você falou é fundamental: há um descolamento entre linguagem e forma.
 
- Em vários contos de A cidade dorme há a temática da ditadura: nas famílias que apoiam, nos jovens torturados, nas lembranças. Como é sua relação com este período da História brasileira e como é pensado ao escrevê-lo? Há algum cuidado ou pesquisa?
 
- Não faço pesquisa nenhuma. Meu corpo é o repositório da minha literatura, meu corpo é meu caderninho de anotações. Todas as coisas que acontecem, os cinco sentidos, precisam estar a serviço do corpo. E aí, quando eu vou escrever, é só deixar que essas sensações apareçam. Falar sobre Ditadura hoje é fundamental, porque estamos vivendo de novo esse mesmo momento de insegurança jurídica, estamos judicializando as coisas. É terrível a aceitação da população de que tem que haver um poder autoritário para que as coisas funcionem. Acho que precisamos relembrar o que foi a ditadura, esse processo de anulação do sujeito, que você é objetificado, em certo sentido, porque para mim, quando se discute Ditadura está se discutindo esse momento. É uma atualização daquele momento. Estamos vivendo um momento de ruptura do Estado de Direito. Em "Água parada", um dos contos do livro, há a ação da polícia contra os pobres, e o que se tem hoje? Ação da polícia contra os pobres. Não mudou nada.
 

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Mateus Baldi nasceu em 1994. É escritor e roteirista. Fundou a plataforma literária Resenha de Bolso, foi editor de cultura da revista Poleiro e colaborador de literatura no site da Piauí.
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