Semana trezentos e cinquenta e sete

Companhia das Letras

Jogo de cena em Bolzano, de Sándor Márai (tradução de Edith Elek)
Condenado pela Inquisição por levar uma vida herética, Giacomo Casanova passou dezesseis meses numa prisão de segurança máxima até dela conseguir fugir. Partindo desse episódio, Sándor Márai empresta artifícios da opereta para criar um envolvente jogo de cena, imaginando que, três dias depois da fuga, os forasteiros teriam chegado em Bolzano, no extremo norte da Itália. Lá, o mal-afamado veneziano usará todas as artimanhas para bancar sua dispendiosa vida, mas terá seu destino abalado pelo encontro com fantasmas de um passado nem tão distante. Espécie de prévia de As brasas, este romance de 1940, até agora inédito no Brasil, também coloca em cena dois homens que se veem como joguetes do habilidoso ficcionista. O grande autor húngaro, além de inspirado criador de aforismos, demonstra mais uma vez sua maestria na construção de monólogos filosóficos saborosos, que tocam nos temas mais caros à literatura: destino, amor, honra, vaidade, vida e morte.

A boa política, de Renato Janine Ribeiro
Estamos acostumados a utilizar república e democracia como termos quase intercambiáveis. Ambos parecem expressar o arremate a que chegou o Ocidente moderno em termos de organização política desejável, como se a ampliação das liberdades, o avanço dos direitos humanos e a melhoria das condições de vida constituíssem a marcha incontornável da humanidade — e os períodos de retrocesso não passassem de meros desvios. Mas e se esses parênteses da história formos nós? Eis a inquietação que move o filósofo Renato Janine Ribeiro em A boa política, reunião de artigos escritos ao longo de mais de vinte anos. Atento aos desafios de uma época em ebulição, o autor discute o valor ético e político da internet e examina grandes problemas de nossa experiência democrática, debatendo, entre outras questões em voga, a ideia de representação, o voto obrigatório, os escândalos de corrupção, a crise de imagem ética do PT, os impeachments, as utopias e os movimentos de protesto.

Câmera lenta, de Marília Garcia
Depois de Teste de resistores, Marília Garcia dá continuidade à sua pesquisa sobre o processo poético. Na última parte de Câmera lenta, ela se dedica a uma profunda análise sobre as hélices do avião e sobre a vontade de decifração. O poema, aqui, é o lugar para experimentar, exercitar o pensamento “ao vivo” e testar procedimentos novos, sempre em aberto. Para Italo Moriconi, que assina a orelha, trata-se de uma “poética desbravadora, sofisticada, antenada”.

As perguntasde Antônio Xerxenesky
Alina enxerga sombras e vultos desde criança. Doutoranda em história das religiões, especializada em tradições ocultistas e aferrada à racionalidade que tudo ilumina, ela se acostumou a considerar as aparições como simples vestígios de sonhos interrompidos. Certo dia, um telefonema da delegacia desarruma sua rotina de tédio programado. A polícia suspeita de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. A única pista disponível é um símbolo geométrico desenhado por uma das vítimas. Intrigada e ansiosa para fugir da rotina, Alina decide investigar por conta própria um mistério que a fará questionar os limites entre razão e religião, cultura e crença. Em As perguntas, Antonio Xerxenesky costura o tédio da vida cotidiana com o desconforto do horror em um livro repleto de referências ao universo dos filmes, da música e do ocultismo.

Neve negra, de Santiago Nazarian
Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pai de família volta para casa. Pintor de sucesso, passa boa parte de seu tempo em feiras e exposições no exterior. E na sua cidade natal, na Serra Catarinense, se depara com o inesperado. Enquanto a neve cai lá fora, sua família dorme. Mas quando seu filho de sete anos desperta é que começa um pesadelo que acabará com o aconchego do lar. Neste habilidoso misto de terror psicológico e drama familiar, o leitor se depara com paranoias e dúvidas ancestrais da paternidade. É também um raro registro da neve no Brasil, num romance no qual questões existenciais se mesclam com o humor negro de que só Nazarian é capaz.

A mãe de todas as perguntas, de Rebecca Solnit (tradução de Denise Bottmann)
Rebecca Solnit é hoje uma das principais pensadoras do feminismo contemporâneo. Autora do famoso ensaio que deu origem ao termo mansplaining, que veio revolucionar o vocabulário das discussões sobre gênero, sua obra é leitura obrigatória tanto para as pessoas mais experimentadas no tema quanto para aqueles que desejam se iniciar em um dos principais debates da sociedade atual. Em A mãe de todas as perguntas, Solnit parte das ideias centrais de maternidade e silenciamento feminino para tecer comentários indispensáveis sobre diferentes temas do feminismo: misoginia, violência contra a mulher, fragilidade masculina, o histórico recente de piadas sobre estupro e outros mais. Cristalinos e contundentes, seus ensaios devolvem ao tema toda a gravidade ele merece, sem abrir mão da poesia e do humor característicos de sua escrita.

A descoberta da escrita, de Karl Ove Knausgård (tradução de Guilherme da Silva Braga)
Aqueles que acreditam que o talento literário se resume a uma vocação inata não podem deixar de ler A descoberta da escrita, quinto volume da série que ultrapassou as fronteiras da Noruega para ganhar o restante do mundo, consagrando-se como um dos maiores sucessos literários dos últimos tempos. Neste romance autobiográfico, o autor percorre seus anos de estudante de escrita criativa na cidade universitária de Bergen. Com a honestidade que lhe é característica, explicita as dificuldades e frustrações que permeiam o caminho de todo aspirante a romancista: "eu sabia pouco, queria muito e não conseguia nada", confessa o narrador. Às intempéries da formação de escritor somam-se os conflitos e inseguranças da juventude, permeados por episódios de bebedeira, brigas, insucessos românticos e toda sorte de golpes ao narcisismo pueril daquele que viria a se tornar o maior escritor vivo da Noruega.

1492de Felipe Fernández-Armesto (tradução de Luiz A. de Araújo)
Embora a historiografia eurocêntrica consagre 1492 como o ano em que o navegador Cristóvão Colombo chegou à América, os outros continentes também efervesciam em acontecimentos. Na Ásia, na Europa e na África, pipocavam guerras, acordos comerciais, perseguições e disputas religiosas, caracterizando um momento particularmente profícuo e agitado de nossa história, cujas consequências foram sentidas em quase todas as partes do globo. Em 1492, o historiador Felipe Fernández-Armesto reconstitui de forma original essa atmosfera fervilhante, destrinchando os episódios que explicam o surgimento da modernidade e que tornaram possível o mundo em que vivemos. Uma viagem na companhia de personagens célebres como Isabel de Castela, Zheng He e muitos outros.

Quadrinhos na Cia. 

Hilda e o gigante, de Luke Pearson (tradução de André Conti)
Hilda é uma garota esperta e aventureira que consegue fazer amizade com as mais diversas criaturas — de trolls ameaçadores a enigmáticos homens de madeira. Mas ela não está tendo a mesma sorte com um exército de elfos minúsculos e invisíveis que mora em volta de sua casa…
Hilda fará de tudo para defender seu lar e evitar uma mudança para a cidade grande. Mas lidar com os elfos não vai ser nada fácil — cada etapa precisa ser assinada, carimbada e encaminhada às instâncias superiores. Enquanto lida com a burocracia, Hilda ainda terá de resolver o mistério do gigante que aparece toda noite em sua janela. Afinal, os gigantes de antigamente não tinham desaparecido?

Companhia das Letrinhas

Férias com sorvete, de Peter Sís (tradução de Érico Assis)
As férias de verão finalmente chegaram. E, para Joe, isso significa ter muitos dias livres para brincar, ler e… tomar sorvete! Para que seu avô não perca nenhum detalhe desses dias especiais, o menino escreve uma carta contanto tudo o que aprendeu sobre sua sobremesa favorita para ele. Dos sabores de que ele mais gosta até a história de como o sorvete chegou nas Américas e se tornou tão popular, Joe conta tudo o que sabe e, desse jeito, faz do sorvete algo ainda mais gostoso.

Suma de Letras

Deuses renascidos, de Sylvain Neuvel (tradução de Mateus Duque Erthal)
Ainda criança, Rose fez uma descoberta inacreditável: uma gigantesca mão de metal, escondida nas profundezas da Terra. Já adulta, ela dedicou sua brilhante carreira científica a resolver os mistérios que envolviam o artefato. Por que um robô gigante de origem desconhecida estava enterrado em pedaços ao redor do mundo? Anos de investigação renderam respostas intrigantes e perguntas ainda mais complexas. Mas a verdade está mais perto do que nunca, agora que um segundo robô, mais titânico que o primeiro, se materializou na Terra. E, quando outras máquinas colossais pousam no planeta, a humanidade vive seu pior pesadelo. Rose e seu time do Corpo de Defesa da Terra tentam impedir a invasão. É possível virar o jogo, se conseguirem desvendar os últimos segredos de uma avançada tecnologia alienígena. A arma mais poderosa da humanidade é seu conhecimento — e esta é uma batalha de vida ou morte pelo controle da Terra... e talvez até das estrelas.

Alfaguara

Todos os belos cavalos, de Cormac McCarthy (tradução de Marcos Santarrita)
John Grady Cole é o último sobrevivente de uma longa geração de rancheiros texanos. Privado da vida que ele acreditava que teria, Cole parte em uma viagem para o México com o amigo Lacey Rawlings. Encontrando um terceiro viajante pelo caminho, eles descobrem um país muito maior do que imaginavam: devastado e belo, árido e cruelmente civilizado, um lugar onde sonhos são pagos com sangue. Todos os belos cavalos é uma obra-prima de Cormac McCarthy, uma história sobre o amor, sobre o fim da infância e da inocência e sobre a sabedoria advinda da perda. Uma parábola magnífica sobre responsabilidade, vingança e sobrevivência. Um clássico americano.
 

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