Semana trezentos e sessenta e sete

Companhia das Letras

A noite da espera, de Milton Hatoum

Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação. Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos. Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo. Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe. 

O rei da velade Oswald de Andrade

Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez trinta anos mais tarde pelo Teatro Oficina, esta é a peça fundamental de Oswald de Andrade. Ao retratar um país mergulhado na crise financeira de 1929, às vésperas do Estado Novo, O rei da vela aponta a utopia de um projeto político que não viria a se concretizar. Oswald apresenta uma peça de teatro profundamente anarquista, que explora a força soberana do imperialismo americano em toda sua dimensão caricata e grotesca. No centro do palco está o escritório de agiotagem Abelardo & Abelardo, em um enredo que tem como pano de fundo a ambição tacanha e desenfreada de um país subdesenvolvido, as falcatruas, a decadência, o desprezo pela moralidade e o sexo estapafúrdio. O volume inclui textos inéditos de Décio de Almeida Prado e de Renato Borghi, além de um manifesto de 1967 de José Celso Martinez Corrêa, que assina também um pós-escrito para esta edição.

Salde Antonio Fernando de Franceschi

Dividido em oito partes, Sal mistura desejo de aventura e rara erudição de um poeta que não tem medo de mergulhar fundo nas dores e na sensualidade humanas. Com olhar sempre inquiridor, ele compõe uma espécie de inventário de si e também do seu entorno: “eu contrário/ me lanço ao mundo”. Na orelha assinada por Heloisa Jahn, ela chama atenção para a sintaxe que combina concisão e delicadeza, com “um olhar ao mesmo tempo múltiplo e exato”. Ao percorrer memórias, leituras e releituras, ela aponta: “na poesia de Franceschi as palavras são exatas como se fabricadas em molde”.

Companhia das Letrinhas

O homem-cãode Dav Pilkey (tradução de André Czarnobai)

Antes do Capitão Cueca, Jorge e Haroldo criaram um novo herói que bebe água da privada, rola sobre os bandidos e late na cara do perigo! Quando o oficial Rocha e seu cachorro Greg sofrem um acidente, o único jeito de os dois sobreviverem é fundindo a cabeça do cão com o corpo do policial — e é assim que nasce o Homem-Cão, o melhor policial da cidade! Porém, ele tem um grande inimigo: o terrível gato Pepê, e não vai ser nada fácil enfrentar esse vilão que até pode parecer fofinho, mas tem milhões de ideias maldosas na cabeça.

Penguin - Companhia

Máximas, pensamentos e ditos agudosde Machado de Assis

Composto por trechos selecionados de correspondências, crônicas e textos críticos escritos por Machado de Assis entre 1858 e as vésperas de sua morte, em 1908, este volume traz à luz a posição do escritor diante das principais questões de seu tempo. Divididos em assuntos, os excertos que compõem cada seção estão dispostos em ordem cronológica, de modo a se poder acompanhar o tratamento por ele dispensado a cada tópico ao longo dos anos. Dando mostra da agilidade, precisão e graça de sua escrita, as reflexões de Machado de Assis são dotadas de extrema atualidade, o que não passará desapercebido ao leitor atento, em quem a leitura certamente despertará o riso da galhofa, histórica companheira da melancolia.

A origem da desigualdade entre os homensde Jean-Jacques Rosseau (tradução de Eduardo Brandão)

Este notável clássico da filosofia política foi escrito por Rousseau para atender à questão posta pela Academia de Dijon — “Qual é a origem da desigualdade entre os homens e se ela é legitimada pela lei natural”. Em sua resposta, o filósofo se pergunta em primeiro lugar “o que é o homem?”. Para tanto, remonta à ideia de estado de natureza, para em seguida evidenciar o quanto a humanidade se afastou dele e, assim, fixar o cerne do problema da desigualdade entre os homens. Segundo Rousseau, o crescimento da civilização corrompe a felicidade natural do homem e sua liberdade ao criar desigualdades artificiais de riqueza, poder e privilégios sociais. Alvo de duras críticas ao longo dos séculos, este discurso se mantém tão atual e polêmico quanto o foi em 1755. 

Alfaguara

O domde Vladimir Nabokov (tradução de José Rubens Siqueira)

Este é um livro sobre memória, amor e literatura. Considerado por Vladimir Nabokov sua melhor obra escrita em russo — ele mesmo revisaria sua tradução para o inglês, décadas depois —, O dom condensa, com extrema virtuose estilística, o melhor de sua produção no período. Ele capta, com riqueza de detalhes, a difícil vida dos emigrados no país que lhes é hostil. Com ironia, reconstrói os círculos literários da época, onde todos, por menor que fosse o grupo de escritores, se tratavam com gentileza para depois se criticarem mutuamente pelas costas. Sem dinheiro, com aspirações a se tornar um grande escritor, o poeta iniciante e sonhador Fyodor navega por esse mundo vago e sombrio. Enquanto sonha com versos, com sua juventude perdida e com o pai, desaparecido anos antes, ele nos conta duas histórias de amor. Por Zina, a filha do senhorio que aluga um quarto para ele, e pela própria literatura russa, que permeia todo este grandioso romance.

Portfolio-Penguin

Do chão ao topode Rogério Gabriel e Joaquim Castanheira

Diferentemente do que podem fazer crer as capas de revistas de negócios, a vida dos maiores empresários do país não é feita só de vitórias: antes do sucesso, muitos deles enfrentaram grandes dificuldades. Há ainda aqueles que prosperaram, foram à lona e conseguiram se reerguer. É o caso de Rogério Gabriel, dono da maior rede de ensino profissionalizante do mundo, a MoveEdu. Na década de 1990, Rogério fundou uma loja de produtos de informática que em pouco tempo se multiplicou em diversas filiais espalhadas pelo estado. No entanto, o empreendimento quebrou, levando junto boa parte do patrimônio pessoal de seu fundador. Munido de persistência, foco e criatividade, o empresário reinventou seu negócio e hoje é referência no setor em que atua. Do chão ao topo, escrito com o jornalista Joaquim Castanheira, reconta a trajetória de Rogério, combinando sua história com lições práticas de empreendedorismo. Mais do que um relato enriquecedor, este livro é um sopro de inspiração em tempos de crise.

Reimpressões

Capitães da areia (Companhia de Bolso), de Jorge Amado

Estação Carandiru, de Drauzio Varella

Homo Deus, de Yuval Noah Harari (tradução de Paulo Geiger)

História do medo no Ocidente, de Jean Delumeau (tradução de Maria Lucia Machado)

Os anjos bons da nossa natureza, de Steven Pinker (tradução de Bernardo Joffily e Laura Teixeira Motta)

A grande história da evoluçãode Richard Dawkins (tradução de Laura Teixeira Motta)

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (tradução de Cecília Rosas)

1984, de George Orwell (tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner)

Contos de amor do século XIX, organização de Alberto Manguel 

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