Sobre "A poesia e a crítica", de Antonio Cicero

Por Arthur Nogueira

Foto: Chico Cerchiaro

Antonio Cicero sempre diz que, “quando o filósofo está presente, o poeta não aparece; e, à chegada do filósofo, o poeta se retira”. Para ele, autor de quatro livros de ensaios filosóficos, três de poemas e inúmeras letras de canções que marcaram a história da música pop brasileira, a poesia e a filosofia são atividades inteiramente opostas. Se, por um lado, o filósofo representa a razão radicalmente ambiciosa, por outro, o poeta é um artista e não separa, por exemplo, intelecto de imaginação, razão de emoção. Em A poesia e a crítica, seu novo livro de ensaios pela Companhia das Letras, é o filósofo quem está presente, mas a serviço do tema que, independentemente do papel que exerça, o indivíduo Antonio Cicero considera central em sua vida: a poesia.

O primeiro dos treze ensaios do livro chama-se “Encontros e desencontros com a contracultura”. Ao descrever seu contato com esse movimento, Cicero acaba por explicar sua relação com a cultura de um modo geral. De fato, seu olhar desarmado em relação às coisas, que resultou da experiência contracultural em Londres, no início dos anos 1970, é um aspecto decisivo à sua liberação “de uma tendência excessivamente intelectualista”. Desse período, Cicero reconhece sobretudo a importância de Caetano Veloso, que “punha entre parênteses as hierarquias convencionais” e cuja amizade ele considera, até hoje, “uma grande experiência emocional e intelectual”.

Não é um exagero afirmar que, se não fosse sua convivência, em Londres, com artistas àquela altura contraculturais, o jovem estudante de filosofia jamais teria se tornado, na volta para o Brasil, um letrista de sucesso. Ainda assim, Cicero pontua, em “Sobre as letras de canções”, que prefere fazer poemas “para serem lidos”. Longe de classificar a poesia escrita como superior à letra de canção, ele suscita uma reflexão mais profunda: a letra é heterotélica, isto é, não tem seu fim em si própria, é parte do todo de uma canção; enquanto o poema é autotélico, isto é, tem seu fim em si próprio. Fazer um poema significa criar um objeto que vale por si, independentemente de qualquer utilidade ulterior. E é exatamente por isso, por ter seu fim em si próprio, que o poema exige não apenas concentração, mas uma espécie de imersão. Em “A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”, Cicero define esse mergulho no poema como “pensar nele, com ele, através dele, pondo à disposição dele, pelo tempo que se faça necessário, o livre jogo de todas as faculdades que esse pensamento integral requeira”. É por não se ajustar ao nosso presente acelerado, em que “tempo é dinheiro”, que a poesia escrita causa tanto prazer ao poeta e, de modo geral, faz-se tão necessária no mundo. O lance do poema é que ele permite que tenhamos acesso a “outro modo de apreensão do ser e do tempo” que enriquece “imensamente a vida humana”.

Não tenho a pretensão de traçar aqui um resumo das reflexões de Antonio Cicero sobre poesia. Nada se compara à experiência da leitura de seus ensaios. Ao longo dos anos, e claramente neste livro, é notório o aperfeiçoamento de sua elocução. Com clareza e carisma admiráveis, ele responde com a mesma habilidade as questões mais simples e as mais complexas. Nesse aspecto, uma passagem sobre sua formação no University College, em Londres, é digna de nota. Cicero conta que, no sistema tutorial inglês, um grupo de três alunos encontrava-se semanalmente com um tutor, que pedia a cada um deles que “escrevesse um ensaio sobre um mesmo tema ou texto filosófico importante”. Na aula seguinte, cada aluno lia em voz alta o ensaio que escrevera e “defendia-o das críticas a que o submetiam o tutor e os dois colegas”. Apesar de, àquela altura, pelo espírito revolucionário que o inflamava, considerar as carreiras universitárias “tão obsoletas quanto os títulos de nobreza”, percebe-se que seus estudos filosóficos sob a disciplina do sistema tutorial inglês, bem como seu provocante contato com a contracultura e a leitura voraz desde a juventude, não só de poesia, mas também de clássicos como A montanha mágica, de Thomas Mann, sobre o qual ele se debruça no último ensaio do livro, são alguns dos degraus que nos permitem chegar um pouco mais perto da compreensão de como se estabeleceu intelectualmente um dos mais altos e originais pensadores surgidos no século XX no Brasil. Como bem observou Miguel Conde, Cicero é “talvez o único caso no mundo de um filósofo que toca no rádio quase todos os dias”, exatamente pela admirável capacidade de transitar, com a mesma desenvoltura e o mesmo rigor, entre a filosofia, a poesia e o mainstream da música pop.

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Arthur Nogueira (Belém, 1988) é cantor, compositor e jornalista.

 

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