Sobre Boris Schnaiderman

Por Cecília Rosas

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A escadaria de O encouraçado Potemkin. 

No fim do ano passado, revisei uma tradução antiga de Boris Schnaiderman para a republicação. Eu comentava com colegas que era impressionante, aos 98 anos, a vontade que ele tinha de corrigir, se debruçar sobre questões de tradução e discutir a melhor solução para um trabalho que já estava excelente. Em uma conversa pelo telefone, com o processo de edição já avançado, começamos a fazer alguns comentários sobre o livro. Ele estava maravilhado por relembrar o grande autor que é Ivan Búnin e fez algumas observações sobre a obra. Lembro de desligar o telefone e pensar que escutá-lo falar de literatura russa era de fato impressionante, mas principalmente: era empolgante.

O que ele não se lembrava era que eu, apesar de nunca ter sido sua aluna, há uns anos tinha batido na porta dele com a minha primeira tradução literária. Nessas horas a gente via o que fazia dele um grande professor. Sem se encastelar na posição de pioneiro e fundador, tratava alunos e colegas com uma generosidade enorme. Se dispôs a ler trechos, fazer comentários, atento e gentil. Há muitos professores consagrados que não receberiam com tanta delicadeza uma aluna iniciante.

E é um fato que Boris Schnaiderman foi pioneiro nos estudos russos no Brasil. Em 1963, inaugurou a cadeira de Literatura e Cultura Russa da USP, e foi com seu esforço pessoal que o curso atravessou os anos da ditadura. Além disso, tem uma história de vida impressionante. Schnaiderman esteve presente em alguns marcos históricos: assistiu às filmagens da cena da escadaria de O encouraçado Potemkin em Odessa, onde passou a infância, lutou na Segunda Guerra Mundial -- experiência que registrou depois em dois livros, Guerra em Surdina e Caderno italiano —, foi preso em sala de aula na USP durante a ditadura militar. Mas, como tudo isso já está fartamente narrado, vou contar algo de suas reflexões de tradutor.

Em um texto de homenagem ao poeta Haroldo de Campos, ele rememorava: “Nosso trabalho tinha às vezes muito de júbilo, de epifania. Lembro-me agora da alegria com que Haroldo me telefonou para me comunicar o final que tinha conseguido para a tradução da 'Carta a Tatiana Iácovleva' de Maiakóvski”. Era mesmo alegria o que a gente percebia na produção de Boris, mas o que eu acho curioso é que nunca tinha um tom triunfal. Vi mais de uma vez ele repetir em palestras que traduções envelhecem e que nenhuma solução é definitiva. Ficou na memória um dos exemplos que dava: na tradução do livro de Maiakóvski, feita a seis mãos por ele e os irmãos Campos, aparecem dois versos famosos do poeta:

Come ananás, mastiga perdiz

Teu dia está prestes, burguês

Boris pontuava que hoje em dia quase ninguém entendia a referência a Luis Carlos Prestes incluída ali por Augusto de Campos. E isso provavelmente é verdade (confesso que até aquela hora eu também não tinha percebido). Mas, mesmo que a solução tenha datado, ainda me parece um excelente exemplo de como o tradutor mantém o original em diálogo com seu tempo e contexto.

Não tenho dúvida de que o interesse recente que temos visto pela literatura russa deve muito à forma aberta com que ele se dispunha a tocar novos projetos, indicar autores, lançar debates, e tudo isso vai fazer uma falta enorme.

Nos nossos tempos de produtividade e utilidade prática, dedicar-se à literatura, seja lecionando, traduzindo ou escrevendo, tem algo de insensato. Boris Schnaiderman fez todas essas coisas, muito bem, e a paixão com que ele se entregou a essas tarefas encontrou resposta em alunos, leitores e professores. Sorte nossa.

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Cecília Rosas é mestre e doutoranda em Literatura Russa pela USP. Traduziu os volumes Noites egípcias e outros contos (Hedra, 2010), O conto maravilhoso do tsar Saltan (Cosac Naify, 2013), ambos de Púchkin, e A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, lançamento em junho), além de traduzir e organizar o volume O ladrão honesto e outros contos, de Dostoiévski (Hedra, 2013). Também participou como tradutora da Nova antologia do conto russo (1792-1998) e da Antologia do pensamento crítico russo (1802-1901), organizadas por Bruno Gomide para a Editora 34.

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