Sobre a arte de editar e o Raymond Carver em nós

Luisa Geisler

Tenho a sensação que a quantidade de textos que já li sobre como, quando, onde e por que escrever foi infinita. No entanto, muitas pessoas esquecem que escrever é algo como 60% do ato de escrever. Como assim? Ora. O que está num arquivo ou num pedaço de papel pela primeira vez não foi editado ainda. Na edição é onde um texto normal se torna um texto excelente.

Editar não é simples. Não sei se cheguei a reclamar muito no blog, mas terminei meu livro novo (ainda sem título) em agosto. Desde então, tenho passado pelo processo mais doloroso depois de terminar: editar. Por ser um livro de umas quinhentas páginas de Word (ops ¯\_(ツ)_/¯ ), editar não se faz em uma tarde.

Permitam-me explicar o que eu vejo como processo de editar: corrigir português básico enquanto se relê; depois de reler, corrigir questões grandes de enredo (o “ritmo” do texto não parece funcionar em algumas seções, um personagem que desaparece, uma linha narrativa que some, um trecho que precise de expansão); depois de corrigir isso, reler em busca de grandes questões de enredo (e ir corrigindo o português durante isso); e, por último, passar um pente fino frase por frase, tentando se perguntar se “este é o melhor jeito de fornecer a informação?”. Isso varia um pouco conforme o projeto: se uma crônica, um conto, um poema, um romance. A intenção pesa.

Ao menos, no meu processo, é também em algum ponto da edição que entram os “leitores-beta”. Leitores-beta são pessoas de confiança que são boas leitoras. Elas dizem que não gostaram de algo. Pode parecer esquizofrênico, mas quando alguém tem que dizer que não gostou na cara do autor, a circunstância muda. Então, para poder apontar algo que não está funcionando para você, ela não pode ser má e irracional. Imagine dizer que a roupa da atual namorada do seu ex é horrível. Agora diga isso sobre sua mãe. Achar bons leitores-beta, pessoas que cumprem esses requisitos e ainda tenham tempo e disponibilidade para isso, é uma arte.

Editar é reler e melhorar, reler e melhorar, reler e melhorar. Parece simples, não parece? Mas é uma das partes mais pesadas. A edição é quando o livro, de certa forma, começa a ser “publicado”. Ele começa a ser feito público. Antes de qualquer um ler, o livro ainda é meu e ainda pode ser infinitas possibilidades.

Outro problema é a dessensibilização. Dá para notar como em cada passo da edição falo em rever o português. Isso não é porque meu português formal seja terrível. Em ocasiões, eu literalmente abro um dicionário de conjugações para me certificar de que estou usando um verbo no pretérito perfeito e não no presente. Eu me esqueço que o presente do indicativo na terceira pessoa plural (“nós comemos pizza enquanto falo de futebol”, por exemplo) é igual ao pretérito perfeito do indicativo na terceira pessoa plural (“nós comemos pizza enquanto eu falava de futebol”). E depois de ver tantas vezes a frase, me esqueço qual o tempo verbal em que a ação toda acontece. Eu me esqueço do que soa natural ou não. E fico com vontade de pizza.

No outro lado, existe a hipersensibilização. O lado de ler a frase “Eu gosto de livros” e começar a ver todos os problemas que a frase não tem. Entrar em um puro nervosismo, vergonha, questionar tudo aquilo que você escreveu. É achar mais fácil deletar tudo e começar do zero do que corrigir o que quer que esteja na sua frente.

Editar é um processo que vai além do texto — assim como, perdão pelo óbvio, tudo que existe no processo de escrita. Mas é o polir o diamante. É necessário para que não seja um bloco de terra. Para que os pontos importantes do enredo sejam resolvidos. Para que a palavra “convite” não apareça trinta vezes num parágrafo.

É bastante conhecida a história de que Raymond Carver era dois autores: antes de ser editado por Gordon Lish e depois. A edição que a Companhia das Letras fez da coletânea 68 Contos de Raymond Carver, por exemplo, tem diversos trechos pré e pós Lish. Existem milhões de artigos por aí, comparações, estudos e tudo o mais, as dúvidas de quem de fato criou o estilo de Carver, se o editor ou ele próprio.

Mas não gosto de pensar tanto nisso. Gosto de ir um tantinho além. E é só com esse pensamento que consigo ler o mesmo livro de quinhentas páginas duas vezes no mesmo dia. Quem sabe todo mundo tem um Raymond Carver dentro de si, a uma boa edição de distância*?

*P.S.: Ou talvez não. Ou talvez esse seja mais o meu momento de hipersensibilização textual. De achar que tudo precisa ser mexido até ficar perfeito. Sendo que não existe um perfeito unânime. Mas eu gostei de acabar o texto com uma hipótese otimista. Mas talvez não tenha jeito mesmo.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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