Sobre a publicação dos poemas-canções de Bob Dylan

Por Leonardo Gandolfi

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Muitos anos atrás, havia, numa rádio do Rio de Janeiro, um programa que tocava os hits do momento e do passado acompanhados da voz grave e afetada de um locutor que lia, verso a verso, a tradução da letra. O efeito disso era quase sempre risível. É só imaginarem “Feelings”, do Morris Albert, cantada em inglês e, ao mesmo tempo, legendada sonoramente em português por alguém com uma voz à la Cid Moreira.

Um dia, nesse programa, tocou uma música de Bob Dylan. Eu não conhecia muito bem Bob Dylan e o locutor da tradução criou um abismo entre sua empostada voz radiofônica e a voz esquiva do cantor. Não me lembro qual era a música, mas era uma bem diferente daquelas que costumavam tocar no programa.

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Conto essa história porque, quando soube das traduções das letras de Dylan, me lembrei desse programa de rádio perdido lá nos anos 1980. Foi uma lembrança afetiva, mas que também trouxe alguma desconfiança.

Se a tradução de poemas já pode ser um problema para o tradutor, o que dizer da tradução de poemas que também são letras de músicas? Dependendo do quanto conhecemos a canção, as palavras na língua original acabam coladas à nossa memória, estando seu ritmo e prosódia já assimilados por nosso ouvido.

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Os dois preâmbulos só para falar o quanto o livro Letras (1961-1974) surpreende. O caso é o seguinte: as letras de Dylan são poemas e esses poemas foram muito bem recriados em português pelo tradutor Caetano W. Galindo.

Os versos fluem, com as palavras, quase sempre, chamando nossa atenção pelo poder que têm no poema e não por conta de algum ruído na comunicação entre o inglês e o português. Aliás, a experiência de ler esses poemas está bem distante daquela voz de locutor que dizia em um português automático as letras daquelas músicas de rádio.

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Quanto à tradução, a conquista da fluência dos versos se dá menos por uma busca deliberadamente rítmica em termos de poesia (métrica, rima etc.) do que por uma fidelidade à prosódia das canções de Dylan, isto é, ao dinamismo da voz do cantor. Não se trata do engodo de se escrever como se fala, mas sim de destinar à escrita algumas das astúcias da fala.

Um rápido exemplo: “Don’t Think Twice, It’s All Right” tem seu verso “You just kinda wasted my precious time” tenuemente transformado em “Você só meio que gastou meu tempo precioso”.

Em “Ballad of a Thin Man”, saiamos do pormenor sutil para passar diretamente à tradução de uma de suas estrofes. Reparem na vivacidade com que esta estranha conversa acontece:

Agora você vê um anão caolho
Gritando a palavra: “agora”
E você diz “Por que motivo?”
E ele diz “Como?”
E você diz “Isso significa o quê”
E ele grita de volta “Você é uma vaca
Me dê um pouco de leite
Ou vá pra casa”

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Ver aquilo que, antes, só ouvíamos implica uma transformação. Como essas letras migram para o papel na forma de poemas, alguns traços visuais acabam ganhando destaque. E a visualidade a que me refiro é bem simples e tem tudo a ver com a afinidade de Dylan com a fala e a voz. Trata-se das aspas. As aspas são invisíveis nas canções, mas visíveis nos poemas.

Assim é muito curioso perceber como elas se espalham por essas páginas. Estão presentes desde os primeiros versos do livro e se intensificam ao longo dele. O que significam essas aspas? Que Dylan está sempre citando? Não. Quando Dylan cita – e ele cita muito –, ele não precisa de aspas.

As aspas dizem respeito à presença de mais de uma voz nas canções. Ao lermos seus versos, vemos como há vários tipos de diálogos. Acima já acompanhamos uma estrofe de “Ballad of a Thin Man” toda dialogada. É o que acontece também em “Highway 61 Revisited”. Soma-se ao diálogo presente o tom de conversa de bar entre Deus e Abraão:

Ah, Deus disse a Abraão “Mate um filho para mim”
O cara diz “Meu, você deve estar de sacanagem”
Deus diz “Não”. O cara diz “Como é que é?”
Deus diz “Pode fazer o que quiser, meu chapa, mas
Na próxima vez que você me vir chegando, melhor correr”
Então o cara diz “Onde é que você quer essa morte?”
Deus diz “Lá na Estrada 61”

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Prestando atenção na ocorrência das aspas no livro, a seção em que elas mais estão presentes é naquela referente ao disco John Wesley Harding, de 1967, álbum que mescla referências bíblicas e temas do velho oeste, entre eles, o da herança escravista. Pois bem, é nesse disco, feito de vozes, que se encontra uma das obras-primas do poeta.

Costuma-se dizer diversas coisas sobre “All Along the Watchtower”, por exemplo, que é uma citação do capítulo 21 do livro de Isaías na Bíblia, que seu fim é seu começo por conta da surpreendente estrutura circular etc. Mas deixo aqui apenas o primeiro verso, evidência de como – nos poemas-canções de Dylan – as vozes e a interação entre elas são uma das tônicas de sua obra. Esse primeiro verso não poderia ser mais dylanesco e diz o seguinte: “‘Deve ter algum jeito de sair daqui’, disse o coringa ao ladrão”.

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Leonardo Gandolfi é poeta e professor de literatura portuguesa na Unifesp. Publicou, entre outros, o livro Escala Richter (7letras, 2015).

 

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