Tábulas

Érico Assis

Esta coluna vai ser só desculpa para mostrar pagininha bonita. Desculpe se ficar com cara de aula. Aula com Powerpoint, ainda por cima. Slide, por favor.

A página de HQ vive numa tensão entre o ritmo que o autor tenta colocar no jeito como você lê e o tempo que você leva para ler de fato. O autor tem (todos os envolvidos na página – roteirista, desenhista, colorista, letreirista – têm) vários recursos para tentar controlar seu olho: a composição dos traços, as cores, a posição do texto, a densidade de texto, a quadriculação etc. Você, leitor, chega na página e, mesmo sabendo que a história começa ou é retomada da esquerda superior, é atraído... pelo que seu olho achar legal.

Existe uma sequência lógica, quase sempre clara, entre os quadros. O autor, contudo, não tem como marcar quanto tempo você vai passar em cada cena. Não é cinema. Também não tem como impedir de você ver o final da cena – ou da página – antes do início. Bons quadrinhos sabem que você, leitor, vai quebrar a ordem.

Um minutinho de teoria: Pierre Fresnault-Deruelle, um crítico francês, fala do linear versus o tabular na página de HQ. Por mais que a ordem de leitura esteja clara (linear – um quadro depois do outro), é inevitável que você veja ou absorva a página inteira (tabular) assim que a encontra. Virtuoses dos quadrinhos tendem a pensar no tabular – como compor uma página bonita – enquanto montam o linear – a sequência lógica.

De novo: apesar de você saber que a leitura começa lá pelo quadro do alto, é difícil segurar o olho para ele não cair nessa bola no meio da página acima. (Na qual o quadrinista ainda encaixou pequenos quadros de zoom do ambiente e aquele pulo que desafia a quadriculação. É exibicionismo. E que exibicionismo lindo.)

O grande esquema está numa coisa que é praticamente exclusiva aos quadrinhos: a virada de página. Sim, pessoas viram páginas desde que aprenderam a colocar uma página em cima da outra – você também vira páginas na prosa. Mas virar a página de uma HQ é como puxar o lacre de um panorama novo. E fica difícil não absorver este panorama antes de diligentemente seguir com a leitura a partir da esquerda superior. Num impresso, aliás, esse panorama é de duas páginas.

Há quem não dê a mínima bola para o tabular. Hergé aparentemente fazia seus Tintins um quadro depois do outro e tem aí os quadrinhos mais lidos do mundo. Mas é um recurso disponível ao quadrinista, queira ele usar ou não.

Dentro dessa manipulação de tempo, a página inteira – splash page, para os entendidos – é um dos recursos mais interessantes. Enquanto antigamente era algo comum às primeiras páginas de história, hoje os autores gostam de surpreender com uma splash no meio da história.

(Na falta da virada de página autêntica, fica esta linha de texto.)

O importante da splash está em como o quadrinista tenta controlar o tempo de leitura antes de se chegar nela e, é óbvio, o que você coloca na própria splash. O tabular toma conta. Você quer que o leitor pare, ali, atente àquele quadro-que-é-uma-página.

Só de comentário rápido: incrível encontrar duas splashes, ainda mais de gibi americano, que não são de personagens se socando – e sim falando de amor.

Enfim, só queria mostrar estas páginas. Lindas, né?

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Todas as páginas acima são de HQs que li este ano. Fontes e créditos:

Black Widow n. 5, p. 14 - Chris Samnee, Mark Waid, Mattew Wilson e Joe Caramagna.

Jupiter's Legacy II n. 2, p. 1 - Mark Millar, Frank Quitely, Peter Doherty e Sunny Gho.

The Sheriff of Babylon n. 11, p. 22 - Tom King, Mitch Gerards e Travis Lanham.

Midnighter n. 6, p. 1 – Steve Orlando, ACO, Hugo Petrus, Romulo Fajardo Jr. e Tom Napolitano.

Dept H n. 1, p. 13 – Matt Kindt, Sharlene Kindt e Marie Enger.

The Wicked + The Divine n. 17, p. 10-11 – Kieron Gillen e Brandon Graham.

Starve n. 8, p. 21 – Brian Wood, Danijel Zezelj e Dave Stewart.

Saga n. 39, p. 17 e 18 – Fiona Staples, Brian K. Vaughan e Fonografiks.

Vision n. 2, p. 8 – Tom King, Gabriel Hernandez Walta, Jordie Bellaire e Clayton Cowles

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E aos ufanistas que reclamarem de só ter gibi Trump nessa coluna, fica de dever de casa ler O Futuro de Denny Chang – disponível na íntegra aqui – e entregar 1000 palavras sobre a tensão linear/tabular. Até a próxima aula.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.