Tintim de costas (90 anos de "As aventuras de Tintim", de Hergé)

Érico Assis

 

Hoje, Tintim completa exatos 90 anos. Foi no Le Petit Vingtième, suplemento do jornal belga Le Vingtième Siècle, com data de 10 de janeiro de 1929 que saíram as primeiras páginas de Tintim no País dos Sovietes. O garoto de topete ia para a Rússia denunciar os descaminhos da revolução bolchevique e explicar às crianças que comunistas eram do mal, tal como Hergé tinha sido instruído a fazer. Mas isso é outra história. Dá para passar horas discutindo as tendências de Tintim para a esquerda ou para a direita, mas hoje é mais interessante falar de Tintim de costas.

Nas capas de A Ilha Negra, Rumo à Lua, Explorando a Lua e O Caso Girassol, quatro de seus 24 álbuns canônicos, Tintim nos dá as costas. Sim, ele está em primeiro plano, mas olhando para o outro lado. De certo modo, ele nos convida a olhar para a frente. A aventura fica .

 

 

Dois brasileiros, os professores de design Bruno Porto e Ricardo Cunha Lima, resolveram estudar as costas de Tintim. Em um papo de internet, eles acharam curioso que, em peças de divulgação que são as mais difundidas e mais reproduzidas de Tintim – as capas dos álbuns –, o personagem principal sequer mostra o rosto.

É só você ver a vitrine da livraria, a fileira de cartazetes da Netflix, capas de discos e, claro, de quadrinhos, que vai notar que Tintim de costas vai na contracorrente: os personagens, os atores, os modelos, os cantores tendem a deixar a feição à mostra. Invariavelmente, nos olham nos olhos. É o contato direto, banal mas, supõe-se, comercialmente efetivo – um olho no olho equivale ao você das chamadas publicitárias.

Tintim, contudo, nem sempre olha para nós. E não só naqueles quatro álbuns. Hergé deixou Tintim de costas em várias capas do Le Petit Vingtième e do Journal de Tintin. Nas páginas internas, há vários Tintins de costas encarando um gorila, um exército, uma caverna, os controles de um submarino, o castelo de Moulinsart. Como observaram Porto e Lima, livros ou outras peças sobre Tintim também gostam de mostrar sua parte de trás. Na fachada de quatro andares de altura do Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve, há um retrato do topetudo – de costas.

Em história da arte, esse recurso de composição chama-se Rückenfigur. Como primeiro resultado para “rückenfigur”, o Google tende a mostrar Viajante sobre o mar de névoa, óleo sobre tela do alemão Caspar David Friedrich (1774-1840). Uma figura solitária no alto de uma montanha, ruivo claro como Tintim (mas sem topete), contempla a linda paisagem alpina de nuvens e rochas.

Esconder um rosto pode assumir tons de mistério, mas, no caso do Viajante, parece que há um convite a pensar não na pessoa nem na paisagem, mas na pessoa diante da paisagem. Friedrich poderia ter pintado apenas a paisagem e ela ser bonita por si só. Ao colocar uma figura humana diante da paisagem, quer falar não só do panorama, mas da sensação de estar diante do panorama. E, como a figura não tem rosto que possamos ver, bem que poderia ser você. Ou qualquer pessoa que observa o quadro. Nós.

 

Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve

 

Tintim tem tintinólogos. Não há personagem dos quadrinhos mais esquadrinhado, páginas mais pormenorizadas, nem originais mais caros. Há livros e livros de análise dos 24 álbuns, há exposições dedicadas só às cenas em que Tintim anda de trem, há uma teoria da conspiração que sugere pequenas referências nos álbuns à possibilidade de Hergé ser neto do Rei Leopoldo II da Bélgica (1835-1909) e há uma análise da vida sexual de Bianca Castafiore, uma das poucas personagens femininas de Hergé. Tintim, nestes 90 anos, teve e tem vários tintinólogos.

Bruno Porto e Ricardo Cunha Lima apresentaram sua pesquisa em um congresso de tintinólogos na Universidade de Leeds, Inglaterra. Laurence Grove, figura emérita dos estudos de quadrinhos, puxou Porto de lado depois da fala: “É raro quando a gente vai a uma conferência destas e apresentam uma coisa que te deixa pensando: ‘como é que eu não vi isso antes?’” Os pesquisadores também apresentaram o projeto em congressos no Brasil e vão publicá-la como capítulo de mais um livro de análise tintinesca, a sair este ano pela Cambridge University Press.

Pode-se ler quase tudo nas imagens de Tintim e chegar a conclusões mil. Mas o que os dois professores brasileiros leram a partir de quatro capas é algo que não está aparente, desenhado, em todas as centenas de páginas tintinescas, mas talvez seja parte de sua essência, um dos motivos mais importantes para ainda se falar em (e ler, e comprar, e debater) Tintim noventa anos depois: Tintim, de costas ou não, nos coloca no seu lugar e nos convida a contemplar e explorar o mundo. Não é só ele, mas nós com ele, que vemos que o mundo é uma aventura.

“Nas edições da Record dos anos 1970, as que eu ganhei quando criança”, conta Bruno Porto, “havia um texto de apresentação que falava da facilidade de identificação do público infantil com o personagem, que não era super-herói, dava saltos normais etc., e acho que o que interesse era bem por aí. O apelo das terras exóticas-porém-alcançáveis (se comparadas a Krypton, ou Mongo) também era matador. Tanto que, quase três décadas depois, quando recebi uma proposta para ir trabalhar em Xangai, aceitei sem pestanejar por causa de O Lótus Azul.”

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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