Totò Riina e a Cosa Nostra

Por Leandro Demori

Salvatore Riina foi um dos mais poderosos e bestiais terroristas do século XX. Nascido em Corleone – uma cidade pobre e abandonada do interior da Sicília –, ele chegou à capital Palermo no começo dos anos 60 vestindo ternos mal cortados e sujos e calçando sapatos escamando em barro. Era um agricultor semi-analfabeto que trabalhou como faz-tudo dos mafiosos tradicionais da cidade, descendentes de famílias que comandavam a máfia quase desde o seu surgimento. Em pouco mais de uma década, Riina daria um golpe em toda a cúpula urbana da Cosa Nostra, destituindo ou matando seus opositores, e se tornaria o poderoso chefão do crime organizado italiano, um globetrotter que abastecia os Estados Unidos de heroína e enchia as ruas da Itália de sangue.

Totò, como era chamado, ou “Curto”, devido a sua baixa estatura, fez o impensável: declarou guerra ao Estado italiano e empilhou cadáveres pelas cidades a rajadas de Kalashnikov e explosões de carros-bomba. Foram milhares os mortos em décadas de ações terroristas. Suas vítimas mais notórias são os juízes anti-máfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, assassinados em 1992. Por esses e outros crimes, Totò cumpria prisão perpétua desde 1993, quando foi capturado após incríveis 24 anos escondido em casas e bunkers muito próximo da mesma Corleone em que nasceu. Ele morreu hoje, um dia depois de completar 87 anos. Eram 3:37 da madrugada, hora local.

Neste trecho de Cosa Nostra no Brasil, os mafiosos Giuseppe di Cristina e Giuseppe Calderone comentam seu descontentamento com o "Curto". Confira.  

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“Precisamos dar um jeito no Curto. Alguém tem que arrancar a cabeça daquela cobra”, disse Giuseppe di Cristina depois de horas sem abrir a boca. Peppe, como era conhecido, fazia companhia a seu melhor amigo, Giuseppe Calderone, o Pippo. Os dois caminhavam pelos campos atrás de perdizes. Calderone não carregava espingarda — era famoso pela aversão às armas. O mafioso tinha grande estima entre os criminosos por sua capacidade de ajustar as disputas sem precisar disparar uma bala. Era conhecido como “Garganta de Prata”, tanto por sua oratória como por uma particularidade: uma doença o obrigara a arrancar parte da laringe, e Pippo se viu forçado a falar com o auxílio de uma eletrolaringe, aparelho eletrônico que, quando pressionado ao pescoço, produz uma voz robotizada. “Demorei muito tempo pra entender quem Totò Riina realmente era”, desfibrilou Pippo. “Parecia um passarinho inofensivo, lembra? Era um doce que só.” Peppe Di Cristina concordou com a cabeça. Pippo continuou: “Era só Tano Badalamenti fazer um sinal que Totò se movia. Badalamenti mandava matar, Totò nem perguntava o nome do morto. Tano levantava a mão e, em alguma parte da Sicília, alguém fechava os olhos pra sempre”. Peppe levantou a cabeça e respondeu: “O pior, Pippo mio, é que Donano ainda acha que Totò é seu cão fiel”. “É!”, gritou Pippo com sua voz metálica.

Foram Pippo e Peppe os primeiros a entender a preocupação de Masino com os corleonesi. Ambos entendiam as leis da Cosa Nostra a ponto de saber que Riina desrespeitava cada uma delas conforme sua conveniência. Vinham suportando a situação até que um encontro da Cúpula lhes deu a gota que faltava para transbordar o copo. Riina, que quase nunca falava durante as reuniões, disse a todos que queria matar um juiz que estaria “importunando alguns dos nossos irmãos”. Ele buscava apoio dos demais em um grupo que raramente decidia pela morte de algum agente do Estado — sobretudo naqueles anos em que estavam recém-livres das perseguições da polícia.

Manter a calma diante de qualquer situação era um motivo de orgulho para Pippo. Poucos, dentro e fora da Cosa Nostra, poderiam dizer que o tinham visto alterado. A palavra “Corleone”, entretanto, despertava nele os piores demônios. Pippo aumentou o volume da eletrolaringe e gritou com toda força: “Metade da Cosa Nostra está presa no Ucciardone e esse idiota quer matar um juiz! Um juiz! Quer deixar todo mundo na cadeia para o resto da vida!”. Totò Riina estava subvertendo os mecanismos da Cosa Nostra. Ele conquistava apoios e se tornava credor de favores. Conseguia, pouco a pouco, dividir ainda mais as famílias, gerando rivalidade e ódio onde antes existia só descontentamento. Procurou fazer-se porta-voz dos que ele identificava como injustiçados: levava aos chefões as reivindicações que vinham dos andares de baixo — sempre humilde, comunitário, falando em nome dos outros, nunca pedindo nada para si. Quando era acontentado, tornava-se o portador das boas-novas. Quando dava de cara contra um muro, dizia aos outros que os padrinhos, os chefões, a Comissão, enfim, aqueles que sempre comandavam tinham negado o pão. A reunião acabou em silêncio contido.

Peppe Di Cristina resolveu se expor. Peregrinou por toda Palermo visitando os mais importantes chefões da época. Falou com Stefano Bontade, Gaetano Badalamenti, Salvatore Inzerillo. Para todos revelou seus motivos e disse que a Cosa Nostra deveria frear o Curto. E foi justamente Peppe que acusou publicamente Totò Riina e seus homens do sequestro e desaparecimento do contador Luigi Corleo. Muitos chefões suspeitavam, mas faziam de conta (ou esperavam) que os culpados aparecessem — e que não fossem de Corleone. “Aquele corno tem que pagar”, disse Peppe, mais de uma vez, a Stefano Bontade. Não se cansava de repetir a cantilena. “Um dia a hora dele chega”, retrucava Stefano, sem que ela chegasse. Peppe insistiria ainda uma última vez, depois de Riina passar novamente por cima da Comissão ao matar o policial responsável pela investigação do sumiço de Luigi Corleo. O coronel Giuseppe Russo estaria chegando perto de prender Totò quando, em uma tarde de verão de 1977, foi morto na entrada de um parque. “Lembra o que Riina disse quando perguntamos por que ele tinha matado Russo? Lembra, Stefano? Que, quando se mata um policial, ninguém precisa fazer perguntas. Como se a Comissão não existisse, como se não existissem regras.” Bontade escutava sem se mover. “Stefano, Stefano…”, disse Peppe, “eu volto a Riesi. Mas, da próxima vez que vier a Palermo, temos que resolver isso.”

Bontade tinha a mesma reação dos demais chefões de Palermo quando o assunto era Corleone. Tudo bem que Riina estivesse se alargando um pouco além da conta, tudo bem que fizesse aquilo que queria, muitas vezes ignorando as decisões da Comissão. Era um problema a ser resolvido, Riina. Mas não agora, não hoje; talvez amanhã, talvez depois. Outra hora. O que incomodava os capos de cidades distantes da capital como Peppe era apenas um leve distúrbio para os mandachuvas da Cosa Nostra. Eles tinham coisas mais importantes com o que se preocupar.

Naquele ano de 1977, a prisão dos franceses ligados a Buscetta no Brasil, cinco anos antes, se faria sentir como nunca. Muitos deles, como Michel Nicoli e Christian Jacques David, se tornariam importantes testemunhas nos Estados Unidos. A repressão desencadeada após as confissões dos traficantes que operavam na América do Sul arrebentaria com a Unione Corse. Marselha se tornaria uma cidade ocupada. Suas refinarias seriam estouradas uma a uma. Seus químicos seriam perseguidos e presos. A heroína se tornaria artigo caro no mercado internacional. Do outro lado do Atlântico, os gângsteres se ouriçavam. Era preciso encontrar uma saída para continuar a abastecer a América. Os padrinhos não estavam nem aí para Pippo, Peppe, Masino e Totò.

Riina não perdoou e matou Peppe. Três meses depois seria a vez de Pippo. Ele sofreu uma emboscada tramada por Totò — durante meses Riina planejara cada passo do que deveria acontecer. Sentia que era sua chance de colocar as mãos em Palermo. A antipatia de Pippo por armas foi fatal: de mãos nuas, foi morto por um grupo de assassinos que o fizeram frear em um retorno de pista enquanto ia para uma falsa reunião, armada somente para que ele saísse de casa. Em poucos meses, Riina havia matado os mais leais mafiosos dos palermitanos fora da capital, concretizado a expulsão de Badalamenti da Comissão, desmoralizado Stefano Bontade e criado enormes problemas para Totuccio Inzerillo. Não muito tempo depois, o novo chefe da Cúpula seria Michele Greco, marionete imposta por Totò e engolida pelos demais. O Curto se mostrava como realmente era, comandando a Cosa Nostra como se ainda estivesse em Corleone — escondido em vielas, observando o movimento nas praças, era ele, Salvatore Riina, o novo rei da Sicília, fazendo o sinal da cruz enquanto puxava o gatilho. 

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Leandro Demori nasceu em Santa Catarina, em 1981. Com formação na Associazione di Giornalismo Investigativo de Roma, é um dos diretores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor do site da revista piauí. Lançou em 2016, pela Companhia das Letras, Cosa Nostra no Brasil, uma reportagem sobre Tommaso Buscetta, que derrubou o impédio da máfia e colocou o Brasil na rota do crime. 

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