Três poemas de Vinicius de Moraes

 

Hoje, 19 de outubro, o poeta Vinicius de Moraes completaria 105 anos. Comemorando a data, publicamos uma nova edição de Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasceu vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinicius de Moraes, com organização e apresentação de Daniel Gil e ilustrações de Juliana Russo.

Logo depois da publicação da célebre Antologia poética (1954), o Roteiro lírico… seria anunciado em praticamente todos os lançamentos de Vinicius de Moraes. Era um título “no prelo”, ao qual o poeta se dedicou com afinco por muitas décadas. Apesar de tão aguardado, o volume inacabado só ganharia forma de livro postumamente, com organização de José Castello, em 1992. A presente edição, com seleção e apresentação do poeta e pesquisador Daniel Gil, traz um Vinicius de Moraes bem-humorado, curioso, encantado pela geografia da cidade e por seus elementos de cultura popular, como as tradicionais cantigas e as modinhas. Nesta verdadeira ode ao Rio de Janeiro e às suas transformações, Vinicius recorda: “Havia a gruta de pedras no fundo do córrego, cheia de morcegos que eram os reis do tirar fino. Namorava-se no bananeiral. Quando eu voltava para casa à noite, minha rua me parecia mais misteriosa”.

 

Confira três poemas e três ilustrações do livro:

 

Cidadão da gávea

Na Gávea nasci
Nela me criei
E a ela subi
Por seu mastro rei.

No topo da Gávea
Olhando ao redor
Vi uma paisagem
Que nunca melhor.

Vi torsos, vi seios
Vi coxas, vi nádegas
E era tudo cheio
De roxas dedadas.

Eram mulheres-pedra
De farta axila
Cobertas de esperma
Verde: clorofila.

Depois me larguei
Por mares afora
Vi o sol morrer
Vi nascer a aurora.

Na velha Tunísia
Que olhos não vi!
E que lindos seios
Passeiam em Paris!

Em Londres vi moças
Fulvas, cor de fogo
Só que mais insossas
Que as de Botafogo.

Quero que me enforquem
Coberto de merda
Se batem New York
Em questão de pernas.

Porém sem intuito
De ofensa a ninguém
As bundas mais lindas
É a Gávea que tem!

Itapuã, 24/01/1973

 

Soneto do Café Lamas

No Largo do Machado a pedida era o “Lamas”
Para uma boa média e uma “canoa” torrada
E onde à noite cumpria ir tomar umas brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.

Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.

E em meio a cafetões concertando tramoias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Joias

Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.

Itapuã, 1973

 

Redondilhas a laranjeiras

Laranjeiras pequenina
Carregadinha de flor
Eu também estou dando pássaros
Eu também estou dando flores
Eu também estou dando frutos
Eu também estou dando amor.

 

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