Trocando segredos com Lydia Davis

Por Sofia Nestrovski

 

Quando alguém nos mostra uma semente de uma árvore, mostra duas coisas: a semente que está ali e a árvore que virá. Sabemos que, daquela coisa pequena, surgirá uma outra, maior; sabemos que, se as condições forem apropriadas, a árvore terá flores quando for época de flores, frutos quando for época de frutos.

Quando vemos um texto de Lydia Davis, vemos duas coisas. O texto à nossa frente e algo muito maior, que se desdobra dentro de nós — mas isto apenas se as condições forem apropriadas. Se estivermos dispostos a imaginar enquanto lemos, dispostos a olhar duplamente: um olho no objeto, outro no invisível. De um pequeno texto de Lydia Davis, colhe-se, pela imaginação, o fruto da experiência.

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“Com frequência, no final do dia, quando estou cansada, minha vida se transforma num filme. Quer dizer, meu dia real penetra na minha noite real, mas também se distancia de mim o suficiente para parecer estranho, e parecer um filme.”

Tipos de perturbação

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Com certa frequência, quando estamos lendo Lydia Davis, acontece de nossas vidas se transformarem num livro dela. Começamos a ouvir sua voz narrando nossos pensamentos, penetrando em nossos dias, fazendo tudo ficar um pouco estranho. É algo que acontece.

Lydia Davis escreve sobre coisas banais. Coisas que se parecem, portanto, com as de nossas vidas. Um suéter novo, uma conversa de elevador, a escolha de comer ou não comer peixe no jantar, um sonho, um trecho de Flaubert, uma mosca dentro de um ônibus. De repente, quando vemos, estamos olhando para o mundo com olhos de Lydia Davis: os nossos suéteres, elevadores, peixes, sonhos, livros e moscas começam a ficar parecidos com os dela. E depois, o mesmo acontece com qualquer coisa que estiver à nossa frente — tudo parece que encaixa num texto dela.

Por que isso acontece? Por que a sensação de que qualquer um de nós poderia fechar o livro de Lydia Davis e começar, imediatamente, a escrever seu próprio livro de Lydia Davis? Não é que sua escrita seja fácil de imitar. É mais provavelmente porque, quando lemos seus livros, já estamos escrevendo junto com ela. É isso o que ela nos oferece: um lugar para escrevermos nossos livros imaginários.

Lydia Davis compartilha um segredo com a gente. Ou, talvez, ela permita que nós compartilhemos os nossos segredos com ela. Ou os dois ao mesmo tempo. Além de viver as nossas vidas, nós as imaginamos — no fim das contas, a vida de todo mundo é secreta. Talvez seja isso o que ela esteja nos dizendo por trás de todas as coisas que diz. Que são muitas, aliás. Seus textos são cheios de coisas:

“Com sessenta centavos”

Você está num café no Brooklyn, e acaba de pedir uma xícara de café, que custa sessenta centavos, o que lhe parece caro. Mas na verdade não é tão caro assim, se você parar para pensar que por sessenta centavos está alugando uma xícara e um pires, e um potinho de metal com creme, e um copo de plástico, e uma mesinha, e dois bancos. Também há, para seu consumo, caso deseje, além do café e do creme, água com gelo e ainda, cada um em sua embalagem própria, açúcar, sal, pimenta, guardanapos e ketchup. Fora isso, é possível aproveitar, por tempo indefinido, o ar-condicionado que mantém o ambiente na temperatura ideal, a luz fria que ilumina todos os cantos do café, fazendo com que não haja cantos sombrios, a vista das pessoas que passam na calçada, caminhando no sol quente e no vento, e a companhia das pessoas dentro do café, que se divertem bolando variações infinitas de uma piada às custas de uma ruiva baixinha e meio careca que está sentada ao balcão com os pés cruzados balançando enquanto tenta, com seu braço curto e branquelo, dar um tapa na cara do homem que está mais perto dela. (Tipos de perturbação)

Lydia Davis fala sobre tantas coisas porque é seu jeito de fazer barulho o suficiente para que as pessoas ao redor não ouçam aquilo que ela, na verdade, sussurra. Nossas vidas, como ela mostra em seus livros, são acompanhadas de infinitas coisinhas. E, no entanto, por trás de todas elas, existe um outro lugar onde a vida acontece. Lydia Davis fala tanto, e sobre tantas coisas, porque assim mantém a superfície da vida em movimento. Agita uma meia dúzia de quinquilharias na nossa frente e, com isso, não precisa falar sobre o que é impossível falar. Está certa: segredo é segredo. Não se pode sair contando por aí.

Mas as menores coisas têm sua importância, têm seu lugar no mundo. Dentro dos textos de Lydia Davis, cada uma delas, por menor que seja, parece acrescentar mais uma face àquilo que contorna o segredo. A autora nos oferece esse punhado de coisinhas e começamos a perceber a forma possível que elas criam para algo que não tem forma. Se pudéssemos juntar todas as peças que ela nos oferece — todos os pequenos gestos, pequenos insetos, pequenos incômodos, pequenas moedinhas para pagar um café — e acrescentar as que nós mesmos podemos coletar, de nossas vidas, chegaríamos ao lugar onde, por trás de tantas coisas, tantas coisinhas, sobra o que sobra. O que está lá, e sempre sobra.

Os livros dão possibilidade para isso: eles põem em jogo os segredos mais bem guardados. Eles dão vida ao que sobra; eles dão vida às falas indizíveis que correm por trás de tudo o que dizemos. Não precisamos nos livrar de nossas quinquilharias, de nossas banalidades, de todas as coisas que mexem e brilham na superfície dos dias. Mas podemos completá-las: Lydia Davis preenche o fundo de experiência que existe por trás delas. Ou melhor: nós preenchemos. Escrevemos nossos livros imaginários com Lydia Davis. Encontramos, com ela, as árvores e os frutos onde antes nem ao menos conhecíamos as sementes.

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Sofia Nestrovski é mestre em letras pela USP. Assina a seção semanal “Léxico”, no Nexo Jornal, dá aulas sobre Shakespeare para pequenos grupos e escreve resenhas para a revista Quatro cinco um.

 

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