Um antivírus contra a tirania: Hannah Arendt e “Origens do totalitarismo”

Por Heloisa Murgel Starling

Em 20 de janeiro de 2017, manifestações contrárias ao novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tomava posse naquele dia, eclodiram nas principais cidades do país. Os protestos acomodaram oposicionistas de todo tipo, desde grupos pacifistas e ambientalistas, militantes por direitos, liberais, esquerdistas e progressistas de diferentes matizes, até os indefectíveis black blocs espatifando fachadas de cafeterias Starbucks e lanchonetes McDonald's e incendiando latas de lixo. As mobilizações produziram uma energia política como há muito tempo não se via nos Estados Unidos e seus participantes insistiam na urgência de incitar a sociedade a defender os valores democráticos que entravam numa zona de risco a partir daquele momento. Foi aí que, em Washington, Nova York, Los Angeles e Chicago, as livrarias independentes roubaram a cena. Entupiram suas vitrines e mostruários com uma seleção de livros; só que, dessa vez, em vez de lançamentos recentes, os livros em exibição tinham sido publicados no mínimo trinta anos atrás – em pleno século XX.

Não parou nisso. Grupos de ativistas entraram no circuito, se cotizaram e compraram edições inteiras desses livros para serem distribuídas ao público. O sujeito entrava na livraria, ganhava de presente um exemplar e recebia uma recomendação: “Leia e aja”. A estratégia era cristalina: os livros deveriam atuar como uma espécie de antivírus para prevenir, detectar e proteger a sociedade americana contra a entrada do autoritarismo e da intolerância. Afinal, argumentavam os livreiros, a democracia havia sido construída nos Estados Unidos há mais de cem anos e as pessoas estavam tão habituadas a viver em liberdade que essa parecia ser uma condição natural – mas não é. Boa parte dos títulos selecionados vinha da área de ficção e escancarava o pesadelo futurista da distopia: 1984, de George Orwell, publicado em 1949; Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, de 1932; O conto da aia, de Margaret Atwood, lançado em 1985. Havia, contudo, entre os títulos selecionados, um livro de não ficção, escrito na fronteira entre a História e a Teoria Política e capaz de esclarecer as pessoas sobre os desafios que a democracia enfrentaria no século XXI: Origens do totalitarismo, de Hannah Arendt. De alguma maneira, a estratégia dos livreiros deu certo. Surpresos, os editores de Orwell decidiram imprimir às pressas uma nova tiragem de 1984 – e mandaram rodar 400 mil exemplares. Origens do totalitarismo, por sua vez, emplacou a 25ª posição na lista dos mais vendidos do jornal USA Today.

Hannah Arendt começou a escrever Origens do totalitarismo logo depois da Segunda Guerra; o resultado foi publicado em 1951 e tornou a autora conhecida internacionalmente. Se o objetivo dos livreiros, em 2017, era o de ativar um antivírus contra a tirania, eles acertaram na mosca. O livro está organizado em três partes. Nas duas primeiras, “Antissemitismo” e “Imperialismo”, Arendt retraça os fatos de onde se originou a configuração histórica do totalitarismo – o nazismo e o stalinismo – e revela ao leitor os nexos comuns aos dois regimes. Mas é na terceira e última parte – “Totalitarismo” – que o livro se torna desconcertantemente próximo de nossos assuntos contemporâneos. E, na medida em que a nossa leitura avança, descobrimos meio espantados que podemos nos valer dele para encarar uma pergunta aparentemente impensável: qual a possibilidade de voltarmos a viver uma experiência totalitária nos dias de hoje?

A pergunta não é nada retórica. A experiência totalitária nunca foi um ponto fora da curva, o resultado singular de uma conjuntura específica que colocou a violência no centro da vida europeia, durante a primeira metade do século XX. Tampouco é o efeito monstruoso da loucura que envolveu um pequeno punhado de pessoas que chegaram ao poder e se dedicaram a destruir o sistema político de dentro para fora. Ao contrário: o totalitarismo é uma forma de dominação característica da modernidade. Por isso, diz Arendt, essa é uma possibilidade concreta que está inscrita na lógica política das sociedades democráticas contemporâneas: o material indispensável para construção de uma experiência totalitária atravessa essas sociedades por meio de “correntes subterrâneas” e pode, de súbito, aflorar. Isso acontece por uma razão simples: nenhuma sociedade democrática impede a manifestação de divergentes. E então, quando os mecanismos institucionais dessas sociedades passam a ser usados ou manipulados pelo ativismo de pessoas, grupos e setores sociais que estão dispostos a abrir mão de conquistas caras à democracia para emprestar seu apoio a teses próprias de um regime político extremo, os ingredientes que preparam a emergência do fenômeno totalitário inflam e sobem à superfície.

No argumento de Arendt, são esses ingredientes que emprestam um rosto contemporâneo ao totalitarismo e lhe conferem sentido. O principal deles, diz ela, é o surgimento das massas: um número cada vez maior de pessoas que, devido à quantidade ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não têm relações comunitárias, não se integram nem compartilham propósitos comuns. Uma multidão de pessoas isoladas umas das outras, preocupadas apenas em cuidar da própria segurança e escapar da violência urbana, salvaguardar seus negócios e desfrutar de uma vida meticulosamente privada. Essas pessoas se falam, se combinam e se acertam: julgam-se injustiçadas pelo Estado, acreditam que estão sendo destituídas de seu lugar de direito, descreem da política e de suas ferramentas, como partidos ou eleições, defendem a preeminência da economia sobre a vida pública.

O outro ingrediente, diz Arendt, é a propaganda. Ou, melhor dizendo, um tipo característico de propaganda orientada para preencher o vazio da solidão do indivíduo e fornecer a ele uma visão coerente do mundo – mesmo que essa visão esteja em flagrante contradição com os dados da realidade. Pessoas isoladas umas das outras não possuem – e nem desejam possuir – meios para contrapor informações e refletir sobre posições divergentes. Isso serve bem à propaganda totalitária: permite fazer uso da mentira como categoria política. A mentira consiste em negar, reescrever e alterar fatos, até mesmo diante dos próprios olhos daqueles que testemunharam os fatos. Também permite à propaganda desatar no sujeito o ressentimento que o faz se enxergar como vítima de alguém mais poderoso que cometeu com ele uma injustiça irreparável, como por exemplo, a de suprimir seus privilégios históricos. O ressentimento, além de ser a base afetiva para a criação de um forte sentimento de identidade entre essas pessoas, faz aflorar, no meio delas, a intolerância que nega qualquer divergência e elimina o horizonte da igualdade. E, vale anotar, a intolerância está situada na raiz do ódio; o ódio, por sua vez, é combustível indispensável na emergência do fenômeno totalitário.

É impossível saber de antemão se a movimentação dessas correntes subterrâneas irá ou não desembocar num regime político extremo. Mas o risco existe. Está presente em nossa contemporaneidade, tanto em sociedades de democracia duradoura como a americana, quanto em países onde a democracia é uma construção recente e ainda por cima anda mergulhada em instabilidade, como a brasileira. Também não sei o que pensam a respeito os nossos livreiros. Mas desconfio que esteja passando da hora de reler, no Brasil, Origens do totalitarismo, de Hannah Arendt.

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Heloisa Murgel Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986). Em 2015, lançou com Lilia Moritz Schwarcz o livro Brasil: uma biografia

 

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