Um leão por dia

Marília Garcia

 

Outro dia uma amiga contou que estava vendo grandes ondas em São Paulo. Imaginei ondas de pessoas ou prédios. Talvez de poeira. Ou de ruína. 

Ela disse que começou a reparar, caminhando pela cidade, nas várias portas, objetos e painéis que traziam estampada a grande onda do artista japonês Katsushika Hokusai (vale a pena ler o poema do Waly Salomão dedicado a ele). 

Nunca pensei que o mar em São Paulo seria um mar japonês, mas depois da nossa conversa, passei a ver a grande onda se multiplicando por muitos lugares, numa portinha aqui, numa cortina acolá, num porto-copos ali. A cidade foi virando mar desde aquela nossa conversa.

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Durante um tempo, achei que Hokusai tivesse se dedicado somente às ondas e paisagens, mas um dia li, num poema da Anne Carson, que ele também desenhou centenas de leões. Resolvi traduzir o poema que copio aqui:

Hokusai

A raiva é um nó no peito
mas ele pode ser desfeito.

Hokusai, aos 83 anos,
disse,
chegou a hora de fazer os meus leões.

Todas as manhãs
até a sua morte,

219 dias depois,
ele desenhou
um leão.

Rajadas de vento sopravam do noroeste.

Os leões em movimento
saltavam
do alto

dos pinheiros
para as ruas

cobertas de
neve ou se
estatelavam

em cima da cabana dele,
as patas brancas

ferindo as estrelas
ao cair.

Continuo desenhando
em busca
de um dia calmo,

dizia Hokusai.
Enquanto isso, os leões tombavam.

***

Contam que Hokusai fazia este exercício diário de “exorcismo”, como ele chamou, seguindo uma superstição segundo a qual desenhar leões chineses (que eram figuras míticas imaginárias) e depois jogá-los fora ajudaria a manter a saúde e afastar o mal. Muitas vezes é preciso matar um leão por dia para seguir adiante e se manter são. Parece que o poema de Carson fala disso, sobre como controlar a raiva, preservar a saúde mental e lidar com os próprios fantasmas. Ao escrever, ao traduzir, vamos em busca de um dia calmo. As palavras podem se transformar num leão em movimento se deslocando pela cidade. E depois tombar.

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O poema de Carson fala sobre um dos temas caros à poesia, a relação estreita entre vida e arte. Como transformar a vida num leão. Como fazer um leão com vida.

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Elias Canetti trata da relação entre vida e literatura num belo ensaio sobre Kafka em que traça paralelos entre O processo e um acontecimento marcante na vida de Kafka: seu noivado com Felice (ocorrido pouco antes da escrita do romance). Canetti lê nas cartas de Kafka as descrições deste episódio, em que o autor confessa ter se sentido acossado e julgado, relacionando-as com a cena inicial de O processo, em que K. é detido. O crítico também traça paralelos entre a cena final do romance e o rompimento do noivado (sempre a partir das cartas). Segundo Canetti, o episódio da vida pessoal do autor seria o outro processo. 

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Depois que passei a ver a grande onda japonesa de Hokusai se espalhando pelo asfalto, a cidade se transformou, agora é mediada por este movimento do mar. Meus dias ganharam outro sentido. Também penso com frequência nos leões. E em como fazer para segurar a onda.

 

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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