Um outro olhar sobre a poesia feita por mulheres

Por Eric M. B. Becker

Muito se fala hoje da poesia feita por mulheres, seja no Brasil ou nos Estados Unidos. Como editor de uma antologia da literatura brasileira feita por mulheres (tema que eu mesmo sugeri à editora) e também como tradutor que já traduz mais escritoras do que escritores, talvez soe inesperado que eu faça a seguinte pergunta: devíamos ler as poetas brasileiras de hoje com menos consideração pelo gênero? Ou, melhor dizendo: a biografia devia entrar na leitura dessas autoras ao mesmo ponto que entra para homens que escrevem?

Tanto como tradutor quanto no papel de editor de literatura brasileira, me parece que o foco em abordagens pela via biográfica, embora importante, pode deixar em segundo plano caminhos de leitura fecundos e relativamente menos explorados. Dou aqui um exemplo: entre as poetas contemporâneas que tive a honra de traduzir ou de publicar em inglês, se destaca um ponto comum que talvez possa guiar a nossa leitura — o intenso diálogo da poesia brasileira contemporânea com tradições poéticas para além das referências nacionais, por meio de alusões e apropriações de obras de autores atuais ou de obras clássicas.

Me ocorrem quatro casos que poderiam ser pensados desse ponto de vista.

O primeiro é o caso de Marília Garcia, que, em poema publicado na antologia Glossolalia: Women Writing Brazil (PEN America, 2016) e no site Literary Hub, sugere um diálogo com a obra do autor cubano Guillermo Cabrera Infante, tomando o título de um conto seu para nomear seu poema: “uma mulher que se afoga” (“a woman saved from drowning”). O poema, espelhando o conto, abre com o barulho da chuva invadindo uma sala onde se encontram duas pessoas (no caso do poema, uma sala de casa; no do conto, um restaurante em Havana). Em uma sala de casa iluminada pelas lâmpadas da rua, a narradora do poema de Marília resolve abrir um caderno cheio de anotações, achado num café muito tempo atrás, e depois pergunta a um outro (o seu parceiro, se supõe) “quando acredita que a chuva vai passar?”— citação direta do conto de Cabrera Infante. Como no texto de Cabrera Infante, o poema se foca em uma cena entre um casal, e a decisão final de uma mulher de enfrentar a chuva, metáfora comum entre os dois textos. Mas onde o olhar e a perspectiva do narrador no conto são masculinos, no poema de Marília são femininos, colocando mais ênfase no controle que a mulher exerce sobre seu próprio destino e sua determinação em fazê-lo em meio a condições adversas.

Angélica Freitas é outra. Em “ítaca,” poema traduzido por Hilary Kaplan e publicado na edição de julho de 2016 da Words without Borders, Freitas chama nossa atenção à poesia do grego C. P. Kaváfis, cujo poema do mesmo nome inspira este de Angélica. (Seria um delito se eu não confessasse uma certa “decepção” bairrista de descobrir, ao ler o poema pela primeira vez, que a Ítaca de Angélica não era a urbe gélida na região norte do estado de Nova York.) Onde o poema de Kaváfis remete a uma odisseia e uma viagem interior, o périplo de Freitas conta de uma paisagem diferente, de hotéis lotados, e-mails em vez de cartões-postais e lojas duty-free.

Como Angélica Freitas, Ana Martins Marques também busca nos gregos uma certa inspiração, ou, pelo menos, um ponto de partida. No seu primeiro livro, A vida submarina, a poeta traz uma série de poemas intitulados “Penélope,” em referência a “Odisseia”, de Homero, onde a esposa de Ulisses tece e destece uma mortalha para o seu sogro para não se ver forçada a casar novamente quando Ulisses é dado por morto. Mas como Angélica, se a temática é milenar, os detalhes remetem ao cotidiano de hoje; onde a fonte é elegíaca, a poesia de Ana alterna entre o sombrio e um elemento quase lúdico.

Alice Sant’Anna, por sua vez, no seu último livro-poema, “pé de ouvido,” retoma a tradição de escritores estrangeiros que usufruíram de uma experiência nos Estados Unidos como matéria-prima para sua poesia. (O exemplo mais célebre talvez seja o de García Lorca, com seu Poeta em Nova York.) As observações de Alice às vezes lembram os poemas “Vuelta de paseo” ou “El rey de Harlem” do poeta espanhol — o primeiro definido por sua subjetividade e o segundo por seu desejo de decifração de costumes alheios. Alice não para ali — elementos e observações sobre a poesia japonesa também se intercalam na narrativa de uma jovem descobrindo os arredores de Providence, Rhode Island, enquanto mantém um pé no Rio de Janeiro.

O interesse dessas poetas nesses diálogos serve para desmentir aqueles que afirmariam faltar à literatura contemporânea a devida apreciação pela tradição literária. Por outro lado, ficou comum as editoras deste lado do Equador dizerem estar em busca de algo “essencialmente brasileiro” quando vão à procura de autores brasileiros para seus catálogos (uma ideia um tanto absurda e reducionista que não se aplica aos autores americanos — continuo aguardando o primeiro editor que diga estar procurando “o próximo grande autor do estado do Kansas”). A maior contribuição destas mulheres que hoje escrevem poesia no Brasil talvez seja a de mostrar não só que elas bebem da fonte da literatura internacional — um “privilégio” que, muitas vezes, as editoras norte-americanas reservam para escritores estadunidenses ou europeus — mas que têm toda intenção de afirmar seu lugar no seu futuro.

* * * * *

Eric M. B. Becker é editor da revista norte-americana Words without Borders, escritor, e tradutor. Traduziu para o inglês escritores de língua portuguesa como Mia Couto e Djaimilia Pereira de Almeida, e escritores brasileiros como Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade, e Alice Sant’anna. Seus textos já foram publicados no New York Times, The Literary Hub, Freeman’s e Electric Literature, entre outras publicações. Em 2016, recebeu uma bolsa Fulbright para traduzir literatura brasileira. Hoje, mora em Nova York.

Neste post