Uma conversa com Haruki Murakami

No início de 2018, Haruki Murakami concedeu uma entrevista exclusiva em seu escritório em Tóquio aos agentes literários da Curtis Brown. O mais celebrado autor contemporâneo de língua japonesa comentou o lançamento O assassinato do comendador, que acaba de chegar ao Brasil pela Alfaguara.  

Trata-se do mais aguardado romance do célebre escritor japonês desde 1Q84, obra que o projetou mundialmente. As comparações com 1Q84 são, aliás, recorrentes na imprensa internacional desde o lançamento. Novamente, Murakami pontua a trama com referências a ícones da cultura ocidental (a ópera Don Geovanni e ao romance O grande Gatsby), e cria um enredo repleto de elementos místicos e realidades paralelas. Dividido em dois volumes, a continuação chegará ao mercado brasileiro ainda no primeiro semestre de 2019.

No meio de uma crise conjugal, que o marido nem sabia que estava acontecendo, um casal se separa. O marido abandona Tóquio e passa a viver em seu carro, viajando pelo Japão. Pintor de retratos reconhecido no meio, ele acaba por conseguir uma casa que pertenceu ao famoso Tomohiko Amada. A casa fica nas montanhas, e lá ele pode se dedicar à própria pintura.

Nessa casa de paredes vazias, ele começa a ouvir ruídos estranhos e descobre um quadro inédito intitulado O assassinato do comendador. Ao tirá-lo de seu esconderijo, ele entra em um mundo estranho em que a ópera Don Giovanni, de Mozart, a encomenda de um retrato, uma adolescente tímida e, claro, um comendador passarão a fazer parte de sua vida.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

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Murakami, seus fãs vão ficar encantados que você tenha voltado a escrever um romance de fôlego, algo que os permita mergulhar de corpo e alma. Depois de dois livros mais curtos (O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação e Homens sem mulheres), você já tinha a intenção de escrever um romance mais extenso ou chegou a esse tamanho durante o processo de criação?

Fico muito feliz por poder escrever obras de vários formatos e tamanhos. Penso que talvez este seja um dos meus pontos fortes como escritor. Eu tendo a alternar entre contos, novelas e romances mais longos. Para cada recipiente, há um material apropriado. Então o que acontece não é que eu decido, “bom, agora vou escrever algo de determinado tamanho”. É o tipo de material que tenho dentro de mim a cada momento que acaba definindo, naturalmente, o tamanho do recipiente. O que eu preciso fazer é avaliar bem qual o recipiente necessário para as ideias que tenho naquele momento. Se essa avaliação for bem-feita, o resto do processo costuma correr de maneira mais fácil e espontânea (não que o trabalho de escrever literatura seja simples, de jeito nenhum...).

Existem autores que só conseguem escrever obras longas, outros, apenas contos. Assim como Wagner não escrevia sonatas para piano e Debussy não escrevia sinfonias. É claro que isso não diminui o valor de Wagner ou de Debussy como compositores, já que o que importa de fato é a qualidade de cada obra. Mas para mim é ótimo, psicologicamente, poder usar recipientes diferentes em cada caso, pois as ideias que eu trago comigo assumem formas e tonalidades distintas, da mesma maneira que eu, como ser humano, tenho facetas diversas.

 

Em uma entrevista a um jornal japonês, você mencionou que o personagem Menshiki é uma espécie de homenagem ao O grande Gatsby, um de seus romances prediletos que você chegou a traduzir para o japonês. Ao começar a escrever O assassinato do comendador já tinha em mente essa obra em particular (ou outro clássico da literatura) ou a referência tornou-se aparente durante o processo de escrita?

Fui influenciado por vários escritores excelentes, que muito me ensinaram e estimularam. Escrever literatura é uma atividade individual, mas que ao mesmo tempo tem um aspecto de tradição e transmissão, pois nós aprendemos com o passado, desenvolvemos essas ideias e as conectamos com o futuro. Eu gosto muito de O grande Gatsby e uma parte deste romance é uma homenagem a essa obra, ou um tipo de “brincadeira” com ela. Isso também pode ser visto como um statement sobre essa tradição de que falei. O mesmo pode ser dito sobre Contos da chuva de primavera, de Ueda Akinari. Isso considerando algumas partes do romance, é claro. O conjunto da obra é outra coisa.

 

É correto dizer que o romance é sobre a criatividade, e como funciona esse misterioso processo, não de forma direta, mas indiretamente?

O trabalho de um romancista, ou de um artista, depende da maneira como ele acessa o que se encontra no seu subconsciente. Do quanto ele consegue se aproximar disso. Claro que não é só uma questão de acessar essas coisas, mas também de trazê-las à superfície e dar-lhes uma forma apropriada. E o resultado que se obtém não é apenas para a satisfação pessoal do autor, precisa ser algo que o destinatário (leitor) possa compartilhar profundamente. Pelo menos, é assim que eu penso ao escrever.

Então é possível que essa ideia de acessar o subconsciente seja um tema recorrente nas minhas tramas. Porém, não é algo que eu faça de propósito. Só vou acompanhando a narrativa e ela acaba tomando naturalmente esse rumo. É bem espontâneo. Também é possível que, quanto mais extensa for a obra, mais forte seja essa tendência. Para mim, um romance longo deve ser transformador, preciso sentir uma mudança clara entre quando comecei a escrever e quando termino. Para isso eu preciso mergulhar muito fundo em mim mesmo, e certamente essa atitude acaba se refletindo também no protagonista.

 

Seus romances são, às vezes, tão incomuns quanto um conto de fadas, mas, por outro lado, você é capaz de escrever cenas cotidianas de uma maneira concisa. Esse equilíbrio ou combinação entre conto de fadas e romance realista reaparece nos títulos dos capítulos: como, por exemplo, o capítulo 2 (“Talvez todo mundo acabe indo para a lua”), e, em contraposição o capítulo 28 (“Franz Kafka amava ladeiras”). Você chega a refletir sobre esse equilíbrio antes de escrever ou ele é resultado espontâneo do ato da escrita?

Eu não costumo escrever obras realistas (com exceção de alguns contos e de Norwegian Wood), mas como leitor gosto muito de escritores e livros com um estilo mais realista. E acho muito divertido estudar os pormenores dos textos desses autores. Mas as narrativas que eu escrevo usando esse estilo não são, na maioria dos casos, narrativas realistas. Creio que essa separação me atrai. Pensando no caso específico de O assassinato do comendador, eu poderia dizer que é uma situação semelhante à do protagonista artista, que prefere pintar quadros abstratos, mas não deixa de analisar desenhos realistas. O desenho é muito importante.

 

Um casamento repentino, uma separação repentina, um terremoto, e todo tipo de acontecimentos imprevisíveis. O universo de seus romances difere do mundo corriqueiro e que pode ser tedioso (enquanto em seus livros aparentemente não há um dia sequer que seja entediante) ou você acredita que geralmente não enxergamos a estranheza do universo em que vivemos?

Vista de certo ângulo, a nossa vida cotidiana pode parecer muito repetitiva, medíocre e tediosa. Porém, por outro lado ela é repleta de contradições e rupturas, é surpreendentemente ilógica. E, volta e meia, nossas noites são tomadas por sonhos absurdos. É como se alguma coisa que não conseguimos mensurar com as medidas existentes, que não conseguimos colocar dentro dos recipientes existentes, jorrasse sem parar dentro de nós. Eu acho que nós vivemos, simultaneamente, nesses dois mundos. A meu ver, o papel da ficção é destacar e ampliar esse outro ponto de vista. Se possível, com uma postura positiva.

 

Os personagens de O assassinato do comendador têm inspiração na ópera Don Giovanni, de Mozart, e servem de referência para o narrador/protagonista. Podemos concluir que para você esses grandes personagens podem nos dizer algo sobre a condição humana (ou ao menos podem ter a função de nos confortar)?

Na sociedade atual, em que não faltam informações dos mais diversos tipos, divulgadas pela mídia, pode-se dizer que vivemos sempre carregando um gigantesco “reservatório cultural”. Eu gosto de pegar nesse reservatório coisas que podem se tornar ícones e colocá-las dentro das narrativas com a função de símbolos. Como o Coronel Sanders ou Johnny Walker em Kafka à beira-mar, por exemplo. Eu também gosto que essas coisas ultrapassem as diferenças linguísticas, culturais, políticas ou ideológicas e que sejam compartilhadas instantaneamente. Ainda que o Don Giovanni de Mozart não seja tão popular quanto o Coronel Sanders...

 

Muitos de seus protagonistas masculinos não têm sorte no amor ou estão na busca por ele, como o narrador em primeira pessoa de O assassinato do comendador. Prestes a se divorciar e sofrendo de um bloqueio criativo. No entanto, você mantém um casamento feliz há décadas e a sua trajetória profissional parece bastante frutífera e estável. De onde vem a sua inspiração para criar personagens tão convincentes?

Para falar a verdade, às vezes a minha situação atual é que me parece inverossímil. Olho ao meu redor e sinto que estou num mundo no qual não deveria estar. E aí, quando estou escrevendo ficção, é como se vivesse outra vida, como se eu pensasse “poderia ter sido assim”. Talvez isso seja bom para a minha saúde mental, no sentido de ser um tipo de autocura, uma forma de retificar alguma distorção que existe dentro de mim. Talvez essa ação — de colocar a si mesmo dentro de uma vida e um contexto diferentes, através da ficção — só seja possível para os escritores.

É claro que há coisas que não mudam independente do contexto, mesmo que você seja jogado em uma situação totalmente diferente. No meu caso, acho que seria a minha paciência, o fato de eu não me importar em ficar sozinho, de gostar de gatos e de música... esse tipo de coisa.

 

Por fim, qual será o seu próximo trabalho: uma tradução ou um novo livro?

Agora estou escrevendo alguns contos, mas ainda não sei se vai dar certo ou não. E minha tradução do momento é uma coletânea de contos do John Cheever (muito boa).

 

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Tradução da entrevista: Rita Kohl e Felipe Maciel

 

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