Uma entrevista com a tradutora de Waly Salomão

Por Alice Sant'Anna

Detalhe da capa da edição norte-americana de Algaravias, lançada pela Ugly Duckling Presse.

Um dos primeiros poemas publicados pela poeta e tradutora iraniana Maryam Monalisa Gharavi foi dedicado a Waly Salomão (1943-2003). Ela foi apresentada à obra do autor de Me segura qu’eu vou dar um troço quando esteve no Rio, durante a faculdade, e lamenta não ter conhecido pessoalmente um dos nomes de destaque associados ao tropicalismo, à poesia marginal e também ao rock brasileiro dos anos 1980. Monalisa traduziu para o inglês o quinto título de Waly, Algaravias, que foi publicado no ano passado nos Estados Unidos pela pequena e prestigiosa editora americana Ugly Duckling Presse e figura entre os dez semifinalistas do Prêmio PEN para Poesia Traduzida. Nessa conversa por e-mail, Monalisa lembra como foi o processo de tradução do livro, que em 1997 venceu o Prêmio Jabuti na categoria Poesia, e fala sobre seu primeiro contato com a obra altamente vanguardista do poeta baiano. Para ela, traduzir os versos de Waly foi “um percurso que você atravessa sozinho, mas nunca a sós”.

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Você conheceu a obra de Waly Salomão quando esteve no Brasil. Como foi esse encontro, e o que você estava fazendo por aqui na época?

Naquela época, eu estava na faculdade e morava no Rio de Janeiro. Tudo o que acontecia fora da faculdade parecia muito mais empolgante, mais importante. Waly estava vivo, e não acho que encontrar sua obra tenha acontecido por acaso. Ele tinha uma presença muito dinâmica no Rio, não apenas como uma figura cultural, mas como alguém que poderia aparecer do nada e fazer leituras cheias de vida na rua. Ele era conhecido por todo tipo de gente. Ou seja, as pessoas não precisavam estar ligadas à literatura para conhecer sua obra, e isso é bastante revelador se pensarmos no “pequeno público” de poesia na sociedade contemporânea. A proprietária do lugar onde eu morava me apresentou à sua obra, e eu fui fisgada. Acabei conhecendo um amigo próximo de Waly, Duncan Lindsay, e segui suas pegadas em livrarias e cafés literários por toda a cidade. Mas, no momento em que eu estava perto de conhecê-lo – e por acaso vivíamos no mesmo bairro –, ele morreu de repente. Sua morte se tornou o tema de um dos primeiros poemas que eu publiquei, “Against Nepenthe”, que é dedicado a ele.

Por que você escolheu traduzir este livro especificamente, Algaravias, e como foi o contato com a editora americana Ugly Duckling Press, que tem um forte catálogo de poesia?

Bom, traduzir Algaravias virou uma missão pessoal a partir daquele momento. Mais tarde, quando eu estava estudando árabe na Síria, segui os passos de Waly na terra de seus ancestrais, Arwad, a única ilha da Síria. Quando cheguei lá, estava com a primeira edição de Algaravias, que tinha uma foto da costa na capa. Foi meio mágico estar com aquela capa, que mostrava veleiros e barcos de pesca, em contraste com o pano de fundo original. Então a mitologia pessoal de Algaravias – sobre transformar línguas estrangeiras e lugares transitórios em sua própria casa – é muito cara para mim. É também um livro que estava muito à frente do seu tempo se pensarmos na época da internet. “RIO(coloquial-modernista).DOC” foi escrito no começo dos anos 1990, mas a sensação é de que alguém escreveu aquilo 20 anos depois. O livro é um oráculo para os dois registros da modernidade: o efêmero e o virtual.

Waly é um nome central do tropicalismo. Ele transitava por poesia, música e artes visuais com muita liberdade. Como foi o processo de tradução dos poemas, já que uma das marcas mais poderosas da obra de Waly é a experimentação com a linguagem?

A conexão de Waly com as formas de arte do Tropicalismo e com as pessoas associadas a essa época é clara. Acredito, por outro lado, que ele foi além do Tropicalismo no que diz respeito ao assunto e à sensibilidade. Antes de traduzir Algaravias, escrevi sobre essa questão num ensaio chamado “Viagem e anti-viagem”. A complexidade que se encontra na calmaria – quando alguém consegue superar a calmaria interna e a agitação – é um ponto primordial para Waly, e durante o processo de traduzir esse livro eu me senti muito próxima a essa ideia. Passei todos os fins de semana de um longo e quente verão nas profundezas do porão de um escritório sem nenhum glamour, traduzindo uns dois poemas por vez. É um percurso que você atravessa sozinho, mas nunca a sós. O humor e a complexidade da poesia de Waly eram companhias calorosas.

Ainda sobre o processo de tradução, o Waly, em seus poemas, inventa muitas palavras (como é o caso de mostruário-monstruário”). Você poderia dar algum exemplo de um desafio que enfrentou ao traduzir esse livro? Foi necessário fazer muita pesquisa?

Alguns dos neologismos e das variações lexicais do Waly eram tão estranhos que, quando eu mostrava exemplos para brasileiros ou portugueses, eles sempre reagiam da mesma maneira: “Isso é muito difícil!”. Mesmo assim, tem algo muito familiar nessa dificuldade, porque eles entendiam o poema sem necessariamente conseguir explicar uma palavra inventada ou modificada. Acho fascinante essa mistura de acessibilidade e dificuldade. Uma vantagem de ser um falante não-nativo, na minha opinião, é poder se aproximar do texto com um grau de distância. Isso ajuda enormemente na hora de traduzir uma sintaxe inventada ou palavras que foram inseridas na cultura. Em “Jet-Lagged Poem” [Poema Jet-Lagged], Waly escreve “a palavra OXENTE”. É uma exclamação peculiar que vem da elisão “oh gente!”. Para manter a sensibilidade regional embutida nessa palavra, eu a traduzi por “LAWD”, uma exclamação parecida para quem nasceu no sul dos Estados Unidos, onde morei quando era criança. 

Além de Algaravias, o livro Rilke Shake, de Angelica Freitas, com tradução de Hilary Kaplan, foi publicado nos Estados Unidos recentemente e recebeu muita atenção (e elogios) da imprensa. Na sua opinião, há um interesse maior do leitor americano por literatura brasileira, especialmente por poesia?

Eu não posso medir o interesse do leitor americano por literatura, muito menos por poesia, mas há algo a se pensar no que diz respeito à criação dessa demanda. Os livros entram em domínio público graças ao esforço das pessoas que se preocupam profundamente com eles. Se você acredita que isso é uma prioridade e se empenha com os cuidados necessários, as pessoas também se mobilizam. Dito isso, a literatura brasileira é muito mal servida em inglês, especialmente a escrita por mulheres e por pessoas que nasceram fora do eixo. O Brasil é um lugar complexo e emaranhado, e sua literatura reflete perfeitamente essa complexidade. Fico animada de ver que a literatura brasileira está atraindo mais leitores fora do país.

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Algaravias está em Poesia total, livro que reúne a obra completa de Waly Salomão, e ganhará nova edição em julho de 2017

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Alice Sant'Anna é editora da Companhia das Letras. 

 

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