Uma playlist para "Pai, pai"

Por João Silvério Trevisan

Quando pequeno, eu usava minha imaginação para fugir do ambiente opressivo que meu pai alcoólatra impunha em casa. Além dos filmes vistos no cinema local, eu também me refugiava nas músicas. De todos os tipos. Aí era como se elas chegassem direto às veias, para temperar o caldeirão das minhas emoções. As músicas ouvidas não me colocavam em contato apenas com outros mundos. Elas me transformavam em um Outro, ao mesmo tempo vago e abrangente. Eu compreendia as minhas dores e alegrias através dos sentimentos que recebia nas músicas. Com elas, meu Pequeno Mundo ficava povoado de ecos do Grande Mundo. E eu extravasava a mim mesmo. De lá para o resto da minha vida, as músicas se tornaram essenciais. Aqui vão algumas citadas em Pai, pai

"Canta, Maria", com Cândido Botelho, de Ary Barroso; gravação de 1941 

"O Ébrio", com Vicente Celestino

"Abismo de rosas", de Canhoto (ao violão)

"Cucurrucucu Paloma", de Miguel Aceves Mejía

"Gorrioncillo Pecho Amarillo", de Miguel Aceves Mejía

"Barcarolle" (versão orquestral), de Jacques Offenbach

"El Choclo" (tango conhecido no Brasil como Aventureira)

Marcha militar de John Philip Sousa: "The Stars and Stripes forever"

"Que será, será", de Doris Day

"Sub tuum presidium", de Louis Lambillotte, SJ

"Adeus", de Francisco Alves, o “Rei da Voz”

"Ai, Lili, ai lô", popularizada pelo filme Lili, com Leslie Caron

"Suíte Quebra-Nozes", de Tchaikovsky

"Suíte Grand Canyon", de Ferde Grofé (faixa “On the trail”)

"Rapsódia Húngara nº 2", de Liszt (versão para orquestra)

"La Dolce Vita"

3ª Sinfonia de Brahms (3º movimento)

"Volta por cima", de Paulo Vanzolini com Noite Ilustrada

"You can´t Always get what you want", Rolling Stones

"Epitaph", King Crimson

"Deus e o Diabo na Terra do Sol", trecho trilha sonora de Sérgio Ricardo

"Like a rolling stone", de Bob Dylan

"Concerto para Clarineta", de Mozart (2º movimento)

"Amazing Grace, com Nana Mouskouri

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Mesclando passado e presente, análises pessoais e referências culturais, Pai, pai compõe um painel inesquecível da relação tumultuosa entre pai e filho enquanto constrói, com maestria, o retrato de toda uma geração. 

João nasceu em Ribeirão Bonito, interior de São Paulo, filho mais velho de uma família de classe média baixa. Desde o início, acompanha a forma rude como o pai José trata sua mãe, de origem mais humilde. É vítima, ainda criança, da violência de José, que não aceita sua natureza de “menino maricas”. Antes de completar 10 anos, João entra num seminário, para escapar do ambiente de casa. “Eu iniciava meu processo de ser outro, um homem, sem deixar de ser o mesmo filho de José, o cachaceiro.” Depois de abandonar o seminário, ele busca sua liberdade, e deixa o Brasil da ditadura para conhecer o mundo. Atravessa graves momentos políticos na América Latina e vivencia a contracultura nos Estados Unidos. Mergulha na escrita e nas artes. Mas a sombra do pai continuará sempre consigo.

Pai, pai, lançado pela Alfaguara, já está nas livrarias. 

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João Silvério Trevisan tem treze livros publicados, entre ensaios, romances e contos. É outor do romance Ana em Veneza e do ensaio Devassos no Paraíso, entre outros. Realizou também trabalhos como roteirista e diretor de cinema, dramaturgo, tradutor e jornalista. Dirigiu o longa-metragem cult Orgia ou O homem que deu cria (1970), proibido pela ditadura durante mais de dez anos, e o curta Contestação (1969), realizado clandestinamente. Recebeu três vezes o prêmio Jabuti e o prêmio da da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o último deles pelo romance Rei do cheiro (Record, 2009). Pai, pai, seu romance mais recente, acaba de sair pela Alfaguara. 

 

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