Viagem em busca de Ana C. — 3º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

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26-07-2014

Hoje é sábado te escrevo do Leblon, de dentro do café da Livraria Argumento. Você frequentava livrarias, eu sei. Vi os marcadores guardados no seu acervo. Lembro-me de ter visto uns três marcadores, dois eram de livrarias. Uma delas em Buenos Aires, na Corrientes. Coleciono marcadores de livro.

Estou aqui olhando para o seu índice onomástico ao final de A teus pés. Gertrude Stein, Katherine Mansfield. Quem sabe aproveito sua recomendação e compro algum livro delas, são mulheres que ainda não li.

Tem um verso seu, no primeiro poema de A teus pés, que diz assim:

É domingo de manhã (não é útil às três da tarde).

Aqui, agora, é sábado, Ana, já te disse. E são duas da tarde.

Vim te buscar e, acredita Ana, que, sem querer, escolhi um albergue que fica na Rua Toneleros. Não foi de propósito, juro. Hoje é dia de passear — quinta e sexta fiquei concentrada nos seus papéis, lá no Instituto. Hoje sai do albergue e passei em frente ao 261 da Toneleros. O Armando me contou, Ana, que você dizia a ele não saber se o seu prédio, quer dizer, o dos seus pais, se pronunciaria Edifício “Líbera” ou “Libera”. Realmente não vi o acento, mas acho mais charmoso Líbera, não? Olhei pra cima quando cheguei em frente ao prédio. Você se jogou do sétimo.

Estou tomando chá no café Severino, dentro da Argumento, e você me diz:

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.

É o “Sete chaves”, lembra dele? Você é muito mentirosa, Ana, muito fingida e dissimulada. Sou um pouco assim também.

Continuo andando com o meu lindo guarda-chuva. E graças a você ainda não o perdi. Continue me protegendo e protegendo meu guarda-chuva, Ana?

Elisabeth Bishop é outra da sua lista.

Reli todo o A teus pés aqui no café. O Armando me disse que quando saiu a segunda edição você não estava nem aí, ele ficou feliz por você, pelo sucesso imediato que o livro alcançou, imagina como era raro uma edição esgotar assim. Mas você não estava bem. A angústia te consumia. Um livro é como um filho. Você o abandonou. O Armando se entristeceu.

Dei uma caneta bic pro Armando, na verdade uma mini-bic. Foi assim, ele foi fazer uma dedicatória pra mim, no último livro dele, que eu trazia comigo e chama-se Dever. Eu ofereci essa caneta aqui, com a qual estou escrevendo agora, uma lamy tinteiro, mas ele foi escrever e não se sentiu confortável. Então tirei outra caneta da minha bolsa, a tal da mini-bic preta. Ele ficou tão feliz, disse gostar especialmente de bic e que não tem dessas no Rio. Pior é que se bobear eu comprei essa em Paris. É porque adoro canetas e Paris, Ana.

Saí da livraria, mas trouxe a Gertrude Stein comigo. Você acredita que não tinha nenhum livro, nenhuma edição da Katherine Mansfield? Juro, mas prometo que vou dar um jeito de ler a sua tradução anotada do “Bliss”. Li em um dos seus papéis, lá do acervo, que a sua tese foi muito elogiada e levou aquele título de distinção, uma coisa assim. O Armando falou algo de você que foi muito importante ter ouvido. Você teve muito sucesso durante sua vida. Desde criança você se destacou na escola, na faculdade, no mestrado também, e ainda em outra língua. E você tinha muitas amigas e amigos e foi namoradeira. Tudo de bom! Sucesso é o que todo mundo quer. Outro dia meu filho me perguntou o que significava sucesso e tive dificuldade para explicar, como será que você definiria o sucesso? Eu tentei explicar do meu jeito, tentei pela via do reconhecimento, mas não sei se ficou muito abstrato, se não expliquei direito, sei lá. Percebi então que não gostaria que ele almejasse o sucesso. É algo difícil de obter, para poucos, acho, e quase sempre leva à frustração. Não com você. Você teve êxito, você conseguiu.

É difícil encontrar pessoas tão generosas como o Armando, por exemplo. Cada um está concentrado em seu próprio umbigo. Ele, sem me conhecer, me chamou pra casa dele, jantamos juntos, ele a Cris e eu. Foi ótimo, comemos salada, suflê e frango. De sobremesa, manga e doce de maçã cozida.

Não contei onde estou. Ainda no Leblon, mas agora no Jobi, um bar antigo do Rio, talvez você conheça. Eu gosto de beber, Ana, amo. Sou do tipo boêmia que vai de bar em bar. Sou boa de copo. É claro que fico bêbada de vez em quando, quer dizer, passo do ponto, acontece, mas não tenho, vamos dizer, não me importo tanto com a minha lucidez, quer dizer, tem horas que gosto de não estar perfeitamente no controle das minhas funções, se é que você me entende. É muita pressão, Ana. Viver não é relaxante. E já me conheço suficientemente para saber que sou uma pessoa tensa. Todo mundo diz que não parece mas sou. Como uma pessoa tensa, encontro mecanismos para me aliviar. Por enquanto tudo bem.

Estou sozinha aqui no bar, quer dizer, trouxe você e a Gertrude. Adoro ficar sozinha. É algo raro hoje em dia. Sim, sou deprimida, como todo mundo hoje em dia é (um pouco). Não teria coragem de me jogar. Falei pro Armando que sou uma pessoa corajosa, me vanglorio de ter ouvido isso do meu psiquiatra. Me dou o direito de repetir, mas você era mais corajosa do que eu, Ana, pulou dessa para melhor. Você faz falta, Ana, mesmo pra mim que não te conheci em vida. Apenas pela literatura posso te conhecer agora. É o que ficou e estou na aventura de te resgatar.

Quanto mais leio você, mais sinto sua falta. Não é assim com o Bolaño, ou com o Tchékhov, dois escritores que admiro demais. Eles também estão mortos, mas não sinto a falta presencial deles, não é engraçado? A sua falta é diferente, você se retirou de nós. Não vou descambar pra melancolia, você pra mim é vida, solar, óculos escuros, bicicleta, praia, pulsão, intensidade. O Armando disse que você acordava cedo. E sem ter te conhecido, aposto que você era uma pessoa divertida. Não o tempo todo, senão seria chata. Entendo que você não tenha suportado, é difícil mesmo, quem vai dizer o contrário? Talvez seja pior ainda para quem tem sucesso. Mas que você faz falta, faz...

Sou pisciana, sabe, aliás lá na sua papelada eu vi o seu mapa astral. Você acreditava nessas coisas? Não acredito não, em nada disso, sou agnóstica, mas acho divertido.

Vi uma mulher fumando um cigarro agora, peguei ela bem no momento de soltar as baforadas. Foi uma sequência engraçada do olhar dela, a fumaça, os trejeitos com a boca. Poesia, Ana, posso chamar assim? Se bem que não sei nem porque te pergunto. Você me parece tão livre, ou melhor, você é livre, Ana. E é o que quero pra mim também.

Hoje, aqui, estando à sua procura, tendo encontrado a sua poesia, sua prosa, me sinto livre, mas acho que a liberdade é como a felicidade. Completamente circunstancial. No Rio me sinto livre, em Paris também. Em São Paulo, onde vivo, trabalho e estudo, não. Mas eu tento, Ana, e tento não me frustrar com isso o tempo todo. Precisamos nos proteger dos serrotes, ó, tá aqui meu guarda-chuva.

Você gosta de confundir e brincar, explico. Uma das minhas ideias para o meu dia hoje era caminhar bastante, fui de Copacabana até o Leblon. Segundo, queria ir numa livraria e comprar algum livro de algum dos autores do seu índice onomástico. Combinei comigo mesma que escolheria um que não tivesse lido ainda, de preferência uma escritora. A edição de bolso que comprei da Gerturde por R$19,90 foi A autobiografia de Alice B. Toklas. Claro que já tinha ouvido falar dela e do livro. Não foi você, definitivamente, quem me convenceu, mas você deu um baita empurrãozão, afinal, muito do que lemos vai da circunstância também. Sei que comecei a ler aqui no Jobi, esse bar barulhento e apertado, só que o livro, mais do que tudo, me desconcertou. Nunca tinha parado pra pensar que, sendo uma “autobiografia” ele nunca poderia ter sido escrito por outra pessoa, que é o caso deste embuste! E já está dado no título. Entrei de cabeça no texto e me vi, deliciosamente, na cilada da Gertrude, mas pra mim, quem me pregou a peça foi você.

Já entendi que essa é sua brincadeira favorita, Ana, você adora uma invencionice, mistura vida e literatura o tempo todo. É o que pretendo pra minha vida também, mas de pretensão estamos cheias.

Saí do Jobi, vim pro Pavão Azul, o mesmo de ontem, eu teimo em chamá-lo de jacaré, um bar da Vila Madalena em São Paulo, mas que não frequento. Aqui me sinto em casa, no Jacaré não.

Reencontrei o Moreira hoje, Ana, meu garçom de ontem, a quem me afeiçoei. Não preciso saber nada do Moreira pra afirmar que ele é casado e safado, tudo ao mesmo tempo. Não é bonito mas ganha a mulherada com outros truques. Aposto que você era bem apaixonante e apaixonada. Qual seria o equivalente a “mulherengo” para quem é mulher? Eu me encaixaria também, gosto de sexo, quanto menos vinculado ao amor, melhor, por isso me separei. Você era cheia de segredos,  nem vem.

Uma pergunta, você gosta de prata? Será que quando você morava na Toneleros já existia essa loja, a Panna Joias? É passando o 261, loja grande, acho que tem ali, em Copa, na rua dos seus pais, e também em Ipanema, se não me engano. E é tudo de prata 925. Teve uma época que inventei o seguinte, sempre que viajasse, não importa o lugar, desde que correspondesse à ideia de viagem, eu teria como missão comprar um anel. Tipo recordação afetiva. Até hoje quando uso os anéis que comprei em Amsterdã, sempre alguém me pergunta, pegam na minha mão pra examinar, e querem saber de onde vem. Parei de usar os da minha viagem ao Egito. Comprei vários em Luxor e eles estão guardados, mas entrei nessa de só usar prata e eles não são de prata, acho que não, é outro material, ainda descubro.

Acho que não sou de ouro, pérola, muito menos de diamante. Sou de prata. E você, que joia seria?

Somos bem diferentes, mas é bom. Gosto bastante das diferenças, do desigual, do gauche. Gosto da incompreensão e de você, Ana, da incompletude, do vazio da noite e da escuridão.

Não te contei ainda do Pavão Azul, esse bar onde estou. Olhei pra minha direita e na parede vi um quadro. Sabe quando os donos enquadram uma matéria elogiosa sobre o lugar? Então, é exatamente isso que vou ler pra você:

<Título da matéria>: “Ela é o cara

<Olho>: “Mulheres assumem o comando de botecos redutos tradicionalmente masculinos

<Matéria>: “ O pavão azul é um exemplo. Vera Afonso assumiu o balcão quando se separou. Com o pai do fiho Serginho ela chamou a irmã Bete para dar uma força na empreitada. O resultado foi um fenômeno: na mão das duas, o bar virou referência na cidade ganhou cotação máximo no guia ‘Rio Botequim’ e se tornou tricampeão do prêmio ‘Rio Show de Gastronomia’.”

Situação engraçada, vou te contar. Sentei aqui no bar, estou sozinha. Uma mesa e duas cadeiras, uma com a minha bunda, outra com a minha bolsa. Estou sozinha, Ana, mas nem triste nem deprimida, te falo quando me sentir assim, pode ser? Vim te buscar, lembra? Só posso estar feliz pois, nessa altura, sabemos eu e você que eu te encontrei. E vou poder te levar comigo. Então retomo, repito, estou feliz, por estar aqui.

Fui o banheiro e voltei e você não sabe o que me aconteceu. Na vida, tudo acontece tão rápido, não é. Foi assim, estava tentando te contar que sentei nessa mesa e, bem de frente, mas do outro lado da calçada, de pé, tem um cara me paquerando. Eu estou dando bola, quer dizer, olho de vez em quando, porque ele me pareceu interessante. E afinal, Ana, quem é que hoje em dia sai sozinho para um lugar qualquer? Pouca gente, compreende?

Usei o “compreende” do Armando, ele fala muito compreende no final das frases. É bonito, sonoro, eu gosto. Encontrei esse mesmo “compreende” em um dos seus papéis, mas foi só uma vez. Tudo era Armando, o Armando era o tal? Nananina, Ana, o Armando é o tal. Ele cuida de você até hoje, com muita dedicação.

Pra encerrar, acho que vou ter que dizer com todas as letras pra você e pra ele, o Carlos, que depois de conversarmos um pouco descobri que ele não tem nada a ver comigo. Eu poderia dizer, amigo, vai, vai lá fazer algo que você acredite ser produtivo (ele usou esse termo na conversa). Vai lá. Comigo é só perdição, amor!

Vou fechar esse caderno, acabar aqui, com essa última linha... O problema sabe qual é? Se eu parar de escrever esse tal Carlos pode se achar no direito de ir e vir novamente. E, por mim, ele poderia ser ejetado do bar, mas não que eu queira ser agressiva, é jeito de falar, Ana.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

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