Vida e morte no Rio de Janeiro

Por Jez Smadja (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

"Vida e morte no Rio de Janeiro" foi originalmente publicado no Los Angeles Review of Books.

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Lançado nas livrarias inglesas semanas antes das Olímpiadas de 2016, Rio de Janeiro: histórias de vida e morte, de Luiz Eduardo Soares, não tinha mesmo como ser o livro que o Comitê Olímpico Internacional, o site visit.rio, o prefeito Eduardo Paes e, na verdade, a maioria dos cariocas — um grupo de cidadãos notadamente sensíveis a qualquer ofensa à sua cidade — indicaria como leitura. Não há nele quase nenhuma menção ao cenário deslumbrante da cidade, às históricas escolas de samba, aos museus moderníssimos reformados a tempo para os Jogos ou à nova extensão do metrô e ao novo sistema de trens rápidos pelos quais não se pagava nada para utilizar, pelo menos durante os jogos.

No mesmo mês em que o governo do Rio declarou estado de calamidade financeira, e em que se concedeu fiança a todos os policiais que despejaram 63 balas em um Hyundai branco — matando cinco jovens negros inocentes que estavam no veículo —, o relato da cidade por Soares é uma correção de rota oportuna para a visão de cartão-postal da antiga capital do Brasil, essa imagem sedutora que a duras penas tenta se manter. Vários capítulos do livro podem ser lidos como um thriller de James Ellroy, povoado por um elenco de congressistas corruptos, policiais sempre prontos a atirar, chefões do tráfico, pastores evangélicos e até um economista que ascendeu a traficante internacional. A principal diferença com os livros de Ellroy é que tudo que se lê no de Soares é mais ou menos verdadeiro.

As tentativas anteriores de destilar a rara essência da cidade maravilhosa, seja ela a presente nos relatos da belle époque de João do Rio, em A alma encantadora das ruas, ou a de Ruy Castro, em Carnaval no fogo: crônicas de uma cidade excitante demais, resultaram em obras de meios-tons, opondo o barroco ao moderno, os ricos aos sem-tostão, o sublime ao belo. As crônicas de A alma encantadora das ruas, escritas quando o Rio era mais conhecido por seu café, suas avenidas iluminadas a lampiões de gás e surtos periódicos de febre amarela, capturam um período conhecido como “regeneração”, quando a capital se remodelava para ser a Paris da América Latina. O curto livro de Ruy Castro, publicado um século depois, apela à trindade mais familiar da música, do futebol e do carnaval, com uma ressaca de violência sob a superfície.

A contribuição de Soares para esse gênero consegue num único movimento não se deixar encantar pelo seu objeto e não ser menos absorvente por isso. Esse servidor público com rosto bonachão — um acadêmico e ativista que serviu como Secretário Nacional de Segurança sob o presidente Lula em 2003 — tem sido um dos críticos mais perspicazes da guerra do estado contra as drogas. Uma guerra que vem legitimando um genocídio silencioso contra jovens negros e que fez o Brasil atingir a quarta maior população carcerária do mundo. Soares vem também incansavelmente terçando armas com a polícia, uma instituição na maioria das vezes corrupta e ineficiente que todos os anos, apenas no Rio, mata mais civis do que todas as forças policiais dos Estados Unidos no país todo. Foi em grande parte devido aos esforços incansáveis de Soares para erradicar a corrupção que ele foi demitido do governo Lula, bem como de um cargo semelhante no estado do Rio de Janeiro, fatos que ele irá de certa forma elucidar neste novo livro.

Os atributos que fizeram de Soares um político inepto — princípios, probidade e intransigência — são exatamente os que o tornaram um intelectual e crítico tão reverenciado, a quem não falta o apelo popular. Em colaboração com dois ex-oficiais de polícia, André Batista e Rodrigo Pimentel, Soares escreveu dois livros que o diretor José Padilha adaptou em dois sucessos arrasadores de bilheteria, a franquia Tropa de Elite. O primeiro filme abriu a cortina das atividades do BOPE, uma divisão especial da Polícia do Rio que opera sob um regime de exceção nas margens da cidade. Sua continuação, O inimigo agora é outro, a maior bilheteria da história do Brasil, deu um passo à frente, expondo a teia de interesses políticos e econômicos que lucram com a ausência do Estado nas favelas e subúrbios do Rio de Janeiro.

O que distingue este dos livros anteriores de Soares é que agora ele volta os holofotes sobre si próprio, entregando um relato em primeira pessoa sobre seus anos de formação no Rio e sua relação com a cidade como profissional e como indivíduo. A história começa de fato no frondoso bairro carioca de Laranjeiras, onde o jovem Soares sonhava em ver seu amado Fluminense jogar no estádio do Maracanã. Na noite de 31 de março de 1964, ele presenciou de camarote um tipo diferente de peleja, quando, da janela de seu quarto, viu os tanques do exército apontando suas armas para o vizinho Palácio da Guanabara. Essa foi a noite em que os generais militares, temendo que o Brasil seguiria o caminho de Cuba, deram um golpe contra o presidente João Goulart. A ditadura que se seguiu estabeleceu um momento decisivo na história moderna do Brasil, e, para Soares, coincidiu com o seu amadurecimento, tanto emocional como político.

Para se opor à Junta Militar que passou a governar o país, Soares escolheu a resistência pacífica, enquanto outros, como Dilma Rousseff, a ex-presidente do país, que sofreu impeachment pouco antes dos jogos, optaram pela resistência armada. Soares conta a história de Dulce Pandolfi, hoje uma das principais historiadoras do país, que foi presa aos 21 anos pelo DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna), o infame serviço de informação da repressão, e de como Rousseff foi brutalmente torturada. As cenas no porão do quartel da polícia do Exército na Tijuca, um bairro da Zona Norte do Rio, tornam a leitura assustadora. Mesmo considerando que a junta do Brasil não foi tão sanguinária quanto suas equivalentes na Argentina ou no Chile, suas técnicas de tortura eram inigualáveis, pois seus interrogadores haviam recebido treinamento especial da França e dos Estados Unidos.

Três décadas depois, Soares, agora subsecretário de segurança do Rio, precisava reagir a uma incursão fatal da polícia em uma comunidade densamente povoada da Zona Norte. Para o autor, as continuidades entre a ditadura e a era democrática são mais visíveis na força policial que em qualquer outro lugar da sociedade. Entre 2005 e 2014, as operações policiais no Rio resultaram em 5.132 mortes, a grande maioria registrada sob a rubrica de respostas a “atos de resistência” e arquivadas sem mais investigação. Nos últimos anos, Soares foi um dos arquitetos e principais vozes na defesa de um projeto de lei de reforma constitucional (PEC-51), propondo a desmilitarização da força policial e a redução do indíce de letalidade policial.

Em Rio de Janeiro: histórias de vida e morte, porém, o autor está despido de sua farda, oferecendo em contraste um relato mais empolgante sobre a imbricação da polícia com o crime organizado, relação essa forjada durante a ditadura. Cada capítulo puxa suavemente esse fio, revelando como ex-torturadores do DOI-CODI criaram milícias nos subúrbios ocidentais da cidade para fornecer segurança a mafiosos locais. Incrivelmente, ao conseguirem a eleição no início de 2000 para cargos políticos no estado, essa mistura de milicianos e policiais passou a controlar os lucrativos contratos públicos e dividi-los entre si, assim como o cartel do jogo do bicho tinha feito com o Carnaval do Rio em meados da década de 1980.

Mas a podridão é ainda mais profunda, afetando todo um edifício político fundado no compadrio, na barganha e na pilhagem do erário. Para a imensa decepção de Soares, isso se deu de modo particularmente intenso no Partido dos Trabalhadores (PT), durante os mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, um partido que chegou ao poder em 2003 cheio de promessas, com o compromisso de erradicar a corrupção, mas que se acomodou à política do “rouba, mas faz”.

No interior do governo de Lula, Soares viu os primeiros sinais do tipo de arranjos que chafurdariam o partido em seu atual pântano moral. Ele reserva suas farpas mais contundentes para o chefe da Casa Civil, José Dirceu, do PT, que foi preso pela sua participação no escândalo do mensalão, um esquema de pagamento mensal em dinheiro a congressistas em troca de votos que quase afundou o partido em 2005, mas que provou ser apenas “troco de pinga” em comparação com o multibilionário (em dólares) escândalo da Petrobras, também orquestrado por Dirceu, que manchou toda a classe política brasileira e paralisou a economia nacional.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Soares revelou que dois capítulos de Rio de Janeiro: histórias de vida e morte eram parte de um novo roteiro para o diretor José Padilha sobre o escândalo do mensalão, intitulado Nunca antes na história deste país. O Banco Nacional de Desenvolvimento, o BNDES, que havia concordado em financiar o filme, abandonou o barco misteriosamente. Na opinião de Soares, foi José Dirceu que torpedeou o projeto, preocupado com o efeito que a produção teria sobre o seu julgamento.

Se o autor enxerga qualquer vislumbre de luz nesse ninho de víboras é nos protestos de 2013, quando os cidadãos de todo o país saíram às ruas para denunciar os custos cada vez mais crescentes da Copa do Mundo em comparação ao estado lamentável de educação e saúde em um país com os maiores impostos do mundo. Todo brasileiro sabe o preço da corrupção. Como disse recentemente Deltan Dallagnol, o promotor encarregado da investigação da Petrobras, a corrupção é “uma serial killer que se disfarça de buracos em estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza”.

Na multidão de milhões de pessoas na avenida Presidente Vargas do Rio, uma estrada de dezesseis pistas construída pelo primeiro ditador do país na década de 1930 para desfilar suas tropas, Soares vê cariocas de todas as idades e cores. Dentre as muitas mensagens em cartazes e bandeiras naquele dia, talvez o tema unificador fosse a necessidade premente de responsabilização e representatividade do governo. A aporia entre o Estado e o povo justifica tudo, desde o assassinato extrajudicial pela polícia até a corrupção política em vigor, e superá-la é a condição sine qua non de uma democracia funcional, uma democracia que pode finalmente enterrar os fantasmas da ditadura.

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Jez Smadja é jornalista e tradutor, colaborador do The Guardian, da Associação de Imprensa, da Time Out e da Vice. Atualmente escreve um livro sobre canibais, Cristo, cocaína e o café no Brasil.

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