Você teria um minutinho pra falar de literatura?

Luisa Geisler

Eu ia fazer elogios à Printemps Littéraire Brésilien que acabou de atravessar a Europa com autores brasileiros, mas Donald Trump bombeou a Síria.

Ia fazer um pequeno protesto sobre como o livro Ulysses é coberto de uma mística ideia de impossibilidade que mais prejudica leitores, mas a Coreia do Norte testou um míssil e falhou.

Queria comentar sobre livros rápidos e de minha recente paixão por Alejandro Zambra, mas o vice-presidente estadunidense Mike Pence chamou o teste falhado de “uma provocação”.

Queria falar das sonecas de Nabokov, mas vocês estão acompanhando o menino do Acre?

Eu ia fazer alguns comentários sobre ter participado de uma aula com Lionel Shriver, mas provavelmente a Marine Le Pen vai ganhar as eleições presidenciais na França.

Queria reclamar da saudade que sinto de literatura brasileira (em especial porque não sou grande fã de e-books e importar e pagar frete por livros brasileiros se tornou inviável desde que me mudei), mas vocês acompanharam os atentados em Londres? E Estocolmo?

Queria comentar de estar lendo Deuses Americanos, do Neil Gaiman, mas vocês já viram a lista do Fachin?

Vi um meme no Twitter com a foto da Carrie Bradshaw, a protagonista escritora de colunas românticas em Sex And The City, e a legenda: “And as our country entered World War III, I couldn't help but wonder... was it time for World War Me?". Uma tradução tosca seria algo como: “E enquanto nosso país entrava na Terceira Guerra Mundial, eu não pude evitar perguntar… estaria na hora de uma Primeira Guerra Pessoal?” Na verdade, uma tradução melhor rimaria o “three”, de Terceira Guerra Mundial, com “me”, da pergunta, mas podem debater nos comentários. O meme ridiculariza justo a ideia de fazer uma coluna romântica, justo a ideia de pensar em si mesmo, em introspecção, dentro de um contexto tão complicado.

Em tempos tão difíceis, pra que serve a literatura? E a música, nesses tempos? De verdade. E a literatura precisa servir pra algo? Esses debates são maiores do que meus caracteres abarcam. Ao mesmo tempo, a maioria dos povos sustenta algum tipo de narrativa desde os tempos mais primórdios (“desde os tempos mais primórdios…”, como em certas marchinhas de carnaval).

Não sei como meus colegas ficcionistas lidam, mas sinto até culpa de tratar de temas introspectivos em minha ficção, dado o atual contexto. Eu deveria estar escrevendo sobre algo importante. Eu deveria estar escrevendo como o excelente Luiz Ruffato. Metendo o dedo na ferida de todos os problemas sociais do Brasil ao mesmo tempo. Claro que para colocar o dedo na ferida de todos os problemas sociais do Brasil ao mesmo tempo, eu precisaria ser como Mahakali, a deusa indiana de dez braços. Mas eu deveria questionar toda a estrutura capitalista que inevitavelmente nos condenará a todos e, mesmo que não condene, o mundo pode acabar esta semana mesmo. Eu até poderia falar de imigrantes brasileiros na Irlanda, mas apenas os menos privilegiados. O dedo na ferida de todas as questões que envolvem imigração e expatriação. Ao mesmo tempo, toda a literatura traz diálogos com sociedade, mesmo com temas “introspectivos”, não?

Não?

Aliás, sinto culpa de até reclamar das dificuldades em achar um tema ficcional dentro de fatos tão opressores.

Mas uma realidade opressora não é exclusividade do nosso século XXI na era pós-verdade. Não sei muito bem como Hemingway viveu durante duas Guerras Mundiais e escreveu ficção no meio tempo. Não sei como Chico Buarque conseguiu (e consegue) escrever sobre qualquer tema que não seja a nossa ditadura. Como Kafka fez? E Virginia Woolf? E a Clarice Lispector? E Nabokov? Bom, Nabokov tirava as tais sonecas (e escrevia, entre outras coisas).

E nós também lemos literatura nesses mesmos tempos.

E não sei. Essa crônica não é uma resposta iluminadora que soluciona todos os problemas da conjuntura política e social do momento. É uma pergunta. É uma declaração de que eu, de fato, não sei. Não sei onde a literatura fica nesse meio, se preciso me posicionar (e posicionar a literatura). Não sei onde a arte fica. Mas vou continuar escrevendo — talvez na literatura eu descubra.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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