Vontade de ordem, vontade de caos

Carol Bensimon

Por Carol Bensimon

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A caixa azul em cena de Cidade dos Sonhos, de David Lynch.

Estou escrevendo um livro e alguém me pergunta, depois de ler todas as páginas que tenho: quem é o Arthur (o protagonista) para você? Isso me deixa pouco à vontade pois não quero ser grosseira, mas tenho a convicção de que a pergunta não faz o menor sentido. O personagem é o que está expresso no texto. Pensamentos, ações, memórias, as roupas que usa, a forma como se comunica com os outros, etc. Não existe nenhuma versão mais “completa" de Arthur ou de quem quer que seja na minha cabeça. Se existisse, isso me acenderia a luz piscante amarela. Porque, ao longo dos anos, passei a acreditar em algo bastante simples: se um ficcionista é capaz de falar horas e horas para seu público sobre o personagem que ele criou, mas, ao ler/assistir a obra em questão, você não vê mais do que 1% de toda aquela vida interior descrita anteriormente com tanto entusiasmo e propriedade pelo seu criador, bem, a única conclusão que podemos tirar disso é a de que algo saiu muito errado no caminho.

 

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Isso é completamente diferente de uma boa conversa entre leitores sobre um personagem complexo. Não consigo ver nada mais recompensador, aliás, do que produzir esse tipo de efeito nas pessoas. Acabo de terminar Pastoral americana e seria ótimo se eu tivesse alguém com quem conversar sobre o intrigante Sueco, mas a última pessoa com quem eu gostaria de fazer isso seria o próprio Philip Roth. Não acredito que ele saiba mais sobre o Sueco do que a gente sabe, quero dizer, que ele saiba mais do que fez questão de expôr. Além do mais, qual seria a vantagem em ouvir do próprio Deus o por que de um camelo ter sido feito com aquelas corcovas? A última coisa que eu quero numa discussão desse tipo é que alguém exerça um papel de autoridade. Se David Lynch estivesse acessível para responder nossos enigmas sobre caixinhas azuis e caubóis, seria o fim de toda a mágica e de toda a insônia.

 

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Deve haver n razões para uma pessoa escrever romances, e não compor canções em um banjo, pintar quadros abstratos ou fazer performances que envolvam nudez, jejum e facas de serrinha. Uma delas tem de ser a vontade de criar um mundo aparentemente organizado. É claro que há diversos níveis de organização, ou melhor, escritores mais ou menos apegados aos aspectos apolíneos da criação, mas algum tipo de ordem faz parte do processo de escrita de qualquer texto ficcional longo. Zadie Smith, em um ensaio chamado That crafty feeling, divide os romancistas em macro planejadores e micro administradores. Os primeiros, segundo Smith, são aqueles que tomam notas, definem um enredo, organizam uma estrutura. Os segundos – grupo no qual Zadie Smith se inclui – escrevem frase a frase sem saber muito bem onde vão chegar. Talvez isso seja perceptível nos romances de Zadie, ou ao menos em Dentes brancos, como ela mesma admite nesse ensaio, uma narrativa que começa maravilhosamente bem e vai se perdendo ao longo das suas quinhentas e tantas páginas (minha opinião).

 

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Se alguém souber qualquer coisa sobre o processo criativo de Pastoral Americana, por favor, me conte.

 

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O fato é que existe um macro planejador e um micro administrador em cada romancista. Só que os dois termos de Zadie Smith, no fim das contas, estão falando de ordem, de organização, montagem; o primeiro da grande estrutura, o segundo do detalhe, da sintonia fina. Para abarcar tudo de maluco, inconsciente e não planejado que surge em um romance, talvez a gente possa dizer que duas forças antagônicas atuam na cabeça do escritor: uma está louca para criar um mundo e poder controlá-lo, dar a ele a lógica que não se encontra na vida real, enfim, todas essas coisas que ficam bastante óbvias quando a gente deita no divã de um psicanalista; a outra tem a ver com a clara sensação de que você não sabe o que está fazendo, sobre o que está falando e onde afinal toda aquela história vai parar.

 

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Donald Barthelme, em um ensaio meio estranho para quem não se interessa tanto pelo pós-modernismo, escreve que “não-saber é crucial para a arte” (Not-knowing é o título do texto, mas ele escorrega para dezenas de outras reflexões que não têm uma relação tão direta com isso). De fato. Uma dose de não-saber é crucial tanto para quem produz arte quanto para quem recebe arte. O que é engraçado é que frequentemente os escritores reclamam disso, se sentem angustiados, inseguros, perdidos em becos sem saída. Como se não fosse também extremamente delicioso tatear às cegas e encontrar o inominável.

 

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.