YA LGBT+

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Máquina do tempo e estou de volta a 1999. Tenho vinte anos de idade e assisto a “Buffy – A caça-vampiros” no sofá.

Foi uma época complicada para mim, já que eu tinha acabado de começar a lidar, dentro e fora de casa, com as consequências de ser gay. Pode parecer um detalhe, mas sempre que o mundo ameaçava girar rápido demais, eu me forçava a lembrar que uma semana era somente o intervalo entre um episódio e outro, um período curto, e que isso eu conseguia aguentar.

De episódio em episódio o ano foi passando, a vida foi seguindo em frente e aqueles dias complicados foram ficando para trás.

Imaginem então a minha reação ao ver a Willow, a personagem bruxa de “Buffy”, se descobrindo bissexual na 4ª temporada e arrumando uma namorada, a Tara, num dos romances LGBT+ mais belamente representados da televisão.

Parte de mim era pura alegria, sem dúvida. Em um seriado voltado para o público jovem, uma das personagens mais populares da época não só descobria a maior amplitude da sua sexualidade, como a vivenciava de forma aberta com flertes, romance, namoro, beijos e sexo. Uma personagem LGBT+ criada para o público LGBT+, assumidamente. Livre para ser quem ela era de verdade.

Parte de mim, porém, ficava angustiada. Eu e minha família acompanhávamos “Buffy” juntos. Por uma hora, nos sentávamos no sofá ou à mesa de jantar e assistíamos ao episódio da semana. Durante aquela hora eu era só o filho Eric, sem nenhum rótulo pendendo sobre a cabeça, sem nenhuma briga ou discussão em pauta, e de repente meu seriado favorito havia furado minha bolha ilusória de segurança e trazido o assunto tabu para dentro da minha casa, nos levando a conversar sobre ele. Ou a expor nossas opiniões sobre ele. E se isso não gerou nenhuma mágica nos meus pais, comigo a história foi diferente.

 

Lembranças são uma coisinha curiosa. Não há como visitá-las sem reeditá-las, então me lembro apenas de momentos da época. Mas uma coisa permanece firme: minha alegria acabou vencendo o medo. Apesar de todos os problemas, nunca consegui esconder a empolgação de ver Willow e sua namorada Tara juntas. Eu não podia fingir ser alguém que eu não era. Eu não queria fingir ser alguém que eu não era. Se as outras pessoas gostavam disso ou não, bem, aí era problema delas.

 

Máquina do tempo e retorno para 2018, no dia internacional do combate a LGBTfobia. Estou no Twitter pensando em falar sobre a data e percebo o quanto fico feliz de saber que a geração LGBT+ atual possui toda uma gama de livros e seriados nos quais podem se ver representados em diferentes contextos. A questão da representatividade avançou muito em narrativas voltadas ao público jovem, principalmente graças à literatura Young Adult, que teve coragem de enfiar o pé na porta e debater assuntos necessários – orientação sexual e identidade de gênero entre eles – com quem mais precisa do debate.

Esse avanço levou também a uma mudança no eixo das narrativas. Por um longo tempo, o apagamento de pessoas LGBT+ foi substituído por uma representatividade atrelada à desgraça. Tudo bem existir o personagem LGBT+, contanto que ele sofra todo tipo de preconceito e dificuldade. Felizmente, conseguimos deixar isso para trás, e as histórias sobre a descoberta da própria sexualidade se tornaram o foco principal. A famosa saída do armário. O que foi interessante por um tempo, mas logo se tornou um assunto saturado. De certa maneira, datado até. Criadores entenderam que o público havia dado o passo seguinte e agora queria uma gama maior de histórias para si.

De publicação em publicação, personagens LGBT+ foram deixando de ser uma insinuação nunca assumida, o coadjuvante engraçado, o personagem que sempre morria no final, e passaram a ganhar protagonismo, profundidade e relevância. Isso em uma ampla diversidade de histórias, o que é mais legal ainda.

Ainda há personagens saindo do armário? Claro. Mas agora eles estão juntos com personagens LGBT+ dando o primeiro beijo, arrumando um novo namorado e/ou namorada, se preocupando com o futuro ao escolher uma faculdade, descobrindo a sua sexualidade, planejando o roubo do século, procurando um rei galês enterrado, vencendo piratas perigosos, caçando monstros que se escondem na cidade grande ou em vilarejos remotos.

Há personagens LGBT+ em livros de YA contemporâneo, de distopia, fantasia, space opera, suspense, terror. Seja qual for seu gênero favorito, existe um personagem LGBT+ (e provavelmente um OTP) para chamar de seu.

 

Claro que estamos só no início de uma mudança maior de pensamento. Ainda há muito para ser construído e consolidado em termos de representatividade. Mas uma coisa é certa, se minha máquina do tempo também viajasse para o futuro e eu pudesse trazer o Eric adolescente para os dias de hoje, ele veria que aquela pontinha de esperança no peito dele não estava errada e confirmaria que as coisas mudaram para melhor.

Seria tão bom poder mostrar que as pessoas da idade dele não precisam se esconder atrás de um apelido em um chat obscuro, que elas podem usar suas próprias fotos e os próprios nomes nas redes sociais. Que as histórias com personagens LGBT+ não são mais coisa de cinema independente, para se ver escondido da família. Que elas se transformaram em ferramentas de aproximação que ajudam leitores a se entender e conhecer outras pessoas LGBT+. Ou, em outras palavras, que elas ajudam os leitores a descobrir que eles, que nós, não estamos sós. E que os personagens que nos representam nessas histórias conquistaram algo incrível devido há muito, muito tempo: o direito a um final feliz.

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Eric Novello é escritor, tradutor e roteirista com formação no Instituto Brasileiro de Audiovisual. Nasceu no Rio de Janeiro em 1978 e mora em São Paulo desde 2007. É autor de Exorcismos, amores e uma dose de blues (Gutenberg, 2014), A sombra no Sol (Draco, 2012), Neon azul (Draco, 2010), Histórias da noite carioca (Lamparina, 2004) e Ninguém nasce herói.
 

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