Links da semana

O lançamento de Diário da queda em Porto Alegre foi um sucesso, obrigada a todos que compareceram! As fotos já estão no nosso álbum do Picasa. O lançamento em São Paulo será dia 29, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das 19h. Leia a entrevista que Michel Laub deu ao jornal Zero Hora.

A casa e a biblioteca de José Saramago foram abertas para visitação. Leia o relato de Isabel Coutinho, que acompanhou a cerimônia.

No 4º jogo da Copa de Literatura Brasileira, Do fundo do poço de vê a lua enfrentou Os malaquias, e saiu vitorioso.

O Twitter completou 5 anos de existência nesta segunda-feira, e o Estadão relembrou uma entrevista feita com Jack Dorsey, um de seus criadores, em 2009.

No Meia Palavra, a Taize resenhou As entrevistas da Paris Review, a Anica leu o policial Mortalha para uma enfermeira, de P.D. James e oPalazo falou sobre Ordinário, do Rafael Sica. O Felippe comentou Só garotos, da Patti Smith, e o Luciano leu O acidente, de Ismail Kadaré.

Emanuela, do blog Interrogação, foi ao lançamento de Ordinário em Curitiba e aproveitou para entrevistar Rafael Sica.

A Cinemateca Brasileira fará uma mostra especial com filmes baseados ou inspirados na obra de Lygia Fagundes Telles, em homenagem ao 88º aniversário da escritora.

O André, do Amálgama, resenhou Suor, de Jorge Amado. No mesmo site, o Daniel comentou Mecanismos internos, de J.M. Coetzee.  No blog O Espanador, a Luani falou sobre Retalhos, de Craig Thompson.

O Prêmio Jabuti aumentou o número de categorias, e passa a premiar apenas o 1º colocado de cada uma delas.

O Raphael, do blog Contraversão, resenhou Invisível, de Paul Auster, Ordinário, de Rafael Sica.  A Carolina, do blog A macaca, comentou As boas mulheres da China, de Xinran.

Luís Giron comentou o ensaio em que Tolstói contesta a arte de Shakespeare.

Álvaro Costa e Silva resenhou Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes, para o jornal O Globo. A Laura, do blog Geleia Geral, leu Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Terron.

Você sabia que o costume de assinar documentos para autenticá-los existe desde o século II?

O Leandro, do blog Ensaios Ababelados, falou sobre a adaptação cinematográfica de Não me abandone jamais. O Júlio, do blog Paisagens da crítica, comentou Honra teu pai, de Gay Talese.

Voluntários de diversas cidades japonesas estão reunindo fotos que mostram a situação das bibliotecas do país após o terremoto.

Os poemas que inspiram nossos poetas

Acaba de chegar da gráfica Vesuvio, novo livro de Zulmira Tavares, que integra a coleção de poesia contemporânea brasileira da Companhia das Letras. Para marcar o lançamento, pedimos a todos os poetas da coleção que lessem um poema de um autor que os inspira. O resultado você confere abaixo:

Quatro dos poemas de Zulmira foram publicados na revista Piauí deste mês. Entre eles, “Travesti”:

Travesti

Prendeu a roupa no varal
e do outro lado dos lençóis
o mundo.

Esconde-se no branco lavado.
Não quer que o mundo, os outros a revelem

no sol que a incendeia.
E o seu nome é Radiância.

Quem o deu foi o doutor do Abrigo
sabedor dos que trazem na matalotagem
assombramento e luz.

Tendo por nome de chegada Cipriano
vindo da Paraíba ele
para São Paulo — Hoje

… Radiância ela,
no lusco-fusco das esquinas
___Rainha.

Concurso Getty Images de Melhor Capa de Livro 2010

O banco de imagens Getty Images promoveu o concurso Melhor Capa de Livro 2010, com o objetivo de reconhecer o talento dos designers — profissionais que têm a delicada e difícil missão de transmitir o conteúdo do livro na capa, atraindo o público certo para a obra.

Os jurados tiveram que decidir entre as 133 capas inscritas, todas elaboradas a partir de imagens da Getty Images. O resultado foi anunciado ontem, e ficamos felizes em saber que a capa de um de nossos livros foi a premiada!


Foto original do banco de imagens e a capa de Uma certa paz.

Parabéns aos designers, Claudia Warrak e Raul Loureiro, pelo ótimo trabalho!

A vida própria dos livros

Por Michel Laub

Alejo Carpentier encara uma pilha de seus próprios livros. (Foto por Sophie Bassouls)

Há muitas maneiras de responder à pergunta eterna sobre por que se escreve. Uma das mais curiosas defende que é para trazer ao mundo os livros que estão faltando ou, numa interpretação menos pretensiosa, aqueles que o próprio escritor gostaria de ler. É interessante imaginar que Melville nunca tenha encontrado um romance decente sobre baleias, ou que Tolstói cansou de esperar por uma história verdadeiramente grandiosa sobre a Rússia na época de Napoleão, e que isso os motivou a suprir as lacunas com Moby Dick e Guerra e paz.

Embora curiosa, a resposta — como quase todas do gênero — é provavelmente falsa. Antes de mais nada, por uma obviedade: o escritor nunca lerá a si mesmo de forma inocente. Parte do interesse, do encanto e do prazer de um livro está em descobrir o que acontece ao longo das páginas, as viradas de trama, a sorte dos personagens, os sentimentos e mundos que se revelam. A leitura ideal é aquela em que saímos diferentes de como entramos, e essa é uma experiência inacessível a quem já conhece de antemão o texto.

Só que as coisas são um pouco mais complexas. Não dá para desprezar, também, um fato igualmente óbvio: em literatura, há uma distância enorme entre intenção e resultado. Por mais que saibamos o que pretendemos comunicar num capítulo, num parágrafo ou numa frase, é só depois que esse capítulo, parágrafo ou frase está na tela ou no papel que podemos ter noção do seu real significado e eficiência.

Em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, romance em que Marco Polo descreve para Kublai Kahn as dezenas de lugares onde esteve, há uma passagem em que o imperador pergunta por que os dois nunca trataram de Veneza. Marco Polo responde que deseja manter ilimitada a ideia que tem de sua cidade natal, e que se falasse dela diretamente estaria “cancelando as margens da memória”. Ou seja: como ao contar um sonho, que não obedece a nenhuma regra narrativa temporal, espacial ou lógica, as lembranças e emoções que tivemos durante a noite passam a ser apenas as palavras lineares e racionais que usamos para defini-las pela manhã.

Poucas metáforas são tão precisas para ilustrar a natureza da escrita. Ela reduz o universo muitas vezes inesgotável da mente de um indivíduo, o autor, aos limites naturalmente mais estreitos de um instrumento, a linguagem. Por isso que alguém cheio de histórias para contar, ou com uma experiência afetiva rica, ou com uma forma peculiar e inusitada de ver o mundo não necessariamente será um bom escritor. O bom escritor é o que doma a linguagem para que, por meio dela, todos esses atributos apareçam de maneira interessante no papel. O que ela cria, por meio da sonoridade das frases, do ritmo, do tom, do estabelecimento de clímax e anticlímax, entre tantos outros recursos, é sempre autônomo em relação aos elementos — teses, argumentos, emoções — que a precedem.

Eu costumava rir de ficcionistas que diziam que seus personagens “ganharam vida própria”, uma frase de efeito de quem se acredita uma espécie de instrumento mediúnico da Inspiração. Na verdade, a frase é outra boa metáfora, já que parte do processo de escrever um livro pode ser como uma sucessão de testes: você faz o personagem dizer a, dizer b, ir para o lugar x, para o lugar y, e de acordo com o efeito das simulações — o que está funcionando melhor para você como leitor — o destino desse personagem — e sua personalidade, suas motivações, sua índole — acaba sendo definido.

Na prática, é como se o escritor pudesse, sim, ser surpreendido pelo próprio trabalho. O que às vezes é uma recompensa inestimável, mas nem sempre: mesmo que tenhamos passado anos vivendo, chorando e agonizando por causa de um livro, a sensação que temos ao ler suas páginas pode ser a de que outra pessoa as produziu — em geral, claro, alguém menos interessante e divertido, com menos coisas inteligentes e originais a dizer sobre as pessoas e a vida, do que achamos que somos. Ao longo do tempo, a melhor maneira de lidar com essa frustração um tanto inevitável é nos certificarmos de que, nas circunstâncias em que um texto foi escrito, o melhor possível foi feito. Nos limites do nosso talento, técnica, experiência, até capacidade física. Mesmo que só percebamos tais limites, como leitores conformados de nós mesmos, em algum dia próximo ou muito longínquo do momento em que o resultado sai da gráfica.

* * * * *

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Escritor e jornalista, publicou cinco livros pela Companhia das Letras, entre eles Longe da água, O segundo tempo e o recém-lançado Diário da queda.  Ele participa do Blog com uma coluna mensal.

Pré-Bolonha

Por Júlia Moritz Schwarcz

Gosto muito do meu trabalho, mas tem um aspecto barra-pesada: todo santo dia acordo e vou dormir devendo um monte de leituras, respostas e decisões. Deixo pessoas esperando, livros na estante, 1259 e-mails na caixa de entrada (conforme me informa meu outlook de hoje). E passo o dia lutando contra essa maré, sempre na correria.

Essas últimas semanas, a situação se agravou. Pela primeira vez vou à feira de livros infantis de Bolonha. Serão 38 encontros com agentes literários e representantes de editoras de diversos países, para os quais seria bom já ter uma resposta quanto aos livros que enviaram para análise, e que lotam algumas estantes aqui no Itaim Bibi.

Ao enfrentar pilhas e pilhas de livros, fico me perguntando o que define um bom livro infantil. A qualidade do texto e das ilustrações, tudo bem, mas existem milhões de livros que cumprem esses quesitos. Tem mais dois pontos: cada editora tem a sua linha, e busca publicar títulos que façam sucesso, mas tanto uma coisa quanto a outra são difíceis de definir. Já me perguntaram o que um livro precisa ter para ser publicado pela Companhia das Letrinhas mas, se quiser ser totalmente sincera, vou dizer que não há critérios fixos.

Outro dia estava fechando um livro da Ana Maria Machado, de ensaios sobre literatura, e encontrei, pela primeira vez, uma explicação do que deveria conter um grande livro. Ela diz que os clássicos são “as tais obras que guardam sentidos múltiplos, que não se prendem a uma única interpretação, que permitam o incrível fenômeno de parecer ter significados diversos a cada encontro. Em linguagem mais popular, obras que tenham o poder de dizer coisas distintas a cada um, de dar recados novos e diferentes a cada leitor, em cada época, em cada sociedade, em cada cultura. Ou até ao mesmo leitor em diferentes momentos de sua vida. Ou seja, que cada leitor possa se apropriar deles de modo distinto. Quer dizer, tomar posse deles, torná-los também sua propriedade, fazê-los seus — como legítimos proprietários, herdeiros desse legado”.

Os livros não só mostram às crianças a existência de um espaço íntimo e pessoal, povoado pela imaginação de cada um, como são fundamentais para se discutir questões morais e éticas. Como diz a Ana mais uma vez, “ajudam os pequenos leitores a ir buscando ou construindo o sentido de suas experiências do estar-no-mundo”.

O livro tem o poder de ser fundamental na vida de uma pessoa. Mesmo que seja apenas de uma, já é grande coisa. Por isso não me sinto mais culpada ao sair de casa para trabalhar, deixando as minhas filhas em seus afazeres. Quando elas me perguntam por que tenho que trabalhar, digo que preciso fazer livros para todas as crianças lerem — um jeito mais otimista de encarar a pilha de tarefas eternamente pendentes que povoam o meu dia a dia.

E, se agora essa pilha está ficando menor por conta da organização pré-Bolonha, uma coisa é certa: quando eu voltar, mais do que nunca, as estantes vão estar explodindo.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.