Por Luiz Schwarcz
Já faz tanto tempo que mal me lembro da data — o que aliás é regra comigo, datas e dados numéricos de qualquer natureza não colam em minha memória. Sei que já deveríamos estar nos anos 2000, talvez no início de 2001, com a Companhia das Letras comemorando 15 anos de vida, quando num dia qualquer minha secretária anunciou que um diretor da Montblanc estava na linha, querendo me dar uma boa notícia.
— Montblanc, boa notícia, o que é isso?
Devo ter dito algo do gênero, mas mesmo assim, curioso, atendi o telefone.
A fase não era das melhores, uma forte depressão me pegou em cheio no final de 1999 e perdurava. Nos primeiros meses tive que ficar em casa, sem poder trabalhar. Causei um sofrimento inesquecível à minha família. Também sofri muito. Enquanto não conseguia sair de casa tentei escrever um romance. A história transbordava, num fluxo ininterrupto e incontrolável. Podem imaginar como era ruim. Além de tudo, estava sob efeito de remédios errados, que me deixavam perigosamente agitado. Cismei em escrever a história de um menino que ia sozinho para a escola pela primeira vez, sem o pai, que sempre o acompanhava, e que naquele dia, para a sua surpresa, liberava-o de sua companhia dizendo, logo no início do livro:
— Você já está grande, menino, pode ir sozinho para a escola.
Deslumbrado com a paisagem que vê desacompanhado da proteção paterna, o garoto perde o ponto e se atrasa. Encontra a porta da escola cerrada, e falha em sua primeira tarefa de menino independente. Na rua, perdido, encontra um homem de braços longos e calças mais curtas do que as pernas, que se senta com ele no meio-fio, e lhe conta sua história.
O romance era basicamente composto da conversa dos dois, ou melhor, do relato da vida daquele homem estranho; um pianista, que abandonara a carreira promissora, e lá se encontrava, sentado com o menino, enquanto este olhava para a porta fechada da escola pensando no que iria dizer ao pai, e imaginando os detalhes das aulas que teria que simular ter assistido.
Enquanto isso, o pianista contava que saíra do Brasil para estudar na Europa, falava sobre seu primeiro recital no Velho Mundo, e sobre os motivos que o fizeram largar tudo. Seu grande ídolo era o pianista romeno Dinu Lipatti. Todos sabiam que Lipatti sofria de câncer e estava muito doente, mas o pianista desengonçado recusava-se a acreditar nos fatos; seu ídolo tinha de estar acima das fraquezas humanas. Quando vai a Besançon, assistir ao último recital daquele que era para ele um semideus, meu finado personagem vê Dinu Lipatti sucumbir à doença, abandonar o palco sem conseguir tocar a última peça do programa, a valsa número 1 de Chopin, e decide abandonar a carreira musical. Volta ao Brasil, onde, por loucura de um escritor deprimido, irá se encontrar com um garoto que se distraiu e perdeu a aula daquela manhã. Que sorte a minha ter mandado tudo isso para o lixo, e poder sorrir, ao rememorar, hoje, tempos difíceis.
O cd com o recital de Besançon me foi presenteado por Susan Sontag em sua primeira passagem pelo Brasil, em 1993. Para quem não conhece Lipatti, foi dos grandes intérpretes de Chopin de todos os tempos. Suponho ter lido em algum lugar, talvez no próprio livrinho que acompanha o disco, que Dinu Lipatti quis realizar o concerto, contra a recomendação dos médicos, contra toda a apreensão de sua esposa, e tocou maravilhosamente, sem conseguir chegar ao final. Não importa se isso de fato aconteceu, na verdade nunca quis checar, mas foi assim que me lembrei da história de Dinu Lipatti, durante os meses da minha mais forte depressão, e foi assim que escrevi, sei lá por que cargas d’água, num arquivo digital que não existe mais — agora é apenas mais um arquivo deletado para sempre de algum computador.
Não me lembro mais se o mesmo homem deselegante narrava trechos de sua vida, sempre num registro pouco heróico, ou se cabia ao menino, já mais velho, numa outra passagem, contar sobre sua iniciação sexual, que também ocorre por decisão paterna, quando ele completa treze anos, sem saber bem como nem o que deveria protagonizar.
Esses trechos de mais um dos meus finados romances voltam à minha memória depois de tanto tempo, pois farão parte do vexame que justifica o título desta crônica e que irá acontecer dias após eu ouvir o diretor da Montblanc do Brasil do outro lado da linha dizer:
— Senhor Luiz Schwarcz, é com grande satisfação que informo que este ano, pela primeira vez, a Montblanc do Brasil resolveu dar um prêmio a uma personalidade de destaque no cenário cultural do país, numa cerimônia que ocorrerá no Museu da Casa Brasileira, e na qual também lançaremos uma caneta de tiragem limitada e preço elevado, com a qual teremos o prazer de lhe presentear. O senhor foi o primeiro escolhido para receber nosso prêmio.
Depois de tanto tempo sem sair de casa, ainda lutando para achar o remédio certo para os meus males, com o romance já devidamente esquecido e a vida mais que pacata, a notícia do tal prêmio deixou-me muito feliz. Minha alegria não permitiu que eu percebesse que o lançamento da nova caneta era muito mais importante que o prêmio em si, ou melhor, que ninguém viria a saber da minha nomeação, ou dar qualquer importância ao acontecimento. Não contei a ninguém sobre a cerimônia, nem mesmo a meus pais, e fui ao Museu da Casa Brasileira a pé, refazendo o mesmo caminho que fiz para a festa de inauguração da Companhia das Letras anos antes, mas desta vez só com a Lili. Lá, emocionado, acabei me comportando pateticamente.
Aguardem, na semana que vem conto o resto.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.













