Por Carol Bensimon

E lá fui eu falar com os alunos de um colégio católico. Quase todos os colégios particulares são católicos, então nós não nos impressionamos muito com esse fato; simplesmente acontece de ter uma cruz na sala de aula, alguém que ensina religião, e um punhado de pais que pensa “mal não vai fazer”. É como batizar os filhos sem ter certeza de coisa nenhuma. Esse colégio era um bocado católico. Havia uma Bíblia aberta sobre um pedestal, cartazes de grupos de jovens católicos e pessoas com expressões estranhas nos quadros. Crianças tinham recortado letras coloridas para saudar a Virgem Maria. Enquanto eu aguardava a professora de Literatura, houve tempo de ver tudo isso.
Nós já nos conhecíamos de outra escola, era minha primeira experiência desse tipo, eu tinha estreado na literatura no ano anterior e meu romance acabara de sair do forno. A professora Vivi me causou a melhor das impressões. Dava para sentir no ar que ela era aquele tipo de professora queridona que todo mundo gosta, e nas quais as meninas de quinze anos se abraçam para encontrar um misto de mãe e confidente. Na tal da manhã da semana passada, eu fiquei na porta de um auditório vazio esperando os adolescentes chegarem. Eles iam surgindo aos poucos. Essa é uma idade em que ficam muito evidentes as diferenças (construídas) entre garotos e garotas, ninguém tem coragem de se misturar, eles sentam em filas distintas como se todo o tempo dos treze aos dezessete fosse uma mesma e interminável reunião dançante. Os grupinhos passavam, acenavam, sorriam. Eu ouvi alguns “é ela” seguidos de risinhos trocados. Parecia muito irreal. Finalmente, a professora Vivi apareceu e nós entramos no auditório. Seguiu-se daí uma recepção incrivelmente barulhenta de aplausos e urros, a coordenadora pedagógica estava de cabelo em pé, e tudo que eu conseguia pensar era “eu sou só uma escritora”.
Seguiram-se tantas perguntas que é difícil resumir agora. Como sempre, a gurizada se mostrou intrigada com alguns aspectos formais do meu primeiro livro, o Pó de parede. Por que as falas não tinham travessão? Por que a última história terminava em uma frase incompleta (a professora Vivi, aliás, tinha pedido na prova que os alunos completassem a narrativa)? Nós falamos sobre rock, leituras na infância, interpretações, vida de escritor, livro novo, e eu até ensaiei uma rápida defesa à descriminalização da maconha. Ao final, havia um monte de livros para assinar (quase que exclusivamente os das meninas) e um punhado de solicitações de fotos. “Eu me identifico muito com a Alice”, disse uma garota sorridente. Algumas dessas alunas leem Jack London, Jane Austen, Caio Fernando Abreu, Victor Hugo sem ninguém mandar. Pelo menos duas delas escrevem.
No caminho para o carro, eu estava me sentindo muito melhor do que quando cheguei ali, encontrei a capelinha, etc e tal. E, chame de autodepreciação, mas eu não conseguia parar de pensar que toda aquela visível empolgação dos alunos era muito mais mérito da professora Vivi que do meu livro. Se eu tivesse quinze anos a menos e fosse parar na sala de aula de um colégio católico, ela me faria escrever.
Esse post é uma homenagem a Viviane Schitz, Lia Schulz, Vinicius Rodrigues, Marcelo Frizon e todos os professores de literatura ousados e sonhadores o suficiente. E às meninas que leem romances na solidão de seus quartos, é claro.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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