Definições (1)

Por Érico Assis


Imagem: Austin Kleon

“Histórias em quadrinhos são palavras e imagens. Você faz de tudo com palavras e imagens.” A definição de quadrinhos do Harvey Pekar é bastante repetida. Também é sonhadora, tocante, bonita. Basta para 99,9% das pessoas que já pensaram o que é uma HQ. Eu, porém, acabo de cair no mundo dos 0,01% para quem ela não basta: o mundo acadêmico. Nos próximos 3 ou 4 (ou 10, ou 40) anos, sou pesquisador de quadrinhos, mais especificamente de tradução de HQ. E uma das primeiras coisas que um pesquisador tem que fazer é definir a coisa que está estudando.

Definir uma coisa é separar essa coisa do resto do mundo: encontrar uma forma sucinta de dizer tudo que a coisa não é. No 0,01% acadêmico já se viu muita gente definindo quadrinhos, cada um de um jeito, muitos deles reconhecendo a briga que é defini-los. Aí entram picuinhas políticas, culturais e também pessoais que os autores puxam para dizer que não querem que tal coisa seja quadrinhos.

Há os que dizem que, para ser quadrinho, tem que haver pelo menos duas imagens formando uma sequência. Outros veem narrativa quadrinística em histórias de um quadro só. Tem os que se recusam a ver fotonovela como quadrinhos, e os que veem fotonovela, livros infantis e as estações da via sacra como quadrinhos. Alguns vinculam quadrinhos à reprodução impressa, o que exclui não só as HQs digitais mas também os que veem HQ na Coluna de Trajano (séc. II), na Tapeçaria de Bayeux (séc. XI) e algumas iluminuras. Mas se estas forem aceitas como quadrinhos, então toda escrita ideogramática ou cuneiforme também seria HQ? E quando se usa recurso de animação, como os gifs animados de algumas webcomics, aí a HQ deixa de ser HQ? Há quem diga que, se o movimento/tempo não acontece na cabeça do leitor, não é uma HQ. E aí?

* * *

O livro que estou lendo no momento, A Comics Studies Reader, tem uma seção dedicada a textos sobre definição de HQ. Embora não componha o livro, a definição de Scott McCloud – que não é exatamente uma definição acadêmica, mas é muito usada nos EUA e no Brasil – paira sobre os outros autores: as “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. A abordagem de McCloud busca transformar a definição num problema de engenharia. Nos seus livros, ele até ajuda o leitor ao explicá-la em forma de quadrinhos. Só que ela se choca com o povo que diz que pode existir quadrinho em uma imagem solo (ou seja, não justaposta a outra). Os próprios organizadores do Comics Studies Reader, entre outros, dizem que ela “carece de sofisticação”.

Sofisticados, claro, seriam os franceses, aquele povo que ama e cultua quadrinhos. Ou melhor, um belga: Thierry Groensteen, que escreve teoricamente sobre HQs há três décadas e vez por outra também ataca de quadrinista. Fazia anos que eu ouvia falar da principal obra dele, Système de la bande dessinée, mas só resolvi encarar a leitura há uns dias. Digamos que ainda estamos nos acertando, com dificuldades. Groensteen toma o caminho da semiótica e cria alguns conceitos interessantes, como o de solidariedade icônica (a essência seria ter duas imagens separadas, mas no mesmo espaço e com alguma conexão semântica ou formal) e de artrologia (a articulação entre as imagens). Mas aí entro em meus problemas pessoais com a semiótica: sempre lembro de um professor da graduação que me dizia que, passando de ícone-índice-símbolo, tudo na semiótica é masturbação mental.

Embora ainda esteja brigando com o texto de Groensteen, um dos meus achados queridos foi a remissão que ele faz a um ensaio de Alain Rey – linguista e personalidade literária na França como editor do Le Robert. Rey diz que “o intercâmbio entre os valores textual e pictórico cria a essência dos quadrinhos”, e que falar somente em imagem e texto é superficial, pois o que acontece nas HQs é “uma batalha entre figuração e narratividade”. O que, por mais que bata com o que o Harvey Pekar disse, é tão bonito quanto a definição pekariana. E voltamos ao problema: frases que não definem nada, mas que não deixam de ser lindas.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter – Outros Quadrinhos

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Bienal do Livro e da Leitura de Brasília
Autores da Companhia das Letras participam da II Bienal do Livro de Brasília

  • Debate com Antônio Prata
    Segunda-feira, 14 de abril, às 18h30
    Em nova edição do seminário “Brasil, América latina e áfrica: novas realidades, novos escritores”, Antônio Prata divide a mesa com Valeria Luiselli, Conceição Lima e Paulo Paniago.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Nelson Rodrigues – Brasília, DF
  • Debate com Ruy Castro
    Segunda-feira, 14 de abril, às 19h
    Na mesa “Biografias: literatura, história e identidade cultural”, Ruy Castro participa de debate com José Paulo Cavalcanti Filho e Toninho Vaz.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF
  • Seminário com Ana Maria Machado e Ana Miranda
    Terça-feira, 15 de abril, às 19h
    Ana Maria Machado e Ana Miranda participam do seminário “Literatura no feminino”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF
  • Debate com Mia Couto
    Quarta-feira, 16 de abril, às 20h30
    Mia Couto participa da mesa “A Sociedade Global e a utopia do desenvolvimento sustentável”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Nelson Rodrigues – Brasília, DF
  • James Holston participa de seminário
    Quinta-feira, 17 de abril, e sexta-feira, 18 de abril, às 20h30
    O autor de Ciranda insurgente participa das mesas “As transformações nos países emergentes e as alterações nos padrões de consumo e na cultura” e “Cidades rebeldes: o povo nas praças e a crise dos modelos de representação política”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Nelson Rodrigues – Brasília, DF
  • Debate com Gonçalo Tavares e Mia Couto
    Sexta-feira, 18 de abril, às 16h30
    Os autores portugueses participam do debate sobre “Tradição e atualidade da literatura de língua portuguesa”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Nelson Rodrigues – Brasília, DF
  • Mesa com Raphael Montes e Carola Saavedra
    Sábado, 19 de abril, às 11h30
    Os autores de Dias perfeitos e O inventário das coisas ausentes participam da mesa “A nova geração de ficcionistas brasileiros”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF
  • Palestra com Marçal Aquino
    Sábado, 19 de abril, às 15h
    Marçal Aquino realiza palestra sobre “Adaptações literárias para cinema”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF
  • Mesa com Frei Betto
    Sábado, 19 de abril, às 19h
    Frei Betto participa da mesa sobre os 50 anos do Golpe Militar: “Narrativas guerrilheiras: a luta contra a ditadura vista por dentro”.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF
  • Mesa com Vanessa Barbara
    Domingo, 20 de abril, às 11h30
    Vanessa Barbara compõe mesa sobre novos ficcionistas brasileiros.
    Local: Espaço Bienal – Auditório Jorge Amado – Brasília, DF

Bate-papo com Carol Bensimon e Simone Campos
Segunda-feira, 14 de abril, às 19h
Após o bate-papo “Personagens femininas fora da norma”, o evento terá leitura de trecho inédito do novo livro de Simone Campos e sessão de autógrafos de Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon.
Local: Livraria da Travessa Shopping Leblon – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon – Rio de Janeiro, RJ

Sessão de autógrafos com Raphael Montes
Terça-feira, 15 de abril, às 18h30
Raphael Montes autografa seu segundo romance, Dias perfeitos, em São Paulo.
Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Sempre um Papo com Gregorio Duvivier
Terça-feira, 15 de abril, às 19h30
O jornalista, cronista e escritor participa de debate e lançamento do livro Ligue os pontos.
Local: Centro de Convivência do UniAraxá – Av. Ministro Olavo Drummond, 05, São Geraldo – Belo Horizonte, MG

Sessão de autógrafos com Renato Mezan
Quarta-feira, 16 de abril, às 18h30
Renato Mezan autografa o livro Os troncos e os ramos.
Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Semana duzentos

Editora Paralela

 

A dieta da mente, Dr. David Perlmutter e Kristin Loberg
Em A dieta da mente, David Perlmutter apresenta uma descoberta que há muito tempo tem sido escondida pela literatura médica: os carboidratos podem destruir seu cérebro. Até mesmo aqueles considerados “saudáveis”, como os grãos integrais, podem causar demência, déficit de atenção, epilepsia, ansiedade, enxaquecas, depressão, redução da libido e muito mais. Inovador e oportuno, A dieta da mente mostra que o destino do seu cérebro não está na sua genética. Está naquilo que você come. Misturando pesquisas de ponta e histórias reais de transformação, David Perlmutter explica por que uma dieta rica em “gorduras boas” é ideal para o corpo e poderá fazê-lo emagrecer sem voltar a engordar. O revolucionário programa de quatro semanas proposto neste livro aponta o caminho para se manter o cérebro saudável, vibrante e aguçado – sem medicamentos. Com recomendações fáceis de seguir, receitas deliciosas e metas semanais, o plano de ação de Perlmutter prova que você pode assumir o controle de seus genes, recuperar o bem-estar e manter a saúde e a vitalidade por toda a vida.

A igreja da misericórdia, de  Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco) (Tradução de Giuliano Vigini)
Francisco é o papa mais carismático da história recente da Igreja.
Desde que assumiu o posto, o número de visitantes ao Vaticano triplicou. Eleito homem do ano pela revista Time e candidato ao prêmio Nobel, o papa Francisco já fez história ao longo do primeiro ano de seu pontificado, provocando uma verdadeira revolução na Igreja. Agora, escreve como papa pela primeira vez. Com uma bonita e esperançosa mensagem de misericórdia, o homem capaz de mudar a Igreja busca rever seu papel no mundo moderno, ressaltando a importância de servir e acolher os necessitados.

O amor chegou tarde em minha vida, de Ana Paula Padrão
Quando pediu demissão da Globo, de um cargo cobiçado e cheio de glamour, não faltou quem a chamasse de louca. Mas a decisão estava tomada: Ana Paula Padrão deixaria para trás um dos salários mais altos do jornalismo brasileiro para, enfim, tomar as rédeas da própria vida.
Ana Paula Padrão nasceu e cresceu em Brasília, de onde saiu para descobrir o mundo. Com mais de 27 anos de carreira e dezenas de prêmios conquistados, em O amor chegou tarde em minha vida ela abre o jogo e revela que por trás da jornalista bem-sucedida há uma mulher profundamente humana, que amadureceu tendo de lidar com inseguranças, dores e desejos. Neste livro comovente e inspirador, Ana Paula relembra os momentos mais marcantes de sua trajetória e faz uma reflexão contundente sobre a condição atual e o futuro da mulher brasileira a partir de pesquisas e de seu trabalho no portal Tempo de Mulher, uma referência em conteúdo destinado a mulheres.

Portfolio-Penguin

Steve Jobs: as verdadeiras lições de liderança, de Walter Isaaoson (Tradução de Berilo Vargas)
Depois de publicar a biografia definitiva de Steve Jobs – que vendeu milhões de exemplares pelo mundo e já bateu a marca de 300 mil livros no Brasil -, Walter Isaacson perdeu a conta de quantas vezes teve de responder a perguntas sobre quais as verdadeiras lições de liderança deixadas pelo gênio da Apple. Não é para menos: para escrever a biografia, Isaacson conviveu por meses com o reservado Jobs e teve livre acesso a seu misterioso escritório em Palo Alto, além de ter entrevistado mais de uma centena de seus amigos, parentes, concorrentes, adversários e colegas. Em Steve Jobs: as verdadeiras lições de liderança, Isaacson revisita os momentos decisivos da trajetória do gênio para revelar ao leitor de que forma a personalidade do fundador da Apple integrava o jeito como fazia negócios. Nesse livro assertivo e fundamental, Walter Isaacson propõe, enfim, uma lista sucinta e reveladora das chaves de seu sucesso.

Making of

Por Paulo Scott

1.

Nestes tempos de acesso online a filmes, seriados e entretenimentos audiovisuais de toda natureza, um DVD, ou blu-ray, se justifica quando traz bons extras dentre os extras não há nada mais interessante do que o making of, aquele documentário no qual são registrados os bastidores da pré-produção, produção e realização da obra audiovisual. No making of, eventualmente, é possível descobrir ótimas linhas de argumentação, justificativas e defesas do que foi contado no filme, do que se pretendeu contar no filme, além de diálogos elucidativos entre diretor e produtor, diretor e ator, diretor e técnico, e por aí.

Em alguns casos, o making of é mais interessante do que o filme em si e, noutros, expande e confirma a narrativa já captada e aplaudida. Sempre que penso em um ótimo filme que teve um making of à altura lembro o caso do filme Blade Runner O caçador de androides, do Ridley Scott, último filme futurista de grande impacto produzido pela indústria cinematográfica ocidental sem recorrer massivamente à computação gráfica.

Não tem jeito, a mecânica do paraquedismo cognitivo funciona assim, você valoriza ainda mais aquilo que gostou quando fica sabendo de certos detalhes, quando recebe certas informações, mesmo que no processo do revelar se quebre o aconchegante encanto da ignorância. No caso do Blade Runner, a saga em torno da elaboração do roteiro do filme sem esquecer que o filme se baseou no romance Do androids dream of electric sheep?, do escritor norte-americano Philip K. Dick é impagável. Recomendo.

2.

Será que alguns livros seriam mais bem recebidos se fossem oferecidos com um anexo, e nesse anexo viesse um making of ou algo que cumprisse função semelhante? Certamente não. Entretanto, não são poucos os casos em que o leitor muda de opinião a respeito de um livro após conhecer as justificativas, pela voz do seu autor ou de terceiros, que conduziram à feitura da obra. Convenhamos, não é o melhor caminho. Há também, embora seja claramente contexto diverso, aqueles casos em que espectador de palestra, após o fim da palestra, motivado pela eloquência do autor, pela empatia que desenvolvera em relação àquele autor, compra o livro e, vencida a etapa do obter o autógrafo do autor, nunca mais se dá o trabalho de abri-lo; é quando o livro vira objeto de decoração. Isso faz lembrar a síndrome do eu te sigo, eu te adoro, sou teu fã, mas acho que nunca te li. Evite.

Essa conversa de making of na literatura esclareço que se há algum sentido na coluna de hoje é tão somente o da exposição de alguma conjectura , respinga em várias direções, inclusive na mais remota que contempla a participação de escritores em encontros literários, em diálogos e questionários literários, nos quais autores são convidados a enfrentar, como verdadeiros comentadores, autorizados, semiautorizados, não autorizados, de si mesmos, o que produziram, a analisar festivamente (leia-se: tornar mais interessante o objeto da digressão do que ele é) o que produziram, sujeitando-se a diferentes graus de constrangimento e de autoconstrangimento, o que sempre dependerá de sua própria disposição, de sua casuística.

Estranha (a partir da pergunta, que não é em si uma pergunta relevante) essa sensação de realização, e projeção interminável e obrigatória, de um making of daquilo que um dia se escreveu para ser apresentado como literatura. Estranha a consciência de que todos nós, em graus diferentes de autoconstrangimento, estamos em pleno exercício da realização, inevitavelmente intercalada por eventuais projeções prematuras, do making of do que fazemos e, o que é mais grave, inegavelmente acumulando milhagens pro grande voo: o making of das nossas vidas. Estranha pertinência, mesmo tendo sido escrita no começo dos anos oitenta, esta pertinência da canção do músico gaúcho Nei Lisboa: Meu amigo, não se desfaça nessa fama / Todo esse mundo do rock’n’roll / É ruim de cama / Eles querem diversão e bolo / Eles querem tudo e mais um pouco / Eles querem Krig-há, Bandolo! / E champaigne / Eles querem frases nos jornais / Eles querem parecer sinceros demais / Eles querem diversão e bolo / Eles querem te fazer de tolo / E eu também.

3.

Vive-se neste angustiante editar e reeditar, e não estou falando de literatura, falo de algo maior; e ao escritor sempre estarão disponíveis maturidade e silêncio, não exatamente um junto ao outro. Mas como fará o escritor neste mundo e nesta rotina em que o escritor ganha, logo consegue dinheiro para pagar suas contas, para falar e falar e falar do que escreveu e do que não escreveu? Sei que não tenho tanta coisa assim a dizer, sei que me justifico muito mais ouvindo, escutando, do que falando. Sei que há convites que jamais vou aceitar.

Se o filme for uma droga não despertará qualquer interesse pelo making of, e tudo se decidirá no plano mais elementar: no simples abandono. Tenho trabalhado com a ideia do abandono na minha rotina de escrita do romance novo, e a abordagem do tema, agora que estou entrando na reta final, já não é a mesma do início dos trabalhos; incrível como as certezas mudam ao longo da escrita de uma narrativa longa. Tenho pensado, mas isso não passa de cogitação, que talvez literatura não seja esquecimento (essa tese da qual tenho falado por aí), talvez seja abandono (e só depois esquecimento), porque cada leitura que desperte algum reconhecimento, com ajuda ou não de making of, se acumula num roteiro, numa condução de roteiro, que posiciona o leitor em lugar novo, forçando-o a abandonar a sua exatidão anterior, a que ele segurava antes da leitura.

O fato é que um bom livro de literatura tem sua resistência e tem seus aliados, certamente um making of não é um deles. Um making of, apenas pela evidência e em favor da metáfora aqui praticadas, não é um fundamento e não é resistência mesmo que se diga sobre ser hoje outro tempo, outra época, a época da exposição a valer, e que ele, mesmo sendo metáfora, em sua função, não existia porque nunca havia sido necessário , mas também não é ameaça. No final, acaba sendo uma etapa possível, que nos lembrará, ao início da exaustão de falar, que o importante, até mais do que escrever um livro, é ler, talvez reconhecer, e pensar, ajustar, e calar.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Em tradução (Smith)

Por Caetano Galindo


Então. Já falei de Ali Smith aqui. De como eu me orgulho de ser o tradutor dela no Brasil.

Pois bem. Nas férias eu e a Sandra (Stroparo, que também já traduziu aqui pra casa) fomos a Londres. Legal, né? Super.

Eu sou curitibano, que é uma subespécie de barata. Que se esconde pelos cantos e foge da luz. Menos nojento, no entanto, na maioria das opiniões.

Mas mesmo assim, estando lá, me deu uma coceira social. A gente estava com planos de conhecer Cambridge (na outra ida, dez anos atrás, passamos dias bem felizes em Oxford) e eu sabia que a grande Ms. Smith morava lá.

Mandei um e-mail pra Tracy, agente dela (que aliás estava grávida! Benvinda filha, benvindo filho da Tracy! [ela não quis saber qual seria]), e falei que a gente topava dar uma corrida a Cambridge no dia que fosse mais legal pra grande escritora, se ela estivesse a fim de um café. A cuppa. Whatever.

Coisa de uma hora depois recebo um e-mail propondo data, hora e local, porque Ali Smith viria a Londres na semana seguinte. Claro. Oba.

Fomos.

* * *

Nada. Mas nada mesmo teria nos deixado prontos pra ela. Todo mundo que já tinha falado com ela aqui na Flip (aliás, ela morre de vontade de voltar; viu, organizadores…) dizia a mesma coisa. Que a mulher era de uma simpatia, de uma fofura quase surreais.

Saímos de lá encantados. Ela é um amor. Ela é tão simpática e tão proativamente simpática que até minha linda frase de efeito, treinada logo antes, eu esqueci de usar.

Hello, I am you.

E ela é tão simpática que eu me senti imediatamente à vontade pra contar que tinha pensado nessa frase de efeito etc. E ela achou bacana. E deu ainda pra rir junto.

Saí daquela sala dos membros da Tate Modern com a sensação de que a minha missão na vida, como tradutor, é representar bem essa moça. É ser ela do jeito mais eficiente que eu possa. Porque os livros dela, eu já sabia. Merecem. Mas ela agora merece mais ainda.

* * *

Querem uma estória ainda mais fofolete? Pois a gente (eu e a Sofia) estava quebrando a cabeça com o título, totalmente intraduzível, do último romance dela. Estávamos entre o jogo linguístico-estrutural complexo e a tentativa de imprimir na capa algo que chamasse eventualmente mais leitores. Algo mais comercial. Todos os leitores de Ali Smith, vivemos desesperados, afinal, pra fazer mais gente saber o que está perdendo…

Pois não é que (juro, tá? Verdade…) na noite anterior a esse encontro, eu sonhei com um título? Tipo, nada a ver com nenhuma das linhas que a gente estava tentando seguir. Nada. Mas sonhei. E meio que me deu um arrepio, porque era bom… era bacanão…

Contei isso pra Ali (hmmm, first names…). Ela achou legal e me pediu pra saber o título. Quando eu contei, a reação dela merecia um filme em HD.

Ela travou, tremeu em alta velocidade (juro), abriu uns olhos enormes e começou a falar que se dispunha a escrever uma longa carta pra editora provando que só aquele título caberia.

Eu ri. Mas ao mesmo tempo fiquei comovido pacas.

Ficar excitada desse jeito com palavras. É isso que faz Ali Smith ser quem é. Frisson. Tesão. Invenção.

(Porque o título ainda tinha um minitrocadilho.)

É bem verdade que a conversa foi tão boa que a gente já decidiu até o título em português do romance que ela ainda está escrevendo!, mas, enquanto isso, fiquem curiosos por esse que vai sair, e que, com as bênçãos da autora, de Morfeu e da Sofia (a tal carta nem foi necessária, afinal) há de se chamar Suíte em quatro movimentos.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.