Trinta anos após Tchernóbil

13511000615_5ed881c07d

Em 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, provocou uma catástrofe sem precedentes em toda a era nuclear: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera da URSS e em boa parte da Europa. Em poucos dias, a cidade de Prípiat, fundada em 1970, teve que ser evacuada. Pessoas, animais e plantas, expostos à radiação liberada pelo vazamento da usina, padeceram imediatamente ou nas semanas seguintes.

Apesar das cenas de horror que se seguiram ao acidente de Tchernóbil, trinta anos após a tragédia o local evacuado, e até hoje contaminado, virou roteiro turístico. Prédios, parques, praças, escolas e hospitais abandonados às pressas: imagens que lembram uma verdadeira cidade fantasma. Mas uma cidade que também foi feita de pessoas que abandonaram seus lares e, mesmo assim, não conseguiram escapar dos efeitos da radiação. Svetlana Aleksiévitch não permitiu que as histórias dessas pessoas fossem esquecidas e transformadas em passeio para turistas. Em Vozes de Tchernóbil, livro que chega hoje às livrarias brasileiras, a Nobel de Literatura reúne relatos de viúvas, trabalhadores afetados, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados, enfim, gente do povo que viveu os horrores daqueles dias, meses e anos em que suas vidas mudaram completamente.

A seguir, leia um trecho do livro em que Svetlana apresenta o roteiro (absurdo) de um passeio a Tchernóbil. 

* * *

A Secretaria de Turismo de Kíev oferece viagens turísticas a Tchernóbil. Foi elaborado um itinerário que tem início na cidade morta de Prípiat. Lá, os turistas podem observar os altos prédios abandonados com roupas enegrecidas nas varandas e carrinhos de bebê. E também o antigo posto de polícia, o hospital e o Comitê Municipal do Partido. Aqui ainda se conservam, imunes à radiação, os lemas da época comunista.

Da cidade de Prípiat, a expedição prossegue até as aldeias mortas, onde lobos e javalis selvagens, que se reproduziram aos milhares, correm soltos entre as casas e em plena luz do dia.

O ponto alto da viagem ou, como assinala a propaganda, “a cereja do bolo”, é a visita ao “Abrigo”, nomeado mais propriamente de sarcófago. Construído às pressas sobre os escombros do quarto bloco energético explodido, o sarcófago está há tempos juncado de fendas através das quais “supura” o seu conteúdo mortal, os restos do combustível nuclear. Vocês terão coisas impressionantes para contar aos amigos quando voltarem. A experiência é única, não se compara a qualquer viagem às ilhas Canárias ou Miami. A excursão se conclui com uma sessão de fotos de recordação junto ao muro levantado em memória dos heróis caídos de Tchernóbil, para que vocês se sintam participantes da história.

Ao final da excursão, oferece-se aos amantes do turismo radical um piquenique com comida feita à base de produtos ecologicamente puros, vinho tinto e vodca russa.

Asseguramos que durante o dia transcorrido na zona vocês receberão uma dose inferior à que lhes causaria uma sessão de raio X. Mas não recomendamos banhar-se e comer pescado ou caça de animais capturados na zona. Nem colher bagas e cogumelos e assá-los na fogueira. Nem presentear as mulheres com flores do campo.

Vocês acham que isso é delírio? Enganam-se. O turismo nuclear goza de uma grande demanda, sobretudo entre os turistas ocidentais. As pessoas perseguem novas e fortes emoções, pois encontram poucas delas num mundo já excessivamente condicionado e acessível. A vida se torna chata e as pessoas desejam algo eterno.

Visitem a Meca nuclear. A preços módicos.

 

Extraído de materiais dos jornais bielorrussos, 2005

Isabel

Por Luisa Geisler

6846132493_34d6586632

Começou com Raphael Montes sugerindo que eu era um pseudônimo, me comparou à Patrícia Melo. Em uma entrevista minha para o Estado de S.Paulo, ele sugeriu que fosse Antônio Xerxenesky. Ou até mesmo Rubem Fonseca.

Na mesma matéria, Joca Reiners Terron também suspeita que eu seja o Antônio.

O crítico Eder Alex diz estar quase chutando que eu seja o J.P. Cuenca.

Ora, obrigada.

Mas confesso estar um pouco decepcionada.

Meu primeiro texto para o blog da Companhia das Letras foi sobre Stephen King, a coisa toda. Uma das crônicas mais recentes tratava de por que gosto de escrever: por gostar de ser outras pessoas. Começo a viajar na entrevista falando de literatura e identidades. A escrita de meu livro atual está tomada por um “inexplicável” atraso.

É óbvio que eu sou Isabel Moustakas.

E vocês aí culpando um pobre doutorando que nem tem tempo para manter Facebook!

Confesso (de novo) que não ia abrir o jogo logo de cara. Estava me agradando a coisa toda do pseudônimo, de ser uma pessoa misteriosa, com foto misteriosa em preto e branco. Poder dar entrevista sem os ranços que já tenho (mesmo sendo pré-adolescente), poder lidar com zero expectativas. Nem me perguntaram como é ser jovem! Mas voltaram as expectativas e o jogo ficou chato de novo.

É claro que, se eu não fosse Isabel Moustakas, esse texto seria muito conveniente para a própria. E, se eu fosse Isabel Moustakas, esse texto seria mais conveniente ainda (para mim). Ora, olhem o tom jocoso, as piscadelas subentendidas, os risinhos só com os lábios. Se eu fosse Isabel Moustakas, a última coisa que faria seria sair por aí falando que sou. Não é verdade? (Aqui entraria uma piscadela subentendida). Mas se a última coisa que eu faria seria abrir o jogo, não aliviaria todas as suspeitas eu sair dizendo que sou?

Tipo quando a sua mãe pergunta quem é que quebrou o vaso da sala (você quebrou), e você olha para o seu irmão mais novo com uma cara feia e diz:

— Ah, é, fui eu.

Sabe qual a coisa menos incriminadora que pode acontecer durante um interrogatório em uma investigação de homicídio? Você dizer que se dava mal com a vítima, ou não gostava dela. Porque uma pessoa culpada vai tentar omitir isso, vai tentar parecer que tudo estava perfeito (aqui se nota a menção ao direito, formação de Isabel, e mais uma piscadela).

Então sou Isabel. E não sou também.

Se eu não soubesse que sou eu (e eu sei), eu chutaria a Elvira Vigna. Até porque é sabido como pago-pau pra Elvira e, no livro, tentei emular em parte o estilo dela. Mas se não fosse minha emulação, talvez fosse a Elvira original.

Não sei por quê, desejo que seja o Sérgio Sant’anna. Ou alguém inesperado para o gênero, tipo a Carol Bensimon. Depois dos problemas que a realidade tem com a autoficção do Ricardo Lísias, ele próprio seria uma escolha plausível, não? Um começo fresco, um nome que não pode ser processado por bobagem.

Ou o próprio felino do Antônio Xerxenesky, por quem ele jura na minha entrevista.

Acima de tudo, acho que Raphael Montes é Isabel. Como quando a J.K. Rowling criou Robert Galbraith. Montes, traduzido e bem vendido em trocentos idiomas, quis se desafiar um pouco. Já publica na Companhia das Letras, quis saber opiniões além das dos fãs de carteirinha. Saindo do carioca carismático rei das redes sociais, entra uma persona mais séria, mais contida (até textualmente), mais reservada: Isabel. E o próprio Raphael seguiu o meu plano original. Disse que leu o livro de Isabel, ainda fazendo críticas à autora, apesar de incluir uns elogios cá e lá, incitando curiosidade de leitores. Um gênio.

Mas isso tudo se eu não fosse Isabel Moustakas. E eu sou Isabel Moustakas. Podem enviar perguntas nos comentários, no Facebook, onde quiserem. Me desafiem, se quiserem. Isto é, se ninguém mais ousar se assumir como Isabel.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Uma conversa com Svetlana Aleksiévitch

Por Ana Lucic

14260629297_1172ce1755

Hoje, dia 26 de abril, o desastre de Tchernóbil completa 30 anos. Em 1986, uma explosão seguida de um incêndio em um dos reatores nucleares da usina causou devastação: milhares de pessoas morreram, a cidade de Prípiat, na Ucrânia, teve de ser evacuada. Até hoje, as marcas da tragédia na paisagem, nos animais e nas pessoas são visíveis.

Um dos relatos mais fortes sobre o que aconteceu em Tchernóbil vem de Svetlana Aleksiévitch. Ou melhor, vem das dezenas de vozes que ela reúne em Vozes de Tchernóbillivro que chega hoje às livrarias brasileiras. Ganhadora do Nobel de Literatura de 2015, Svetlana constrói nesse livro arrebatador, a um só tempo, o relato e o testemunho de uma tragédia quase indizível. Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários.

Svetlana Aleksiévitch é uma das autoras confirmadas para a Festa Literária Internacional de Paraty de 2016. Para conhecer mais sobre a autora e sua obra, traduzimos aqui para o blog uma entrevista concedida originalmente ao site da Dalkey Archive para Ana Lucic (tradução de Carlos Alberto Bárbaro). Leia a seguir.

* * *

Vozes de Tchernóbil é um livro surpreendente, emocionante. Que efeito ou emoção especial a senhora buscou despertar em seus leitores?

Passados tantos anos, diz-se que já sabemos tudo o que há para saber sobre Tchernóbil, que foi algo que passou e que ninguém mais quer ouvir falar no assunto. O fato, porém, é que o fenômeno de Tchernóbil não apenas não foi esquecido, mas não chegou sequer a ser propriamente entendido.

Quais são as reações mais comuns dos leitores a Vozes de Tchernóbil?

A mais frequente é considerar tratar-se de uma revelação: “Eu não tinha ideia de como as coisas foram realmente, especialmente no nível pessoal”. Este livro não é sobre o desastre de Tchernóbil em si — sobre o porquê aconteceu e como aconteceu –, mas sobre o mundo depois de Tchernóbil, sobre como as pessoas reagiram ao fato e cada uma delas sobreviveu a isso. Não é sobre os danos à natureza e à genética humana provocados por Tchernóbil, mas sobre como aquelas experiências afetaram nossas vidas e nossa consciência.

Em que pese ter despertado novos temores e sensibilidades, Tchernóbil também eliminou parte dos temores antigos. O medo às autoridades comunistas se desmanchou quando, confrontadas com a opção de fugir, afastando suas famílias do perigo, ou de permanecer em Tchernóbil, mantendo a lealdade ao Partido, a maioria das pessoas partiram. O medo da radiação conseguiu, a seu modo, suspender, ou ao menos diminuir, o medo que elas tinham dos chefes do Partido e da autoridade partidária. Que os próprios chefes do Partido se dispusessem a abdicar dos seus cartões do Partido para fugir confirmava de fato, em meio às negativas governamentais, a seriedade do desastre em Tchernóbil.

A maioria desconhecia esse aspecto de Tchernóbil. O livro despertou exatamente as reações que eu vislumbrava enquanto escrevia: pessoas começando a pensar sobre o sentido de suas vidas e da vida em geral, sentindo a necessidade de uma nova visão de mundo, uma que nos salve a todos.

Quanto tempo a senhora passou levantando os dados e entrevistando as testemunhas? E quanto escrevendo? Que parte do material coletado foi aproveitada no livro?

Todos os meus livros são constituídos de provas testemunhais, de depoimentos de pessoas vivas. Levo normalmente de três a quatro anos para escrever um livro, mas desta vez foram mais de dez. Nos primeiros poucos meses que passei lá, Tchernóbil fervilhava com jornalistas e escritores de vários países, todos com centenas de perguntas a fazer. Acabei ficando convencida de que nos deparávamos ali com um fenômeno misterioso e completamente desconhecido que, simultaneamente, tentávamos descrever com palavras simples, em termos do cotidiano. Falávamos então sobre os pecados do sistema comunista e sobre as pessoas sendo enganadas, sobre o fato de que não fora dito a elas como proceder em tais circunstâncias, que elas não haviam recebido instruções sobre como utilizar iodo etc. E, claro, era tudo verdade. Os sentimentos nacionalistas antirrussos eram fortes na Bielorússia e na Ucrânia, pois fora uma estação russa nuclear que explodira: “os russos nos contaminaram com radiação”, dizia-se. Mas esse tipo de indagações soavam para mim um tanto superficiais. Respostas estritamente políticas ou estritamente científicas não eram o bastante — ninguém tentava chegar ao âmago do problema. Percebi que poderia rapidamente escrever o mesmo tipo de livro que os jornalistas que encontrei ali iriam escrever. E havia de fato centenas deles ali. Assim, optei por uma outra abordagem. Comecei a entrevistar as testemunhas, mais de quinhentas delas, o que me tomou mais de dez anos. Dado que havíamos sido confrontados com um nova realidade, passei a buscar pessoas que tivessem sido abaladas por aquela experiência, instando-as a refletir sobre o que havia de fato acontecido, o que estava acontecendo nesse mundo novo que elas tentavam confrontar com métodos antigos. Por exemplo, recordo-me dos helicópteros militares, pilotados por pilotos que haviam estado na guerra entre a União Soviética e o Afeganistão, sobrevoando o reator em chamas; eles não tinham a mais remota ideia sobre o que deviam fazer com suas metralhadoras. É assim que todo sistema militar funciona: eles acreditavam que uma quantidade significativa de soldados e tecnologia bélica resolveriam qualquer problema. Só que ali eles estavam tendo que lidar com física de alta-energia, partículas nucleares, doses de radiação — ninguém entendia de fato o que estava acontecendo.

Eu coletei a maior quantidade de material possível. Dentre as quinhentas ou mais entrevistas, 107 foram incluídas na versão final do livro, vale dizer, aproximadamente uma a cada cinco. E isto é basicamente o que acontece em todos meus livros — eu escolho uma de cada cinco entrevistas, e é essa que vai parar no livro publicado. Para cada pessoa entrevistada eu gravo quatro ou mais fitas, o que dá cerca de cem a 150 páginas impressas na transcrição, a depender do timbre e da velocidade com que se conta a história, mas a versão final reduz tudo a cerca de dez páginas.

Como a senhora decidiu que iria escrever Vozes de Tchernóbil? Qual foi sua principal motivação?

Tchernóbil nos demonstrou o quão perigoso é o “culto à força” da civilização moderna, o quão flagrantes são as imperfeições advindas dessa confiança no poder e na coerção acima de todo o resto, o quão perigosas para nós são nossas modernas visões de mundo, o quanto o homem humanitário está ficando para trás em relação ao homem tecnológico. Desde os primeiros dias em que esse desastre esteve pairando sobre nossas cabeças — e não apenas na forma de uma nuvem radioativa –, não foi apenas o teto do reator que explodiu: Tchernóbil explodiu toda nossa visão de mundo, minou as próprias bases do sistema soviético, que já havia sido estremecido pela guerra contra o Afeganistão. Foi uma explosão poderosa que abalou totalmente as nossas vidas. Eu lembro de centenas de milhares em manifestação antigovernamental na Bielorrússia, em defesa do cidadão comum e das crianças. Eu queria falar sobre essa experiência singular. O que aconteceu é que a Bielorrússia, com sua cultura patriarcal e tradicionalista, de repente teve que confrontar seus temores em relação ao futuro.

O quão diferente é a história que a senhora ouviu do povo quando comparada às versões oficial e da imprensa?

Completamente diferentes. Sempre tivemos essa situação na Bielorrússia e, parcialmente, também na Rússia, a saber, que a versão oficial tem muito pouco a ver com o modo como as pessoas comuns enxergam as coisas. Qual é o principal objetivo das autoridades? Elas sempre se dedicam com afinco a se proteger. As autoridades totalitárias daqueles dias forneceram uma vívida demonstração disso: elas temiam o pânico, elas temiam a verdade. A maioria das pessoas não entendia muito o que estava acontecendo. Em suas tentativas de autopreservação, as autoridades enganaram o povo. Elas garantiram a todos que tinham tudo sobre controle, que não havia perigo. As crianças continuaram jogando futebol, tomando sorvete nas ruas, os bebês brincando nas caixas de areia nos parquinhos e os adultos continuando a se bronzear na praia. Hoje, centenas de milhares daquelas crianças são inválidas, muitas delas já tendo morrido. Confrontadas com um desastre nuclear à época, as pessoas se viram a sós para lidar com o problema, e perceberam que estavam escondendo a verdade delas, que ninguém podia ajudar, nem cientistas e nem médicos. Era uma situação completamente nova para elas. Veja, por exemplo, o caso dos bombeiros — que se transformaram eles próprios em pequenos reatores. Os médicos fizeram com que se despissem e os examinaram manualmente. Esses médicos contraíram doses letais de radiação dos bombeiros. Muitos bombeiros e médicos morreram em seguida. Os bombeiros não possuíam sequer trajes de proteção, que simplesmente nem existiam então. Eles chegaram ao local preparados para um incêndio tradicional. Ninguém estava preparado para esse tipo de coisa. Meus entrevistados me contaram histórias da vida real. Por exemplo, nos poucos centros de compras da cidade de Pripyat, antes que a evacuação começasse, as pessoas permaneceram em seus balcões observando o incêndio. Elas se recordam do quão esplêndida era a visão, toda aquela fluorescência carmim. “Era a visão da morte. Mas nunca imaginamos que a morte pudesse parecer tão linda.” Elas até chamaram seus filhos para admirar a visão com elas: “Venha aqui dar uma olhada. Você irá se lembrar disso até o fim da sua vida.” Elas admiravam o panorama de sua própria morte. Aquelas pessoas eram professores e engenheiros da usina nuclear. As pessoas com quem falei forneceram detalhes abundantes sobre a cena do desastre.

Lembro de ter recebido um telefonema do piloto dois anos depois: “Por favor, venha me ver assim que puder. Tenho pouco tempo de vida e gostaria de lhe contar o que sei.” Ele era um homem condenado ao me contar sua história. “Estou contente que a senhora pôde vir. Posso discutir isso contigo. Por favor, escreva o que vou dizer. Nós não entendíamos de fato o que estava acontecendo, e mesmo hoje eles ainda não entendem.” Eu sempre vivi com a sensação de que devia escrever tudo. Talvez as pessoas ainda não entendam de fato o que aconteceu então, e é por isso que é tão importante registrar as provas de fato, a verdadeira história de Tchernóbil, uma história que ainda não submergiu até os dias de hoje.

A senhora é uma escritora bielorrussa que vive em Paris. Sente-se como se pertencesse a um ambiente literário de um país específico ou considera-se independente de qualquer país ou região?

Eu diria que sou uma escritora independente. Não posso me considerar uma escritora soviética, sequer uma escritora russa. E quando falo “soviética”, penso no território do antigo império soviético, naturalmente, o reino da utopia soviética. Da mesma forma, não me considero uma escritora bielorrussa. Diria que sou uma escritora daquela época, a época da utopia soviética, escrevendo a história da utopia soviética em cada um dos meus livros. Estou apenas de passagem por Paris; minha estada aqui está vinculada à situação política na Bielorrússia e à minha oposição ao governo atual de lá. Meus livros vêm sendo publicados em vários países, menos na Bielorrússia; nos últimos dez anos do governo Lukashenko, nenhum dos meus livros foi publicado lá. Mas eu continuo a escrever sobre o homem comum em luta contra a grande utopia. Eu descrevo o desaparecimento dessa utopia e como isso afeta a pessoa comum.

Todos os seus livros são uma combinação de entrevistas com técnicas de ficção, o que para mim parece ser um gênero ímpar. Há outros autores fazendo algo semelhante?

A tradição de contar uma história desse modo, registrando as histórias orais, as vozes vivas, foi estabelecida na literatura russa antes de mim. Penso nos livros de Daniil Granin e Ales Adamovich sobre o Cerco de Leningrado. Por exemplo, I came from the fiery village [Eu venho do povoado em chamas]. Aqueles livros me inspiraram a escrever os meus. Percebi que a vida oferece tantas versões e interpretações dos mesmos acontecimentos que nem a ficção ou o simples registro dos fatos tem como competir com a sua variedade; senti-me compelida, portanto, a descobrir uma estratégia narrativa diferenciada. Decidi recolher as vozes das ruas, o material que estava ali, ao meu redor, esperando. Cada pessoa oferece um texto particular. E eu percebi que poderia fazer um livro com eles. A vida segue muito rápida — somente coletivamente podemos criar um quadro único, de muitos lados. Escrevi todos os meus cinco livros assim. Os heróis, sentimentos e acontecimentos nos meus livros são todos reais. Para cada história de cem páginas contada por cada pessoa não entram mais do que cinco páginas na obra finalizada, muitas vezes, não mais que meia página. Eu faço um bocado de perguntas, seleciono os episódios e é assim que participo do ocorrido na criação de cada livro. Meu papel não se resume ao de alguém que ouve algo por alto na rua, mas sim também o de um observador e pensador. Para alguém de fora pode parecer um processo simples: as pessoas apenas me contam suas histórias. Mas não é simples assim. É importante tanto o que se pergunta, quanto o como se pergunta, além de o que se ouve e o que é selecionado de toda a entrevista. Não creio ser possível refletir de fato sobre o escopo mais amplo da vida sem a documentação, sem a prova humana. O quadro não ficará completo.

No capítulo “A título de epílogo”, a senhora diz sentir que está escrevendo para o futuro. Poderia comentar sobre isto?

Durante os dez anos em que estive visitando a zona de Tchernóbil, tive a impressão de estar documentando o futuro. As pessoas seguiam repetindo, como um refrão: “Nunca vi coisa igual. Nunca li sobre isso em lugar nenhum. Nunca vi isso em um filme ou ouvi alguém descrever algo assim.” Tchernóbil criou sentimentos inéditos, como o medo de amar; as pessoas tinham medo de ter filhos; novos sentimentos de responsabilidade foram criados; novas perguntas foram levantadas. E se, por exemplo, nossos filhos nascerem com defeitos? Como podemos avaliar noções tais como a desintegração periódica de partículas nucleares, que varia de três mil a cem mil anos? Isso estabelece uma perspectiva de vida completamente diferente. Dá para imaginar como uma pessoa se sente tendo de abandonar sua própria casa, o lugar em que nasceu, um povoado ou cidade, sabendo que não poderá regressar jamais, mas que sua casa continuará de pé ali? Era um sentimento completamente novo para eles. Ou, por exemplo, pegue o problema dos vilarejos contaminados. Como enterrá-los? Primeiro, retiram as pessoas; daí, contornando cada casa, ainda cheias de seus pertences, cavam uma grande vala; matam todos os animais, e os enterram. Desse modo, o homem trai seus animais, sua terra e seu lar. Agora, ao viajar até ali, tudo o que se vê, além dos velhos cemitérios, são túmulos aparentes, com casas e animais ali dentro. E isso desperta sensações surreais de que tudo ali pertence a uma outra época.

Os Eisners

Por Érico Assis

2711674250_49074ff6fb

Fábio Moon e Gabriel Bá estão concorrendo ao Prêmio Eisner. Anunciada na semana passada, a lista de indicados de 2016 inclui Dois irmãos — ou Two Brothers — na categoria “melhor adaptação de outra mídia”. Moon e Bá não são estranhos ao prêmio: já têm, cada um, três estatuetas. É a primeira vez, porém, que concorrem com um projeto que teve origem no Brasil.

Os Eisners são o Oscar dos quadrinhos: um prêmio de indústria, que cita destaques do ano que passou na vasta produção desta indústria e convida a própria indústria a votar nos melhores. A indústria, no caso, é a norte-americana. Se você pegar os números de faturamento dessa indústria, vai ver que mais de metade dela é focada em super-heróis. Nos Eisners, porém, super-heróis são minoria.

* * *

Os líderes de indicações, por exemplo, são Bandette — HQ digital que segue o estilo das BDs europeias –, March — série de graphic novels que conta a luta pelos direitos civis nos EUA –, Hip-Hop Family Tree — a história do hip-hop na estética de HQs Marvel — e O Eternauta — a primeira tradução para o inglês da clássica HQ argentina dos anos 1950. Nenhuma destas é sucesso de vendas, mas consegue angariar seguidores dentro do segmentadíssimo público norte-americano.

As mais indicadas apontam tendências do prêmio. A primeira é o gosto pela HQ de aventura infanto-juvenil, gênero que vive mais de nostalgia do que de novos exemplos. Quando estes exemplos surgem, porém, invariavelmente acabam nas categorias do Eisner.

A segunda tendência, colada na primeira, é o foco na formação de leitores. Se as categorias “melhor publicação para primeiros leitores (até 8 anos)”, “melhor publicação para crianças (9-12 anos)” e “melhor publicação para adolescentes (13-17 anos)” já não deixam claro, as obras e autores que figuram nelas também costumam pipocar nas categorias mais prestigiadas, como “melhor roteirista” e “melhor desenhista”. É uma tendência prudente: a indústria só vai continuar existindo com a entrada de novos leitores, então que se estimule quem produz para eles.

A terceira tendência, talvez mais recente, é de internacionalização: embora Eternauta só concorra em categorias editoriais (edição de obra estrangeira, projeto editorial, design), o argentino Liniers aparece entre os concorrentes, assim como o belga Max de Radiguès, os franceses Riad Sattouf e Arthur de Pins, a chilena Claudia Dávila e, claro, os brasileiros — não só Moon e Bá, mas também o gaúcho Rafael Albuquerque. Diferente de um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, porém, os autores precisam ter publicado por editora dos EUA, em inglês.

* * *

Um dos marcos do ano é a quantidade de mulheres quadrinistas: 49, distribuídas por 61 indicações, pouco mais de 1/3 das vagas. Proposital ou não, é um contraste com o Prêmio do Festival d’Angoulême, francês, que este ano não indicou nem uma mulher ao seu Grand Prix — e soltou uma longa lista masculina.

Ainda em termos de diversidade, ninguém conhece as caras dos quadrinistas o suficiente para saber se ficaram só tons de leite — como os que geraram discussão no Oscar deste ano. Uma das indicadas a “melhor HQ digital ou webcomic”, porém, trata justamente da cor de pele dos heróis de HQ. (E pode ser lida aqui.)

* * *

Assisti à entrega dos Eisners uma vez, em 2013. A cerimônia não é transmitida pela TV, não tem palco (só um palanque), nem apresentação musical. Nem mesmo é concorrida. É um jantar no salão de um hotel, ao qual se convida todos os indicados e mais umas figuras importantes. A atmosfera lembra encontro de Rotary Clube. Celebridades de TV passaram a entregar os troféus depois da morte de Will Eisner, em 2005. Antes, era o próprio Eisner quem entregava os Eisners.

Eu era um de meia dúzia de jornalistas cobrindo a cerimônia. Como ela acontece bem no meio da Comic Con de San Diego, uma megaconvenção de cultura pop, tem muita coisa interessante acontecendo fora daquele salão de hotel.

* * *

Os indicados são escolhidos por um comitê que muda todo ano. A votação é aberta a quem for profissional da indústria. Assim como no Oscar, os votantes tendem a escolher o que encontram de mais famoso em cada categoria: é praticamente impossível você ter lido tudo. Two Brothers, fora ser uma ótima HQ, tem vantagem de vir de uma editora conhecida (Dark Horse) e de autores mais renomados que os concorrentes na categoria.

Já se inventaram fórmulas para medir o impacto do Oscar na bilheteria de um filme. No caso dos Eisners, essa fórmula não existe — e se imagina que a influência nas vendas seja baixa. Autores, porém, ostentam “vencedor do prêmio Eisner” junto ao nome por toda a carreira.

A lista completa de indicados ao Prêmio Eisner 2016 está aqui.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

Marque na agenda

lili-futura-menor

Lançamento da nova temporada de “Entrevista” com Lilia Moritz Schwarcz
Segunda-feira, 25 de abril, às 19h
Apresentadora da nova temporada do programa “Entrevista”, do Canal Futura, Lilia Moritz Schwarcz, autora de Brasil: uma biografia, participa de um debate de lançamento dos novos episódios com Agnaldo Farias, Ricardo Teperman e Antônio Nobrega.
Local: Unibes Cultural — Rua Oscar Freire, 2500 — São Paulo, SP

Sempre um Papo com Luiz Ruffato
Segunda-feira, 25 de abril, às 19h30
Lançando seu novo romance, De mim já nem se lembra, Luiz Ruffato participa de mais uma edição do Sempre um Papo em Belo Horizonte.
Local: Palácio das Artes — Avenida Afonso Pena, 1537 — Belo Horizonte, MG

Debate Dom Quixote 
Terça-feira, 26 de abril, às 19h30
Para marcar os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, o tradutor Ernani Ssó, que lançou sua tradução de Dom Quixote pela Penguin-Companhia, e a professora Marta Pérez Rodríguez debatem sobre a obra do autor.
Local: Instituto Cervantes — Av. Paulista, 2439 — São Paulo, SP

Lançamento de De volta ao jogo
RezendeEvil faz uma série de eventos para comemorar o lançamento de seu segundo livro pela Suma de Letras, De volta ao jogo. Confira os locais e datas:

  • Campinas
    Quarta-feira, 27 de abril, às 15h
    Local: Livraria Leitura — Avenida Guilherme Campos, 500, Jd. Santa Genebra — Campinas, SP
  • Guarulhos
    Quinta-feira, 28 de abril, às 15h
    Local: Livraria da Vila — Av. Bartolomeu de Carlos, 230 — Guarulhos, SP
  • Rio de Janeiro
    Sexta-feira, 29 de abril, às 15h
    Local: Livraria Saraiva New York City Center — Av. das Américas, 5.000, Barra da Tijuca — Rio de Janeiro, RJ

Contação de O coelhinho que queria dormir
No sábado e no domingo, os pequenos leitores vão se divertir com a contação de O coelhinho que queria dormir. Saiba mais:

  • Sábado, 30 de abril, às 16h
    Local: Saraiva do Shopping Pátio Paulista — Rua Treze de Maio, 1947 — São Paulo, SP
  • Domingo, 1º de maio, às 15h
    Local: Saraiva do Shopping Anália Franco — Av. Reg. Feijó, 1739 — São Paulo, SP

Flipoços
Começa no sábado, dia 30 de abril, mais uma edição da Flipoços, em Poços de Caldas. Esta edição tem como patrono o autor José Murilo de Carvalho. Confira nossos autores que estão na programação: