O restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos

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Passadas mais de cinco décadas de inimizade e tensão entre Estados Unidos e Cuba, as duas nações retomam oficialmente hoje, 20 de julho, as suas relações diplomáticas. Foi reaberta pela manhã em Washington a embaixada cubana no mesmo casarão de 1916 que ocupara antes do rompimento ocorrido em janeiro de 1961. A cerimônia de abertura teve a presença do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, que também tem um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, para um pronunciamento à imprensa. O marco histórico consolida o intenso processo de negociações entre os dois países, iniciado em dezembro do ano passado.

Em entrevista ao Blog da Companhia das Letras, o jornalista e escritor Jon Lee Anderson comemora o que considera uma “grande vitória do governo Obama”, avalia o impacto da retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e Estados Unidos para a América Latina, incluindo o Brasil, e defende que o retorno à normalidade na vida de milhões de cubanos só estará completo com o fim do bloqueio econômico à ilha.

Jon Lee Anderson é autor Che, uma biografia, publicado originalmente em 1997 pela Objetiva, e eleita, na ocasião, o livro do ano pelo New York Times. A obra ganhou uma reedição revisada em 2012, que inclui uma nova introdução, mapas revistos e uma cronologia atualizada do ícone latino americano. No epílogo, Lee Anderson reflete sobre a América Latina nos dias de hoje e avalia a imagem de Che quase quarenta anos depois de sua morte. Em 2016, o jornalista entregará seu próximo ambicioso projeto, a biografia de Fidel Castro, que, no Brasil, será também lançada pela Objetiva.

Leia a entrevista.

O presidente Obama tem recebido críticas nos Estados Unidos e no exterior em relação à sua política internacional para a Rússia e o Oriente Médio. Como você avalia o impacto do restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba dentro desse contexto?

Acredito que o restabelecimento da relação entre Cuba e os Estados Unidos é, de imediato, benéfico para os dois países. Os benefícios econômicos para Cuba são óbvios e representam também uma melhora no ânimo da população em geral. Ocorrerá o mesmo, é claro, quando o embargo for totalmente derrubado. A reaproximação deu também um novo impulso ao governo cubano, por ter sobrevivido à política de isolamento imposta pelos Estado Unidos. Em termos internacionais, o restabelecimento é simbolicamente muito positivo para a imagem dos Estados Unidos — que há décadas é visto, na maior parte do mundo, como o valentão que usa sua política internacional para fazer bullying com a “pequena” Cuba.

Em relação à visão que se tem sobre o governo Obama, se ele é encarado como fraco ou obstinado, não se pode abordar a abertura entre Estados Unidos e Cuba sob o mesmo prisma com que se avalia a relação com o Oriente Médio ou com a Rússia. Cuba já não oferece mais perigo em potencial aos Estados Unidos, o que não é possível argumentar em relação ao Iraque, ao Irã, à Síria ou à Ucrânia. A reaproximação foi uma grande virada do governo Obama. A Casa Branca não só surpreendeu os adversários republicanos dentro do país, como também os estrangeiros. Países como a Venezuela e a Rússia vieram correndo desesperados para Havana para assegurar que seus interesses e seu relacionamento com Cuba ainda estão em boas condições. Para o governo Obama, trata-se de uma grande vitória.

A retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e os Estados Unidos, anunciada em dezembro de 2014, vem recebendo grande atenção da imprensa latino-americana. Qual será o impacto na América Latina? Você acredita, por exemplo, que a influência do atual governo da Venezuela no continente perderá força? O Brasil mantém uma relação próxima com Cuba e realizou grandes investimentos nesse país. O Brasil perderá sua influência na ilha?

Para o resto da América Latina, a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é, de modo geral, algo positivo. O retorno de Cuba à família das nações das Américas com a aprovação dos Estados Unidos, levando em consideração o sectarismo e a politicagem barata que persistiram em decorrência do quadro anterior, é uma ótima notícia. De fato, isso representa um desafio para os países que tentaram se beneficiar econômica e diplomaticamente do status quo anterior.

Cuba não será mais o alvo fácil de governos latino-americanos que procuram difamar levemente Washington sem arcar com nenhuma consequência. E, no que diz respeito ao tratamento preferencial concedido por Havana para comércio ou projetos de investimento, haverá um novo espírito de competição que só pode favorecer o país, ao dispor de mais opções de escolha. É provável que os Estados Unidos também se beneficiem dessa situação, como se fossem um novo pretendente belo e rico ocupando a mesma varanda em Cuba que os antigos noivos, como Brasil, Argentina, Venezuela e México. À luz das revelações em andamento sobre corrupção, se você for escolher hoje um parceiro estrangeiro para um projeto prioritário de infraestrutura, ainda escolheria a Odebrecht? Países da América Latina, como o Brasil, terão que melhorar consideravelmente para permanecer no jogo. Mas, conhecendo os cubanos, especialistas em hospitalidade, duvido que alguma das partes saia perdendo completamente.

A reabertura das embaixadas de Cuba nos Estados Unidos e vice-versa está programada para 20 de julho. Quais serão as mudanças na vida de milhões de cubanos a curto prazo? E a longo prazo?

A curto prazo, cubanos e americanos estarão, de repente, em pé de igualdade tanto do ponto de vista político quanto do diplomático, e não serão mais “inimigos”. Americanos e cubanos poderão circular com bastante facilidade, como vizinhos “normais”. Isso representa uma mudança incrível para os cidadãos de ambos os países, especialmente para os cubanos, que já viveram tão isolados, a ponto de, para chegar a qualquer lugar na região, vamos dizer o Brasil, terem que voar primeiro para Praga.

Enquanto o embargo ainda estiver em vigor (isso terá que ser votado no Congresso dos Estados Unidos), a transformação será incompleta, mas as etapas desse processo que dependiam do governo Obama já foram realizadas, e a atividade econômica em Cuba já aumentou consideravelmente diante do iminente término do embargo. A ilha, já em tendência de alta econômica, tem experimentado um impacto psicológico impressionante na expectativa dos cubanos sobre o futuro. Os cubanos saíram de uma situação em que não tinham expectativa alguma de futuro próspero para agora contarem com um, e isso já vale muito.

A longo prazo, ainda haverá muitos desafios, mas de forma geral, acredito que os efeitos que acabo de descrever como de curto prazo passarão por uma evolução, um amadurecimento e um aprofundamento e se tornarão efeitos de longo prazo decorrentes dessas mudanças momentâneas. Acredito que uma das principais questões para os cubanos será manter a abertura e ainda assim permanecer fortes e unidos para preservar um senso nacional de equilíbrio e soberania cultural, enfrentando face a face o monstro destruidor americano.

É pública a informação de que planeja lançar em 2016 a sua biografia sobre Fidel Castro, que, no Brasil, será editada pela Objetiva. Fidel desempenhou algum papel relevante durante esse processo histórico? Qual?

Fidel desempenhou o papel do antigo chefe de Estado cético diante da última reviravolta do drama na história cubana ao expressar sua lealdade ao irmão e aos guardiões recém-indicados da revolução que ele ajudou a guiar por tanto tempo, mas também exprimiu seu receio em relação aos americanos. Nesse sentido, Fidel é o maior representante da voz da velha guarda conservadora de Cuba, que teme perder o controle da situação como resultado do retorno dos americanos à ilha. A presença persistente de Fidel e seu enorme simbolismo, ainda que com menos autoridade, permitem a Raúl justificar certa precaução em proceder tão rapidamente, e também, é bem possível, em pisar no freio de quando em quando.

 

Marque na agenda

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Lançamento de Quem, eu?
Segunda-feira, 20 de julho, às 19h
Fernando Aguzzoli lança em Porto Alegre o livro Quem, eu?, uma história emocionante sobre o cotidiano de cuidados com sua avó com Alzheimer.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country — Av. Túlio de Rose, 80 — Porto Alegre, RS

Palestra com Lilia Moritz Schwarcz
Terça-feira, 21 de julho, às 19h30
Lilia Moritz Schwarcz, co-autora de Brasil: Uma biografia, fará uma palestra rica em imagens sobre a história do Brasil e curiosidades sobre a pesquisa que deu origem ao livro. Após a palestra, haverá sessão de autógrafos.
Local: Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis — Av. Higienópolis, 618 — São Paulo, SP

José Trajano autografa Tijucamérica
Em seu novo livro, José Trajano dá uma força sobrenatural para o América, tradicional time do Rio que há anos estava fora da elite do futebol carioca. O jornalista autografa Tijucamérica em São Paulo e no Rio de Janeiro. Confira as datas:

  • São Paulo
    Quinta-feira, 23 de julho, às 19h
    Local: Livraria da Vila — Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena — São Paulo, SP
  • Rio de Janeiro
    Terça-feira, 28 de julho, às 19h
    Local: Livraria da Travessa Ipanema — Rua Visconde de Pirajá, 572 — Rio de Janeiro, RJ

Só por hoje e para sempre — Um tributo a Renato Russo
Sábado, 25 de julho, às 14h
Para marcar o lançamento de Só por hoje e para sempre, o Museu da Imagem e Som vai realizar um tributo a Renato Russo. O evento terá exibição do filme Faroeste Caboclo, do documentário Rock Brasília — Era de Ouro, bate-papo, pocket show com Gui Lopes e Eduardo Paraná e leitura de trechos do diário, além de várias outras atrações.
Local: Museu da Imagem e Som (MIS) — Avenida Europa, 158 — São Paulo, SP

Correr na Feira Rio Run Market
Sábado, 25 de julho, às 10h30
Drauzio Varella conversa com os participantes da Feira Rio Run Market sobre seu novo livro, Correr. O evento terá também sessão de autógrafos com o autor.
Local: Centro de Convenções Sul América — Avenida Paulo Frontin, 1, Cidade Nova — Rio de Janeiro, RJ

Drauzio entrevista Lilia Moritz Schwarcz
Segunda-feira, 27 de julho, às 19h30
Drauzio Varella conversa com Lilia Moritz Schwarcz sobre sua carreira, novos projetos e sobre Brasil: Uma biografia, escrito em co-autoria com Heloisa M. Starling. Após o bate-papo, acontece a sessão de autógrafos.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Um ano sem Ubaldo

Por Rodrigo Lacerda

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Foto: Bruno Veiga

João Ubaldo Ribeiro foi um escritor de inúmeras qualidades. Em primeiro lugar, era ótima pessoa. Erudito e divertido, preciosa combinação. Não tinha falsa modéstia e sabia muito bem o tamanho de seu talento, mas era extremamente humilde perante a arte e o ofício de escritor. Era também um espírito aberto e extremamente respeitoso da opinião alheia. Por isso, creio, evitava falar de arte. Ele sabia que, em noventa e nove por cento dos casos, quando duas pessoas conversam sobre o tema, em meio à troca de pedantismos, uma está na verdade tentando impor suas preferências à outra.

Sargento Getúlio, Vila Real, Livro de Histórias e Viva o povo brasileiro são obras-primas da primeira fase. Diário do farol e O albatroz azul, os livros de que mais gosto da fase final. Mas em todos eles vemos com que habilidade trabalha a língua portuguesa, tornando-a eficiente na construção dos personagens e sonora no ouvido e na cabeça do leitor. O alcance do seu universo vocabular é raríssimo entre os escritores contemporâneos. Em seus livros, o passado e o presente da nossa língua se encontram.

* * * * *

Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. É autor de O mistério do leão rampante (novela, 1995, prêmio Jabuti e prêmio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Vista do Rio (romance, 2004), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da Biblioteca Nacional, prêmio Jabuti, prêmio da FNLIJ), Outra vida (Melhor Romance no prêmio Academia Brasileira de Letras), e A república das abelhas, lançado pela Companhia das Letras em 2013.

Semana duzentos e cinquenta e oito

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Ai! Que Preguiça! — O Brasil em 39 poemas fabulosos & alegóricos, de Rodolfo W. Guttilla
Os mais variados aspectos e capítulos da vida brasileira são capturados com leveza pela poesia de Rodolfo Guttilla. Seu livro é uma jornada lírica e graciosa por nossa história. Leitores de todas as idades irão se cativar por essa mistura muito bem-feita de poesia e comentário social. Tomando de empréstimo como título a famosa frase de Macunaíma, de Mário de Andrade, o livro de Guttilla tem como principais inspirações a obra do autor modernista e os poemas de José Paulo Paes (1926-1998), que tratava de assuntos brasileiros com uma graça que influencia os autores mais jovens até hoje.

Seis meses em 1945 — Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman — Da Segunda Guerra à Guerra Fria, de Michael Dobbs (Tradução de Jairo Arco e Flexa)
Poucos pontos de inflexão na história apresentam tantos aspectos dramáticos como os meses entre fevereiro e agosto de 1945, o período entre a Conferência de Yalta e o bombardeio de Hiroshima. Os Estados Unidos e a União Soviética se tornaram as duas nações mais poderosas do mundo; a Alemanha nazista e o Japão imperial foram derrotados; o Império britânico estava à beira de um colapso econômico. Um presidente morreu; um ditador doentio que quase conquistou o mundo suicidou-se; um primeiro-ministro que havia inspirado seu povo durante os dias mais sombrios de sua história foi derrotado em eleições livres. Golpes de Estado e revoluções tornaram-se corriqueiros; milhões de pessoas foram enterradas em valas comuns; antigas cidades reduziram-se a pilhas de escombros. Um tsar vermelho redesenhou o mapa da Europa, erguendo uma “cortina de ferro” metafórica entre Oriente e Ocidente. Essa é a história das pessoas — presidentes e comissários, generais e soldados rasos, vencedores e derrotados — que deram origem à corrida de gigantes que redefiniria os rumos do mundo.

O diário de Guantánamo, de Mohamedou Ould Slahi (Tradução de Donaldson M. Garschagen e Paulo Geiger)
Desde 2002, Mohamedou Slahi está preso no campo de detenção da Baía de Guantánamo, em Cuba. No entanto, os Estados Unidos nunca o acusaram formalmente de um crime. Um juiz federal ordenou sua libertação em março de 2010, mas o governo americano resistiu à decisão e não há perspectiva de libertá-lo. Três anos depois de sua prisão, Slahi deu início a um diário em que conta sua vida antes de desaparecer sob a custódia americana, o processo interminável de interrogatório e seu cotidiano como prisioneiro em Guantánamo.

Um holograma para o rei, de Dave Eggers (Tradução de Jorio Dauster)
Em uma próspera cidade da Arábia Saudita, longe da complicada realidade da recessão que assola os Estados Unidos, um empresário em apuros financeiros realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida. Em Um holograma para o rei, Dave Eggers nos conduz por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise que devasta todos como uma tempestade.

Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço, Renato Russo
Perfeccionista e exigente em todas as etapas de seu processo criativo, da composição à execução diante do público, o homem que estava à frente da Legião Urbana — uma das bandas de maior sucesso na história da música brasileira — encarou com a mesma obstinação o Programa dos Doze Passos oferecido pela clínica, seguindo à risca os exercícios terapêuticos de escrita propostos. É esse material inédito que vem à tona depois de mais de vinte anos em Só por hoje e para sempre, atendendo ao desejo do autor de ter sua obra publicada postumamente. Entremeando as memórias de Renato com passagens de autoanálise e um olhar esperançoso para o futuro, esse relato oferece a seus fãs, além de valioso documento histórico, um contato íntimo com o artista e um exemplo decisivo de superação.

Paralela

Casa em cores, de Durell H. Godfrey 
Para todos os fãs de livros de colorir, chega uma novidade para todas as idades. As ilustrações de Durell Godfrey do montante de coisas das nossas vidas ocupadas — mesas cobertas, salas caóticas e pilhas de papéis — estão preparadas para ganharem vida com o ato de colorir. Arrumar pode ser terapêutico, mas colorir é muito mais. Um sossego que funciona tanto para arrumadinhos quanto bagunceiros. É só adicionar cores!

Fontanar

Um Deus muito humano — Um novo olhar sobre Jesus, de Frei Betto
Frei Betto, um dos principais líderes religiosos brasileiros, faz neste livro uma reflexão atualizada, mostrando que, em Cristo, Deus se assemelha a nós, humanos, em tudo, exceto no egoísmo. Jesus continua a ser um importante paradigma, sobretudo por ter centrado sua mensagem no amor e assegurado, com sua ressurreição, que a vida tem mais força que a morte.

Companhia das Letrinhas

Os grudolhos perseverantes de Frip, de George Saunders (Tradução de Fabricio Waltrick)
Grudolhos são como carrapichos, só que maiores. Eles são laranja, têm muitos olhos e gostam de viver em bando, de preferência bem grudadinhos nos pelos das cabras. No povoado de Frip, fazem a festa. Vivem infestando as cabras de Valência, que passa o dia escovando-as. As outras famílias do vilarejo não sofrem desse mal e se recusam a ajudar Valência. Querem mesmo é que as criaturas infernais fiquem longe de seus rebanhos. Mas, num belo dia, Valência tem uma grande ideia. Ela se livra dos grudolhos, que correm todos até as cabras mais próximas…

Viúva Negra — um conto noir

Por Raphael Montes

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Era uma loura exuberante: alta, peituda, cheirosa. Quando me abriu a porta, sorriu.

— Quem é você?

Mostrei o documento.

— Inspetor Dante — ela leu. — Nome legal.

— A senhora se chama Ingrid?

— Não me chama de senhora porque não sou velha. Sou a Ingrid, sim. Entra.

Ela se afastou, virou as costas. Os cabelos desciam até a cintura; a bunda perfeitamente redonda espremida no vestido branco dois números menores. Tive que me esforçar para desviar os olhos. Ingrid morava num apartamento bem ajeitado. Sala de visita, sala de jantar com mesa para oito cadeiras, piso de mármore. Foi para lá que ela me levou. Puxou uma cadeira e me indicou a outra.

— Cometi algum crime?

— Só quero fazer perguntas.

— Pensei que a polícia intimasse as pessoas.

— É o que acontece. Mas eu tava indo pro metrô e resolvi dar uma passada.

— Deu sorte — ela disse, com uma piscadela. — Acabei de chegar do trabalho.

— Trabalha em quê?

— Técnica de enfermagem num laboratório aqui perto, na Siqueira Campos. Colho amostras, catalogo resultados, coloco em envelopes, entrego más notícias.

Ela descalçou os sapatos de salto baixo. Pés delicados, brancos feito leite. As unhas estavam pintadas de vermelho. Concentrei-me.

— Estou investigando a morte do senhor Agenor Trindade. Você conhece?

— Meu marido. Já faz quatro meses que ele morreu.

— De quê?

— Cirrose.

— A filha dele foi na delegacia essa semana. Ela acredita que o pai foi envenenado.

— Envenenado? — Ingrid divertiu-se. — Quem iria envenenar o Agenor?

— Boa pergunta.

— Se importa que eu fume?

Ela se levantou sem esperar resposta. Pegou a bolsa que estava no sofá e cavoucou até encontrar o maço de cigarros. Abriu a janela e acendeu o Vogue.

— Desculpa, o que você quer mesmo saber?

— Seu marido tinha sessenta e seis anos, não?

Soprou a fumaça na minha direção. A sala cheirava a menta.

— Ou sessenta e sete, não sei, perdi a conta.

— Quantos anos você tem, Ingrid?

— Não se pergunta isso a uma mulher.

— Quantos anos?

— Fiz vinte e nove semana passada. Por quê?

— Você já foi casada outras vezes?

— Sim. Três.

— E onde estão seus ex-maridos?

— Morreram todos. Não tenho muita sorte.

Ela se sentou de novo e cruzou as pernas, deixando que eu visse o que quisesse.

— O que isso tem a ver com a morte do Agenor? — Ingrid me perguntou. Bateu a ponta do cigarro no cinzeiro. As unhas da mão também estavam pintadas de vermelho vivo.

— Seus outros maridos morreram de quê?

— Cirrose também. É o mal do homem moderno.

Ela ergueu as sobrancelhas bem delineadas. Fixava os olhos de leoa em mim. Eram negros, profundos, mascarados pela cortina de fumaça.

— Não é muita coincidência? — perguntei.

— A vida é cheia de coincidências. Veja, por exemplo, que eu ia mostrar o apê que herdei do Agenor pra uma moça interessada em alugar, mas ela me ligou dizendo que estava com cólica. Não fosse pela cólica dela, você não teria me encontrado em casa.

— A Raquel, filha do Agenor, disse que o pai não sabia que você tinha sido casada.

— Acha que ele se casaria comigo se soubesse que meus três maridos anteriores tinham morrido?

— Você mentiu pra ele então?

— Omiti.

— O testamento do Agenor deixava metade dos bens pra você.

— A putinha da Raquel não deve ter gostado nem um pouco disso. A gente se casou no civil sem que ela soubesse. Ela não tava nem aí pro pai. No período em que fomos casados, ela só apareceu uma vez na casa dele. E foi pra pedir dinheiro emprestado.

— A Raquel investigou e descobriu seus casamentos anteriores. Todos seus maridos tinham mais de sessenta anos.

— Gosto de homens maduros.

— Todos te deixaram seus bens.

— Claro, eu cuidei deles. Dei atenção, carinho, respeito. E sexo. Amei muito cada um dos meus maridos.

— Todos viveram menos de um ano com você.

— Não tenho sorte, já disse.

Ela amassou a guimba no cinzeiro, as mãos tremiam levemente. Disse que não demorava e saiu na direção onde, eu supunha, ficavam os quartos. As ancas de Ingrid me hipnotizavam. Coxas firmes, musculosas. Segui-a com os olhos, devorando cada centímetro.

Quando a porta fechou, consultei meu bloco de notas: Ingrid Pereira - 1) Casada com Rhenan Botamedi Captivo (63 anos) de março a outubro de 2007; 2) Casada com Bruno Soares do Livramento (69 anos) de setembro a dezembro de 2009, 3) Casada com Bernardo Relvas Lucas (68 anos) de julho de 2010 a janeiro de 2011; 4) Casada com Agenor Trindade Faleiros (66 anos) de janeiro a junho de 2013. 

Abri uma chave nos itens numerados e escrevi em letras grandes: cirrose. Era quase engraçado.

Minutos depois, Ingrid voltou numa roupinha ainda mais justa, rendada e de alças que deixava entrever o umbigo.

— Aquele vestido estava me matando — ela disse.

Caminhou descalça até a cozinha e pegou gelo.

— Aceita uísque?

— Não, obrigado.

Ingrid voltou com dois copos de vidro e os pousou na mesa.

— Meus maridos bebiam muito. Não gosto de beber sozinha.

Deixei que ela esvaziasse a fôrma de gelo nos copos e servisse as doses de Red Label. Brindamos.

— Você acha que eu matei meus maridos, não é? — ela perguntou, provando do uísque. Uma gota escapou e desceu-lhe pelo queixo. — Está enganado. Você não vai achar nada.

— Estou fazendo meu trabalho.

— Bebe o uísque.

— Desculpe, temos que checar tudo.

— Vai perder tempo.

— Por que não me ajuda então?

— Ajudar como?

Ela se inclinou para mais perto. Colocou um cubo de gelo na boca e começou a sorvê-lo entre os lábios molhados, esperando que eu dissesse alguma coisa.

— Onde você conheceu o Agenor?

— No laboratório. Ele morava a duas quadras, na Av. Atlântica. Foi fazer uns exames.

— Qual o resultado dos exames?

Ela hesitou por um instante.

— Não deu em nada — disse. — O Agenor tinha uma saúde de leão.

— E seis meses depois ele morreu.

— Vai entender.

Ela acabou com o uísque do copo e serviu-se de mais.

— Todos os outros tinham saúde perfeita?

— Perfeita não, claro. Tinham mais de sessenta anos.

Concordei com a cabeça, pensando que devia ir embora. Minha cabeça estava mais no decote de Ingrid que na investigação.

— Você é casado, inspetor?

— Sou — menti.

— Por que não está usando aliança?

— Não uso no trabalho.

Bebi todo o uísque e me levantei. Estendi meu cartão e, quando ela se levantou para pegá-lo, pude sentir o perfume do xampú em seus cabelos.

— Quando quiser contar a verdade, me procura — eu disse. — Enquanto isso, conversarei com os parentes de seus ex-maridos, com os médicos e, claro, com o laboratório onde você trabalha.

Ela fechou a cara:

— Isso é muito injusto.

— O quê?

— Investigar minha vida. A putinha da Raquel só quer saber da herança do velho.

— Ela acha que você matou o pai dela.

Ela soltou um suspiro:

— Se eu te contar, promete que me deixa em paz?

Não prometi. Encarei Ingrid, pensando no quanto ela era linda e fatal.

— Não matei ninguém — ela disse. — Trabalho no laboratório e vejo gente doente entrando e saindo todos os dias. O padeiro, o empresário, a madame. Sei como está a saúde de todo mundo. E… Meus maridos estavam à beira da morte.

— À beira da morte?

— Se você contar isso a alguém, eu vou negar. O que vou dizer é o mesmo que diria qualquer médico: não havia nada a ser feito. Talvez uma cirurgia ou algum remédio para mendigar meses de vida, mas não havia cura. Pra nenhum deles.

— Você falseou o resultado dos exames.

— Isso mesmo — ela disse. — O Agenor, por exemplo, iria direto pro hospital, ficaria esperando a morte chegar. A putinha da Raquel esperaria o pai definhar no hospital até abocanhar a herança.

Ela ergueu os braços para trás, massageando os cabelos louros e deixando que eu me inebriasse na visão das axilas lisas.

— Em vez disso, eu entreguei um resultado diferente ao Agenor — continuou. — De tão alegre, ele me convidou pra jantar. Saímos, trepamos, casamos. Eu fazia tudo o que ele pedia. Líamos, víamos filmes. Aprendi a jogar bridge. Em troca, pedi que ele fizesse o testamento pra mim, e ele concordou. Não houve resistência. Abandonado pela filha e montado na grana, ele curtiu mais esses meses ao meu lado do que em toda sua vida.

Ela encheu os copos de uísque outra vez e riu.

— Agenor morreu feliz, casado comigo, bebendo todas, achando que ainda tinha muitos anos pela frente. Nenhum fator precipitante, nenhum veneno, apenas o curso normal da vida, que é a morte. Se tomar o depoimento dos vizinhos, todos vão dizer que eu era amorosa, cuidadosa e zelava pelo bem estar dele. Os amigos de bridge do Agenor chegavam a invejar nossa relação. Vai dizer que fiz errado? Você preferia receber um exame dizendo que vai morrer ou acreditar que está tudo bem e ser paparicado até seu corpo pifar?

— Foi assim com todos eles?

— Sim — ela disse, com orgulho incontido. — E não venha me dizer que houve omissão ou coisa parecida. Como eu disse, não tinha cura. Eles morreriam de qualquer jeito. Se você chafurdar essa história, tudo o que pode conseguir é que eu seja demitida. Não vai provar que eu troquei os exames. E também não foi essa troca que causou a morte deles. Não sou assassina, inspetor.

Olhei para os copos vazios à minha frente. Continuei sentado.

— Estou muito satisfeita por ter feito esses homens felizes no final de suas vidas — ela disse, com um sorriso. — Sei bem fazer um homem feliz.

Levantei-me, pronto para sair. Ela me segurou pelo ombro e sussurrou um “espera”. Virei-me para ela, encarando os olhos muito vivos, agora a centímetros de distância.

Ingrid baixou uma das alças e a blusa escorreu por seu corpo.

— Você já conhece praticamente a minha vida toda. Que tal conhecer meu quarto?

Conto publicado originalmente na revista Playboy em agosto de 2014. 

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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