Crianças x Adultos

Por José Roberto Torero 

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Uma pergunta que as crianças sempre me fazem quando visito escolas é esta:

“Você gosta mais de escrever para adultos ou para crianças?”

Minha resposta automática é “Dá empate”. E penso que estou dizendo a verdade. Mas talvez esteja enganado.

Há um senso comum de que na chamada literatura para adultos podemos contar histórias mais duras e cruéis, usar um vocabulário mais vasto e tentar inovações formais. Enquanto isso, na literatura infantil, a graça seria deixar a imaginação mais solta e escrever num estilo mais livre.

Mas não é verdade. Nos livros para crianças também podemos contar histórias terríveis (é só ver os contos de fadas, em que meninas são devoradas por lobos, garotas são obrigadas a hibernar por um século e meninos são colocados em gaiolas para engordarem e serem comidos), usar palavras doidas e, principalmente, fazer inovações formais.

Por exemplo, em literatura infantil já consegui fazer uma história com onze finais, várias versões de uma mesma fábula (sei que o Novo Testamento já tem isso, mas ainda acho algo novo) e um livro cortado em tiras, em que narrativas e personagens podem ser misturados.

Além disso, o livro infantil, como objeto, permite — e talvez até exija — mais liberdade e criatividade.

Explico:

Os livros para adultos têm uma diagramação incrivelmente monótona. É sempre uma única coluna e raramente traz uma reles capitular diferente. Mas não pense que sempre foi assim. Se você der uma olhada nos manuscritos da Idade Média ou em alguns incunábulos, vai ver que a diagramação e a ilustração já estão lá. Exuberantes, criativas, valorizando e interagindo com o texto.

Enquanto o livro adulto tem uma história contada de forma totalmente verbal, o infantil pede algo mais. Ele é mais coisa, é mais objeto, exige mais integração entre suporte e texto.

O escritor de livro adulto geralmente pensa seu texto como algo imaterial, como uma história que se passa apenas no cérebro do leitor, e não também na página do livro. No livro infantil é diferente. Temos que pensar no tamanho da página, se uma ilustração pode entrar ali e substituir o texto, no tipo de letra, na diagramação, etc… E isso faz muita diferença.

Na literatura infantil, talvez mais áreas do cérebro tenham que estar ligadas. Não basta ligar o verbômetro. Há que pensar no texto espacialmente.

Enfim, quando escrevo para adultos, me concentro no texto. E isso é bom.

Mas, quando escrevo para crianças, já penso no livro como um todo. E isso talvez seja mais divertido.

* * * * *

José Roberto Torero é escritor, roteirista e jornalista. Em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, é autor da coleção Fábrica de Fábulas, com seis títulos já publicados pela Objetiva. É autor dos romances O Chalaça, O evangelho de Barrabás e Nove contra o 9 e do livro de contos Papis et circenses, vencedor do Prêmio Paraná de 2012. E também corroteirista do curta-metragem Uma história de futebol, indicado ao Oscar em 2001. Seu último livro lançado foi Entre raios e caranguejos, em coautoria com Marcus Aurelius Pimenta.

Minha videolocadora

Por Carol Bensimon 

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Minha família tinha (tem?) uma videolocadora. Ela nasceu só uns aninhos depois de mim e carregava o apelido da minha tia, Vivi Vídeo. Minha vó, que pintava um pouco por hobby, havia desenhado o logotipo. Passei muitas tardes naquele lugar, que às vezes parecia a loja de roupas que tinha sido antes de virar a Vivi Vídeo, com um friso dourado estranho e um revestimento meio impermeável cobrindo a lateral do balcão (eu gostava de passar as unhas nessa superfície). Lembro da pecinha dos fundos onde os funcionários comiam o lanche, da porta vai-e-vem que separava o público dos bastidores (fitas armazenadas, impressoras matriciais, borrachinhas, um milhão de canetas Bic) e de como os clientes gostavam de conversar com a minha tia precisamente nesse cantinho. A Vivi Vídeo foi uma verdadeira instituição em Porto Alegre durante os anos oitenta e parte dos noventa. O catálogo era gigantesco e o amor (pelo cinema) se aliava a uma capacidade respeitável em indicar, comentar, lembrar-se de detalhes, desvendar as preferências de cada cliente por parte de toda a equipe. Acho que filmes como O balconista e Alta fidelidade (adaptado do clássico de Nick Hornby) falam um pouco dessa gente maravilhosa que viveu atrás do balcão.

Minha tia morreu ano passado, mas, muito antes disso, o mundo já tinha decidido que as videolocadoras deviam sair de cena. A primeira crise aconteceu com a chegada da TV por assinatura. A segunda crise veio com a possibilidade de baixar de graça quase qualquer filme que vier à sua cabeça. Ainda assim, a loja enorme continuou lá, quase invisível, em frente ao Parcão. Talvez o mais intrigante para mim é que a Vivi Vídeo não exatamente venceu os rumos da tecnologia, encontrando uma maneira digna de sobreviver em um mundo em transformação, mas que essa sobrevivência tenha acontecido por pura insistência insana misturada a um pouco de desorganização e uma certa dificuldade em deixar as coisas irem embora.

Talvez eu não tenha entendido isso muito bem enquanto minha tia ainda era viva. Nos últimos anos, eu carregava um certo constrangimento em perceber ou imaginar a decadência da loja, como se essa fosse a maior e a mais concreta prova de um fracasso familiar generalizado. Pra piorar, eu me sentia completamente impotente. Só queria que a loja fechasse. Aquilo era um elefante branco na minha vida. Enquanto isso, minha tia havia começado a trabalhar em outra área e era muito competente no que fazia, mas, à despeito da menor dedicação com a videolocadora, a Vivi Vídeo continuava viva, e minha tia continuava assistindo de maneira quase compulsiva filmes e séries naquele sofá rosa antigo da cobertura na Anita Garibaldi. Por mais irônico que pareça, ela baixava uma porção de lançamentos via torrent para então decidir o que deveria ser comprado para a loja.

Escrevo isso no momento em que todo o acervo da loja (cerca de 17.000 fitas VHS e 5.600 DVDs) está sendo vendido. Pedi pro meu pai me separar alguns filmes, que agora organizei em um dos nichos da minha biblioteca. Fico pensando no quanto fui privilegiada por ter conhecido ainda criança a obra do Jacques Tati, do Peter Greenaway, do Woody Allen. Também é engraçado como a simples menção a títulos de filmes célebres dos anos oitenta e noventa (alguns dos quais eu sequer assisti) me fazem voltar no tempo instantaneamente: Bagda Café, Um peixe chamado Wanda, Dormindo com o inimigo, Harry & Sally, Shirley Valentine, Dança com lobos, Mississippi em chamas, Tomates verdes fritos.

É um sábado ensolarado, a Vivi Vídeo vai fechar nas próximas semanas e eu estou indo a pé em direção a uma feira de vinis (ironia detectada). Desde agosto do ano passado, quando minha tia sucumbiu a um câncer, é a segunda vez que a família toma a decisão de desmanchar algo que fazia parte dela há décadas; a primeira foi no fim do ano passado, quando “nos livramos” de tudo que havia dentro do apartamento dos meus falecidos avós (roupas, quadros, cadeiras, tapetes, panelas, bottons, colares). Ainda que estivesse mais do que na hora de isso acontecer, tenho a sensação de que minha tia, com aquela aparência de pessoa prática e direta, tinha por outro lado uma imensa dificuldade em desfazer-se desse passado no qual a gente podia andar, sentir o cheiro e viver o filminho de nossas vidas um milhão de vezes.

Acho, enfim, que também vou chorar quando não tiver mais o meu elefante branco a um quilômetro de casa.

  * * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Marque na agenda

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Lançamento de Dois irmãos
Segunda-feira, 13 de abril, às 19h30
Fábio Moon e Gabriel Bá conversam com Milton Hatoum no lançamento da HQ Dois irmãos, com sessão de autógrafos. As senhas para o bate-papo serão distribuídas a partir das 18h30 em frente ao Teatro Eva Herz na Livraria Cultura. Saiba mais sobre o evento.
Local: Teatro Eva Herz e Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Debate com Eugênio Bucci
Terça-feira, 14 de abril, às 19h30
No evento de lançamento de O Estado de Narciso, Eugênio Bucci conversa com Margarida Kuncsh, Luiz Milanesi, Mayra Gomes e Ivan Marsiglia na USP. Após o bate-papo, haverá sessão de autógrafos do livro.
Local: Auditório Freitas Nobre, no CJE, na ECA-USP — Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária — São Paulo, SP

Fábio Moon e Gabriel Bá no Quartas ao Cubo
Quarta-feira, 15 de abril, às 20h
Os autores da HQ de Dois irmãos participam do projeto Quartas ao Cubo do Itaú Cultural, uma série de palestras sobre quadrinhos em que os autores pontuam suas falas com desenhos feitos na hora, diante da plateia.
Local: Itaú Cultural — Av. Paulista, 149 — São Paulo, SP

Gregorio Duvivier no Minha Língua, Minha Pátria
Quarta-feira, 15 de abril, às 19h30
O autor de Ligue os pontosPut some farofa participa do encontro “”Duelo/Dueto de poesia” no projeto Minha Língua, Minha Pátria, organizado pelo jornal Público. Saiba mais.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232, Jardim Paulistano — São Paulo, SP

Lira Neto participa do projeto Brasileiros na Livraria Cultura
Quarta-feira, dia 15 de abril, às 19h
Lira Neto fala sobre “Os limites da biografia” no primeiro encontro de 2015 do projeto Brasileiros na Livraria Cultura, da Revista Brasileiros. Saiba mais sobre o evento.
Local: Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Lançamento de Escuta
Quinta-feira, 16 de abril, às 19h
Eucanaã Ferraz autografa seu novo livro, Escutano Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa Ipanema — Rua Visconde de Pirajá, 572 — Rio de Janeiro, RJ

Semana duzentos e quarenta e cinco

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O cinema no século, de Paulo Emílio Sales Gomes
A curadoria da coleção Paulo Emílio Sales Gomes está a cargo de Carlos Augusto Calil, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, ex-aluno de Paulo Emílio e autor de diversos textos sobre o mestre. Deve-se a ele a organização dos volumes, a seleção dos textos críticos e a opção por dividi-los a partir de critérios temáticos. Sergei Eisenstein, Charles Chaplin, D. W. Griffith, Orson Welles, Federico Fellini e Jean Renoir são alguns dos nomes que formam o panteão do crítico e que servem de objeto de análise a ele neste volume de textos iluminados e esclarecedores. São trabalhos que atestam o empenho militante de Paulo Emílio pelo cinema no país.

Três mulheres de três PPPês, de Paulo Emílio Sales Gomes
Três mulheres de três PPPês é composto de três novelas — “Duas vezes com Helena”, “Ermengarda com H” e “Duas vezes Ela” — que têm em comum o narrador Polydoro, uma figura abastada da elite paulistana. Em “Duas vezes com Helena”, Polydoro, ainda jovem, é seduzido pela mulher de seu querido professor. Trinta anos mais tarde, o menino já maduro fica sabendo que Helena o seduzira a pedido do próprio marido. Em “Ermengarda com H”, Polydoro, passados os quarenta anos, está envolvido numa guerra conjugal e faz o que pode para tornar insuportável a vida de sua mulher, na esperança de conseguir o divórcio. Em “Duas vezes Ela”, já setentão, Polydoro registra num diário sua satisfação conjugal. Contra a vontade de parentes e sócios, ele casara com uma secretária chamada Ela, com idade para ser sua neta. Anos depois, começa a redação de um segundo diário, para entender as mudanças da mesma Ela, que agora quer o desquite.  A sátira à classe alta paulistana, a prosa inventiva e bem-humorada, os delírios e as obsessões amalucadas se juntam neste clássico da literatura brasileira.

Cenário com retratos – esboço e perfis, de Antonio Arnoni Prado
Esta reunião de ensaios de Antonio Arnoni Prado procura investigar, por meio da trajetória pessoal e criativa de autores como Lima Barreto, Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Erico Verissimo, como são percorridos, num país como o Brasil, os caminhos para a excelência e para a independência intelectual. Com maestria argumentativa e clareza estilística, o autor dá conta de questões como nacionalismo, vida intelectual, originalidade criativa e a saudável contaminação dos gêneros literários.

Funny Girl, de Nick Hornby (Tradução de Christian Schwartz)
Com seu ritmo fluente e trama engenhosa, em Funny Girl Nick Hornby fala de cultura popular, juventude e velhice, fama, diferenças de classe e trabalho em equipe. Ele constrói um retrato fascinante da exuberância da juventude e do processo criativo, em uma época especial em que ambos, de repente, puderam florescer. Um livro apaixonante para os fãs de Hornby e para todos os outros leitores.

Paralela

Ardente/Em chamas, de Sylvia Day (tradução de Juliana Romeiro)
Nunca misture trabalho com prazer. Nunca fale de política dentro do quarto. De certa forma, no momento em que me tornei amante de Jackson Rutledge, fiz exatamente essas duas coisas. E não posso dizer que foi por falta de aviso. Dois anos depois, ele voltou. Mas eu não era mais a garotinha que ele havia conhecido, enquanto ele não mudara nada. Ao contrário da última vez em que nos esbarramos, eu sabia exatamente com quem estava lidando… e quão viciante seu toque poderia ser. Só que desta vez eu conhecia as regras do jogo. No ambiente competitivo e impiedoso do mundo dos negócios, há uma regra que vale para todo mundo: mantenha seus inimigos por perto, e seus ex-amantes mais perto ainda…

 

Sombras

Por Paulo Scott

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Toda cultura tem seu lado sombrio. Toda identidade tem seu lado sombrio. O carioca, talvez o mais solar dos brasileiros, tem seu lado sombrio, e o brasileiro, talvez o mais carioca dentre os habitantes do planeta, tem seu lado sombrio. O humor tem seu lado sombrio. A generosidade tem seu lado sombrio. O caminho até a vitória tem seu lado sombrio. O esquecimento tem seu lado sombrio, a lembrança intocada também. A placa, erguida no meio de alguma manifestação coletiva, pedindo isolada a volta do regime militar tem seu lado sombrio, além do sombrio. As coletividades têm seu lado sombrio. Um slogan bem intencionado tem seu lado sombrio. Uma gafe tem seu lado sombrio. Os julgamentos têm seu lado sombrio. Uma propaganda no canto da tela do computador tem seu lado sombrio. O uso da religião tem seu lado sombrio. A interpretação da religião tem seu lado sombrio. A fé tem seu lado sombrio. A fé como elemento da retórica política tem seu lado sombrio. A regra tem seu lado sombrio. A empatia tem seu lado sombrio. A liberdade tem seu lado sombrio. O afeto tem seu lado sombrio. A igualdade tem seu lado sombrio. A proximidade tem seu lado sombrio. Um segundo de vida filtra a sombra para o segundo seguinte. Logo ao chegar, o segundo seguinte é certeza, mas também é disfarce. É preciso achar resistência. É preciso querer o sol. Mas as sombras, as nossas sombras, ficam, e não sabemos ao certo como pudemos atravessar os poucos anos recentes sem somá-las ao pó de nossa mudança, de nossa transpiração.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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