Foi assim, mais ou menos, ou nunca aconteceu?

Por Carol Bensimon


Não estou falando nada de novo se eu disser que alguns escritores tiram o grosso de sua literatura da vida real, outros nem tanto. Para os primeiros, os acontecimentos da vida viram as pedras fundamentais de uma futura obra: enredo, personagens, conflitos, quase tudo já está ali. Ok, Wittgenstein disse que não é mais realidade no momento em que você muda a cor da parede na descrição de uma cena (ou isso é alguém tentando me explicar Wittgenstein?) e, de qualquer forma, a própria transposição para a linguagem escrita seria o suficiente para ficcionalizar os fatos. Mas admitamos ao menos que existem vários graus de ficcionalização? Que Karl Ove Knausgård é uma coisa e Jeffrey Eugenides provavelmente outra? E não custa esclarecer: não estou fazendo aqui um julgamento de valor, mas apenas comparando métodos criativos distintos. Adoro Knausgård e adoro Eugenides.

O que fiquei me perguntando durante toda a semana foi: o que faz com que escolhamos um jeito de criar, e não outro? Ainda estou falando do quanto nos apropriamos das coisas vividas (se totalmente, se nada, ou em qualquer nível entre esses dois extremos). Talvez uns tenham talento nato para uma coisa, outros pra outra, o que corre o risco de ser também a mais ingênua das explicações. Outra hipótese é que a escolha seja orientada pelo prazer do ato criativo. Em outras palavras: para determinado escritor, o prazer pode estar em levar esses episódios vividos para dentro do livro, em um processo que muitas vezes é psiquicamente libertador; o mundo fechado da literatura dá sentido a algo que, na origem, era confuso. Para outros, a graça está justamente em tomar distância da própria vida, “viver”, pela via da criação, outras situações, épocas, e ainda com outro corpo, gênero, idade, temperamento etc. Acrescenta-se a isso o prazer da pesquisa: enquanto os do primeiro grupo tendem a cavoucar a própria memória, os do segundo têm prazer em descobrir fatos do mundo concreto — mas apartado deles — para então poderem fazer uso disso em um romance. Estou falando em estudar um episódio histórico, a filosofia hippie, ciclos lunares, o funcionamento de estruturas acadêmicas ou de uma cafeteira francesa, a moda dos anos oitenta etc. etc.

A última razão para um escritor optar por tal jeito de criar, e não outro, me parece a mais imensurável, e tem relação com o quanto você está disposto a comprometer da sua vida real em nome da arte. Em todo o caso, é muito difícil saber se você não escreve sobre sua família porque isso já toma espaço demais na vida real (só faltava ainda escrever sobre isso!), ou se aí entram os pudores de não querer expôr aqueles que você ama.

Mas será que essa precisa ser uma escolha entre arte e vida? Tem aquela pergunta recorrente (e meio babaca): se a casa está pegando fogo, você salva o gato ou a tela do Rembrandt?

Alguns episódios da minha vida dos últimos meses teriam rendido bons contos. Tentei escrever sobre eles, mas foi um desastre completo; digamos que o ato serviu pra dar vazão a um certo impulso de colocar coisas no papel, mas, depois de uma página e meia daquilo, eu estava de saco cheio. Não era uma questão das histórias não serem boas o suficiente, ao contrário, elas estavam cheias de conflitos, lugares e personagens interessantes, mas havia algo que me impedia de ir adiante. Ética pessoal? Ou apenas eu não via nenhuma graça em pegar histórias tão prontas? Provavelmente as duas coisas.

Avance alguns dias. Começo a ler uma porção de livros sobre o que provavelmente vai ser o pano de fundo do meu próximo romance. Não é algo que está diretamente relacionado à minha vida; vou estudar feito louca, depois vou ao encontro do lugar/tema, e finalmente teremos um romance sendo escrito (ao menos essa é a ideia). Isso me deixou bem mais entusiasmada do que a perspectiva de jogar minhas memórias no papel com aqueles contos (o problema é o confronto entre conto e romance, e minha predileção pelo segundo? Bem, isso fica para outro texto). Não é que minha vida seja um tédio, pelo contrário. Mas, pelo jeito, em caso de incêndio, coloco o gato debaixo do braço e a tela do Rembrandt debaixo do outro. É possível que todos acabem queimados. Mas, ei: eu só quero ter o direito de não escolher.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Marque na agenda

Bate-papo com Paulo Cesar de Araújo
Terça-feira, 14 de outubro, às 17h
Paulo Cesar de Araújo participa de bate-papo sobre O réu e o rei e autografa o livro em Niterói.
Local: Escola Técnica Estadual Henrique Lage – R. Guimarães Júnior, 182 – Niterói, RJ

Lira Neto autografa em Salvador
Terça-feira, 14 de outubro, às 17h
Evento de lançamento da última parte da biografia Getúlio, com sessão de autógrafos com Lira Neto.
Local: Livraria Cultura do Salvador Shopping – Av. Tancredo Neves, 3133 – Salvador, BA

Lançamento de A comida baiana de Jorge Amado
Terça-feira, 14 de outubro, às 18h30
Paloma Jorge Amado relança pelo selo Panelinha livro que reúne as receitas que permeiam a obra de Jorge Amado. Além da sessão de autógrafos, Paloma participa de bate-papo com a chef Rita Lobo.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi – Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 – São Paulo, SP

Lançamento de Diário da Dilma
Quarta-feira, 15 de outubro, às 18h30
Renato Terra autografa o diário fictício da presidente do Brasil em São Paulo.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

João Paulo Cuenca participa da Feira do Livro de Caxias do Sul
Quarta-feira, 15 de outubro, às 19h
Autor de O único final feliz para uma história de amor é um acidente participa do bate-papo “A morte de J.P. Cuenca”, com mediação de Ciro Fabres.
Local: Auditório – Praça Dante Alighieri – Caxias do Sul, RS

Debate com Carol Bensimon em Araraquara
Quinta-feira, 16 de outubro, às 20h
Carol Bensimon participa de debate com sessão de autógrafos de Todos nós adorávamos caubóis.
Local: FCL – UNESP: Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, Anfiteatro B – Rod. Araraquara-Jaú Km 1 – Araraquara, SP

Lançamento de Pagu
Quinta-feira, 16 de outubro, às 18h30
Augusto de Campos autografa Pagu em São Paulo.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Luiz Ruffato participa de simpósio
Quinta-feira, 16 de outubro
Autor de Flores artificiais participa do V Simpósio Internacional de Letras Neolatinas na UFRJ
Local: Faculdade de Letras da UFRJ – Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de Obra autobiográfica
Quinta-feira, 16 de outubro, às 17h30
Rosa Freire d’Aguiar, organizadora de Obra autobiográfica, de Celso Furtado, lança o livro na Academia Brasileira de Letras.
Local: Academia Brasileira de Letras – Av. Presidente Wilson, 203, Castelo – Rio de Janeiro, RJ

Café com Poesia com Fabrício Corsaletti
Sábado, 18 de outubro, às 10h30
Autor de Quadras paulistanas participa da edição de outubro do Café com Poesia.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

 

Semana duzentos e vinte e quatro

Pagu, de Augusto de Campos
Peota, prosadora, jornalista e agitadora cultural. Crítica de literatura, artes visuais e teatro. Tradutora de Kafka, Valéry, Pirandello e Ionesco quando esses autores eram quase desconhecidos no Brasil. Uma das embaixadoras da soja no país, cujas sementes lhes foram fornecidas pelo último imperador da China. Militante comunista ferida em protestos de rua em Paris e torturada na prisão do Rio de Janeiro. Quem foi, quem é Patrícia Rocher Galvão, a Pagu (1910-62), musa do modernismo brasileiro e uma de suas protagonistas? Neste livro polivalente, que Augusto de Campos define como “um livro vivo, uma biografia não biográfica, um biotexto ou biolivro”, os capítulos da vida-obra desta mulher fora de série são recombinados num autêntico caleidoscópio biobiliográfico. A nova edição desta antologia de textos de e sobre Pagu permite reavaliar sua atuação estética e política no contexto de uma trajetória pessoal singular, marcada pelo embate incessante entre paixão e morte, arte e política.

Inferno a bordo, de Georges Simenon (Trad. de André Telles)
Marujos não falam muito com outros homens, e menos ainda com policiais. Mas depois que o corpo do Capitão Fallut é encontrado próximo ao vapor em que trabalhava, o Océan, todos começam a falar em “mau-olhado” para tentar explicar os acontecimentos sinistros durante a última viagem da embarcação.

Editora Seguinte

Os mentirosos, de E. Lockhart (Trad. de Flávia Souto Maior)
Os Sinclair são uma família rica e renomada, que se recusa a admitir que está em decadência e se agarra a todo custo às tradições. Assim, todo ano o patriarca, suas três filhas e seus respectivos filhos passam as férias de verão em sua ilha particular. Cadence – neta primogênita e principal herdeira -, seus primos Johnny e Mirren e o amigo Gat são inseparáveis desde pequenos, e juntos formam um grupo chamado Mentirosos. Durante o verão de seus quinze anos, as férias idílicas de Cadence são interrompidas quando a garota sofre um estranho acidente. Ela passa os próximos dois anos em um período conturbado, com amnésia, depressão, fortes dores de cabeça e muitos analgésicos. Toda a família a trata com extremo cuidado e se recusa a dar mais detalhes sobre o ocorrido… até que Cadence finalmente volta à ilha para juntar as lembranças do que realmente aconteceu.

Editora Paralela

Livro do corpo, de Cameron Diaz (Trad. de Ana Beatriz Rodrigues)
Quando jovem, Cameron não pensava muito no impacto de sua alimentação e estilo de vida sobre sua saúde. No entanto, nos últimos quinze anos, descobriu a íntima associação entre comida, aparência física e bem-estar. Essa constatação – de que a nutrição influencia a vida – despertou nela a fome de informar-se sobre as melhores maneiras de se alimentar, movimentar e cuidar de si mesma. Em O livro do corpo, Cameron compartilha com o leitor o que aprendeu e nos oferece um guia abrangente para o bem-estar e a boa aparência feminina. Cameron não formulou um programa único para todos os tipos de mulher, tampouco estabeleceu objetivos a serem alcançados em sete dias, trinta ou um ano; diferentemente disso, ela apresenta aqui uma abordagem de longo prazo para uma vida duradoura, com força e saúde. Fundamentado em informações de especialistas e baseado em fatos científicos, mas narrado à luz da paixão e das experiências pessoais de Cameron, O livro do corpo é um manual educativo e inspirador para todas as mulheres. 

O preferido da infância


Ilustração: Eduardo Piochi

Para muitos, o hábito da leitura começa desde cedo, incentivado pelos pais ou na escola. Todo leitor lembra com carinho daquele livro preferido, a história que mais leu quando criança e que mostrou que os livros são um ótimo passatempo. Para comemorar o Dia das Crianças, pedimos a autores e colaboradores da Companhia das Letras que falassem sobre os seus livros e escritores favoritos na infância. Leia abaixo as histórias de leitura de Ana Maria Bahiana, Andrés Sandoval, Antonio Prata, DW Ribatski, Raphael Montes, Renata Bueno e Socorro Acioli.

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Ana Maria Bahiana: “Em alguma caixa da minha infinita coleção existe uma foto minha, laçarotão na cabeça, lendo em voz alta um livro enorme para uma cadelinha badminton terrier. Devo ter uns três ou quatro anos na foto – a idade da minha neta Lucille, hoje – e obviamente ainda não sei ler, mas a Digger – nome da cadelinha, que eu adorava – está prestando a maior atenção.

Essa sou eu.

Tive a felicidade de crescer numa casa repleta de livros, e muito, muito cedo descobri que palavras eram tão divertidas quanto brinquedos, e que aquilo que os adultos faziam, de abrir o livro e, acompanhando as marquinhas pretas nas páginas, tirar uma história do nada, era absolutamente mágico.

Então eu “lia” sem saber ler, e “escrevia” sem saber escrever. Para o primeiro, bastava abrir um livro com figurinhas e marquinhas pretas e dizer em voz alta o que me vinha à cabeça. Para o segundo, era só pedir que meu pai acionasse o gravador de rolo, para que eu pudesse fazer relatos do meu dia, dos meus sonhos, das coisas que eu inventava.

Devia parecer muito engraçado, talvez preocupante, para minha família, onde, até então, só haviam engenheiros, arquitetos e médicos. De onde essa menina tirou essa maluquice?

Preocupados ou não, meus pais e avós sempre me mantiveram bem abastecida de livros. A coleção O Mundo da Criança - que está até hoje na minha estante – foi essencial para mim. Eu lia Monteiro Lobato também (Reinações de Narizinho era o meu favorito) mas as aventuras multinacionais do Mundo me pareciam mais fascinantes – tubarões nos mares do sul! Desertos do México! A vida num vilarejo centro-africano!

E foi aí que descobri Julio Verne. Difícil descrever o nível de paixão que desenvolvi por ele. Primeiro me deram Viagem ao centro da Terra. Depois, Cinco semanas em Balão. Quando eu li os dois em tempo recorde, me deram 20 mil léguas submarinas, que eu lia escondido debaixo do lençol, depois que se apagavam as luzes da casa.

Aí me deram uma coleção completa das obras de Verne, uma longa fileira de livros de capas cor de laranja, com lombadas progressivamente mais e mais corroídas. Li todos. Depois, reli. E reli mais uma vez.

A adolescência veio, a Coleção das Moças era leitura mandatória, mas eu não queria saber. Achava chatíssimo. “Sempre a mesma história”, eu resmungava. Fingia que aceitava, punha na estante e voltava a Verne.

Com Verne eu descobri Mark Twain, Alexandre Dumas, Joseph Conrad, Charles Dickens, Jack London, Sir Walter Scott, Robert Louis Stevenson e, finalmente, Brás Cubas e Machado. Mas aí eu já estava perdida num mundo de marquinhas pretas, e Antologia da Poesia Brasileira era meu livro de cabeceira. O mundo do livro, eu sabia agora, era maior que o mundo. Era do tamanho da minha alma.”

 

Andrés Sandoval: “Há um livro da minha infância que não me esqueço. Se chama Depois que todo mundo dormiu, do Eduardo Piochi (Ática), publicado em 1980. Conta a história de duas crianças que descobrem que o quintal delas tinha se transformado num submarino. O asfalto fica líquido e o quintal cruza as ruas de São Paulo à noite. Há uma cena em que elas navegam pelo Minhocão vazio e uma das crianças não entende como os prédios não têm portas: por que daquelas janelas coladas à via? Então a outra explica: “Pois o pessoal do centro já se acostumou a viver como tatu”. Então a garagem submerge ali mesmo pra mostrar a vida “subterrânea”. Há várias boas cenas, como já dentro da terra, em que elas avistam um cemitério e também os túneis do metrô. É muito impressionante, e como é atual!”

 

Antonio Prata: “Eu gostava muito dos livros do Tintim. Eram vários personagens legais: Capitão Haddock, sempre bêbado e soltando uns desaforos engraçados – “Com mil raios e trovões!” -; Dupont e Dupont, dois gêmeos (acho que eram gêmeos) iguaizinhos que falavam e se vestiam um que nem o outro; o professor Girassol, um inventor meio gênio, meio louco… Outra coisa que eu adorava era que cada aventura acontecia num lugar diferente. Podia ser na lua, no fundo do mar, na selva, nas pirâmides do Egito. Pena que nunca fizeram um Tintim no Brasil. Ia ser demais ver todos aqueles personagens em Copacabana ou no estádio do Pacaembu.”

 

DW Ribatski: “Um livro que eu li na infância e foi marcante foi o Viagem ao centro da Terra, do Júlio Verne. Fui lembrar da situação em que li e acabei percebendo um paralelo com o próprio livro. Explico: meu pai trabalhava de manhã e eu estudava à tarde, ele me levava com ele pra esperar o horário da aula ao invés de ter que me buscar depois ou me deixar pegar ônibus sozinho. Não existia internet na época, mas felizmente tinha uma biblioteca no escritório pouco iluminado. O Verne é precursor (é?) desse estilo de literatura cientificista-fantástica, e te convence da verossimilhança até o limite (sic, pessoalmente, sou fiel devoto da anomalística). Sou tomado de nostalgia lembrando como o livro começa, o desenvolvimento calmo dos personagens antes de embarcarem na grande expedição pelo buraco e o desespero claustrofóbico irremediável como contraponto. É quase como se você e seu avô, ou tio fossem os protagonistas. É um tipo de obra que, na minha cabeça ao menos, tem paralelo com Kafka, Cortázar, Charles Burns e até Lars Von Trier.”

 

Raphael Montes: “Eu tinha doze anos e não gostava de ler (lá em casa, não havia muitos livros e os da escola me pareciam chatos, herméticos, escritos só para que a professora fizesse perguntas difíceis na prova de português).

Foi nessa época, durante um fim de semana em Pentagna-RJ, que conheci o tal Sherlock Holmes. Esse sujeito muito inteligente e perspicaz chegou a mim através de minha tia-avó, Iacy (não à toa, dediquei a ela meu primeiro romance, Suicidas). Foi um final de semana chuvoso, feio, e o exemplar de Um estudo em vermelho me pareceu boa companhia.

Virei a noite lendo, vidrado, enlouquecido com os mistérios, as deduções, o clima sombrio. Fechei o livro com a certeza de que queria viver aquela sensação muitas vezes. Queria ler muitos livros. E pensei: afinal, por que não escrever alguns também?”

 

Renata Bueno: “O humor da Eva Furnari com certeza é uma marca na minha infância. Cobra que vira corda, bule que bota ovo… Acho que a bruxinha me ensinou a brincar de transformar as coisas, brincadeira que faço até hoje com meu filho e em meus livros também!

O Chico Bolacha ilustrado pela Eleonora Affonso (isso eu descobri bem depois) numa dupla do livro Ou isso ou aquilo, da Cecília Meireles, também sempre vem na minha cabeça quando penso na infância… Acho que tentei desenhá-lo várias vezes, adorava os pés gigantes descalços com mosquinhas ao redor. Além de saber o texto de cor!”

 

Socorro Acioli: “Passei minha infância em Fortaleza, nos anos 70/80 e a oferta de livros infantis era mínima. Por sorte, um vendedor de  porta em porta gostava de passar na minha casa e mostrar as novidades além da Enciclopédia Barsa, que já tínhamos comprado. Foi por causa dele que descobri Monteiro Lobato e ganhei parte da coleção das Brasiliense de presente. Além do Flicts, do Ziraldo, o mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo foi o universo literário que preencheu a minha infância de fantasia. As lembranças que tenho são muito nítidas: as ilustrações, o peso do livro, a fonte do texto, a almofada estampada onde eu deitava para ler. Tenho Monteiro Lobato como parâmetro de autor que oferece à criança tudo o que ela precisa e espera de um texto infantil. Anos mais tarde, Lobato virou meu objeto de estudo no Mestrado em Literatura. O que mais me impressiona é que reler as obras do Sítio do Pica-pau Amarelo preserva, até hoje, o encantamento dos meus primeiros anos. Não cansa, não enjoa, não deixa de divertir e fascinar.”

 

Malala Yousafzai ganha o Prêmio Nobel da Paz

Por Flavio Moura


No início deste ano, a Companhia das Letras tentou convidar Malala para vir ao Brasil. A resposta veio polida, mas enfática: ela não tinha tempo, precisava estudar para o vestibular.

Dá pra imaginar quantas vezes ela terá de dizer o mesmo agora que se tornou a mais jovem da história a vencer o Prêmio Nobel da Paz.

Sua autobiografia, Eu sou Malala, saiu no ano passado. Fez um sucesso estrondoso — mais de cem mil exemplares no Brasil. No mundo todo, já está perto da casa dos dois milhões.

Não é pra menos. A história que ela conta ali foge a qualquer padrão. Há exatos dois anos — em 9 de outubro de 2012 — ela foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa. Estava dentro do ônibus, voltando da escola onde estudava.

Pouco tempo antes, em 2006, milícias extremistas do Talibã assumiram o controle do Vale do Swat, região do Paquistão onde ela morava. Entre as primeiras providências que tomaram estava a destruição de escolas que admitiam mulheres.

O pai de Malala era dono de uma dessas escolas. Criada desde pequena em meio a livros, a menina lançou um blog em que defendia seu direito à educação. Ficou marcada — e o tiro que recebeu veio por causa disso.

Às pressas, foi levada à Inglaterra para se tratar. Contra todos os prognósticos, ela se recuperou.  Não pode mais voltar a seu país, onde está jurada de morte, mas seu exemplo repercutiu pelo mundo. O prêmio Nobel é o exemplo maior disso.

Com apenas dezesseis anos, ela se tornou símbolo de muita coisa: da opressão sobre as mulheres em regimes obscurantistas; da luta pela educação em países carentes; da capacidade transformadora de uma experiência singular.

Enquanto o Estado Islâmico põe em curso um projeto expansionista assustador a partir da Síria, decapitando civis ocidentais e escravizando mulheres não muçulmanas, o prêmio a Malala é um sinal poderoso que o mundo democrático envia às facções obscurantistas de Alá.

Mas convém não jogar tanto peso nas costas da menina. Afinal de contas, ela precisa estudar.

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A Editora Seguinte lançará a versão juvenil de Eu sou Malala em fevereiro de 2015, e a Companhia das Letrinhas publicará Malala, a menina que queria ir para a escola, escrito pela jornalista Adriana Carranca.

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Flavio Moura é editor da Companhia das Letras.