Semana duzentos e oitenta e dois

Uma história de solidão, John Boyne (Tradução de Henrique de Breia Szolnoky)
Odran Yates era um garoto tímido nascido na Irlanda dos anos 1950. O país tinha uma longa tradição católica, e as leis da Igreja moldavam a sociedade com rigor claustrofóbico. Filho de um pai alcoólatra, que morreu com a certeza de que era um grande ator, e de uma mãe que abandonara a carreira de aeromoça para cuidar da família, Odran abraçou o caminho eclesiástico como único destino possível. Primogênito de um lar disfuncional, que se tornou sufocante após uma tragédia familiar, Odran obedece à mãe e vai estudar em um seminário, onde conhece Tom Cardle, de quem se torna amigo. Ao contrário de Odran, tímido, inocente e reservado, Tom era irritadiço e rebelde. Não fossem os maus-tratos constantes do pai, ele nunca teria nem sequer passado em frente a uma igreja. Já Odran concluiria mais tarde que o sacerdócio era realmente adequado à sua personalidade. Antes de se formar e ainda muito jovem, Odran fora designado para uma missão no Vaticano: caberia a ele servir pontualmente o café da manhã e o leite noturno do sumo pontífice — durante um ano, sete dias por semana —, incumbência que cumpriu com o rigor e o silêncio de “um fantasma”, como descreveria.

Penguin-Companhia

Fedro, Platão (Tradução de Maria Cecília Gomes dos Reis)
Fedro é universalmente reconhecido como um dos textos mais profundos e belos de Platão, considerado um dos pais da filosofia. Tomando a forma de um diálogo entre Sócrates e Fedro, seu assunto principal é o amor (especialmente o homoerótico). Em seguida, porém, a conversa muda de direção e volta-se para uma discussão acerca da retórica, que deve ser baseada na busca apaixonada pela verdade, aliando-se assim à filosofia.

Alfaguara

Adeus, minha querida, Raymond Chandler (Tradução de Braulio Tavares)
Durante um caso de rotina, o detetive Philip Marlowe conhece “Moose” Malloy, o Alce, um brutamontes cruel recém-saído da prisão. Malloy está disposto a tudo para encontrar Velma, uma cantora de cabaré com quem mantivera uma relação. Em paralelo, o investigador se vê no meio de um caso de chantagem e assassinato, ligados ao roubo de um colar de jade.

Seguinte

A sereia, Kiera Cass (Tradução de Cristian Clemente)
Anos atrás, Kahlen foi salva de um naufrágio pela própria Água. Para pagar sua dívida, a garota se tornou uma sereia e, durante cem anos, vai precisar usar sua voz para atrair pessoas até o mar e afogá-las. Kahlen está decidida a cumprir sua sentença à risca, até que conhece Akinli. Lindo, carinhoso e gentil, o garoto é tudo com que Kahlen sempre sonhou. Apesar de não poderem conversar — pois a voz da sereia é fatal —, logo surge uma conexão intensa entre os dois. É contra as regras se apaixonar por um humano, e se a Água descobrir a sereia será obrigada a abandoná-lo para sempre. Mas pela primeira vez, em muitos anos de obediência, Kahlen está determinada a seguir seu coração.

O maior acontecimento

Por Leandro Sarmatz

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Como o futebol, o carnaval não parece tão bem representado assim em nossa literatura. Digo: pelo espaço ocupado na nossa vida cultural e emocional, ambas manifestações parecem tímidas quando vamos contabilizá-las em páginas literárias. A grande festa escapista dos brasileiros — com raízes deitadas em tempos e lugares longínquos — se mostrou muito pouco presente até hoje em nossa melhor literatura. Festa total, que exorciza a morte, embaralha gêneros, desconstrói convenções e promove a amnésia coletiva — que melhor ocasião do que essa para escrever algo vertiginoso e potente?

Vejamos. Tem o conto “Antes do baile verde” (no livro de mesmo nome), de Lygia Fagundes Telles. O romance de estreia de Jorge Amado, O país do carnaval (e Dona flor e seus dois maridos, também do baiano), além da obra-prima do conto que é “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, e textos curtos de Clarice Lispector e Sérgio Sant’Anna (este no recente e formidável o O homem-mulher). Mas por que a festa popular conta com tão poucas representações na ficção? Bem. Oswald de Andrade, que por sinal vai começar a ter suas obras publicadas por aqui em breve, tem alguns insights absolutamente geniais sobre os dias de orgia. Assim como Manuel Bandeira, que em alguns poemas retrata a festa sob o signo de uma melancolia sexual meio escapista, e Drummond, com a metafísica momesca de “Um homem e seu carnaval”, em Brejo das almas. Mas não vai muito além disso (não que seja pouco, muito antes pelo contrário!). Que o leitor me ajude na lembrança, mas confesso que não me recordo de outros grandes momentos literários sobre a folia.

Claro. Música, cinema e novela são pródigos em apresentar a visão mais eufórica dos festejos de momo.  A canção, por motivos óbvios. Sem falar que as marchinhas de outrora eram todo um sistema dentro da indústria fonográfica nacional. Além de outras bossas. Porque muito da nossa sensibilidade, do nosso ethos, foi moldado por elas, rainhas da saudável sacanagem. São o depoimento de um tempo (anos 30 a 60) e de um lugar (o Rio de Janeiro), mas falam pelo Brasil inteiro até os dias de hoje, tanto no seu melhor (a graça descompromissada) quanto no seu pior (o preconceito de algumas letras). Cinema e TV, pelos atributos — digamos — plásticos do acontecimento.

Mas e o grande-romance-brasileiro-sobre-carnaval? Faz sentido ainda? Se faz ou já fez sentido, pelo que tenho notícia, ainda não chegou. Preconceito dos autores? Acho difícil. Palpite bem pedestre: porque é um momento bastante exigente em matéria sensorial. Representar isso não deve ser fácil. Dar corpo (ops!) à miríade de experiências táteis, auditivas, emocionais, sociais — isso é tarefa para narrador maiúsculo.

Será? É uma tese. Mas sigo com esperança, como leitor, de um dia levar para casa “O” romance sobre o carnaval brasileiro. Até lá, enquanto isso não acontece, desfilo meu bloco de dúvidas na avenida dos palpites.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Manual de estilo de Raymond Chandler

Raymond Chandler

Raymond Chandler (1888-1959) é um dos escritores mais originais do romance policial. Ele aprimorou elementos clássicos do gênero: o detetive durão e solitário; a loura fatal; o crime intrincado; a cidade violenta, de policiais corruptos e milionários alcoólatras. “Chandler não inventou o gênero do policial hard-boiled”, escreve Braulio Tavares, tradutor de seus livros no Brasil. “Deu-lhe uma dimensão humana e psicológica que o gênero praticamente desconhecia até então, e um brilho verbal que acabou se incorporando ao modo de escrever de seus seguidores.” Era um mestre na linguagem, sobretudo nos símiles, nas comparações, nas imagens inesperadas.

“Ela gargalhou até se acabar, sem fazer mais barulho do que alguém faria partindo uma baguete”, escreve Chandler em certo momento de Adeus, minha querida. Uma das garotas fatais de O sono eterno entra no cômodo em que está Philip Marlowe, o detetive-narrador, “vestindo um pijama cor de pérola com as bordas de pele branca, que flutuavam em volta dela como um mar de verão roçando as praias de uma ilha privativa”. Roger Wade, o escritor bêbado e irascível de O longo adeus, observa “como um cavalo olhando por cima de uma cerca” enquanto Marlowe passa pela sala.

Reunimos aqui alguns desses achados linguísticos. Traduzidos por Braulio Tavares, aparecem nos quatro principais romances de Chandler publicados pela Alfaguara: O sono eterno, Adeus, minha querida, A dama do lago e O longo adeus.

Homens

  • Perigoso como um esquilo.
  • Mole como um prato de mingau frio.
  • Matreiro como Richelieu por trás da tapeçaria.
  • Nervoso como um muro de tijolos.
  • Charmoso como uma cueca de metalúrgico.
  • Expressivo como um sarrafo de madeira.
  • Mais frio do que os pés de Finnegan no dia em que foi enterrado.
  • Nervoso como uma viúva que não consegue encontrar o toalete.
  • Tão honesto quanto é possível a um homem num mundo onde ser honesto está fora de moda.

* * *

  • Careca como um tijolo.
  • Barrigudo como todos os homens musculosos ficam na meia-idade.
  • Magro como um arame.
  • Esguio como um chicote.
  • Pesado como um bloco de cimento.
  • Calmo como um muro de adobe à luz do luar.
  • Tão difícil de avistar quanto o Dalai Lama.
  • Grosso como uma porta de cofre.
  • Duro como uma tábua.
  • Magro como um ancinho e duro como o gerente de uma casa de agiotagem.

* * *

  • Verde como o verso de um dólar novo.
  • Esgotado como um pedaço de barbante mastigado.
  • Cansado como um jantar mal digerido de um pé-sujo qualquer.
  • Animado como um papa-defunto num enterro pobre.
  • Vazio e oco como os espaços entre as estrelas.
  • Silencioso como um arrombador atrás da cortina.
  • Fungando como um cachorro que não consegue terminar seu almoço.

* * *

Mulheres

  • Linda como uma calcinha rendada.
  • Loura daquelas de fazer um bispo quebrar um vitral com um pontapé.
  • Calma como uma tigela de creme.
  • Delicada como uma calçada.
  • Nua e cintilante como uma pérola.
  • Tão platinada que seu cabelo brilhava como uma fruteira feita de prata.
  • Mais fácil de levar pra cama do que uma almofada.
  • Chateada como um vereador com caxumba.
  • Remota e límpida como água da montanha.

* * *

Odores

  • Tão forte que dava para construir uma garagem em cima dele.

* * *

Olhos

  • Cintilantes como luzes em águas paradas.
  • Duros como uma ostra numa concha aberta.
  • Tão saltados das órbitas que pareciam estar montados em pernas de pau.
  • Como os de um entomologista olhando para um besouro.
  • Fechando-se como uma cortina vagarosa num teatro.
  • Confusos como um cavalo que errou de estábulo.
  • Estreitos como um brilho verde e distante, como uma lagoa perdida entre as árvores da floresta.

* * *

Estrada

  • Monótona como uma cantiga de marinheiro.

* * *

Lago

  • Imóvel como um gato adormecido.

* * *

Ondas

  • Encapeladas e espumosas, quase sem som, como um pensamento tentando se formar lá nas bordas da consciência.

* * *

Brilho do sol

  • Tão forte que parecia dançar.
  • Tão vazio quanto um sorriso de maître d’hotel.
  • Tão claro e seco quanto uma dose de velho xerez pela manhã.

* * *

Voz

  • Dura como uma bisnaga.
  • Falsa como os cílios de uma atendente e escorregadia como uma semente de melancia.
  • Dura como a lâmina de uma pá.
  • Arrastada como um homem doente se levantando da cama.
  • Soando como um editorial que esqueceu a própria tese que pretendia demonstrar.

* * *

Comida

  • Com o gosto de uma sacola de carteiro jogada fora.
  • Saboroso como um pedaço de camisa velha.

* * *

Sorriso

  • Como uma galinha com soluços.
  • Mais velho do que o Egito.
  • Duro como um peixe congelado.
  • Ardiloso como uma ratoeira quebrada.

* * *

Tempo

  • Se arrastando como uma barata doente.

* * *

Desfecho

  • Tão mortal que chega a ser engraçado.

* * * * *

28000053 - Adeus minha querida_capa_V3.inddADEUS, MINHA QUERIDA
Sinopse: 
Durante um de seus casos de rotina, o detetive Philip Marlowe se envolve acidentalmente com “Moose” Malloy, o Alce, um brutamontes cruel que acabou de sair da prisão. Malloy está disposto a tudo, até matar, para encontrar Velma, uma cantora de cabaré com quem manteve uma relação oito anos antes. Em paralelo, o investigador se vê no meio de um caso de chantagem e assassinato, ligados ao roubo de um colar de jade. Entre videntes charlatões, milionárias insaciáveis e gângsteres implacáveis, as duas investigações aos poucos se ligam numa trama só, entremeada de violência e corrupção, bem ao contrário das histórias policiais clássicas, onde o mordomo é quase sempre o culpado. “Não é esse tipo de história”, diz Marlowe. “Não é elegante e não é engenhosa. É sombria, e cheia de sangue.”

Adeus, minha querida já está nas livrarias.

Cheirar e tocar o livro — ou o editor é apenas um parteiro

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Com apenas dois textos publicados nesta nova série “Livre editar”, sinto como se já tivesse usado recursos simbólicos à exaustão. Me perdoem, mas vamos lá, eu continuo! Como escrevi no post anterior sobre a propriedade do livro, vale lembrar mais uma vez da imagem tão conhecida do casal que se separa e aparece encaixotando seus livros, cada um debruçado sobre sua caixa de papelão, como no filme Kramer vs. Kramer, Dustin Hoffman de um lado, Meryl Streep do outro. Ou então de um recém-desquitado, cantando para si mesmo: “Devolva o Neruda que você me tomou”. São situações que mostram o quanto somos apegados fisicamente aos nossos livros, e não só ao modo como os guardamos em nossa memória ou imaginação. O livro eletrônico, não sendo palpável, sem cheiro nem cor, rompe um pouco com essa lógica. Mas seu crescimento estancou mesmo nos países onde mais se vendem e-books. Chegou a 30% do mercado e parou por aí. Talvez tal fato queira dizer algo sobre o apego ao formato tradicional do livro, ao papel, que permite o encontro com a tinta, do qual lembramos remotamente a cada página que viramos, ou por vezes após passar o dedo nos lábios ou na ponta da língua…

Por isso também a edição de um livro permite tantas metáforas relacionadas ao parto de uma criança. O tempo de escrita, que, por menor que seja, é longo, feito de meses; a solidão do escritor semelhante à da mãe, que carrega sozinha o bebê em sua barriga; e esse aspecto corpóreo, que faz com que, mesmo tendo visto as provas do livro, desejemos intensamente vislumbrar sua cara final — tudo isso contribui para que esperemos um livro como aguardamos um filho.

Muitos não sabem ou imaginam que os editores, boa parte deles, ao receberem um livro da gráfica, cheiram o objeto e apalpam suas páginas, roçando o dedo nas primeiras páginas de maneira — guardados os devidos exageros — quase erotizada. Sim, os livros têm um cheiro e um toque especiais ao chegarem, recém-empacotados, da máquina de impressão.

Antigamente, muitos livros tinham sua integridade garantida pela cola e não pela costura entre as páginas, e por isso carregavam um cheiro mais intenso ainda. Se mal aplicada, ela vazava grosseiramente para as páginas, deixando marcas fortes.

Lembro de sentir seu cheiro em muitos livros da Brasiliense, ou em me preocupar com a eficiência da sua aplicação, mais barata que a costura. Os livros colados, no começo da minha atividade como editor, “desmilinguiam” em futuro breve, causando transtorno aos leitores.

Creio que na Companhia das Letras sempre usamos a linha. Mas em todo caso, seja cola ou costura, ambas garantem um aspecto fundamental do livro: sua unidade. O livro é sempre um todo, mesmo sendo feito de contos ou poesia, é sempre um conjunto absolutamente singular e fechado. Formado por um tema, por uma fase da vida do escritor, por uma trama ou por uma intenção. É indivíduo ou individualizado. Tem nome, abertura e ponto final.

Cheirar a cola das edições recém-nascidas, ou sentir o odor da costura aplicada a quente no livro; buscar com o olfato o cheiro da tinta ainda fresca aplicada no papel; abrir as páginas do novo “rebento” recém-embalado e manuseá-lo pela primeira vez, são prazeres que aprendi com Caio Graco, o primeiro editor com quem trabalhei. Mas vi Jorge Zahar fazer o mesmo, com idêntica expressão de prazer. Vejo Elisa Braga, responsável pela produção dos livros da Companhia das Letras quase desde sempre, verdadeiro coração da editora, fazer o mesmo gesto ainda hoje, com mais de 4000 livros publicados em nosso catálogo. Além de mero costume de velhos editores, o cheiro e o tato do livro têm muito a nos dizer. Falam também da natureza da profissão do editor, o parteiro e nunca o pai ou a mãe das edições. Não há orfandade possível no mundo editorial. Um livro pode até ser renegado, no futuro, por seu autor, mas tem DNA inescapável, e conta conosco, editores, como meros auxiliares para que venha à luz. Editores são canais entre os dois polos que realmente interessam, caro leitor e caro escritor.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal sobre livros e o trabalho editorial.

O inferno são os outros (online)

Por Luisa Geisler

internet

Trecho do vídeo “This video will make you angry”. 

Eu não gosto de escrever pra internet.

Pronto. Falei.

Por mais que seja uma frase vaga, há precisão: eu não odeio escrever pra internet. Mas não gosto.

(Mas, por favor, Blog da Companhia das Letras, siga aceitando meus posts, por favor, por favorzinho, meu cachorro precisa operar a hérnia.)

E, não me entendam mal, eu gosto da internet. Gosto tanto da internet que não só tenho Snapchat como gosto dele. E, não, não é só pra nudes. Mas escrever pra internet é “o inferno são os outros” elevado na quinta potência.

Em 2014, o portal National Public Radio postou uma piada de Primeiro de Abril. As manchetes e linhas iniciais eram algo como “Por que pessoas nos Estados Unidos não leem mais? Cerca de 80% dos leitores comenta em notícias sem passar da terceira linha”.

Na quarta linha da notícia, o texto falava que aquele dado era uma mentira de Primeiro de Abril. Pedia-se que não se revelasse nos comentários que a informação era falsa. Isso permitiria que apenas as pessoas que leram as três primeiras linhas comentassem.

Em resposta, os comentários partiam de ideias simples como “nós, pessoas que lemos e nos preocupamos com a informação, sabemos que é um absurdo…” até culpar os imigrantes. Todos que não tinham passado da terceira linha expressavam sua revolta sobre essa população que não lia e ficava o tempo todo nas redes sociais, mal informados.

Bem-vindo ao inferno.

Não culpo os “leitores da internet” num maniqueísmo abobado. Faço essa leitura. Confiro a manchete, passo os olhos. Às vezes, quando começo a gostar de um artigo, compartilho sem ler o final e depois volto. Ou não volto. Ou não gosto do autor e não leio. Cometa um sincericídio aqui comigo: você faz isso também.

Não falo de todos os sites e todos os artigos, mas uma maioria. Mas não se lê muito na internet. Ou se lê e não se interpreta. Ou existe uma massa de pessoas “de zuera” na internet. Ou todas as anteriores. Para coroar, o que mais se lê na internet (ou pelo menos, mais se compartilha) é ódio. O que faz o dedo do “compartilhar” coçar é… raiva, revolta. E antes que você diga que estou tirando da minha cabeça, confiram o artigo “What Makes Online Content Viral?”, de Jonah A. Berger & Katherine L. Milkman, da University of Pennsylvania. Se um artigo é muito longo ou muito tempo, existe um vídeo que resume muito bem: o “This Video Will Make You Angry”.

É por isso que certas pessoas de quem ninguém gosta seguem na televisão ofendendo todo mundo. Ironicamente, se eu fizer um texto dizendo que Machado de Assis era um imbecil, ele vai ser mais compartilhado que este aqui. Ta-dã (visualizem aqui umas jazz hands).

Mas a gente não deveria compartilhar o que causa ódio? Eu não tenho que denunciar o comentário homofóbico do Malafaia? Meu ponto não é esse. Digo isso explicitamente porque compartilhar ou não compartilhar (eis a questão) é um outro debate. E não cabe aqui (já passei de três mil caracteres).

Meu debate é que escrever pra internet requer colocar as frases em ordem com cuidado. Porque qualquer frase pode ser mal interpretada. Pode ser tirada de contexto. Pode viralizar porque o remix com “Asereje” ao fundo fica engraçado pra caramba. Ou, o pior de tudo, pode não ser lida e ficar flutuando num vácuo maior que meu vazio existencial.

A literatura se constrói na interpretação. A possibilidade de contar com o leitor: sim, aquele subtexto é, na verdade, um histórico anterior subentendido. A falta de imediatismo que uma narrativa longa propõe — inclusive a trava de tempo que ela oferece naquele momento — me encanta. O que diabos são “olhos de ressaca”? Pois então. Agora imaginem “olhos de ressaca” e uma imagem do Minions da Zuera ao fundo.

Não gosto de escrever pra internet. Mas vou seguir no Twitter, no Instagram, no Facebook, no Snapchat, no Tumblr, no Reddit. Afinal eu gosto da internet.

Só que gosto bem mais de literatura.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.