Sangue, suor e páginas

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Em maio de 1945, a Alemanha nazista era derrotada pelas potências aliadas. Encerrava-se assim o capítulo europeu da Segunda Guerra. Em setembro daquele ano, depois do bombardeio atômico (no mês anterior) de Hiroshima e Nagasaki, o Japão iria assinar os termos de sua rendição. Terminava completamente um dos conflitos mais sangrentos da história, com mais de 20 milhões de mortos, cidades e países arrasados, a conformação geopolítica do mundo bastante diferente daquela de 1939, quando Hitler invadiu a Polônia, dando início à refrega.

Nos últimos 70 anos, muito se escreveu sobre a Segunda Guerra. Testemunhos, ensaios pessoais e historiográficos, ficção, biografias, poesia, quadrinhos. Compreensível: alastrando-se a partir do coração da Europa, os conflitos fizeram terra-arrasada das pretensões iluministas que, até então, moldavam o continente. A guerra de 1939-1945 significou uma crise na civilização. A barbárie, o genocídio programado de populações inteiras, a extrema violência contra civis e a tecnologia a serviço do terror desconcertam até os dias de hoje. Daí a copiosa e necessária produção — criativa e intelectual —, que sempre se renova.

Preparamos uma seleção de livros, entre lançamentos e obras fundamentais do nosso catálogo, para você se aprofundar e entender um capítulo da história humana que, ainda hoje, 70 anos depois, reverbera na política, na cultura e na sociedade.

Lançamentos

Ano zero, Ian Buruma (previsto para fevereiro)
A história do mundo que se formaria a partir dos escombros da Segunda Guerra.

Os compatriotas, Bo Lidegaard (previsto para abril)
A comovente extraordinária narrativa de como os judeus foram salvos do horror na Dinamarca.

O fim do Terceiro Reich, de Ian Kershaw (previsto para maio)
Do autor da melhor biografia de Hitler, um relato do crepúsculo do nazismo.

Seis meses em 1945, de Michael Dobbs (previsto para junho)
Como a Conferência de Ialta moldaria o futuro do Ocidente.

Central Europa, William T. Vollman (previsto para o segundo semestre)
Romance polifônico e fascinante sobre a violência e o autoritarismo da Alemanha nazista e da União Soviética.

Terra negra, Timoty Snyder (previsto para novembro)
Um palpitante ensaio sobre a insanidade que conduziu o mundo ao Holocausto.

Piloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry (previsto para 2015)
A experiência do autor de O pequeno príncipe como aviador na Segunda Guerra.

Obras essenciais

A biblioteca esquecida de Hitler — Os livros que moldaram a vida do Führer, de Timothy W. Ryback

Alemanha, 1945, de Richard Bessel

Engenheiros da vitória — Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial, de Paul Kennedy

Eva Braun — A vida com Hitler, de Heike B. Görtemaker

Guerra aérea e literatura, de W. G. Sebald

Hitler, de Ian Kershaw

A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade

O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon

O imperialismo sedutor — A americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, de Antonio Pedro Tota

Maus — A história de um sobrevivente, de Art Spiegelman

Stálin — A corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore

Hora da guerra — A segunda Guerra Mundial vista da Bahia, de Jorge Amado

Marque na agenda

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Oficina Especial Coleção Snoopy
Sexta-feira, 23 de janeiro, às 16h
Participe da oficina especial dos livros da Coleção Snoopy da Companhia das Letrinhas!
Local: Livraria da Vila — Rod. Dom Pedro I, s/n, Jardim Nilópolis — Campinas, SP

Contação de História com Snoopy
Durante o mês de janeiro, Snoopy e sua turma vão encantar e divertir pais e crianças nas contações de histórias que acontecerão por São Paulo! Confira as datas e locais dos eventos da coleção Snoopy pela Companhia das Letrinhas:

  • Sábado, 24 de janeiro, às 16h
    Vivi Gonçalves comanda a contação do livro É hora da escola, Charlie Brown.
    Local: Livraria NoveSete — Rua França Pinto, 97, Vila Mariana — São Paulo, SP
  • Sábado, 24 de janeiro, às 17h
    Zenaide Denardi participa do circuito de histórias de Snoopy com o livro Amigos para sempre.
    Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 — São Paulo, SP
  • Sábado, 24 de janeiro, às 16h
    Marina Bastos faz a contação de É hora da escola, Charlie Brown Amigos para sempre.
    Local: Livraria Cultura — Av. Iguatemi, 777, Vila Brandina — Campinas, SP
  • Domingo, 25 de janeiro, às 16h
    Kiara Terra comanda a contação de história com o livro Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween no Férias na Vila.
    Local: Livraria da Vila — Alameda Lorena, 1731, Jardim Paulista — São Paulo, SP
    (A contação de domingo com Kiara Terra foi cancelada e o evento será remarcado para outra data.)

Talk show de lançamento de A dieta ideal
Segunda-feira, 26 de janeiro, às 19h
Petria Chaves conversa com Marcio Atalla e Desire Coelho para o talk show da CBN no lançamento de A dieta ideal.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Lançamento de Pão nosso em Porto Alegre
Terça-feira, 27 de janeiro, às 17h
O crítico de gastronomia Luiz Américo Camargo autografa o livro Pão nosso no lançamento em Porto Alegre.
Local: Livraria Saraiva do Moinhos Shopping — Rua Olavo Barreto Viana, 36 — Porto Alegre, RS

Semana duzentos e trinta e três

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Enxaqueca, de Oliver Sacks – Edição de Bolso (Tradução de Laura Teixeira Motta)
Para a maioria de nós, a enxaqueca é apenas uma forte dor de cabeça que acomete periodicamente certas pessoas. Para Oliver Sacks, ela é muito mais do que isso. É antes de mais nada, um conjunto extremamente complexo e diversificado de síndromes nas quais a dor de cabeça nem sempre está presente. Além disso, a enxaqueca pode nos fornecer pistas sobre algumas das questões mais fundamentais do ser humano.
Primeiro livro de Sacks, Enxaqueca já contém todos os elementos que fizeram sucesso de suas obras posteriores: conhecimento científico posto a serviço de um estilo único de narração, capaz de transformar relatos clínicos em episódios de um maravilhoso romance de suspense.

A dançarina do cabaré, de Georges Simenon (Tradução de André Telles)
Em Liège, cidade belga onde Simenon nasceu, Maigret observa à distância dois garotos acusados de assassinar um rico estrangeiro. Quando a amizade entre os suspeitos é posta à prova, o comissário encontra as pistas para desvendar o enigma.

Seguinte

Por lugares incríveis, de Jennifer Niven (Tradução Alessandra Esteche)
Quando Theodore Finch conhece Violet Markey em circunstâncias nada usuais, surge uma amizade única entre os dois. Cada um com seus próprios traumas e sofrimentos, eles se juntam para fazer um trabalho de geografia e acabam descobrindo mais do que os lugares incríveis no estado onde moram: a vontade de salvar um ao outro e continuar vivendo.

2014: Um bom ano para a literatura policial brasileira

Por Raphael Montes

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O ano de 2014 trouxe muitas novidades para os fãs de literatura policial. Sempre me incomodou — como leitor — a falta de uma tradição literária do gênero no Brasil; autores efetivamente dedicados a crime novels, com repercussão internacional. Talvez por esse incômodo eu tenha decidido escrever tramas policiais. Publiquei em março meu segundo romance, Dias Perfeitos, que teve uma boa recepção crítica e calorosa aceitação dos leitores, com traduções para o exterior e direitos vendidos para o cinema.

Em entrevistas, sempre digo que não se constrói uma tradição sozinho. O trabalho é árduo, demorado e, claro, tradição significa muitos autores publicando muitos livros de mistério ao longo de anos. Por isso, mesmo feliz com minha carreira, torci e torço para que novos autores do gênero policial surjam no mercado para ganhar as livrarias e o gosto dos leitores. Nesse sentido, 2014 não decepcionou: nas prateleiras, é fácil encontrar estreantes como A forma da sombra, de Fernando de Abreu Barreto; Ao meu ídolo, com amor, de Mariana Pereira; O assassino que mutilava Leminski, de Anisio Homem, O caso dos ossos, de Sally Satler e Carla Fernanda da Silva, República Paradiso, crimes e segredos, de Sérgio Lang, e Mate-me quando quiser, de Anita Deak. Publicados, em sua maioria, por editoras pequenas, esses livros confirmam o crescente número de novos autores dedicados ao policial.

Na plataforma digital, o número é ainda maior. O jovem Mateus Baldi lançou seu Impublicáveis contos na Amazon, por exemplo. Chris Lauxx, especialista em literatura policial, chegou com seu ótimo Os maiores detetives do mundo, também pela Amazon. Não bastasse, autores que se dedicam a alguns anos ao gênero lançaram novos romances de alta qualidade, consolidando suas carreiras: Em linha reta, de Tailor Diniz, Safári, de Luís Dill, Matar alguém, de Roger Franchini, A comédia mundana, de Luiz Biajoni, O trovador, de Rodrigo Garcia Lopes, e O silêncio mais profundo, de Oscar Bessi. Livros que merecem ser conferidos.

Entre os veteranos, Tony Bellotto trouxe mais uma aventura do detetive Remo Bellini em Bellini e o Labirinto, e Luiz Alfredo Garcia-Roza apresentou a décima aventura do delegado Espinosa em Um lugar perigoso. Por fim, nossa dama do crime, Patrícia Melo, publicou seu Fogo-fátuo, a primeira aventura da perita Azucena.

Confirmando a valorização do gênero no Brasil, personalidades de outras áreas fizeram sua incursão ao policial em 2014. É o caso do escritor Bernardo Kucinski, com Alice, seu primeiro livro de suspense, do editor Marcelo Ferroni, com Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, e do cantor Tico Santa Cruz, com o violento e delicioso Pólvora.

Para coroar tantas publicações, Rubem Fonseca, o mestre do gênero no país, venceu o Prêmio Jabuti com seu livro de contos, Amálgama. Além disso, em dezembro, foi publicada a antologia de contos Rio Noir, organizada por Tony Bellotto e com participação de diversos autores do gênero escrevendo contos policiais situados em bairros da Cidade Maravilhosa. Um livraço!

Na internet, o leitor de policial pode se manter atualizado através de duas novas e incríveis plataformas. A página Clube do Crime posta diariamente no Facebook notícias e entrevistas sobre o gênero policial. Já o site literaturapolicial.com traz resenhas, sinopses, listas, lançamentos e promoções. Um deleite para quem curte um bom romance policial. Para 2015, além de muita paz, saúde e alegrias, desejo mais sangue nas páginas, mais cadáveres, mais detetives e mais mistérios a desvendar. Estão prontos?

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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O prazer me chama

Por Luiz Schwarcz*

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imprima_se-menorHá tempos que as férias têm um significado especial para mim. São o momento em que leio livros que não publicarei, que não estou examinando para este fim, em que não preciso interferir de alguma forma. Por vezes tenho usado esse tempo também para ler os livros da Companhia que não passaram por minhas mãos antes de sair e nos quais participei apenas eventualmente em etapas posteriores, como na comercialização ou promoção, por exemplo. É raro eu levar para as férias algum título que me faça ter que pensar em atitudes que precisarei tomar. Há três anos quebrei essa regra, pois decidi ler as memórias, ainda inéditas, de Salman Rushdie sobre a fatwa — um livro enorme, cuja leitura dividi com a de Guerra e Paz. Eu estava em Itacaré, na casa de amigos que haviam viajado para fora. Pelas manhãs, eu lia a ótima tradução do calhamaço de Tolstói feita por Rubens Figueiredo e publicada pela Cosac Naify, e de tarde eu atacava no iPad os originais de Joseph Anton.

Antigamente, nós tínhamos uma pequena casa num condomínio no litoral norte de São Paulo, onde conseguíamos passar janeiro inteiro. Hoje, não entendo como eu fazia para sair por tanto tempo e me desligar completamente, mas lembro que conseguia, de fato, me afastar. Minha rotina era acordar, correr na praia, tomar café com a família e, ao voltar para a praia, com a Júlia e Pedro ainda pequenos, carregava comigo livros volumosos e com eles me instalava debaixo do guarda-sol. Meu hábito de dar um mergulho no mar, intercalado por algumas dezenas de páginas de leitura, deu origem a gozações generalizadas. Um vizinho, pouco chegado à prática da leitura, me gozava dizendo que eu lia a lista telefônica na praia. No começo eu achava graça na brincadeira, ou talvez nem no começo — a piada vinha com um ranço anti-intelectual que me incomodava profundamente. Atualmente, acho que veria as coisas de um jeito diferente. O contexto atrapalhava: eu sempre fui o pior homem do mundo para a vida de condomínio. Era considerado pelos vizinhos um sujeito antipático e antissocial. Com razão. Não gosto de observar os outros nem de ser observado. Eu viajava para ficar com a minha família e consumir clássicos que me penitenciava por nunca haver lido, e que devorava com avidez. Aproveitava o mar com entusiasmo, mas à minha maneira.

Desde sempre, praia e férias são quando me ocupo lendo horas a fio, sem interrupções, momentos nos quais me policio para não pensar que cortaria Irmãos Karamázov ou Guerra e Paz, (sic), que faria uma capa diferente para tal ou qual livro.

Neste ano fui com a família inteira, incluindo genro, nora e netas, para uma praia no Ceará. Meu tempo se dividiu da mesma forma. Mergulho no mar pelas manhãs, corrida de tarde, na hora da maré baixa, e leitura na piscina e nas redes do hotel o resto do tempo.

Assim, este ano comecei as férias no avião para Fortaleza devorando um livro que ganhei do meu filho Pedro, o clássico húngaro de Gyula Krúdy, O Companheiro de viagem, também editado pela Cosac. A escrita é memorável, a tradução, excelente, e assim o livro abriu maravilhosamente meus dez dias de descanso. Como era ainda o período em que procurava me desligar da minha vida de editor, por vezes me peguei pensando que capa eu faria para o livro.

Meu plano inicial para as férias era ler Vida e destino, de Vassili Grossman, publicado pela Alfaguara. Acabei capitulando e deixei o herdeiro de Tolstói para outra semana de descanso, que ainda vou tirar perto do Carnaval. O livro que entrou no lugar foi O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, edição brasileira da Boitempo. Em comum com minhas leituras tradicionais, o livro do escritor cubano tem o largo número de páginas e o fôlego da empreitada. Construído com maestria literária, o painel da vida de Trotsky, paralelo à vida de seu assassino, Ramón Mercader, permite entender parte terrível da história do comunismo na Rússia, mas vai além disso. A Europa da Guerra Civil, a ascensão de Hitler e todo o jogo geopolítico que irão culminar na Segunda Guerra Mundial aparecem no livro. Compartilhei a leitura da “lista telefônica” da vez com um livro antigo publicado pela Knopf sobre Leni Riefenstahl, a cineasta dos documentários que engradeceram o Terceiro Reich. Por puro interesse pessoal, deliciei-me com o livro de Steven Bach, Leni, the life and work of Leni Riefenstahl, em que a personalidade da bailarina, atriz e por fim diretora dos filmes de propaganda nazista é apresentada junto com a história da subida de Hitler ao poder. A combinação com o livro de Padura não poderia ter sido melhor. De manhã um, de tarde o outro, fórmula aprovada em outros verões. Por fim, dediquei-me a conhecer a obra de Murakami, começando por Norwegian Wood. A delicadeza do texto, extremamente literário, não poderia ser maior. Cada livro abre um novo universo, e sair dos expurgos de Stalin ou da propaganda de Hitler para entrar numa história de amor extremamente melancólica e japonesa é um dos grandes baratos da literatura.

Espero terminar o texto de Murakami, que teve o azar de entrar já no final das férias. Larguei muitos livros nessas circunstâncias, sem poder voltar a eles. Agora, no primeiro fim de semana pós-férias, três livros encontram-se em minha cabeceira e mesa de trabalho. Norwegian Wood terá que dividir meu carinho devorador com outros eleitos, que lerei com a mesma atenção, mas com a tarja invisível de “O dever me chama!” embalando os ditos cujos. Por sorte, no caso, dever também é sinônimo de prazer.

P.S.: E você, leitor, quer aproveitar este espaço para comentar suas leituras de férias?

* A partir de fevereiro, a coluna volta a ser publicada na primeira quinta-feira do mês.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.