Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

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Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — A Pilha

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Drauzio entrevista Frei Betto
Segunda-feira, 29 de junho, às 19h30
Drauzio Varella convida para o Drauzio entrevista Frei Betto, autor de Fome de DeusAs senhas para participar serão distribuídas uma hora antes do evento na entrada do Teatro Eva Herz.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Lançamento de Meu passado me condena
Segunda-feira, 29 de junho, às 19h30
Tati Bernardi bate um papo com Antonio Prata no evento de lançamento de Meu passado me condena pela Editora Paralela, livro da história do casal Fábio e Miá que também ganha seu segundo filme nesta semana. Saiba mais sobre o evento.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 — São Paulo, SP

Lançamento de A capital da vertigem
Terça-feira, 30 de junho, às 19h
Roberto Pompeu de Toledo autografa seu novo livro, A capital da vertigem, em São Paulo.
Local: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU) — Rua Maranhão, 88 — São Paulo, SP

Festa Literária Internacional de Paraty
De 1 a 5 de julho, Paraty recebe autores nacionais e internacionais para mais uma FLIP. Confira a programação dos autores do Grupo Companhia das Letras na programação principal da festa e nos eventos paralelos:

Programação principal (Tenda dos autores)

  • Mesa “A cidade e o território”
    Quinta-feira, 2 de julho, às 10h
    Eucanaã Ferraz, autor de Escuta, participa de mesa com Antonio Risério.
  • Encontro com Colm Tóibín
    Quinta-feira, 2 de julho, às 19h30
    Colm Tóibín, que acaba de lançar Nora Webster no Brasil, volta pela segunda vez à FLIP em um encontro com o público.
  • Mesa “São Paulo! comoção de minha vida…”
    Sexta-feira, 3 de julho, às 12h
    Roberto Pompeu de Toledo, autor de A capital da vertigem, e Carlos Augusto Calil fazem uma mesa em homenagem à São Paulo de Mário de Andrade.
  • Brasil: Uma aula
    Sexta-feira, 3 de julho, às 13h30
    Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling sintetizam quinhentos anos de Brasil em uma aula baseada no livro Brasil: Uma biografia.
  • Mesa “As ilusões da mente”
    Sexta-feira, 3 de julho, às 15h
    O economista Eduardo Giannetti conversa com o neurocientista Sidarta Ribeiro sobre cérebro, mente, as poucas certezas e as muitas ilusões da alma.
  • Mesa “Escrever ao sul”
    Sexta-feira, 3 de julho, às 17h15
    Ngũgĩ wa Thiong’o, autor de Um grão de trigo, vem pela primeira vez ao país e divide a mesa com Richard Flanagan sobre identidade nacional em países do Hemisfério Sul.
  • Mesa “Os imoraes”
    Sexta-feira, 3 de julho, às 21h30
    Reinaldo Moraes e Eliane Robert Moraes conversam em mesa sobre literatura erótica e pornográfica.
  • Mesa “De balões e blasfêmias”
    Sábado, 4 de julho, às 15h
    Rafael Campos Rocha, autor de Deus, essa gostosa, participa de mesa com Riad Sattouf e Plantu sobre quadrinhos.
  • Mesa “Desperdiçando verso”
    Sábado, 4 de julho, às 21h30
    Arnaldo Antunes, que acaba de lançar o livro Agora aqui ninguém precisa de si, divide a mesa sobre poesia com Karina Buhr.
  • Conferência de encerramento
    Domingo, 5 de julho, às 14h
    José Miguel Wisnik faz a conferência de encerramento da FLIP em uma mesa sobre a obra de Mário de Andrade.
  • Livro de cabeceira
    Domingo, 4 de julho, às 16h
    Os autores convidados voltam ao palco para a leitura de trechos de seus livros favoritos.

Flipinha

  • Ciranda dos autores: Memória e invenção
    Quinta-feira, 2 de julho, às 9h
    Luciana Sandroni, autora de O Mário que não é de Andrade Memórias Póstumas de Noel Rosa, participa de mesa Stella Maris Rezende.
    Local: Tenda da Flipinha
  • Ciranda dos autores: A multiplicidade do olhar
    Quinta-feira, 2 de julho, às 15h30h
    Dilea Frate, autora de (Quem contou?), participa de encontro com João Carrascoza.
    Local: Tenda da Flipinha
  • Ciranda dos autores: A literatura por vários ângulos
    Sexta-feira, 3 de julho, às 15h30
    Ondjaki, autor de Ynari, participa de mesa com Simone Matias.
    Local: Tenda da Flipinha
  • Ciranda dos autores: Contar, cantar e ilustrar
    Sábado, 4 de julho, às 14h
    O ilustrador Odilon Moraes participa de mesa com Alessandra Roscoe e Adriana Falcão.
    Local: Tenda da Flipinha

FlipZona

  • Mesa “Onde a literatura e o Cinema se encontram”
    Quarta-feira, 1º de julho, às 10h30
    Mesa com Dilea Frate e Alessandra Roscoe
    Local: Casa da Cultura de Paraty
  • Mesa “A origem das histórias”
    Quinta-feira, 2 de julho, às 8h30
    Luiz Ruffato, autor de Flores artificiais, participa de mesa com João Carrascoza
    Local: Casa da Cultura de Paraty
  • Mesa “Literatura sem fronteiras”
    Quinta-feira, 2 de julho, às 10h30
    Ondjaki participa de mesa com Rita Carelli
    Local: Casa da Cultura de Paraty
  • Mesa “Letras e imagens”
    Sexta-feira, 3 de julho, às 10h30
    Mesa com Rafael Campos Rocha e Karina Buhr.
    Local: Casa da Cultura de Paraty

Casa do SESC (Rua Marechal Santos Dias,20, Centro Histórico)

  • Café Literário: (Sobre)viver de literatura
    Quinta-feira, 2 de julho, às 16h
    Luiz Ruffato, Paulo Scott e Carlos Henrique Schroeder falam sobre a vida do escritor no Brasil.
  • Café Literário: Transições
    Sexta-feira, 3 de julho, às 14h
    Débora Ferraz, Carol Bensimon e João Anzanello Carrascoza conversam sobre as jornadas pelas quais seus personagens passam, seja cruzando o mundo ou rumo a si mesmos.
  • Café Literário: Territórios Literários
    Sábado, 4 de julho, às 11h
    Ronaldo Bressane, Daniel Galera e Joca Reiners Terron debatem sobre a mobilidade como elemento constituidor das suas narrativas.
  • Café Literário: Literatura e sexo: outros tons
    Sábado, 4 de julho, às 14h
    Alexandre Marques Rodrigues, Reinaldo Moraes e Ivana Arruda Leite conversam sobre os diferentes desafios de abordar a temática do sexo na literatura.
  • Café Literário: A imagem que conta
    Domingo, 5 de julho, às 11h
    Roger Mello, Lourenço Mutarelli e Joana Cesar conversam sobre arte sequencial e muitos modos de dizer por meio de imagens e palavras.

Casa do IMS (Rua do Comércio, 13, Centro Histórico)

  • Entrevista com Escritores
    Quinta-feira, 2 de julho, às 17h
    Entrevista com o autor convidado Eucanaã Ferraz.
  • Entrevista com Escritores
    Sábado, 4 de julho, às 15h
    Entrevista com o autor convidado Reinaldo Moraes.
  • Entrevista com Escritores
    Sábado, 4 de julho, às 16h
    Entrevista com o autor convidado Roberto Pompeu de Toledo.
  • Entrevista com Escritores
    Sábado, 4 de julho, às 18h
    Entrevista com o autor convidado Rafael Campos Rocha.

Casa da Folha
Sexta-feira, dia 3 de julho, às 18h
Bate-papo com Lilia Moritz Schwarcz e Roberto Pompeu de Toleto.

Congresso de Jornalismo Investigativo
De 2 a 4 de julho, acontece o 10º Congresso de Jornalismo Investigativo da ABRAJI. Confira a programação de nossos autores:

  • Mesa com Adriana Carranca
    Quinta-feira, 2 de julho, às 14h
    Adriana Carranca, autora de Malala, a menina que queria ir para a escolaparticipa da mesa “Jornalistas na literatura”, com Sérgio Abranches e Miriam Leitão.
  • Mesa com Eugênio Bucci
    Quinta-feira, 2 de julho, às 9h
    Eugênio Bucci, autor de O Estado de Narciso, faz a mediação da mesa “Lei de meios na teoria e na prática: exemplos de fora”, com Tom Kent e Gustavo Gómez.
    Local: Campus Vila Olímpia da Universidade Anhembi Morumbi — Rua Casa do Ator, 275 — São Paulo, SP

Semana duzentos e cinquenta e seis

blog

O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro (Tradução de Sonia Moreira)
Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.

Tudo que é, James Salter (Tradução de José Rubens Siqueira)
Depois de participar da Segunda Guerra Mundial como soldado no Japão, Philip Bowman retorna aos Estados Unidos para recomeçar a vida.
Pelas décadas seguintes, acompanhamos sua carreira, seu casamento e divórcio. Novas relações amorosas aparecem – a mais significativa delas marcada por uma traição que Bowman vinga de forma particularmente cruel. Este não é um livro de grandes mistérios ou acontecimentos marcantes. É uma história sobre as pequenas coisas da vida – o teste para qualquer grande escritor. Depois de 35 anos sem publicar um romance, Salter mostra por que é considerado um dos maiores nomes da literatura americana atual.

Agora aqui ninguém precisa de si, de Arnaldo Antunes
O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e “prosinhas”, a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo.

Do que é feita uma garotade Caitlin Moran (Tradução de Caroline Chang)
“Wolverhampton, em 1990, parece uma cidade a que algo terrível aconteceu.” Talvez tenha acontecido de fato. Talvez seja Margaret Thatcher, talvez seja a vergonha que Johanna Morrigan passou num programa da TV local aos catorze anos. Nossa protagonista decide então se reinventar como Dolly Wilde — heroína gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Aos 16 anos, ela está fumando, bebendo, trabalhando para um fanzine de música, escrevendo cartas pornográficas para rock-stars, transando com todo tipo de homem e ganhando por cada palavra que escreve para destruir uma banda. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota?

Penguin-Companhia

A estepe, de Anton Tchékhov (Tradução de Rubens Figueiredo)
A estepe foi a primeira tentativa de Anton Tchékhov de produzir uma narrativa mais extensa. Foi uma tarefa desafiadora, mas bem-sucedida. Até porque o autor, que se tornaria um clássico da literatura ocidental, traria um olhar mais delicado e dado a menos arroubos, crises ou atos de heroísmo que outros escritores russos fundamentais, como Tolstói e Dostoiévski. O subtítulo — História de uma viagem — sintetiza o tema central: a viagem de um menino pela vasta estepe russa para estudar em outra cidade. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto: relato de viagem, narrativa ficcional, estudo de tipos humanos, pintura da natureza, além de retrato das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

Portfolio-Penguin

Dinheiro, dinheirode João Sayad
O dinheiro é uma instituição fundamental da sociedade em que vivemos há mais ou menos quatrocentos anos. Sem ele, não há economia capitalista. Como tudo que é habitual, colado ao cotidiano, é difícil de ser compreendido. O tema é controverso e movimentado por um debate infindável entre economistas de vertentes diversas. Neste livro, João Sayad tem como objetivo jogar luz sobre esta discussão que, apesar de singular em cada momento, tem uma tradição comum e conceitos que se repetem. As muitas teorias monetárias são analisadas como se fossem diferentes narrativas sobre o mesmo tema fundamental da economia capitalista.

Companhia das Letrinhas

Um raio de luz, de Jennifer Berne e ilustrações de Vladimir Radunzky (Tradução de Eduardo Brandão)
Enquanto anda de bicicleta numa estrada poeirenta, um garoto se vê viajando a uma velocidade além da imaginação, dentro de um raio de luz. É nessa mesma mente que nascerá, algum tempo depois, uma das mais revolucionárias ideias da ciência: a teoria da relatividade. Albert Einstein era um menino distraído com as maravilhas do mundo e acabou se tornando um dos maiores gênios da humanidade, iluminando profundamente a compreensão do universo que temos hoje. Jennifer Berne e Vladimir Radunsky convidam o leitor a viajar com Einstein numa jornada pela sua vida, desde o seu nascimento, e descobrir com ele o poder que a imaginação pode ter em cada um de nós.

Mula sem cabeça, de Ilan Brenman e ilustrações de Marjolaine Leray
Apesar de bem antiga, a lenda da mula sem cabeça ainda é contada em diversas regiões do Brasil. Mas como foi que ela surgiu? E quais seriam as impressões de um estrangeiro ao ouvir essa história tão particular do nosso folclore? Foi pensando nisso que Ilan Brenman resolveu contar, pra todos que quiserem saber, como nasceu a mula sem cabeça e desafiar uma ilustradora que vive bem longe daqui a criar a sua versão da assombração. Dá pra imaginar? O resultado é surpreendente!

Os nada-a-verde Jean-Claude R. Alphen e ilustrações de Juliana Bollini
Era uma vez uma cidade particular. Nela viviam seres especiais, todos diferentes um do outro. Cada um tinha o seu jeito e a sua turma, e não se misturavam com qualquer um. O-que-sorri era parente próximo d’O-que-assobia, que por sua vez era amigo d’O-que-quer-ficar-livre e d’O-que-cata-borboletas. Mas eles não podiam chegar perto de tipos como O-que-olha-o-relógio, O-que-conta-dinheiro, O-que-espera-pelo-pior, O-que-sempre-diz-não etc. (E muitos se identificavam com esse último tipo.) Acontece que um belo dia O-que-olha-o-espelho olhou um pouco mais para o lado e se deu conta de que existia outro tipo de beleza além da sua própria: era O-que-tem-cabelos-lisos. Foi paixão à primeira “olhada”, e também um escândalo, pois os dois não pertenciam ao mesmo grupo, de jei-to ne-nhum! Esse incidente se espalhou como fogo na floresta e logo a cidade estava transformada, e a encrenca, armada – O-que-acha-que-vai-dar-tudo-errado que o diga…

A cozinha encantada dos contos de fadasde Katia Canton e ilustrações de Juliana Vidigal e Carlo Giovani
Cozinhar é uma tarefa mágica. Um punhado de farinha, manteiga e ovos pode se tornar um lindo bolo, assim como um copo de leite gelado com sorvete e morangos vira um delicioso milk-shake. Com um pouco de persistência e criatividade, as coisas se transformam, ganham brilho, vida e graça, como num passe de varinha de condão. Neste livro, Katia Canton reuniu o encanto da culinária com a fantasia dos contos de fadas para apresentar as diversas receitas que aparecem em histórias como Cinderela, Pele de Asno, O Gato de Botas e muitas outras.

Nostalgia, aventura (e cervejas)

Por Leandro Sarmatz

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Veja bem, não me entenda mal. Não sou reacionário, passadista, há tempos que me esforço para deixar de ser nostálgico. Porque cada vez mais acho a nostalgia o fascismo da memória. Sim: lembrar é importante, a memória é o que nos faz humanos, mas nostalgia é outro negócio. Nostalgia é política daninha, nostalgia é marketing ruim, é uma engenhoca mental que pode nos aprisionar em desvãos pouco recomendáveis. A nostalgia está para memória assim como a aventura está para o turismo. É outra coisa. Talvez um rebaixamento da experiência, um universo edulcorado, frequentemente falso, uma impostura esperneando sua pretensa verdade. Tenho lutado contra a nostalgia.

É difícil, todavia. Esses dias meu boteco predileto atravessou a rua em Santa Cecília, aqui em São Paulo, e foi para um logradouro a princípio melhor, mais novo, mais ajeitado, moderno e cômodo. (O imóvel antes era ocupado por uma videolocadora, e é lícito dizer então que o streaming ajudou o boteco, tão real, a desbancar um negócio que sobreviveu mais do que deveria graças à nostalgia.) Ainda não o conheci — faltou tempo, e também coragem. Receio desgostar de cara, temo não aprovar a mudança e me enredar (novamente) na teia horrorosa da nostalgia.

Porém, se na chamada “vida real” a nostalgia pode ser corrosiva e paralisante, nas artes da imaginação ela me parece essencial. Como combustível, a nostalgia é parte constituinte da própria criação literária. A literatura ocidental, que começou sob o signo da aventura homérica, iria se nutrir da nostalgia desde o princípio. Pois ela é a fonte primordial da aventura. Exércitos empreendem uma guerra para reaver o status perdido; busca-se a amada para recriar um éden de paixão original; sujeito embarca num navio para reencontrar as paragens da infância. Sempre que há ação, a nostalgia está lá, explícita ou bem disfarçada.

É mesmo paradoxal. Porque realmente, na vida cotidiana, a nostalgia é uma botinada na memória, é uma violência e uma prisão. O que diferencia, digamos, um sujeito que fica com muxoxos diante da mudança de seu bar predileto e aquele que, num poema, romance ou filme evoca um passado? Antes que você diga, claro, o talento, acho que tem alguma coisa além disso. Talvez o filtro da linguagem seja a grande questão. Porque quando você reconstrói uma cena antiga — numa crônica, digamos —, é necessário um esforço organizador entre a memória e os limites (reais, possíveis) do próprio meio de expressão. É aí, então, que começa a aventura: a nostalgia deixa de ser um objeto em si (um telefone de baquelite anunciando uma ligação perdida) e passa a ser algo significativo não apenas para um pessoa. Ela vai falar algo para quem lembra e para quem lê (ou escuta) essa memória alheia.

Pensando bem, acho que vou fazer um poema pelo meu querido e velho bar Ugue’s.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Imagens da capital da vertigem

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A capital da vertigem, obra de fôlego do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, cobre o período entre 1900 e 1954, quando São Paulo se torna a principal cidade brasileira, passa por um profundo processo de industrialização e ultrapassa o Rio de Janeiro em tamanho, número de habitantes e geração de riquezas. A capital paulista passa também a ditar o modelo cultural que iria predominar no século XX: o modernismo.

O livro descreve as mudanças urbanas de São Paulo, o surgimento das grandes avenidas (Paulista, São João), dos parques e jardins a exemplo de cidades modernas, como Paris (o ajardinamento do Vale do Anhangabaú), e os primeiros arranha-céus (Edifício Sampaio Moreira, de 1924, Edifício Martinelli, de 1929, as primeiras casas modernistas de Warchavchik, de 1930). São Paulo se torna, de fato, uma cidade cosmopolita.

Separamos alguns trechos do livro sobre as mudanças da paisagem urbana da maior cidade da América do Sul e imagens raras em vídeos ao longo dessas cinco décadas para você ver São Paulo de um jeito diferente.

São Paulo de 1900 a 1910.

São Paulo na década de 1920.

Cenas da cidade de São Paulo no ano de 1943 mostram o Vale do Anhangabaú, Avenida 9 de Julho, Biblioteca Mário de Andrade, Estádio do Pacaembu, Avenida Brasil, Fábrica da Pirelli, entre outros.

São Paulo na década de 1940.

Edifício Martinelli, que leva o nome de seu idealizador, o imigrante da Toscana Giuseppe Martinelli.

“Martinelli contratou o arquiteto húngaro William Fillinger para fazer os primeiros esboços. Neles já apareciam as quatro reentrâncias, dando ideia de quatro corpos distintos, que seriam a marca registrada do edifício. A construção começou em 1924. Os cálculos da estrutura de concreto armado eram feitos com a meta de se levantar de catorze a eventualmente dezoito andares. Martinelli queria tudo do bom e do melhor. O cimento, que só dois anos depois começaria a ser produzido no Brasil, era importado da Suécia. (…) A inauguração foi em 1929. O prédio abrigou um hotel — o São Bento —, um cinema — o Rosário — e salões para eventos — o salão Verde e o Mourisco. Tudo ‘de luxo’.”

Edifício Banespa – inspiração no Empire State Building

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“Em fevereiro de 1946 o novo prédio do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) ainda estava a um ano e quatro meses da inauguração oficial, mas já se destacava na paisagem, no centro da praça Antônio Prado e a cavaleiro da avenida São João. A coroar seu porte esguio, os últimos andares se estreitavam uns sobre os outros, num estilo bolo de noiva que imitava o Empire State Building, símbolo supremo de Nova York e mais famoso arranha-céu do mundo. Nunca São Paulo expressara tão explicitamente a aspiração de ser Nova York. Era uma época em que a capital do delírio delirava de autocelebração. Era ‘a cidade que mais cresce no mundo’, além de ‘o maior centro industrial da América do Sul’, como apregoavam os letreiros nos bondes, ou ainda “o maior centro industrial da América Latina.”

Arquitetura modernista de Gregori Ilitch Warchavchik (vídeo com registro raro de Mário de Andrade recuperado pela Biblioteca da FAU/USP).

“Warchavchik fugiu do país natal convulsionado pela guerra civil em 1918; (…) em 1923, aos 27 anos de idade, embarcou para o Brasil. (…) Em 1927, Warchavichik casou-se com Mina Klabin, filha do industrial Maurício Klabin, de origem lituana. (…) No mesmo ano, em terreno destacado da vasta gleba possuída pelo sogro na Vila Mariana, ele poria pela primeira vez em prática suas ideias com a construção, na rua Santa Cruz, para própria residência, daquela que passaria para a história como a primeira casa modernista do Brasil. Toda branca, em formas rigorosamente geométricas e sem resquício de recursos decorativos, a casa da rua Santa Cruz, inaugurada em 1928, causou na mentalidade vigente espanto semelhante aos quadros de Anita Malfatti ou aos poemas da Pauliceia desvairada.”

Avenida São João – A Cinelândia paulistana e os cinemas palácios

“A São João já vinha cevando a condição de ‘Cinelândia paulistana’ desde a década anterior. Foi quando surgiram na avenida os primeiros “cinemas palácios” — salas amplas, suntuosas, de exuberantes fachadas. O primeiro dessa linhagem foi o Broadway (inaugurado em 1934), de fachada art déco e cúpula de vidro. (…) O segundo foi o Art Ufa (1936), administrado pela poderosa produtora cinematográfica Universum Film que ostentava no nome, e especializado em filmes alemães. (…) E o terceiro dos cinemas palácios foi o Metro (1938), de arquitetura igual à que a Metro-Goldwyn-Mayer impunha a seus exibidores ao redor do mundo. Na década de 1940 o investimento nos cinemas duplicou. Em 1943 surgiu o Ipiranga, na avenida do mesmo nome, mas juntinho à São João, quase na esquina. (…) Dois anos depois o Marabá lhe veio fazer companhia, do outro lado da rua. Havia ainda o Bandeirantes, no largo do Paissandu, o Ritz, na própria São João, o Ópera, na rua Dom José de Barros. E no fim da década de 1940 já estava em construção aquele que viria para arrasar — o Marrocos, na Líbero Badaró.”

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vertigemA CAPITAL DA VERTIGEM
Sinopse: Após reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo narra em A capital da vertigem sua arrancada rumo à modernidade. Eis uma cidade que deixa a condição de vila e se torna a maior metrópole do país. É a capital da vertigem: vertigem artística, industrial, demográfica, social e urbanística.

Lançamento:

São Paulo — Terça-feira, 30 de junho, às 19h, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (Rua Maranhão, 88).

Roberto Pompeu de Toledo também é um dos convidados da FLIP 2015. Ele divide a mesa “São Paulo! comoção de minha vida…” com Carlos Augusto Calil no dia 3 de julho, às 12h. Os ingressos estão à venda.