Semana trezentos e seis

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Companhia das Letras

Nuvem negrade Eliana Cardoso
Nos últimos setenta anos, o Brasil atravessou muitas crises: a transição política após o suicídio de Vargas, o pavor do comunismo nos anos 1960, um golpe militar e a corrupção empresarial e política. Esse é o cenário da história de Lotta, ativista política que acreditava no progresso; de Manfred Mann, homem sensível em busca de seu lugar no mundo; e de Kalu, garota de origem simples que tenta driblar o próprio destino. Com imensa concisão, Eliana Cardoso cria em Nuvem negra uma atmosfera sedutora, povoada de personagens que mostram como é complexa a equação entre amor, família e relações sociais — uma fórmula sobre a qual, muitas vezes, nenhum de nós tem qualquer controle.

De jogos e festas, de José J. Veiga
De jogos e festas reúne três novelas: “De jogos e festas”, “Quando a Terra era redonda” e “O trono no morro”. Livro vencedor do prêmio Jabuti em 1981, mostra que o extraordinário está nas pequenas coisas. Com olhar aguçado e sensibilidade para trazer os paradoxos do cotidiano, o autor apresenta três histórias que fogem do banal e trabalham — com humor e inteligência — os efeitos daquilo que nos parece completamente inesperado. Como escreve o crítico José Castello no brilhante posfácio à edição, “José J. Veiga desmonta a identificação mecânica entre o fantástico e o alheio, mostrando, ao contrário, que o fantástico não só está entre nós como é um efeito da constituição humana – um traço fundamental do próprio humano”.

Companhia das Letrinhas

Os voos de Thiago, de Philip Waechter (tradução de Sofia Mariutti)
Pode até parecer mentira, mas não é: Thiago sabe voar. Certo dia, ele resolveu se juntar a 83 pássaros que migravam para a África. Enquanto conheciam as mais lindas paisagens, eles fofocavam e cantavam, brincavam e comiam, e tudo ia às mil maravilhas — até que o sr. Morteiro, famoso caçador de pássaros da região, capturou um companheiro do bando. Agora, só mesmo somando a inteligência de Thiago com as habilidades do grupo é que eles encontrarão uma saída para salvar o pobre amigo Hugobertus…

Em tradução (Dublinenses)

Por Caetano Galindo

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Estou dando tratos razoavelmente finais à tradução de Dublinenses, único livro de contos de James Joyce, publicado em 1914, dois anos antes de Um retrato do artista quando jovem e oito anos antes do Ulysses.

Com a publicação do guia de leitura Sim, eu digo sim, no começo do ano, essa tradução encerra todo um projeto de dar ao leitor brasileiro a mais completa via de acesso ao Ulysses. Pois se o Retrato é a apresentação de Stephen Dedalus (e, em vários sentidos, pode ser considerado mesmo como a “primeira parte” do Ulysses), Dublinenses apresenta mais de TRINTA personagens que o leitor vai reencontrar no romance de 1922. E se em alguns casos se trata apenas de um nome que recorre, em outros acabamos tendo acesso a visões mais profundas e quase contraditórias, se comparadas ao que pudemos ver de cada um deles no Ulysses.

Tanto o Retrato quando esse Dublinenses devem sair com notas de leitura, pra facilitar o processo de se lidar com uma cultura cem anos e milhares de quilômetros distante, e também pra apontar essas conexões entre os livros. São ao todo mais de 400 notas, mais prefácios e “notas introdutórias” do tradutor. Quando os quatro livros estiverem nas livrarias, Ulysses, Guia, Retrato e Dublinenses, o nosso Kit-Joyce estará pronto. (E pensar no Finnegans Wake, pro futuro curto…?)

Mas, propagandas e autocongratulações à parte, lidar com os contos de Dublinenses me deixou pasmado. Como sempre.

Joyce gostava de correr riscos, e normalmente bancava os riscos e saía triunfante de cada experiência. O Retrato já é um livro arriscado: pense naquela primeira página, escrita toda no que seria o discurso indireto livre de uma criancinha, sem maiores explicações. Do Ulysses, nem preciso falar! Mas em Dublinenses, o que o leitor encontra é aquele que talvez seja o maior prosador da história da língua inglesa exercendo todo seu talento em chão e com regras muito mais firmes. É como se ele estivesse fazendo alongamentos pra saltar mais longe, testando suas forças, vendo o que é que poderia fazer na linguagem “tradicional” do conto tchekhoviano, flaubertiano.

Isso, claro, ainda tem que levar em conta que ele escreve os contos quase todos entre 1904 e 1906. Só “Os Mortos”, aquela pérola absurdamente linda, vem de 1907. E, veja bem, ele tinha 25 anos em 1907. Ele conseguiu escrever um conto incrível como “Eveline”, que envolve um mergulho sem freios na consciência de uma mulher, antes de completar 23 anos. Não é só de prosa que se fala aqui. É dessa capacidade de ser outras pessoas, de forçar os limites da empatia e, no fundo, os limites do “eu”. Daquilo que faz a grande literatura.

E é um prazer tremendo lidar com esse Joyce joalheiro, esse Joyce que, antes de se deliciar com uma estética de arestas, de riscos e furos, de excessos e faltas controladas, parece ter se dado o direito de ser perfeito.

Desculpa, parece chato, parece bobo, mas era só nisso que eu pensava enquanto traduzia. O que ele queria com esses contos era a “perfeição”. E conseguiu, com sobras, uma dúzia de vezes.

Fique aqui com uma amostra elegantíssima da abertura do conto “Uma Mãe”:

A srta. Devlin se tornou sra. Kearney por despeito. Tinha sido educada num convento de alto nível onde aprendeu francês e música. Como era por natureza pálida e de modos inflexíveis fez poucas amigas na escola. Quando chegou à idade de casar foi enviada a várias casas onde seu piano e seus modos ebúrneos foram muito admirados. Ficava sentada no centro do gélido círculo de seus talentos, esperando que algum pretendente tomasse coragem e lhe oferecesse uma vida luminosa. Mas os rapazes que encontrava eram comuns e ela não os encorajava, tentando consolar seus desejos românticos comendo não pouco manjar turco às escondidas. No entanto, quando foi chegando ao limite e suas amigas começaram a soltar a língua a respeito dela, ela as calou se casando com o sr. Kearney, que fabricava botas no Ormond Quay.

Era muito mais velho que ela. Sua conversa, que era séria, surgia esporadicamente de sua grande barba castanha. Depois do primeiro ano de casada a sra. Kearney percebeu que um homem desse tipo ia envelhecer melhor que uma pessoa romântica mas ela nunca deixou de lado suas ideias românticas. Ele era sóbrio, econômico e devoto; ia até o altar toda primeira sexta-feira do mês, às vezes com ela, mais normalmente sozinho. Mas ela nunca diminuiu sua religiosidade e era uma boa esposa para ele. Em alguma festa numa casa desconhecida quando ela erguia a sobrancelha só um tiquinho ele levantava para se despedir e, quando a tosse dele incomodava, ela colocava um acolchoado sobre seus pés e lhe fazia um ponche de rum bem forte.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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11 livros para ler no Dia do Rock

Biografias, romances, livros que se inspiram em canções ou bandas e que falam sobre grandes nomes da música: escolhemos onze leituras para você aproveitar no Dia do Rock! :)

1. Atravessar o fogo, de Lou Reed

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O primeiro da lista não poderia ser outro. Atravessar o fogo, que faz parte da coleção listrada da Companhia das Letras, reúne traduções de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo para mais de 300 letras de Lou Reed. À frente do Velvet Underground, Reed “trouxe dignidade, poesia e rock and roll a temas como as drogas pesadas, as anfetaminas, a homossexualidade, o sadomasoquismo, o assassinato, a misoginia, a passividade entorpecida e o suicídio”, nas palavras do lendário crítico musical Lester Bangs, com quem mantinha uma notória relação de amor e ódio. Com sua carreira solo não foi diferente. Neste livro, o leitor pode contemplar o gênio de Lou Reed em suas múltiplas facetas: o cronista do submundo nova-iorquino, o narrador de inegável talento para capturar as vozes das ruas, o fetichista depressivo com tendências suicidas e masoquistas, o amante da literatura e das artes de vanguarda.

2. John Lennon, de Philip Norman

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Biografias de grandes nomes do rock estão no nosso catálogo, e uma delas é de John Lennon. Escrito após três anos de pesquisa, e longe de contentar-se com curiosidades ou mexericos, Philip Norman fez de John Lennon: a vida o relato biográfico mais completo já escrito sobre uma das personalidades mais fascinantes da segunda metade do século XX. Com acesso a documentos inéditos e testemunhos diretos de Yoko Ono, Sean Lennon e Paul McCartney, entre outros, Norman começa por descrever em detalhes infância e adolescência do ex-Beatle, e logo traz à tona episódios e personagens cruciais para o entendimento de uma figura tão unanimemente admirada quanto controvertida.

3. Linha Mde Patti Smith

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Em 1970 Patti Smith lançou Horses, considerado precursor do punk rock e um dos cem melhores álbuns de todos os tempos. Daí para frente, Patti não parou com sua carreira na música, que é marcada pela sua paixão por poesia. Linha M é um livro onde podemos ver seu talento também para a literatura. Num tom que transita entre a desolação e a esperança — e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão de Patti Smith sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

4. Só garotos, de Patti Smith

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Não tem como falar de Patti Smith sem lembrar de Só garotos, livro em que fala sobre o início de sua carreira, quando se muda para Nova York no final dos anos 1960, e de seu relacionamento de amor e amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem prometeu escrever a sua história. Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970.

5. Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

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Não só de música é feito Cidade em chamas, primeiro romance de Garth Risk Hallberg, mas ela é parte importante dessa história que recria a Nova York dos anos 1970. Clássicos álbuns do rock inspiraram o autor na escrita do livro (como The Rolling Stones, Patti Smith e Lou Reed, já citados na lista), e um de seus protagonistas é ex-vocalista de uma lendária banda de punk-rock, a fictícia Ex-Post Facto. Entre shows em bares abafados da cultura underground, os negócios de uma rica família de NY e a investigação de um crime, as personagens de Cidade em chamas se esbarram pela cidade que passa por transformações sociais e culturais.

6. Minha fama de mau, de Erasmo Carlos

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Com cabeça de homem e coração de menino, o cantor e compositor Erasmo Carlos conta em Minha fama de mau suas divertidas memórias, da infância humilde à consagração como ídolo do rock. Considerado por Rita Lee como “o pai do rock brasileiro”, Erasmo reuniu por dois anos e meio passagens que costuram os detalhes de sua vida e sua carreira para narrar como o menino criado pela mãe numa casa de cômodos superou todas as limitações e o preconceito da Zona Sul carioca, consagrando-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como o porta-voz sentimental de milhões de pessoas.

7. Do que é feita uma garotade Caitlin Moran

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Do que é feita uma garota não é um livro sobre rock, mas ele é constante na vida da narradora, a adolescente Johanna Morrigan. Depois de passar vexame num programa de TV local aos 14 anos, a jovem decide mudar de vez para virar uma “garota legal”: se transforma em Dolly Wilde, uma menina gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Nos anos 1990, ela escreve críticas de shows e álbuns para uma revista de música, se relaciona com rockstars, vê nas letras das canções que escuta aquilo que faltava para a sua vida. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota? Caitlin Moran faz do livro uma história divertida sobre crescer e construir sua própria identidade.

8. Mick Jagger, de Philip Norman

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Mick Jagger é o astro da música que melhor encarnou o ideal de sexo, drogas e rock’n’roll. Nesta que é a mais completa biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman refaz os passos da consagração de Mick Jagger e mostra como ele se tornou um showman sedutor, o protótipo do pop star genial, escandaloso e milionário. Passando pela infância e momentos turbulentos de sua carreira, Norman narra como, em sua longa trajetória de mais de cinquenta anos como astro e ícone sexual, Mick Jagger foi assimilado pelo establishment, mas manteve a mística transgressiva e fascinante do rock.

9. Norwegian Wood, de Haruki Murakami

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Uma música dos Beatles leva o narrador deste livro, Toru Watanabe, a lembrar de sua juventude em Tóquio, onde chegou aos 17 anos para estudar teatro. E é esta música que dá título a Norwegian Wood, romance de Haruki Murakami. Vivendo solitariamente em um alojamento de estudantes, um dia reencontra um rosto de seu passado: Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência antes deste cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório. Ambientado em meio à turbulência política da virada dos anos 1960 para os anos 1970, Norwegian Wood é uma balada de amor e nostalgia cuja rara beleza confirma Murakami como uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea.

10. A maçã envenenada, de Michel Laub

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Em 1993, o grupo norte-americano Nirvana fez uma única e célebre apresentação no estádio do Morumbi, em São Paulo. Um estudante de dezoito anos, guitarrista de uma banda de rock e cumprindo o serviço militar em Porto Alegre, precisa decidir se foge do quartel — o que o levaria à prisão — para assistir ao show ao lado da primeira namorada. A escolha ganha ressonâncias inesperadas à luz de fatos das décadas seguintes. Um deles é o suicídio de Kurt Cobain, líder do Nirvana, que chocou o mundo em 1994. Outro é o genocídio de Ruanda, iniciado quase ao mesmo tempo e aqui visto sob o ponto de vista de uma garota, Immaculée Ilibagiza, que escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras sete mulheres. Focado nos anos 1990, A maçã envenenada é o segundo volume da trilogia sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas iniciada com Diário da queda, cuja ação central se dá nos anos 1980. Como no volume anterior, Michel Laub aborda o tema da sobrevivência usando os recursos da ficção, do ensaio e da narrativa memorialística, numa linguagem que alterna secura e lirismo, ironia e emoção no limite do confessional.

11. Alta fidelidadede Nick Hornby

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E terminamos nossa lista do Dia do Rock com um livro cheio de listas musicais! Rob é um sujeito perdido. Aos 35 anos, o rompimento com a namorada o leva a repensar todas as esferas da vida: relacionamento amoroso, profissão, amizades. Sua loja de discos está à beira da falência, seus únicos amigos são dois fanáticos por música que fogem de qualquer conversa adulta e, quanto ao amor, bem, Rob está no fundo do poço. Para encarar as dificuldades, ele vai se deixar guiar pelas músicas que deram sentido a sua vida e descobrir que a estagnação não o tornou um homem sem ambições. Seu interesse pela cultura pop é real, sua loja ainda é o trabalho dos sonhos e Laura talvez seja a única ex-namorada pela qual vale a pena lutar. Alta fidelidade é um romance sobre música e relacionamento, sobre as muitas caras que o sucesso pode ter e sobre o que é, afinal, viver nos anos 1990.

Lendo Cidade em chamas

Por Carol Bensimon

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Foto: Logan Hicks

A minha maluquice é querer entender demais as coisas. Quando pego um livro para ler, óbvio que uma parte de mim está andando com a história, vivendo aquele lance que a gente chama de suspensão da descrença, mas outra certamente fica pensando em como é que a ficção está conseguindo tirar (ou não tirar) aquilo de mim; como é que, em resumo, a ficção está me deixando naquele estadinho emocional constrangedor. Normalmente dá pra entender o funcionamento de algumas engrenagens, porque a gente treina bastante para isso. Mas há mistérios insolúveis, lindos mistérios. Recentemente, os contos de Alice Munro. Eu não conseguiria nem falar sobre esses contos se quisesse, e a sensação de que eu perdi alguma coisa parece proporcional à minha atração por eles. Não dá para entender.

Cidade em chamas. Melhor não citar os fatos que costumam começar qualquer resenha ou matéria sobre o livro-de-mais-de-mil-páginas do norte-americano Garth Risk Hallberg. Eles não têm nada a ver com o romance de fato. São fofocas literárias e movimentos de mercado editorial. Estou na metade do livro, portanto leve isso em consideração se quiser, o fato de que ainda não terminei a leitura e estou me metendo a falar sobre ele sem ter lido, por exemplo, a parte que se passa durante o grande blecaute de 1977 em Nova York, uma das cenas mais impressionantes do romance de Hallberg, segundo dizem. Mas acho que vai ficar tudo bem. Minhas considerações têm mais a ver com linguagem do que propriamente com trama.

Aquele prólogo já deixava claro que vinha coisa boa. Pra mim, quer dizer. Eu me sinto muito seduzida por coisas do tipo apesar de ela [a geladeira] só conter uma barra mesozoica de manteiga que o pessoal que está me hospedando deixou para trás quando se mandou para a praia (…). A barra mesozoica de manteiga me pegou. Há um certo ritmo que também me pega. E coisas como: As sirenes e os ruídos do trânsito e dos rádios flutuam vindo das avenidas como lembranças de sirenes e ruídos de trânsito e de rádios. Por trás das janelas de outros apartamentos, TVs estão sendo ligadas, mas ninguém se dá ao trabalho de baixar as persianas. Dá para estar lá dentro, naquela Nova York dos setenta, com muita facilidade.

De fato, meu livro já está todo sublinhado. Há imagens muito bonitas, que vão do “cigarro fantasma” (o cigarro que vai virando cinza sem ninguém bater a porcaria do cigarro) a uma descrição detalhada de cheiros: Sam ainda lembrava do cheiro da mãe quando ela voltava ao sofá, chocolate em pó e marshmallow derretido, sim, mas também uma intrincada coisa meio florestal que dizia Califórnia, de onde ela tão improvavelmente viera. Por algum motivo, no entanto, a mesma coisa que me fascina acaba me parecendo um pouco cansativa.

E não é só uma questão de cansaço, mas de ter a impressão de que eu não estou entrando no tal do estadinho emocional constrangedor. Talvez o acúmulo de imagens espertas crie um efeito indesejável de distanciamento. Esperteza, aliás, é uma palavra bem adequada aqui; Cidade em chamas exala um tipo de inteligência malandra que, com frequência, deságua em um sorrisinho de canto de boca. É possível que isso tenha uma relação com os tais andaimes que Zadie Smith menciona em um de seus ensaios sobre escrever um romance, os andaimes necessários no processo, mas dos quais o escritor deve se livrar depois. Embora ela esteja falando provavelmente de montagem da trama, não parece ruim supor que o excesso de imagens-nunca-pensadas-antes acabe chamando muita atenção sobre si mesmo (como andaimes?), me jogando para fora da história. É claro que eu não quero propôr uma discussão forma x conteúdo aqui. Só estou tentando entender uma sensação de leitura.

Eu diria que a questão de fundo é a seguinte: há no narrador de Hallberg um palpável medo de se levar a sério. Talvez esse seja o medo de toda uma geração (a minha). Opiniões sobre isso, ou sobre qualquer aspecto de Cidade em chamas, são muito bem-vindas.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Marque na agenda

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Lançamento de O que é que ele tem
Segunda-feira, 11 de julho, às 19h
Olivia Byington autografa o livro O que é que ele tem em São Paulo.
Local: Livraria da Vila — Alameda Lorena, 1731 — São Paulo, SP

Frei Betto autografa Fidel e a religião
Segunda-feira, 11 de julho, às 19h
Frei Betto lança a nova edição de Fidel e a religião pelo selo Fontanar e autografa o livro no Rio.
Local: Restaurante Esch Café — Rua Dias Ferreira, 78A, Leblon — Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de Minhas duas meninas
Terça-feira, 12 de julho, às 19h
Em Minhas duas meninas, a jornalista Teté Ribeiro conta sua experiência com uma barriga de aluguel na Índia. Ela autografa o livro em São Paulo.
Local: Livraria Cultura do Conjunto Nacional — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Debate com Bernardo Kucinski
Quinta-feira, 14 de julho, às 19h30
B. Kucinski e Ivone Benedetti debatem no evento “Ler para não esquecer: Ditadura militar e literatura no Brasil”. Kucinski também autografa no dia o seu novo livro, Os visitantes.
Local: Fnac Pinheiros — Praça dos Omaguás, 34 — São Paulo, SP

Eliana Cardoso lança Nuvem negra
Quinta-feira, 14 de julho, às 19h
Eliana Cardoso autografa em São Paulo Nuvem negra, seu novo romance.
Local: Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis — Av. Higienópolis, 618 — São Paulo, SP

PC Siqueira
PC Siqueira e Alexandre Matias autografam o livro PC Siqueira está morto no Rio de Janeiro e em Fortaleza. Confira as datas:

  • Rio de Janeiro
    Quinta-feira, 14 de julho, às 19h
    Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Rua Afrânio de Melo Franco, 290 — Rio de Janeiro, RJ
  • Fortaleza
    Sábado, 16 de julho, às 15h
    Local: Sana Fest — Centro de Eventos do Ceará — Av. Washington Soares, 999 — Fortaleza, CE