Semana duzentos e vinte e dois

Os lançamentos desta semana são:

Vida e obra de Terêncio Horto, de André Dahmer
Artista plástico e desenhista, André Dahmer tomou de assalto os quadrinhos brasileiros da última década. O ponto de partida foi, é claro, a internet. Ao se apropriar da linguagem, das técnicas e da cultura da rede, Dahmer pôde subvertê-las com ironia fina, acidez e uma capacidade infinita de se valer de um discurso conhecido e observá-lo por ângulos incomuns e reveladores. Em Vida e obra de Terêncio Horto, é outra das obsessões de Dahmer que vai para o primeiro plano: a arte. Escritor eternamente frustrado, tão ambicioso quanto amargurado, Terêncio passa os dias em frente a uma máquina de escrever, seja redigindo suas memórias, seja dando vida a personagens cínicos, desiludidos e de um pessimismo assombroso. É a partir desse esqueleto enganosamente simples que Dahmer vai dar vazão a impressões sobre literatura, pintura, música e, por que não, sobre a vida em geral.

Diário da Dilma, de Renato Terra
Diário da Dilma começou como uma seção da revista piauí. Todos os meses, a publicação trazia uma página de sátira sobre a rotina da chefe do Executivo. A ideia partiu do então editor da revista, Mario Sergio Conti, mas coube ao jornalista Renato Terra dar forma à seção e assumir a função de “ghost writer” da presidente.
A Dilma criada por Renato Terra é atenta aos mínimos detalhes do penteado, adora jogar tranca, paparica o neto, faz fofoca com amigas da Casa Civil e da Petrobras e vive a suspirar por seu príncipe encantado, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. A seção é inspirada numa coluna sobre a ex-primeira dama francesa Carla Bruni, criada pelo jornal humorístico francês Le Canard Enchaîné. Para compor o diário, Terra mergulha no noticiário nacional, descobre cores de esmalte e tendências fashion em revistas femininas, capricha no vocabulário cafona e fica de olho na agenda cumprida pela presidente na vida real. Muitas informações de bastidores servem de material: há histórias que parecem brincadeira, mas são dados exclusivos recebidos pelo jornalista. De todo modo, a mistura entre fato e ficção não deixa dúvida sobre o traço que predomina em todos os textos: o humor corrosivo e escrachado.

Portfolio Penguin

#VQD - Vai que dá!, de Joaquim Castanheira (org.)
Qual seria o melhor sinônimo para “empreender”? Quando ouve essa pergunta, Jorge Paulo Lemann, talvez o mais bem-sucedido empresário brasileiro, costuma responder:“Vai que dá!” . Essas três palavras traduzem o espírito dos empreendedores de alto impacto: um otimismo incurável, a paixão pelo negócio que criaram e a vontade contagiante de fazer acontecer. Este livro reúne a origem de dez empreendedores que estão transformando o Brasil com o impacto dos seus negócios. Suas histórias, comentadas por mentores que acompanharam de perto seus desafios, mostram que não há um trilho definido para o sucesso que possa ser explicado por teorias e manuais. As trajetórias de cada um deles seguem um caminho próprio, que se cruzam apenas no brilho nos olhos com que cada um fala de sua jornada e de sua capacidade para resolver problemas da sociedade.O exemplo desses empreendedores tem o enorme poder de inspirar e motivar aqueles que querem encontrar os seus próprios caminhos no mundo do empreendedorismo. Para essas pessoas, Vai que dá! é leitura obrigatória.

Seguinte

Mundo novo, de Chris Weitz (trad. de Álvaro Hattnher)
Depois que um misterioso vírus erradicou toda a população, exceto os adolescentes, os jovens dividem-se em tribos para sobreviver. Jefferson, o inseguro líder da tribo da Washington Square, e Donna, a garota por quem ele está apaixonado, se estabelecem precariamente em meio ao caos. Porém, quando outro integrante do bando descobre uma pista que pode levar à cura da Doença, eles partem em uma viagem arriscada para salvar o que restou da humanidade. Enquanto isso, Jeff tenta criar coragem para se declarar para Donna, e a garota luta para entender seus próprios sentimentos – afinal, conforme os dias passam, a adolescência vai ficando para trás e a Doença está cada vez mais próxima.

 

“A professora”, um conto da infância

Por Raphael Montes


Eu tinha 12 anos quando resolvi que seria escritor e comecei a rascunhar um conto nas últimas folhas de um caderno de português. Recentemente, arrumando tralhas, encontrei o tal caderno. Percebi dezenas de defeitos no texto, claro, mas resolvi transcrevê-lo com fidelidade, corrigindo apenas os erros de português, que eram muitos. A releitura do conto foi marcante para mim: não só me espantou a morbidez da história (que reitera minha teoria de que crianças têm lá sua dose de maldade) como notei que o conto visita temas explorados mais tarde em meu primeiro romance publicado, Suicidas (escrito aos 16). Enfim, achei pertinente — ao menos curioso, vai — compartilhar esse meu primeiro conto da infância com vocês. Nos comentários, me digam o que acharam!

* * *

A professora

Ela já havia tentado o suicídio antes. Cinco vezes. Mas acabava desistindo. O revólver Magnum 608, oito tiros, devolvido à gaveta do esquecimento. Às vezes, ela sentia necessidade de pegá-lo novamente, de testar seu peso, o tato frio com o metal. Em momentos íntimos, levava o revólver à cabeça, o cano massageava a têmpora, sabendo que bastava puxar o gatilho para dar fim àquilo tudo.

Então, ela pensava em seus alunos. Ah, seus alunos! Como ela os amava! Eram a única coisa que realmente tinha de valioso: suas mentes infantis, abertas ao saber oferecido em cada lição. Deus!, era tão fácil encenar para eles! Sobre o tablado, mascarar sua vida deprimente com sorrisos de simpatia e uma felicidade sublimável. Eles a adoravam, a professora sabia. De certa forma, era isso que a mantinha viva, sem coragem de acionar o revólver no momento decisivo. Eles a chamavam de volta. Chamavam-na para a vida, para a aula no dia seguinte… E, nesses segundos, ela se sentia muito feliz e amada. Eles — seus alunos — não a julgavam. Ao contrário dos adultos com quem convivia, eles não a encaravam com desdém, um olhar reprovador, ou, pior, um olhar de piedade só porque ela era gorda.

Sim, ela era gorda! E Deus sabe como era difícil admitir isso… Tantas horas na academia, tantas dietas, tantos livros de autoajuda… Para quê? Ela continuava a suportar os comentários furtivos, as perguntas ofensivas — Onde está aquele seu namorado da última festa, querida? — e o jogo de aparências. Tinha certeza de que era o assunto principal nas rodas quando não estava presente; motivo de risinhos escondidos. Podia imaginá-los gargalhando dela, rindo a valer de cada parte de seu corpo; podia imaginá-los à mesa do café da manhã, comentando a noite anterior, comentando que ela engordara ainda mais e que, desse jeito, nunca conseguiria um marido e estaria fadada à solidão. Criariam alcunhas, comparações e apelidos… Tudo para se divertir na próxima vez em que a vissem.

Por isso, ela precisava da arma. Precisava tê-la ali, ao alcance das mãos. Quando a comprara, três anos antes, estava com medo de assaltos a residências do bairro. Era uma forma de se defender dos bandidos, caso invadissem sua casa. Agora, a arma tinha outra função. Servia para defendê-la do mundo, o mundo nocivo lá fora, o mundo que a desprezava por ser gorda, por não ter atrativos físicos, por não ser bonita. A arma era a fuga para quando ela se sentia sufocada. Bastava puxar o gatilho. Deixar para trás os amigos fofoqueiros, a preocupação com o corpo, a busca por um amor que nunca viria… Tão simples, tão fácil!

Naquela manhã, ela acordou com vontade de comer pão doce. E se condenou por isso. Ah, ela adorava pão doce! Mas não podia, não podia mesmo! Ficaria mais gorda, mais feia, mais, mais e mais. Para saciar-se, correu até a gaveta — sua gaveta mágica. Pegou a arma num resfolegar e se acalmou ao senti-la em suas mãos. Carregou o revólver com uma única bala e levou-o à cabeça, esperando a sensação passar. A adrenalina percorria suas veias, expelida pelos poros.

A professora esperou vinte minutos, mas a sensação não passou. Diferente das outras vezes, continuou lá, insistindo para que ela completasse o serviço. Em alguns momentos, ela chegou a pressionar levemente o gatilho; uma força um pouco maior explodiria sua cabeça. Mas o que viria depois? Teria um mundo melhor para viver? Nesse mundo, as pessoas não ligariam para o peso umas das outras? Lá, ela encontraria alguém que a amasse como seus alunos?

Seus alunos!

Viu no relógio da cozinha que estava atrasada. Dali a vinte minutos deveria estar na sala de aula, aplicando a prova bimestral para as crianças. Pensou em correr, vestir uma roupa qualquer, buscar o carro na garagem para chegar o mais rápido possível à escola, mas não se moveu. A sensação ainda era muito forte. Estava paralisada, a arma em punho.

Teve uma ideia; um flash que invadiu sua mente trazendo a solução exata. Como não tinha pensado nisso antes!? Era tão óbvio: levar seus alunos com ela! Matar alguns deles e depois cometer suicídio. A garantia de que continuaria a ser amada por eles onde quer que fossem depois da morte. Era perfeito! O revólver suportava oito balas. Uma para ela. O restante para sete alunos que ela escolheria na hora; alunos que adorariam morrer com ela porque a amavam!

Extasiada, a professora carregou o tambor com oito balas e se arrepiou ao ouvir o clique metálico da arma. Guardou-a na pasta, junto do envelope com as provas. Saiu de casa assoviando uma canção que inventou na hora.

 

“Desculpem o atraso, crianças. Tive alguns problemas antes de sair de casa.”

Entrou na sala, ofegante. O relógio acima do quadro-negro registrava os dez minutos de atraso.

“Vamos sentar! Vou começar a prova! Guardem os estojos, apenas lápis e caneta em cima da mesa!”

Todos obedeceram. Eram tão bonzinhos! Seria muito difícil escolher apenas sete. Distribuiu as provas e observou-os, com um sorriso. Tão dedicados e inteligentes! Nenhum deles viu quando a professora tirou a arma da bolsa. Não viram quando ela mirou o revólver em direção a suas cabecinhas, passando um por um.

Artur, Clara, Lucas, Bruno, Carol, Mário, Vera…

Todos tão queridos! Tão especiais!

Caminhou pela sala, o revólver escondido nas costas.

Parou ao lado de Caio. Os cabelos loiros caindo sobre a testa, os argutos olhinhos azuis que acompanhavam as explicações dela no quadro. Ele era adorável. Sem dúvida, seria um dos sete…

E Joana? Os cabelos ruivinhos encobrindo a prova sobre a carteira. A Joana a amava! Gostava dela como uma mãe… Trazia presentinhos e chocolates quase todo mês! Era hora de retribuir tanto carinho. Ah sim, ela também estava escolhida!

Anabela levantou o braço e a professora se aproximou. Pobre Anabela, bela apenas no nome. A menina tinha uma personalidade forte para seus onze anos, era comunicativa e talentosamente persuasiva. Daria uma ótima advogada. Ou, talvez, uma ótima professora. Assim como ela: uma mulher inteligente, profissional; mas feia. Feia e gorda. Acabaria exatamente como ela… Cometendo suicídio, percebendo que acabar com a própria vida é a melhor solução nesse mundo de pessoas magras.

Decidiu que também levaria Anabela. Não porque gostasse especialmente dela — preferia os alunos magros e bonitos —, mas para fazer um favor à menina. Poupá-la dos anos de tortura e recusa, poupá-la dos risinhos sacanas a suas costas, poupá-la da dor…

Encostou-se na parede do final da sala. Faltava pouco. Estudou as cabecinhas pensantes, inocentes, dedicadas a tirar uma nota dez para alegrar a mãe no fim do mês.

Escolheu os outros quatro sem muita dificuldade.

Sete alunos. Quatro meninos e três meninas.

Caio, Victor, Rafael, Pedro, Joana, Clara e Anabela.

Sete amigos que partiriam com ela.

Os tiros causariam grande alvoroço no colégio. Sem dúvida, poderiam ouvir os estampidos a quilômetros de distância. A polícia chegaria logo. Ela teria que agir depressa. Respirando fundo, mirou na cabeça de Anabela. Sem chances de erro.

Sentiu a alavanca do gatilho brincar com seu indicador, provocativa. Fechou os olhos ao puxar o gatilho, deixando que os gritos infantis lhe dessem respostas. Ouviu passos, o ranger das carteiras, correria… Eles estavam fugindo! Malditos! Estavam fugindo! Como podiam fazer isso com ela?!

Deu outro tiro ao léu.

Abriu os olhos e viu diante dela a menina Anabela, morta. A cabeça empapava de sangue a prova sobre a carteira. O corpo rechonchudo era um monte de carne fria e flácida. A sala estava vazia. Os outros a tinham abandonado. Traidores! Medrosos! Haviam optado por continuar nesse mundo de dietas. Apenas Anabela estava ao seu lado. Apenas Anabela não a havia traído. Tinha ficado ali, morta, sua imagem e semelhança quando criança. Gorducha e inteligente.

Eram como mãe e filha…

Teve vontade de chorar. Mas não havia tempo. Não lhe restava mais nem um segundo. Logo a polícia chegaria.

Caminhou pesadamente em direção ao tablado, seus quarenta e nove quilos dificultando cada passo. Ela era gorda. Sabia disso. E ninguém haveria de lhe dizer o contrário. O espelho não a deixava mentir. Bastava comparar com as mulheres esguias nas revistas, com as modelos na televisão… Era gorda. Deveria seguir seu destino junto de Anabela. Calar os comentários, as críticas e as piadinhas que faziam dela…

Lançou um último olhar a Anabela. Gorda e feia.

Então, puxou o gatilho.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

Site — Facebook — Twitter

Uma conversa sobre medo e criatividade com Stephen King

Por Ana Maria Bahiana


Foto: Steve Schofield

Quando, meses atrás, tive a oportunidade de conversar com Guillermo del Toro, uma boa parte do nosso papo envolveu Stephen King, que Del Toro considera o maior autor de ficção de terror da atualidade. Mal sabia eu que, não muito tempo depois, teria a oportunidade de encontrar Mr. King em pessoa.

Na verdade, esse não foi nosso primeiro encontro. Mas com certeza ele não vai se lembrar que, na plateia alegremente chorosa da formatura da turma de 2001 do prestigioso Vassar College, da qual ele era paraninfo, lá estava eu, no papel de mãe extática de um dos formandos. A conexão Stephen King-Vassar ia mais além: Owen, o caçula do casal de autores Stephen King & Tabitha Hill, foi colega do meu filho em várias disciplinas, e estava entre os formandos daquela amena tarde de maio de 2001. Profeticamente, King disse no seu discurso aos formandos que estava ali para imbuir neles a necessidade de “ter muito medo”: “Medo do futuro, que não é tão cor de rosa como todo mundo que em geral está aqui neste pódio diz a vocês.”

Fora a formatura, as esbarradas nas sempre aflitas visitas aos filhotes no campus da Vassar e as muitas horas dentro da minha cabeça graças aos livros que sempre devorei tão avidamente, este foi mesmo primeiro tête a tête com o homem que provavelmente mais pôs medo em gente pelo mundo afora.

E o que descubro? Que ele é um homem sem medos (fora o acidente que quase o matou em 1999, quando foi atropelado por um caminhão desgovernado numa estradinha rural do seu querido estado natal do Maine); que seu primeiro trabalho foi como comentarista de cultura pop no jornal da universidade; que o único filme que não aguentou ver até o final foi Transformers (“a coisa mais ridícula que vi na vida”); e que atualmente está passando por “uma fase Emile Zola. Nunca tinha lido antes. Peguei um livro por acaso e fiquei doido. Que coisa incrível”.

* * *

De onde vêm suas ideias?
Do nada, aparentemente. Depois de todo esse tempo ainda não tenho uma explicação melhor do que essa. O máximo que consigo dizer é que vejo algo dentro de coisas, pessoas e situações. Por exemplo, eu estava num evento na França no final do ano passado, indo para o evento num SUV grande, bem alto e, quando paramos, ficamos quase na mesma altura de um ônibus que parou ao nosso lado. Eu olhei pela janela e dei de cara com um homem na janela do ônibus lendo um jornal. E aí eu pensei: que interessante, estamos a menos de 60 centímetros um do outro mas somos dois mundos diferentes, duas pessoas indo em direções diferentes e no entanto tão, tão próximos. E aí comecei a pensar… e se… e se não fosse um homem, fosse um casal, e na hora em que por acaso eu olho para a janela o homem corta a garganta da mulher e nós estamos ali pertinho, a menos de 60 centímetros de distância e seguimos em direções opostas… Essa é uma história que eu gostaria de contar. Não tenho uma metáfora boa para explicar, mas é meio como estar de patins e segurar no para-choque de um caminhão… você vai se deixando levar.

Você anota e guarda essas ideias? Woody Allen faz isso. Ele diz que nunca vai ficar sem ideias para filmes porque tem uma gaveta cheia de papeizinhos…
Não anoto mais não. Acredito que o tempo tem que dizer se uma ideia é boa ou ruim. Ter um caderno ou uma gaveta cheia de ideias não faz sentido para mim — eu com certeza ia gastar tempo e espaço anotando um monte de ideias ruins. Uma ideia ruim a gente esquece e é assim que deve ser. Uma boa ideia fica na sua cabeça até que você faça uso dela. Nem sempre foi assim — houve um tempo, quando eu era mais jovem, que eu tinha tantas ideias ao mesmo tempo que literalmente me sentia como se meu crânio fosse explodir. Nessa época eu odiava ter que trabalhar num livro porque isso queria dizer que eu não ia poder estar trabalhando em outro. Escrever um livro é como estar casado — você tem que ser fiel ao seu projeto, tem que ficar trabalhando nele e se uma ideia linda aparece, uma ideia maravilhosa, você não pode sair correndo atrás dela… Tem que ser fiel à sua esposa, ao seu projeto. Nessa época eu anotava ideias. Se você me encontrasse quando eu tinha 40 anos eu teria uma gaveta com ideias. Hoje eu conheço melhor como se dá esse processo. E tenho menos ideias. Mas são ideias melhores, acho.

Qual o seu processo de trabalho, de criação?
É difícil de explicar, porque não é uma coisa clara e verbal para mim, mas vou tentar. Quando eu começo a visualizar as pessoas, onde elas estão, o que estão fazendo, o que vão fazer, como elas falam, como se sentem, qual seu discurso interior, então elas se tornam reais e não tenho vontade de me levantar da cadeira, o que é ótimo mas também terrível, porque é uma coisa muito exigente e muito difícil e absolutamente retira você do mundo ao seu redor, do mundo das outras pessoas à sua volta… E eu não quero sair do mundo das pessoas sobre as quais estou escrevendo, não consigo usar a palavra “personagens”, eu quero ficar no mundo que está na minha cabeça, porque estou vendo com clareza o mundo na minha cabeça e mais nada tem a mesma importância. Deu pra entender? Isso explica alguma coisa?

Você está quase descrevendo um filme na sua cabeça…
Somos uma geração que cresceu com cinema e televisão. Ver com o olhar da câmera é segunda natureza para nós.

Por falar em cinema: você continua não gostando da adaptação de Stanley Kubrick para O Iluminado?
Continuo. Minha opinião não mudou. Não acho que seja um filme muito bom. É lindo de se ver, mas a mesma coisa pode ser dita de um Cadillac clássico que tenha sido bem tratado. É um filme frio. No livro, Jack Torrance, o protagonista, tem o arco narrativo de um herói trágico, ele está determinado a fazer o que for melhor para sua família e pouco a pouco ele é sugado, manipulado, indo e vindo, indo e vindo até que ele quebra completamente. Wendy Torrance, a esposa, é uma mulher bonita que tem uma enorme coragem, muita fibra, muito coração, é uma mulher notável. E Kubrick me dá um Jack Nicholson que parece que está sendo incorporado por um delinquente juvenil motoqueiro de um filme B dos anos 60 e uma Shelley Duval que é uma espécie de caricatura anti-feminista, uma máquina de gritos histéricos. Não é meu livro e não é um bom filme, pra mim. É todo estilo e nenhuma substância.

Do que você tem medo?
Não tenho muito medo não. Deve ser porque passo meus medos para os meus leitores (gargalhada). Eu durmo muito bem e tenho pouquíssimos pesadelos porque acho que já trabalhei todas essas coisas nos meus livros (nova gargalhada). Que ótimo negócio pra mim! Tive uma infância normal, tranquila. O que sempre tive foi uma grande, enorme imaginação. O que eu tive de medos e pesadelos foi consequência dessa imaginação. E criei um modo fantástico de me livrar deles: em vez de pagar a um analista 120 dólares a hora para ouvir meus medos e pesadelos, as pessoas me pagam para ler meus medos e pesadelos! (longa gargalhada) Se você quer saber meu grande segredo, é muito simples: eu amo, eu adoro fazer as pessoas se cagarem de medo!

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter — Facebook — Blog

Caixa de Sapato Bilionária

Por Érico Assis


E se…? foi, sem dúvida, uma das maiores surpresas que já recebi como proposta de tradução. E depois ainda teve surpresa em cima de surpresa.

Na hora em que André Conti me mandou o PDF do livro, eu não tive noção do que era — apesar de já estar com o original na minha lista de pré-compras. As pré-vendas, aliás, foram o que fizeram o livro sair a foguete aqui e no resto do mundo. Já tinham massas de gente pré-comprando o original no início deste ano, apesar do lançamento em setembro nos EUA.

Quem conhece um pouco de quadrinho deveria ficar exultante. Randall Munroe já era mini-celebridade, merecidamente, por conta da xkcd. Embora eu não seja seguidor devoto, fico embasbacado com os experimentos dele (escrevi sobre aqui e aqui) e acompanhei o What If? nos primeiros dias. Aí, nos dias em que eu estava fechando a tradução, meu pai me perguntou se eu tinha assistido um vídeo do TED no qual o palestrante fala do que aconteceria se alguém rebatesse uma bola de beisebol arremessada à velocidade da luz. Se meu pai pergunta sobre o Randall Munroe, tem alguma coisa acontecendo.

O lançamento do livro nos EUA foi há poucos dias. Neste momento, ele está na lista de livros mais vendidos da Amazon e do New York Times. E Se…? Respostas científicas para perguntas absurdas sai em outubro pela Companhia das Letras. Procure a capinha verde e compre. Sim, só em outubro, desculpe.

Texto publicado originalmente em A Pilha.

Leia abaixo mais uma pergunta do site What If? traduzida por Érico Assis.

* * *

Qual seria a maneira mais cara de encher uma caixa de sapatos tamanho 42 (por ex., com cartões MicroSD de 64 GB carregados com música digital comprada?)? – Rick Lewis

Uma caixa de sapatos cheia de coisas valiosas bateria nos US$ 2 bilhões. O mais incrível é que isto vale para diversas possibilidades de conteúdo.


Mais o valor da caixa.

Cartões MicroSD são uma boa ideia. As músicas do iTunes custam mais ou menos US$ 1 cada, e cartões MicroSD têm capacidade aproximada de 420 terabytes por litro. Uma caixa de sapatos masculinos tamanho 42 tem uns 10 a 15 litros, dependendo da marca e do tipo de sapato, de forma que você consegue armazenar 1,5 bilhões de músicas de 4 MB (mais ou menos um dólar cada). (Isso dá umas 20 vezes o número de músicas que se encontra hoje na loja da iTunes, então você vai ter que comprar algumas músicas mais de uma vez.)

Softwares caros, como o Adobe®©TM Photoshop®©TM CS®TM 5TM têm uma proporção custo/megabyte um pouquinho maior, já que ele é vendido a centenas de dólares e ocupa centenas de megabytes. Ou ocupava, até que a Adobe mudou para a nuvem.

Quando se entra em preço de software, dá para puxar o “custo” das coisas que entram na caixa de sapato o quanto você quiser a partir de aquisições in-app infinitas. E embora o personagem que você vá montar no RPG provavelmente represente o gasto de tanto dinheiro, vai ser difícil lhe dizer de cara séria que seu personagem não vale um trilhão de dólares.

— Meus compatriotas: gostaria de anunciar um aumento repentino de US$ 2 trilhões na nossa dívida interna. Mudando totalmente de assunto, vejam só quantas espadas meu personagem tem!
(Na real bateu no teto de 2.147.483.648 espadas, mas gastei o outro trilhão porque fiquei torcendo que revisassem o sistema.)

Por isso, vamos pensar em objetos de verdade.

Tem o ouro, que é óbvio. Treze litros de ouro valem hoje mais ou menos US$ 10 milhões. Platina é um pouco mais cara e dá US$ 13 milhões/caixa de sapatos¹. Seria 10 vezes o valor de uma caixa de sapatos cheia de notas de US$ 100. Por outro lado, uma caixa de sapatos cheia de ouro teria o peso de um potrinho.

Existem metais mais caros. Um grama de plutônio puro, por exemplo, custaria uns US$ 5 mil. Melhor ainda: plutônio é mais denso que ouro, então daria para você colocar quase 300 quilos de plutônio numa caixa de sapato.

Antes de você gastar US$ 3 bilhões em plutônio, observe o seguinte: a massa crítica do plutônio fica por volta dos 10 quilos. Então, embora dê para colocar 300 quilos numa caixa de sapato, você só ia conseguir fazer isso bem rapidinho.


Ou seja, provavelmente você não vai achar comprador. Ou, se você se dispor a encher a caixa de sapatos em horário e local combinados, é PROVÁVEL que encontre comprador.

Diamantes de alta qualidade são caros, mas é difícil ter noção do preço exato porque essa indústria toda nasceu de um veio porque o mercado de pedras preciosas é complicado. Tem um site que diz que um diamante impecável de 600 mg (3 quilates) vale mais de US$ 300 mil. Então, uma caixa de sapatos cheia de diamantes perfeitos valeria até US$ 20 bilhões. Só que eu acho mais razoável falar em US$ 1 ou 2 bilhões.

— Hmm. Qual seria a forma mais eficiente de acomodar diamantes com lapidação estilo brilhante e tamanho uniforme?
— Te vejo daqui a 12 horas.
(Quase não resisti a pesquisar problemas+empacotamento+insolúveis no Google.)

Tem muitas drogas ilegais cujo peso vale mais que ouro. O preço da cocaína varia bastante, mas em muitos mercados fica na faixa dos US$ 100/grama². Ouro, atualmente, vale metade disso. Contudo, a cocaína é muito menos densa que o ouro³, então uma caixa de sapatos cheia de cocaína valeria menos que uma cheia de ouro.

Cocaína não é a droga mais cara segundo o critério do peso. O LSD — provavelmente a substância de consumo mais amplo que é vendida ao consumidor às microgramas — custa mais ou menos mil vezes mais que cocaína, considerando o peso. Uma caixa de sapatos cheia de LSD puro valeria uns US$ 2,5 bilhões.

Algumas drogas de farmácia podem sair tão caras quanto o LSD. A dose única de brentuximab vedotina (Adcetris) pode chegar a US$ 13.500, o que — para o paciente médio — eleva o valor da caixa de sapatos à mesma faixa dos US$ 2 bilhões de LSD, plutônio e cartões MicroSD. Existem outras drogas ainda mais caras.

Mas, obviamente, você pode colocar sapatos na caixa de sapatos.


Doido. (Ah, acho que se você não usar os sapatos quando estiverem dentro da caixa, aí tudo bem.)

Os sapatos que Judy Garland usou em O Mágico de Oz foram leiloados a US$ 666 mil e — diferente de tudo que consideramos acima — em algum momento já deve ter estado dentro de uma caixa de sapatos.

Se você quer mesmo encher uma caixa de sapatos com uma quantidade de dinheiro arbitrariamente descomunal, é só pedir ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para fazer uma moeda de platina de um trilhão de dólares.

Mas se você se dispõe a apoiar-se na autoridade legal do nosso sistema monetário para incutir valores em qualquer objeto inanimado…

Em inglês existem umas discordâncias sobre a grafia “check” ou “cheque”. Mas todo mundo concorda que o melhor vai ser quando a gente abolir essa palavra de vez.

… é só você fazer um cheque.

* * *

1 – Que infelizmente ainda não é uma unidade do SI.

2 – Meu histórico de pesquisa depois de investigar preços de drogas provavelmente me botaria na lista de suspeitos de tudo que é governo, se eu já não estivesse nelas por todas as outras coisas que pesquisei para o E Se…?.

3 – Mas peraí: qual é a densidade da cocaína? Como sempre, os fóruns de discussão do Straight Dope já realizaram esta investigação; neste thread, eles consultaram o CRC Handbook of Chemistry and Physics e o Merck Index, depois desistiram e resolveram que deve ser por volta de 1 kg/L, como é o caso da maioria das substâncias orgânicas. Descobriram, por outro lado, ponto de ebulição e a solubilidade da cocaína em azeite.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — Outros Quadrinhos

A questão do Snoopy

Por Joca Reiners Terron


Muitos escritores devem ter sido inspirados na infância por um certo cão beagle que finge ser um ás combatente da Primeira Guerra que trava batalhas aéreas encarapitado no teto de sua casinha de cachorro. Snoopy é o único cão escritor do mundo. Talvez por isso também seja o único personagem a suplantar a realidade e seus problemas em Peanuts, cartum criado por Charles Schulz em 1950 e publicado até a morte do autor, em 13 de fevereiro de 2000, véspera da publicação da última tira.

Peanuts é a série de tiras de jornal mais longa da história. Inteiramente escrita, desenhada e letreirada por Schulz sem qualquer ajuda de assistentes, foi publicada ao longo de cinquenta anos em 2600 jornais de todo o mundo, atingindo mais de 350 milhões de leitores. Com números tão expressivos, Schulz criou o modelo tira de jornal como é conhecido e explorado hoje por filhos diletos como Calvin & Haroldo ou Garfield.

Schulz conseguiu traduzir a ambivalência do comportamento humano por meio de seus personagens desde a tira inaugural, publicada em 2 de outubro de 1950. Nela, dois garotinhos no meio-fio festejam a aproximação do “velho e bom Charlie Brown”. Todavia, quando Charlie Brown cruza sem lhes dar atenção, passa imediatamente a ser odiado. Várias qualidades do trabalho de Schulz já se faziam notar nessa primeira tira, como o caráter realista de bonequinhos infantis somente na aparência e o domínio da progressão temporal em apenas quatro quadrinhos.

Como observou o quadrinista Art Spiegelman, “Schulz separou diferentes aspectos de sua própria personalidade em vários personagens e passou o resto de sua vida permitindo que eles se chocassem uns contra os outros”. Assim, o fantasioso Snoopy, o preocupado Charlie Brown, o filosófico Linus e a mandona Lucy, entre outros personagens, tipificaram comportamentos com os quais pessoas de todo o mundo se identificaram.

Com Peanuts, pela primeira vez na história dos quadrinhos os leitores se preocupavam com pequenas crianças feitas de papel e tinta como se elas fossem de verdade. A longevidade da série criada por Charles Schulz levou esse envolvimento a um paroxismo: muita gente começou a acompanhar as aventuras de Charlie Brown e companhia na infância e fez isso até a maturidade, crescendo ao mesmo tempo que eles. Diagnosticado com uma doença que o impediu de continuar a criar em 1999, Schulz caía em lágrimas todas as vezes que era obrigado a falar de seus personagens.

Se o bom e velho Charlie Brown é o garotinho que mais se parecia com seu criador, inclusive fisicamente, o cão beagle Snoopy é a perfeita tradução da imaginação criadora de Charles Schulz. Ao travar batalhas aéreas matutinas contra o Barão Vermelho e ao batucar lentamente suas histórias numa máquina de escrever, Snoopy divertiu e demonstrou a importância da vida secreta das fantasias para a preservação da lucidez na vida real. Com isto, inspirou muitos escritores. Eu, muito humildemente, sou apenas um deles.

[Em novembro, a Companhia das Letrinhas vai publicar quatro livros infantis de Snoopy e sua turma: É hora da escola, Charlie Brown; Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween; Largue o cobertor, Linus e O dia dos namorados de Charlie Brown.]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook