A questão do apocalipse

Por Joca Reiners Terron

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Ilustração: Moebius

A ideia de apocalipse se insinuou em minha imaginação ainda na infância, ao ler histórias em quadrinhos da revista Métal Hurlant. Naquele tempo, o apocalipse chegava acompanhado de fogos de artifício, era espetacular, inclusive desejável (eu tinha muito tempo para dedicar à leitura de gibis e livros cujas tramas quase sempre tinham algo de apocalípticas — a explosão da Terra, fuga do planeta, a colonização de outras galáxias, viagens no tempo), e o apocalipse passou a ser também uma ideia de diversão.

Uma tarde, creio que em algum artigo da mesma Métal Hurlant, li um fragmento de entrevista com um autor regular da revista, não recordo se Druillet ou Dionnet, em que o entrevistado sugeria que na realidade talvez o apocalipse fosse algo bastante diferente da visão veiculada pelos quadrinhos e pelas histórias de ficção científica, e que muito provavelmente não haveria nada de fabuloso nele, não passando de um evento cinzento, sem brilho nem luzes, e que talvez nem o notássemos.

O apocalipse adquiriu para mim uma dimensão inquietante: de repente já o vivíamos e, quem sabe, entre as aulas de Organização Social e Política Brasileira e Educação Religiosa, ele tivesse se instalado sorrateiramente, correndo livre sob as manhãs de sol do mundo sem que ninguém lhe prestasse a mínima atenção — sendo assim, o apocalipse talvez já tivesse começado, mas ninguém dava por isso —, meu pai continuava a ir para o banco trabalhar, minha mãe preparava o almoço e a janta todos os dias, meu irmão andava de bicicleta e enchia o saco, enquanto eu pensava no apocalipse.

Na adolescência, descobri que havia coisas piores que o apocalipse, a falta de namorada e de afinidade com tudo em volta, ou ser desclassificado na semifinal do campeonato regional de voleibol após treinar quatro horas diárias por um ano inteiro. Esses fatos podiam ser apreendidos muito mais urgentemente que o apocalipse, logo notei, pois doíam pra burro como toda coisa imediata e cabal. Tudo o que o apocalipse e suas infinitas prorrogações não eram.

Depois disso, meus apocalipses particulares se tornaram frequentes, quase diários, e nunca deixei de compreendê-los como parte daquilo que Druillet ou Bilal (ou teria sido Moebius?) dissera: cada derrotazinha pessoal não deixava de ser um episódio do apocalipse sem efeitos especiais e desprovido de charme da realidade cotidiana, cenas dos próximos capítulos de uma vida que seguia.

Então as dificuldades da existência adulta se tornaram evidências de que até São João se equivocou: o santo evangelista, autor do “Apocalipse” original, último texto do Novo Testamento, parece ter sido o próprio responsável pela ideia de juízo final mais parecida a um show de tango para turista ver no bairro de San Telmo, com globos iluminados, luz estroboscópica, melodrama e lágrimas fingidas, imagem apropriada bem depois pelas distopias literárias, pelos quadrinhos e o cinema.

No entanto, o apocalipse sugerido pelos autores da Métal Hurlant continuou, descolorido e impiedoso, atingindo seu auge na virada do século: aos 32 anos eu não considerava que a situação poderia piorar. Não bastasse o fato de estar ficando careca, agora o apocalipse prometia destruir meu mundo pessoal, acabando com revistas e jornais: os arautos da extinção do livro impresso soaram suas trombetas. Eu também era pai, o que costuma acelerar o fim.

Daí a começar a faltar fôlego na subida foi um pulo, e a não conseguir mais correr atrás de ônibus, a enxergar cada vez menos, a perder amigos (dois suicídios, um acidente de carro, um desentendimento, duas overdoses), a não ter mais tempo. E então cheguei à metade do caminho desta vida.

Economize o antidepressivo, caro leitor: aos 47 do primeiro tempo, enfim percebi que nossa compreensão do tempo é realmente falha, e não houve um só instante de minha existência — e da sua, caso tenha nascido após a Primeira Guerra Mundial —, desde os mais felizes e insubstituíveis, dos nascimentos e celebrações, das vitórias e leituras, que não tenha sido parte da marcha incessante em direção à aniquilação total e irrestrita deste planeta e dos seus habitantes, aniquilação cujo simples prelúdio foi o século 20 e que a grande literatura — a do século passado, mas também a de Roberto Bolaño, W.G. Sebald e László Krasznahorkai, e a de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Bernardo Carvalho — não cessa de testemunhar. A partir de então, nunca houve literatura que não fosse de testemunho, e não há outro tema possível senão o apocalipse.

Agora podem trazer os fogos de artifício.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Cores são linguagens

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Qual a diferença entre falar o idioma materno e falar um idioma que se adquire?

Regras das salas de aula de inglês, francês, espanhol, japonês, alemão, o que for, costumam funcionar bem no ambiente protegido da “escola de línguas”. Basta, porém, colocar os pés em outro país para se notar que ser estrangeiro significa, sobretudo, não dominar o manejo complicado da maneira como se fala, quando se fala e o que se fala.

E se, a começar pela fala, cada nação cria os seus próprios problemas, códigos, enigmas e desafios, a nossa não foge à regra. Não há quem desconheça que somos todos, por aqui, catedráticos no uso e na negociação em torno das cores.

No Brasil, com grande facilidade, e na linguagem do dia a dia, manipulamos cores. Por sinal, faz muito tempo que o conceito de “cor” vem substituindo a noção de raça, num uso mais fluído, mas não menos perverso.

Cor pode até ser um conceito mais elástico, mas nem por isso é avesso à delimitação de hierarquias rígidas e regimes de inclusão e de exclusão social. De um lado, dependendo da situação, da hora, da companhia, do local, do momento, um entrevistado, um amigo (e nós mesmos) mudamos de cor — como se troca de meia. De outro, sabemos muito bem que não há nada de inocente nessa cartografia de tons e meio tons.

Desde a época da “civilização da cana” — nos idos dos séculos XVI e XVII — já fazíamos um paralelo entre as colorações do açúcar e sua pureza. Quanto mais branco, melhor a qualidade; mais escuro, o oposto, sendo o produto nem ao menos digno de exportação. O mesmo tratamento recebiam os escravizados: se sua cor de pele fosse mais branqueada, tinham muito mais chance de lutar por uma alforria e de recebê-la.

Essa verdadeira lente colorida continuou vigente e se transmutou numa série de novas teorias. O primeiro concurso realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, chamava-se “Como se deve escrever a história do Brasil”. O vencedor, o bávaro K. F. Von Martius, propôs novo paralelo colorido. O Brasil seria como um grande rio (branco), banhado por rios mais diminutos (um negro e outro indígena), os quais levavam, todos, a uma grande civilização. Como se vê, aqui havia mistura, mas também hierarquia, expressa no tamanho variado dos afluentes. No século XIX, os modelos deterministas raciais previam uma evolução única e progressiva, repetindo a metáfora do doce: o branco no alto da pirâmide social; populações mestiças, bem abaixo. No início do século XX, o Brasil foi o único país da assim chamada América Latina convidado a participar do Congresso Internacional das Raças, de 1906. Levou a tese de João Batista Lacerda, “Sur les Metis”, que dizia que em três gerações seríamos brancos: gregos até. Não contente, o médico ilustrou suas palavras com a tela do artista acadêmico Modesto Brocos chamada Redenção de Can, 1895, em que, numa metáfora, dessa vez bíblica, vemos nos extremos do quadro um pai português e uma avó africana — quase uma estátua de ébano. O pai sorri com orgulho; a avó agradece aos céus. No centro, uma mãe com traços suavizados traz ao colo uma criança branca de cabelos lisos. Era a inversão da maldição de Can. No caso do Brasil, “o branqueamento”, mais esse conceito afeito às cores, nos redimiria.

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De lá para cá fomos sofisticando nosso linguajar, assim como apurando nossa percepção social sobre o alcance das cores. Basta dizer que nosso censo é todo pautado nelas. Nos dividimos e classificamos assim: branco, negro, amarelo, indígena (vermelho), pardo. Se as quatro primeiras são cores primárias, a última é uma espécie de “etcétera”, um coringa da classificação, um sonoro NDA. Mas todos sabemos, com convicção, o que significa a cor pardo. Ela vem de pardal: esse pássaro de um marrom indefinido.

A partir dessa base passamos a manipular o uso das cores. Sabemos que, não raro, pessoas que enriquecem são vistas como “mais brancas”; cabelo bom, na linguagem popular, é cabelo liso; e até há pouco “pessoa de boa aparência” era uma maneira de não falar em cor.

Aliás, a polícia brasileira costuma ser “especialista” em cor. Basta dar uma olhada nas batidas no meio da madrugada, e mesmo durante o dia, para ter certeza como essa instituição carrega consigo uma régua de cor precisa.

Pois bem, para dar conta desse jogo travesso das cores, em 1976 foi feita uma pesquisa em que se perguntou aos brasileiros a sua cor. O resultado é esse grande arco-íris classificatório, composto por mais de 136 cores!

Não é o caso de analisar todos os termos, apenas destacar algumas recorrências. Em primeiro lugar, a grande incidência em torno do branco: uma espécie de símbolo local. Em segundo, as cores na fronteira — quase morena, meio branca, puxa para —, que mostram como aqui se manipulam tons e semi tons. Terceiro, diferenças de gênero: diminutivo para as mulheres; aumentativo para os homens. Por fim chamam atenção termos como “queimada de sol, tostada”, que parecem revelar que a cor é pensada como um estado transitório, não definitivo. Não se é de uma cor. Se está.

Claro que a situação é hoje muito diferente, e isso já desde os anos 1980, quando com os Movimentos Sociais o país acordou de vez para o tema do preconceito e do racismo vigentes no Brasil. Questão difícil num país que carrega a triste marca de ter sido o último a abolir a escravidão no Ocidente, ela se esconde e se apresenta a partir desse arco-íris social.

Foi justamente pensando nesse uso escorregadio das cores que a Companhia das Letras resolveu, na primeira edição de Brasil: uma biografia, apresentar capas do livro em dez cores e combinações diferentes. Esse é um tema forte neste trabalho que Heloisa Starling e eu escrevemos, e achamos que essa seria uma maneira de provocar o leitor com relação a esse difícil idioma nacional.

Cores são perversas na reposição cotidiana do preconceito e da discriminação.

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lança com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Marque na agenda

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Debate com Daniel Aarão Reis
Terça-feira, 17 de março, às 14h
Daniel Aarão Reis lança a biografia Luís Carlos Prestes na UFMG.
Local: Auditório Prof. Baesse, na UFMG – FAFICH — Av. Antônio Carlos, 6627, Pampulha — Belo Horizonte, MG

Lançamento A dieta ideal
Terça-feira, 17 de março, às 19h
Marcio Atalla e Desire Coelho autografam A dieta ideal no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Av. Afrânio de Melo Franco, 290 — Rio de Janeiro, RJ

Centenário José J. Veiga
Quarta e quinta-feira, 18 e 19 de março
O Sesc Goiás e a UFG promovem o seminário “José J. Veiga 100 Anos” durante os dias 18 e 19 de março. Saiba mais informações e  inscreva-se no site para participar.
Local: Teatro Sesc Centro — Rua 15, esquina com a Rua 19, Setor Central — Goiânia, GO

Lançamento de O circo do amanhã
Sábado, 21 de março, às 11h
Heloisa Prieto e Lilia Moritz Schwarcz fazem um bate-papo sobre gêneros textuais e autografam no lançamento de O circo do amanhã: Uma aventura em cartas, provérbios, parlendas, piadas e tudo que a escrita pode fazer ou imaginar.
Local: Livraria NoveSete — Rua França Pinto, 97, Vila Mariana — São Paulo, SP

Lançamento de História dos jornais no Brasil
Segunda-feira, 23 de março, às 19h
O jornalista Matias M. Molina autografa o primeiro volume de História dos jornais no Brasil em São Paulo.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Semana duzentos e quarenta e um

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Ano Zero — Uma história de 1945, de Ian Buruma (Tradução de Paulo Geiger)
Ano zero é um livro sobre o drama que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Uma era terminava, e outra, feita de novidades e incertezas, tinha início. Por toda a Ásia — China, Coreia, Indochina, Filipinas e Japão — e Europa Continental, governos caíram e novos regimes tomaram o poder. Das diversas disputas que surgiram neste momento, nasceu o mundo atual. Ao mesmo tempo, na esteira de perdas irreparáveis, a euforia liberada foi indescritível, os festejos sem precedentes. Os anos de pós-guerra deram origem ao estado do Bem-Estar na Europa, à ONU, à descolonização, à União Europeia. Uma “reeducação” social, cultural e política foi imposta pelos vitoriosos também em escala inédita.

História dos jornais no Brasil — Da era colonial à Regência (1500-1840), de Matías M. Molina
Resultado de décadas de pesquisa, este livro prevê a publicação de três volumes capazes de abarcar toda a história da imprensa no país, desde suas primeiras manifestações no Brasil colônia até os dias atuais. O primeiro volume aborda a imprensa no período colonial, no tempo em que o Rio de Janeiro era sede da Corte, estende-se até a época da Independência, quando os jornais foram palco de renhidas disputas políticas, e termina com a ascensão de D. Pedro II ao poder, na década de 1840. Como epílogo, traz uma análise dos fatores que condicionaram o desenvolvimento da imprensa no país e ajudam a explicar a baixa penetração dos jornais na sociedade brasileira. Pela primeira vez, o leitor tem acesso a uma compreensão ampla de como o jornalismo foi forjado e construído no Brasil.

Escuta, de Eucanaã Ferraz
A morte é o principal tema de Escuta. Suicídios, assassinatos e guerras surgem por vezes em cenas que parecem saídas de noticiários. Para equilibrar esse quadro, uma das partes do livro se chama “Alegria”. O leitor vê-se então arrastado por um feixe intenso de cores, vibrações e desejos. Há ternura e lirismo, mas também ironia e humor. Neste livro, tomamos parte numa penetrante escuta do mundo. Alargando ao extremo os limites da expressão lírica, o poeta lançou-se ao encontro de experiências, cenas, fatos, personagens, palavras, e em tudo reconhecemos tempos e espaços contemporâneos construídos por uma voz singular. Assim, conjugam-se violência e delicadeza, veemência e construção, silêncio e tumulto, subjetividade e emoção social.

Cartas a um jovem cientista, de Edward O. Wilson (Tradução de Rogerio Galindo)
Um dos mais celebrados biólogos da atualidade, Edward O. Wilson divide sua experiência com seus leitores em vinte e uma cartas sobre o amor pela ciência e o prazer da descoberta. Passando por tópicos que vão desde sua infância como escoteiro no sul dos Estados Unidos à sua paixão por formigas e borboletas, Wilson mostra de onde veio a motivação para se tornar um biólogo, numa bem-humorada visita a seus maiores sucessos e fracassos. Seja falando do colapso de estrelas, da exploração de florestas tropicais ou da profundidade dos oceanos, Wilson retrata a ciência como um campo de criatividade e dedicação. E, a partir de sua brilhante carreira, mostra ao leitor o lugar modesto e especial que o ser humano ocupa no ecossistema do planeta.

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O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson (Tradução de Jorio Dauster)
Ao narrar as experiências de um médico que, numa “noite maldita”, tomou uma poção fumegante de coloração avermelhada e descobriu “a dualidade absoluta e primordial do homem”, o Robert Louis Stevenson criou uma história de suspense e horror, em que o perigo iminente não está do lado de fora, mas do lado de dentro, na parte obscura da alma. Esta edição, além de uma introdução de Robert Mighall, Ph.D. em ficção gótica e ciência médico-legal vitoriana na Universidade de Wales, conta com um prefácio do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que define o romance como “um dos mais perfeitos e provavelmente o mais famoso romance de mistério da literatura de língua inglesa”.

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After — Depois da verdade (Vol. 2), de Anna Todd (Tradução de Carolina Caires Coelho e Juliana Romeiro)
No segundo livro, Tessa tenta esquecer Hardin, o jovem caótico e revoltado que partiu seu coração em vários pedaços. Mas ela está prestes a descobrir que alguns amores não podem ser superados. Como apagar da memória as noites apaixonadas em seus braços, ou a eletricidade de seu toque? Hardin sabe que cometeu o pior erro de sua vida ao ter magoado Tessa tão profundamente. Ele não acha que merece tê-la de volta, mas se recusa a deixá-la partir. Neste livro, Hardin vai lutar com toda a sua força para reconquistar o grande amor da sua vida. Ao longo do caminho, os seus mais profundos segredos serão revelados. Depois da verdade, será que o amor de Tessa e Hardin resistirá?

Jogo Roubado, de Brett Forrest (Tradução de Renata Pucci)
Neste livro, o jornalista Brett Forrest nos leva até o coração de um mercado de 700 bilhões de dólares: o mundo de apostas do futebol. Em 2013, a polícia europeia (Europol) revelou que mais de 700 partidas internacionais já tinham seus resultados definidos desde 2008. Forrest joga luz sobre esse caso, expondo uma rede nefasta que se espalha pelo mundo, através de oportunistas que subornam jogadores, influenciam árbitros e criam partidas armadas, tudo sob o controle de sindicatos criminosos localizados no continente asiático. Nenhuma partida é imune — nem mesmo na Copa do Mundo — especialmente quando a polícia local é carente de recursos e de vontade política para investigar. Repleto de revelações dignas de manchetes de jornal, Jogo roubado é um livro obrigatório para quem é fã de futebol.

Em tradução (Melancolia)

Por Caetano Galindo

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[Uma VERSÃO desse ‘treco’ DEVE estar no livro que DEVE se chamar Se eles não estão sozinhos, que DEVE ser lançado ainda este ano…]

Era lá no filme do Lars von Trier. Aquele do meteorão. Foi num daqueles cinemas mais metido a besta, daqueles que têm lugar marcado e tudo. Só eu mesmo. Sei lá. Sozinho. E começou errado porque eu fui tudo empolgadinho e comprei ingresso direto naquelas máquina de vender ingresso, pra não ficar na fila do ingresso do caixa. Não, não tinha pilhas de gente querendo ir ver o do Trier. Na mesma hora começava sei lá mais uns dois filme desses cheio de gente querendo ir ver. E tinha pouca gente no caixa. E tudo analfabeto. Atendendo. Tudo lobotomizado. Uma lerdeza que era um poema épico albanês. Aí que eu fui direto na maquininha, porque nunca tem muita gente na maquininha, acho que as pessoa acham que sei lá o que que elas acham, mas o que eu sei é que nunca tem muita gente na maquininha. Tinha só uma pessoa na minha frente. Uma tia meio lobô também. Que ficava com o dedo assim meio parado coisa de meio centímetro na frente da tela. Parado no ar, pensando antes de cada toquinho na tela. Parecia até que tipo o dedo dela era que tinha um cérebro não-lobotomizado ali. E que era o dedo que ficava olhando pra tela e tipo ponderando as decisões. Como se ela carregasse aquele dedo pensante e tivesse que esperar o processo decisório do dedo. E isso com uma coisa na tela tipo ‘confirmar compra’. E eu numa neura, que eu sempre tenho essas neura, por mais que eu saiba que é só neura, eu sempre tenho, por isso que é neura, né? Eu numa neura disgramada que podia acabar os ingresso e eu ficar sem. Que claro que não, né? No fim tinha tipo oito ou dez neguinho na sala. Oito ou dez e olha lá. Mas eu ali meio com pressa, e querendo já quase dar um tapa no cotovelo da tia pra atochar o dedo pensante direto na tela. Mas ok. Mas vá lá. E nem foi isso. O que deu errado, que já começou tudo esquisito, foi que sei lá o que que me deu na hora, se de repente foi que eu não entendi assim aquele mapinha da sala que aparece na tela da máquina de ingresso, sei lá. Só sei que eu acabei comprando uma cadeira na primeira fila! E eu queria na última. Na última! Mas acabei comprando na primeira fila. Tipo A7. Uma coisa. Mas fui lá e sentei, meu. Força na peruca. E tal. Porque eu comprei aquela, né? Aí era aceitar. Porque nem era tão ferrado assim, porque o cinema, esse cinema gourmet e tal que eu te falei, tinha aquelas cadeira bacanona que inclinam pra trás e levantam o pezinho do caboclo. E acabou legal. Deitadão ali. Vendo o meteorão assim na cara e tal. Até gostei, sabe? Bacana. Mas nem todo mundo. E nem todo mundo, aliás, tem esse tipo de fortitude moral e de retidão de caráter. De ficar bem quietinho no lugar que comprou. Espera e verás. Porque tem gente que aparentemente gosta é da primeira fila. Sempre. E tem mais gente além que parece que não entende direito o tal do mapinha da máquina. Espera só. Mas antes teve a da velha. Ali na primeira mesmo. Do meu lado, tipo A8. Chegou uma velha tudo manquitola, de bengalinha, detonadaça mesmo, com uma tia. E a velha era tia da tia, pelo jeito. Que era como a tia chamava a velha. De tia. E ela chegou tipo, então o teu é aqui tia, eu tou ali mais no meio, e a Neuzinha ficou mais lá pro fundo, tá? Que, tipo, qualquer coisa é bom a senhora saber onde que a gente está e tal. E a sala vazêa!!! E me larga a velha ali. Tudo repolhuda na cadeira. Fazendo aqueles barulhinho com a boca que os velho fazem. E no que eu ia começar a pensar que ia ser foda assistir ali o filme com a velha boquejando do lado, me entra em cena a Neuzinha, que veio lá do fundão tipo em altos brados Não mas só deixa eu dar uma olhada na mamãe pra ver se ela tá confortável. E Mamãe a senhora está confortável? E a velha muxoxeia alguma coisa tipo Na boa, nem se incomode, guria. E a Neuzinha, Mas mãe a senhora sabe que aqui nesse cinema, que era o tal do cinema gourmet, não esqueça, a cadeira ela dá pra gente inclinar assim pra trás pra erguer as perna? Mas não precisa, Neuza, que eu não estou habituada. E ela disse habituada mesmo. Subiu no meu conceito, a velha. Não precisa, que eu não estou habituada, está bom assim. Mas a Neuzinha necas. A Neuzinha: lhufas. Ela queria era erguer os gambito da mãe. E fuçava que fuçava com o botão do lado da cadeira e nada. E aí uma menina atrás diz, Olha, a senhora tem que puxar assim pra trás ao mesmo tempo que a senhora aperta ali o botão do lado. E prestimosíssima que era, ela me dá o tar do puxão no encosto da cadeira da velha bem no que a Neuzinha aperta o botão. Isso com a velha tipo exercendo nenhuma resistência física. A velha era só um molambão largado ali se habituando e talecoisa. E na hora que a guria deu o puxão enquanto a Neuza apertava  eu só ouvi… porque eu estava ali comendo a minha pipoca e tentando fingir que nem estava acompanhando… eu só ouvi a velha dar um grwaaf! e vi um tamanquito que foi parar quicando lá perto da tela enquanto a bengala que a velha estava segurando meio contra o peito assim deu bem na gengiva da guria metida da fila B, que caiu sentada direto e soltou uns barulhinho meio de hamster estupefato enquanto a amiga dela dizia, Ai amiga, Ai amiga, que que foi, mas ai meu deus… Aí acaba então que agora a velha está esticada ali habituando e a Neuzinha tudo afobada com a gengiva da guria e com a mãe que aparentemente quer voltar mas nunca que vai ter força de fazer a cadeira baixar, enquanto ela, a Neuzinha, aperta toda doida o botão achando que vai pôr a mãe de novo sentadinha. Só que não, né. Que claro que não. Porque a velhinha não tinha mais nenhum músculo no corpo. Aí como é que ela ia baixar lá o treco das perna enquanto a Neuzinha apertava o botão. Levantei o olho da pipoca, olhei meio comprido pra Neuzinha, que nem dava por isso e, nesse momento, na verdade, decidiu mudar assim o ângulo de abordagem e virou o buzanfão bem pra cima da minha cara enquanto fuçava que fuçava no botão. E a velha lá. Zen. Sem nem mais nem nem por isso. E a Neuzinha falando sem parar e fuçando. E a menina lá atrás, a da gengiva sangrando, se arrastando pelo chão junto com a amiga, parece que procurando alguma coisa, mas ao mesmo tempo dizendo, fem fe fafer forfa com a ferna, e a Neuzinha, como? Fem fe fevir fa ela fafer forfa com a ferna. Hilário. Não fora tão trágico. Eu tava tipo super solidário com a velha ali. Aí eu levantei, contornei o fonfão da Neuzinha, me abaixei direto ali na frente da velha e falei Aperta ali que eu empurro. E acho que ela não tinha entendido. E nem ia entender. Mas como ela estava aperta que aperta aquele botão, acabou que na hora calhou de eu dar um empurrão bem quando. E a velha desceu. Tipo a abutre pousou. Ainda com a maior cara de nem foi comigo. E não é que a Neuzinha, antes ainda de ir lá buscar o sapato da mãe pertinho da tela, me agradece esfregando a palma da mão no meu cabelo? Sério. ‘Bom menino’. E deixou a velha em paz. Pelo menos. E foi aí. Foi aí que a coisa estranha mesmo aconteceu. Mesmo. Peralá! Porque tem gente, que nem eu te falei, porque tem gente que não se aquieta nisso de ficar no lugar que escolheu e tal. Tem gente que troca. Eu não troco. A retidão e tal. Mas tem gente que troca. E até aí até que tudo bem. Por mais que eu não troque, e tal, a gente aceita que os outros são diferentes. Por aí. Só que na hora que apagou a luz, com a velha ali do meu lado respirando meio rápido e com uma mancha meio de sangue na bengala que pra te falar a verdade nessa hora eu me liguei que tinha uma coisa cravada em cima com uma puta cara de dente. Tipo um incisivo. Parecia sei lá. Parecia um xamã da morte. A velha. E é aí que apaga a luz e é hora dos trailers e tal. E nessa hora, que é quando os caras mais bárbaros que compraram o ingresso errado que nem eu provavelmente porque viram tudo de cabeça pra baixo na bosta da maquininha de comprar ingresso vai ver que porque estavam putos com a tia lobotomizada, então que é nessa hora meu. A invasão. Porque trocar de lugar ok. Vá lá. Mas sei lá o que que tava acontecendo ali. Só sei que na hora que apagou a luz eu ouvi tipo um grito primal tribal barbaral tipo uuaaaaahhhh! Vindo lá do fundo da sala. E no que eu (e todo mundo, todos os outros 10 ou 12 na sala) e no que eu viro pra trás eu vejo uma dupla. Uns tipinhos. Parecia um pai e uma filha. Aparentemente civilizados. Pô, os caras tavam indo ver Lars von Trier! O cara careca e gordão. Assim com uma pança mesmo, assim meio vazando na frente da camiseta. E a menina magrinha esquelética, com uma faixa amarrada na cabeça que parecia, sei lá, parecia sabe aquelas gravata de tio bêbado em fim de festa de casamento de prima brega? Na testa? E o grito foi da menina. E os dois levantaram na hora do grito e desceram o corredor lateral do cinema, pra trocar de lugar, muito nitidamente pra trocar de lugar. Se bem que na hora eu sabe deus o que que eu pensei. Eu e a velha, que só apertou a manopla ossuda em volta daquela borduna de dente. Porque eles vieram descendo lá da última fila da sala, e vieram descendo os dois junto fazendo aquele barulho com a língua daquelas árabe em enterro sabe? Cara, parecia um caminhão de granja de peru descendo uma ladeira de pedrisco. Grulururgurlugurlruururg!. E eles desceram meio correndo, meio abaixadinho pra não atrapalhar (mas sério, cara, quem que simula uma invasão Tabajaro-palestina ao mesmo tempo que se abaixa pra não atrapalhar? E eles meio que corriam mas assim tipo na pontinha do pé), e vieram tipo um destacamento de hipster doido em dia de lançamento de iPhone, e tipo tomaram posse das cadeiras ali do lado da velha. A9 e A10. Mas de jeitos bem diferentes. Porque o cara, o gordão, essa hora o cara tava mais era rindinho que nem uma anã orgasmática, apesar de ainda fazer uns glulugugle vez em quando. Era tipo uma piada dos dois. Bonding. Mas a menina não. Ah… a menina não era assim tão simples.

E o trailer começou assim. A velha lívida. A guria do dente ainda rastejando atrás da cadeira. E a menininha subida na poltrona, olhando pro resto da sala atrás da dela, com a coisa amarrada da testa, um saco de pipoca esparramada na mão esquerda e batendo o peito com a direita. E dando um grito cara…Que nem bicho. Nem bicho, meu.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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