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Lilia Moritz Schwarcz no Ciclo Incertezas
Terça-feira, 17 de maio, às 20h
Lilia Moritz Schwarcz participa do Ciclo Incertezas do centro cultural Midrash falando sobre o livro Brasil: uma biografiaFaça sua reserva para participar.
Local: Midrash Centro Cultural — Rua General Venâncio Flores, 184, Leblon — Rio de Janeiro, RJ

I Festival das Livrarias
Durante todo o mês de maio, uma série de encontros com autores acontecem nas livrarias do Rio de Janeiro. Nesta semana, Eucanaã Ferraz e Raphael Montes participam do Festival das Livrarias. Confira as datas e locais:

  • Eucanaã Ferraz
    Quinta-feira, 19 de maio, às 19h
    Local: Livraria da Travessa Leblon — Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 — Rio de Janeiro, RJ
  • Raphael Montes
    Sexta-feira, 20 de maio, às 19h
    Local: Livraria da Travessa Botafogo — Rua Voluntários da Pátria, 97‎ — Rio de Janeiro, RJ

Contação de história de O coelhinho que queria dormir
Sábado, 21 de maio, às 16h
Pais e crianças vão se divertir com a contação de história do livro O coelhinho que queria dormirde Carl-Johan Forssén Ehrlin.
Local: Livraria Saraiva do Shopping Tijuca — Av. Maracanã, 987 — Rio de Janeiro, RJ

Semana duzentos e noventa e sete

 

Flores, Afonso Cruz
Flores começa com uma perda, a perda do pai. E é a partir daí que o narrador, um jornalista que vive com a filha e a mulher numa relação cheia de incômodos, passa a notar seus vizinhos e a conviver com o senhor Ulme. Ulme sofre além da conta com as notícias que lê nos jornais e com todas as tragédias humanas às quais assiste. Certo dia percebe não se lembrar de seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de já ter visto uma mulher nua. Seu vizinho, talvez por ainda recordar bem do encanto do primeiro beijo – e constatar o quanto a sua vida se distanciava dele –, decide ajudar o senhor a escrever sua história e a recuperar as lembranças perdidas. Ele visita a aldeia alentejana esquecida no tempo e vai aos poucos remontando a identidade de Manuel Ulme, homem que, pelos relatos, parece ter oscilado entre um bom samaritano e um perverso entregue aos prazeres da paixão. O contraste fica cada vez mais claro: enquanto um homem não tem passado e não se lembra do amor, o outro sofre com o presente e com a consciência da rotina que a cada dia destrói sua relação, quando um beijo já perdeu todo o encanto e se tornou tão banal quanto arrumar a cama.

Alfaguara

O livro das ignorãças, Manoel de Barros
Publicado pela primeira vez em 1993, O livro das ignorãças é um dos mais emblemáticos livros de Manoel de Barros, em que o autor desvenda os caminhos de sua criação poética. Desaprender para retornar ao estado da ignorância, procurando dentro de si a disponibilidade necessária para observar e apreender novamente o mundo, é uma das lições do poeta. Dividido em três partes, O livro das ignorãças rompe com as regras da gramática e da linguagem, inaugurando uma forma sofisticada e singular de fazer poesia.

Objetiva

Mais rápido e melhor, Charles Duhigg (Tradução de Leonardo Alves)
Em Mais rápido e melhor, Charles Duhigg faz um exploração inovadora da ciência da produtividade e por que, no mundo de hoje, como você pensa é muito mais importante do que o que você pensa. Com base nas últimas descobertas da neurociência, psicologia e economia comportamental Duhigg explica que as pessoas, empresas e organizações mais produtivas não apenas agem diferente, elas veem o mundo de modos profundamente diferentes. Elas sabem que produtividade tem a ver com fazer escolhas. A maneira como tomamos decisões; as grandes ambições que colocamos em primeiro lugar e as metas fáceis que ignoramos; a cultura que estabelecemos para estimular a inovação; o modo como interagimos com as informações que temos diante de nós: é isso que separa os simplesmente ocupados dos genuinamente produtivos.

A mulher do próximo

Por DW Ribatski

“Nesta que é uma das peças mais desconcertantes do chamado “novo jornalismo”, Gay Talese mergulha fundo na intimidade de seus contemporâneos e traça um amplo e fascinante painel da mudança de costumes sexuais que varreu os Estados Unidos nas décadas de 1960 e 70. Conhecido por ir atrás de matérias “impossíveis” e temas “proibidos”, por suas pesquisas exaustivas, pelo estilo elegante e pelo apurado senso histórico, Talese recompõe a trama cerrada das relações entre sexo, pornografia, religião e censura nesse país fundado por puritanos, mas onde sempre floresceram seitas de amor livre e nudismo. Chocante ao ser lançado em 1980, A mulher do próximo é hoje um clássico da história da sexualidade.”

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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Em tradução (a ágora)

Por Caetano Galindo

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Foto: Bethany L King

Eu tinha outras ideias pra coluna deste mês (ainda quero escrever sobre aquele probleminha que eu encontrei no Livro de Aron: um trocadilho multilíngue em que as línguas em questão eram incertas, que eu mencionei no Facebook e gerou perguntas…), mas a coluna anterior teve uns comentários e, tipo, por que não responder?

Então vamos.

Um é coisa recorrente, sobre horários de trabalho, rotinas e tal. Basicamente uma coisa tipo “como que rola fazer um livro de mil páginas nas horas vagas” etc…

Não sei como funciona exatamente a rotina dos outros tradutores literários. Conheço o exemplo do Paulo (Henriques Britto), que é colega e funciona basicamente como eu… Conheço o do Christian (Schwartz), que não é nada como eu (longas madrugadas intensivas são mais a praia dele). Fora isso, por mais que eu conheça vários tradutores, nunca conversamos demais sobre isso.

No meu caso, e no do Paulo, tem que dar uma avaliada nessa coisa das “horas vagas”. Eu sou professor universitário tempo integral numa federal grande, vinculado a um programa de pós-graduação de alto nível nessa mesma universidade: tenho alunos, orientandos, compromissos internos e externos, burocracia e, eventualmente, cargos administrativos (já fui vice-diretor do Centro de Línguas, chefe do Departamento, Vice-Coordenador do Curso). Além disso, eu tenho uma “bolsa produtividade” do CNPq, o que significa que eles acham que eu produzo acima da média, mas também significa que eu tenho que manter esse nível, além de cumprir com as obrigações (pareceres, especialmente) que vêm com a bolsa. E aí a gente é avaliado em termos de produtividade, na universidade e no CNPq: quantos orientandos? Quantos capítulos de livro? Quantos livros? Quantos artigos em periódicos indexados? (E, não, tradução não vale igual.)

Ninguém me dá, nem devia dar, folguinha a mais por causa da tradução. Ok, acho até que essa atividade se reverte num ganho pros alunos, especialmente os que cursam o Bacharelado em Estudos da Tradução, claro. Mas o que eu faço aqui com a Companhia é lateral, extra. Em todos os sentidos.

Mããããs, pô, Caetano, comé que aí rola fazer o tal livro de mil páginas? Você não dorme?

Opa. Durmo. E como.

Mas eu sou disciplinadinho, organizadinho (todas aquelas coisas que os teus pais vivem te dizendo, e que os meus me diziam) e, mais do que isso, eu sou rápido.

Não que isso seja um objetivo, uma meta, uma vantagem. É só o entortar do pepino. Eu não sei trabalhar devagar. Eu sou concentrado porque sou desconcentrado, sabe como? (Tipo 100% de intensidade no trabalho pra evitar olhar pro lado.) Eu sou rápido porque sou preguiçoso. Esse tipo de coisa.

E eu curto muito traduzir livros bons. Me divirto mesmo. O que tira todo um peso psicológico da coisa.

Explica?

Provavelmente não. Mas ninguém disse que era pra esperar coisas “lógicas” dessa raça aloprada que são os tradutores literários.

:)

(Outra pergunta: sobre O sumiço do Perec, e sobre por que o tradutor escolheu escrever o romance em português sem usar a letra “e”, como no original. Primeiro, não li o livro, mas acho divertida a ideia de um romance “policial” que tem como grande mistério o “sumiço” de uma letra do texto. Segundo, eu também achava que o desafio seria traduzir sem o “a”, pelo fato de ser esta a letra mais comum no português, como o “e” é no francês. Mas o tradutor, o Zéfere, que eu conheci num congresso quando ele ainda estava lidando com o texto, me garante que há razões internas, na “trama” do livro, que cravam a coisa no “e”. Mas, repito, não li o livro. Boto toda fé na tradução, mesmo, mas não li pra saber.)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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A perseguição a um livro — ou quando literatura e anarquismo andam juntos

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Abri esta série de posts contando a história da fundação da Random House por Bennett Cerf e Donald Knopfler em 1926. É interessante saber que o primeiro grande best-seller da nova editora irá aparecer só em 1934, e de forma bastante inesperada — como, aliás, acontece com os best-sellers em geral. Além disso, o grande hit de vendas da nova editora nasceu a partir de um marco memorável em defesa da liberdade de expressão.

Trechos de Ulysses de James Joyce foram publicados pela primeira vez nos Estados Unidos em 1918, pela Little Review. Com direção literária de Ezra Pound, a revista, como o próprio nome dizia, era pequena também em circulação e recursos. Os problemas da publicação começam em 1917, por conta da edição de um conto de Wyndham Lewis, que tratava da história de um soldado britânico que engravida uma mulher durante a Primeira Guerra Mundial e ignora seus chamados, por estar na trincheira, como se dizia na época, “estourando miolos de alemães”. O texto foi considerado “obsceno”, justamente numa época em que a preocupação com a espionagem e o patriotismo se misturavam com a censura moral e de costumes.

Na ocasião, o órgão responsável pela censura era o Correio central dos EUA, com seus 300 mil funcionários distribuídos pelo país. Com poder brutal e disseminado, e num contexto marcado por conflitos externos e internos, as arbitrariedades foram enormes. Dizem, aliás, que a preocupação dos censores com James Joyce teria começado por conta da nacionalidade do escritor. Durante a Primeira Guerra Mundial havia um número significativo de irlandeses atuando como espiões, pois viam no apoio à Alemanha uma forma de enfraquecer o Reino Unido e, assim, viabilizar a independência irlandesa. Em certo momento, os censores britânicos chegaram a cogitar que a linguagem truncada de Ulysses era um código de guerra. Apesar de Pound haver cortado alguns trechos mais fortes, na época da publicação dos primeiros fragmentos pela Little Review, o texto foi imediatamente proibido pelos censores, tornando inviável a edição integral do livro nos Estados Unidos.

A luta pelos interesses nacionais de guerra e a confusão entre anarquismo e linguagem livre são muito significativas para se entender a cabeça dos censores de livros, não só nessa ocasião, mas história afora. No Spionage Act, arrolado para a interdição de obras literárias, a liberdade de expressão era literalmente considerada um crime. O primeiro trecho censurado de Ulysses na Little Review é uma rememoração em que o afeto entre Leopold e Molly acaba apenas culminando em calorosos beijos. Mas a situação se prolongará, num crescendo, com a tentativa da mesma revista de publicar novos excertos. Os seguidos processos de interdições à obra começam no fim da guerra, em 1918, nos Estados Unidos, estendendo-se até 1922, na Inglaterra, muitos anos depois de findo o conflito mundial. A literatura mais ousada continuava sendo considerada um risco à sociedade, tendo sido Joyce admoestado nas ruas de Paris, onde em certa ocasião foi chamado de um “escritor abominável”.

Com Ulysses proibido nos Estados Unidos e depois na Inglaterra, a única edição em inglês disponível era a da também pequena livraria Shakespeare and Company, de Paris, que, vez por outra, era contrabandeada por leitores, afoitos para ler a obra-prima do autor irlandês. (Dizem que Ernest Hemingway, que morava entre os Estados Unidos e Paris, foi um dos maiores contrabandistas da obra.)

Em 1932, Bennett Cerf pediu que a dona da livraria parisiense marcasse um encontro com Joyce, e com ele acertou a compra dos direitos norte-americanos de Ulysses. Cerf preparou uma estratégia de luta jurídica pelo fim do banimento da obra em território americano. Para tal contratou Morris Ernst, um renomado advogado, oferecendo-lhe participação nos direitos autorais do livro, caso a liberação viesse a ser lograda. O advogado, que recebeu direitos até Ulysses entrar em domínio público — e ficou milionário com a vitória —, preparou a defesa com a montagem de uma edição especial do livro, de um exemplar apenas. Nesse volume especial, foram inseridas as mais importantes críticas publicadas a respeito do texto, de autores renomados como Edmund Wilson, Ezra Pound e Ford Madox Ford. O próximo passo seria fazer com que aquele exemplar fosse contrabandeado para os Estados Unidos e apreendido na alfândega. Só assim uma ação contra a proibição poderia ser aberta.

Para garantir a apreensão, Cerf enviou um despachante para aguardar o portador do volume manufaturado, que então foi desgastado propositalmente para que parecesse uma surrada edição normal. O emissário denunciou, então, o portador aos funcionários da alfândega, dizendo que sabia que este contrabandeava um item proibido no país. Os funcionários da polícia alfandegária, porém, não deram bola à contravenção, a ponto de fazer com que o despachante exigisse em altos brados a verificação da bagagem do viajante. Ao abrir a mala, mais uma vez, se recusaram a apreender a cópia, alegando que todo mundo que vinha de Paris trazia uma cópia do livro consigo. Foi preciso muita insistência e mais berros para que o livro fosse apreendido. A partir da apreensão, a apelação à corte foi possível. Ernest defendeu brilhantemente o livro e também a liberdade de criação. No seu parecer, os argumentos literários se transformam em jurídicos. Em 1934, dois anos depois dos primeiros contatos de Cerf com Joyce, Ulysses foi enfim publicado nos Estados Unidos.

Tendo a proibição prévia e a campanha judicial pela liberdade artística como grandes esteios para a divulgação da obra, um dos romances mais difíceis da língua inglesa tornou-se um enorme best-seller. O primeiro e o maior da jovem editora.

Cerf relata também, em At Random — suas memórias montadas e publicadas postumamente —, uma batalha posterior que travou pelo Ulysses de Joyce, e que é igualmente bastante curiosa. Para expor o livro recém-liberado no maior número de pontos de venda possível, Cerf procurou a American News Company, empresa proprietária do Macy’s, o maior magazine de Nova York, que possuía também, na época, uma rede de papelarias espalhadas pelo país. A conversa de Cerf com o comprador da grande empresa, reproduzida com júbilo em suas memórias, é fantástica, e a comemoração do grande editor ao vender 5 mil exemplares de uma obra tão difícil, em pontos apropriados para produtos puramente comerciais, pode parecer um déjà vu para qualquer editor em atividade.

No começo da Companhia das Letras eu mesmo realizava parte das vendas para os grandes clientes. É por isso que hoje, sentado em frente ao computador, compartilho vivamente a alegria que o grande editor americano teve na ocasião. Vitória tornada jurisprudência a favor da liberdade de expressão, seguida de sucesso comercial de uma das obras-primas da literatura mundial: poderia haver exemplo mais significativo para quem “milita” pela literatura e luta pela popularização de uma das mais complexas e antigas manifestações artísticas da humanidade?

P.S.: Para os que quiserem aprofundar-se no assunto, recomendo a leitura de At Random, de Bennett Cerf, e também o brilhante livro de Kevin Birmingham, The Most Dangerous BookThe Battle for James Joyce’s Ulysses, ambos utilizados para a confecção deste post.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna mensal.