E-book aperitivo da Flip 2014

No dia 30 de julho começa mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Até 3 de agosto, milhares de pessoas vão aproveitar a programação principal e paralela da festa que reúne autores, pensadores e artistas de vários lugares do mundo. Se você vai estar na Flip — ou vendo o evento de casa, que será transmitido também pela internet — e ainda não conhece os autores convidados deste ano, nós podemos te ajudar.

Reunimos em e-book um “aperitivo” das obras de autores da Companhia das Letras que estarão na Flip, com trechos dos livros mais recentes de cada um deles. Prepare-se para mais uma semana de festa literária!

Baixe gratuitamente aqui: [mobi] [epub*]

O e-book contém trechos dos seguintes livros:

* Arquivos epub podem ser lidos na maioria dos ereaders, ou no próprio computador com o programa Adobe Digital Editions.

Entrevista com Guillermo del Toro

Por Ana Maria Bahiana


Quando entrevistei Guillermo del Toro pela primeira vez, 17 anos atrás, ele estava correndo atrás de baratas. Não quaisquer baratas: baratas gordas, grandes, pretas, altamente dramáticas, daquelas que, numa produção, custam 100 dólares de aluguel por semana — cada uma.

Algumas delas eram falsas, baratas cenográficas infestando um “túnel do metrô” construído num set de um subúrbio de Los Angeles. Mas algumas eram absolutamente legítimas e vivíssimas blatta orientalis, as polpudas baratas asiáticas que fotografam tão bem em filmes de terror. E Del Toro, comandando as filmagens de seu primeiro projeto norte-americano, o thriller Mutação, não conseguia que seus caros figurantes de seis pernas permanecessem em quadro.

Sim, Mutação era sobre baratas gigantes.

“Não tenho o menor pudor em dizer que nenhuma premissa, por mais absurda ou ridícula que seja, escapa à minha atenção”, Del Toro me diz agora, quase duas décadas depois, quando mais seis títulos se acumulam em seu currículo, acompanhados de indicações e prêmios, e seu nome está na curta lista dos diretores mais procurados do cinema.

Como tantos de seus colegas, Del Toro está migrando para a TV (um meio para o qual trabalhou, em circunstâncias bem diferentes, no México dos anos 1980). Ele escreve, produz e dirige o piloto da série The Strain, baseada em sua trilogia de livros do mesmo título, publicada entre 2009 e 2011 (Noturno, A queda e Noite eterna). Não há mais baratas gigantes, mas a Nova York imaginária de The Strain é povoada por uma nova e virulenta tribo de vampiros, onde o imaginário coletivo do mito, das lendas asiáticas a Nosferatu, une-se a outros medos — pandemias, genocídio, loucura, isolamento — para compor um bravo mundo novo, deliciosamente terrível.

Mas não quero mais falar. Guillermo é muito mais eloquente. Eis um pouco da nossa conversa, semana passada, aqui em LA, onde Del Toro mora com a mulher, as duas filhas e duas casas extras, construídas para abrigar sua coleção de livros, anime, kaiju, mangá, brinquedos, pôsters…

* * *

Por que vampiros?
Não sei. Deve ser parte do meu estranho modo de ser. Sou estranho. O que mais posso dizer? Desde garoto sou obcecado por vampiros, estudo e anoto tudo o que encontro sobre vampiros. Vampiros não são românticos — esta é apenas uma das leituras mais contemporâneas dessa mitologia. Vampiros fazem parte de uma longa linhagem de mitos que atravessam épocas, idiomas e culturas. Há muitas camadas de significados neles — algo a ver com nosso medo da morte, nosso fascínio com a eternidade, nossa carnalidade… e o amor. Há sempre um subtema de amor. Os strikoi, vampiros do folclore do Leste europeu, atacam primeiro as pessoas que mais amam. É uma confluência extraordinária de significados: se você se torna a primeira vítima de um strikoi, é porque ele ou ela amam você mais que qualquer pessoa. É algo estranho, profundo e extremamente perverso.

Por que o terror é seu gênero favorito?
Porque é um tapa na cara do nosso conformismo. Principalmente agora, quando afetamos ser tão super sensíveis a tudo, tão preocupados com o “correto” e, ao mesmo tempo, temos almas tão endurecidas, tão insensíveis. Acho fantástico que as pessoas se sintam ofendidas porque construímos mal uma frase, usando palavras pouco felizes, e ao mesmo tempo continuamos tratando os seres humanos da pior maneira possível. Essa indiferença, essa barreira de bons modos que construímos para nos isolar do que deveria ser a simples decência… isso sempre me incomodou profundamente. O bom terror é uma bofetada bem dada nessa complacência. Acho que precisamos muito disso.

Qual o autor de terror que você mais admira?
Stephen King. Ele está para a literatura de terror como Alfred Hitchcock está para o thriller cinematográfico: colocando todo o gênero e todos os medos que são universais numa escala pessoal, íntima, extremamente local. A criação narrativa do que viríamos chamar de terror começa na Idade Média em histórias que não eram necessariamente para assustar pela emoção, mas para ensinar e doutrinar pelo medo. Quando temos o gótico no século 18 ele está voltando à Idade Média das ruínas, dos castelos, dos cavaleiros-fantasmas que vagueiam com correntes por ruínas. E isso segue pelo século 19 com o mesmo universo de ruínas, países mediterrâneos com rapazes morenos de péssimas intenções, mocinhas muito louras em perigo, castelos, masmorras. Duas pessoas mudam isso radicalmente, uma delas é Richard Matheson, que de certa forma é o precursor de Stephen King. Matheson traz o terror para os Estados Unidos contemporâneos. E King desce a um detalhe ainda mais preciso, colocando o terror numa cidadezinha do interior repleta de detalhes exatos, as pessoas andando de bicicleta, as folhas douradas do outono… O terror não está mais no castelo mal assombrado da duquesa do século 18, mas na nossa sala de estar, no nosso sofá. Não há mais um fantasma sacudindo correntes por uma masmorra. Há alguém que você não sabe quem é que está tentando entrar na sua casa de noite, enquanto você assiste TV e come seu jantar… E por isso o terror de King é tão efetivo: porque para um bom terror funcionar é preciso que ele esteja repleto de detalhes prosaicos.

O que mais te aterroriza?
Os políticos e os governantes. Vivemos num mundo que é completamente armado para proteger os fortes e os poderosos, para garantir que os ricos continuem ricos, os poderosos continuem no poder e o resto do povo continue submisso. Existe alguma coisa mais assustadora do que isso?

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Bom de briga

Por Arnaldo Branco


Paul Pope surgiu em meados dos anos noventa com um traço que parece resultado de pinceladas no ar que espirrassem gotas sobre a página, dando mais impressão de movimento. Seu estilo tem bastante influência do mangá — não por acaso logo foi contratado pela editora Kodansha, uma das maiores do gênero.

Mas seu desenho causou mais impacto em um selo mais mainstream: seu trabalho para a DC Comics, Batman ano 100, chamou atenção para seus humanos retorcidos e cores fortes, destoante de trabalhos mais convencionais de outros colegas de editora. Ele vem agora com Bom de Briga, um trabalho voltado para um público mais adolescente — mesmo seu traço parece um pouco mais domado — mas sem deixar de casar muito bem trama e belas imagens.

A primeira parte da saga tem grande apelo por contar uma clássica história de amadurecimento através do combate às adversidades. A trama é simples: Acropolis é uma cidade que parece (como Metrópolis e Gotham City) ser a única da Terra; lá os cidadãos sofrem com constantes ataques de monstros que surgiram sem motivo aparente e que saem de seu esconderijo à noite para sequestrar crianças, também sem nenhuma explicação até o fim deste primeiro livro.

O único obstáculo entre os monstros e as crianças indefesas de Arcopolis (além de um exército inepto) é Haggard West, um cientista que banca o super-herói com bons resultados, até que é morto em uma emboscada. Cabe à sua filha Aurora a tarefa de herdar seus inventos para substituí-lo na missão, apesar de sua pouca idade e experiência.

Mas os deuses (uma Federação de seres fantásticos lembrando Os Eternos, de Jack Kirby) que vivem em uma espécie de estação espacial vigiando o Universo, resolvem mandar socorro. Bom de Briga, filho de um de seus maiores guerreiros, é mandado a Arcopolis para combater os monstros como rito de passagem — ele recebe do pai uma maleta de 16 itens de sobrevivência (entre eles um cartão de crédito infinito e camisetas com figuras representando animais que lhe dão poderes correlatos) e não muitas instruções.

A primeira tarefa desse Hércules-mirim é uma criatura descomunal chamada Humbaba, que o garoto não consegue enfrentar sem a ajuda telepática de seu pai guerreiro — ele mesmo às voltas com seu próprio duelo mortal com um monstro em outro universo. A criatura é derrotada para alívio de Bom de Briga e deleite dos políticos da cidade — até ouvirem do novo candidato a herói que ele não matou o brutamontes sozinho e que daqui para frente vai estar por conta própria. Até que, claro, Aurora chega para se juntar ao time.

Os próximos capítulos prometem.

* * * * *

Arnaldo Branco é cartunista e jornalista brasileiro. Autor e criador de personagens de quadrinhos Capitão Presença e Joe Pimp, publicados pela revista Tarja Preta. Também mantém as tirinhas do Mundinho Animal no site G1.
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Paul Pope surgiu em meados dos anos noventa com um traço que parece resultado de pinceladas no ar que espirrassem gotas sobre a página, dando mais impressão de movimento. Seu estilo tem bastante influência do mangá – não por acaso logo foi contratado pela editora Kodansha, uma das maiores do gênero.

Mas seu desenho causou mais impacto em um selo mais mainstream: seu trabalho para a DC Comics, “Batman ano 100″ chamou atenção para seus humanos retorcidos e cores fortes, destoante de trabalhos mais convencionais de outros colegas de editora. Ele vem agora com “Bom de briga”, um trabalho voltado para um público mais adolescente – mesmo seu traço parece um pouco mais domado – mas sem deixar de casar muito bem trama e belas imagens.

A primeira parte da saga tem grande apelo por contar uma clássica história de amadurecimento através do combate às adversidades. A trama é simples: Acropolis é uma cidade que parece (como Metrópolis e Gotham City) ser a única da Terra; lá os cidadãos sofrem com constantes ataques de monstros que surgiram sem motivo aparente e que saem de seu esconderijo à noite para sequestrar crianças, também sem nenhuma explicação até o fim deste primeiro livro.

O único obstáculo entre os monstros e as crianças indefesas de Arcopolis (além de um exército inepto) é Haggard West, um cientista que banca o super-herói com bons resultados, até que é morto em uma emboscada. Cabe à sua filha Aurora a tarefa de herdar seus inventos para substituí-lo na missão, apesar de sua pouca idade e experiência.

Mas os deuses (uma Federação de seres fantásticos lembrando Os Eternos, de Jack Kirby) que vivem em uma espécie de estação espacial vigiando o Universo, resolvem mandar socorro. “Bom de briga”, filho de um de seus maiores guerreiros, é mandado a Arcopolis para combater os monstros como rito de passagem – ele recebe do pai uma maleta de 16 itens de sobrevivência (entre eles um cartão de crédito infinito e camisetas com figuras representando animais que lhe dão poderes correlatos) e não muitas instruções.

A primeira tarefa desse Hércules-mirim é uma criatura descomunal chamada Humbaba, que o garoto não consegue enfrentar sem a ajuda telepática de seu pai guerreiro – ele mesmo às voltas com seu próprio duelo mortal com um monstro em outro universo. A criatura é derrotada para alívio de Bom de Briga e deleite dos políticos da cidade – até ouvirem do novo candidato a herói que ele não matou o brutamontes sozinho e que daqui para frente vai estar por conta própria. Até que, claro, Aurora chega para se juntar ao time.

Os próximos capítulos prometem.

O gesto de Andrew Solomon

Por Sofia Mariutti


Quando me consultei pela primeira vez com minha atual psiquiatra, estava resistente a sair de lá com uma receita de antidepressivo, então saí com a receita de ler O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon. Eu já estava trabalhando na edição de Longe da árvore, o livro mais recente do autor, e sabia que a obra anterior também era monumental, mas só com a prescrição médica tomei coragem de enfrentar aquelas muitas páginas.

Passei muito tempo sem aceitar a depressão, cheia de desconfianças em relação à indústria farmacêutica, a essa estranha epidemia de doenças mentais nos nossos dias, aos efeitos obscuros dos psicotrópicos. Quando li o Solomon, não posso dizer que tudo se esclareceu, mas comecei a aceitar a existência da tristeza profunda e a respeitá-la em sua complexidade.

Entendi que há bons motivos para essa epidemia: a vida alienante nas cidades, a ruína das formações familiares tradicionais, o colapso das crenças religiosas, o velho e ancestral medo da morte. Entendi que a depressão sempre pode voltar, e ainda pior, quando não for bem tratada. Que há uma infinidade de pessoas sofrendo, o tempo todo, em todos os lugares do mundo.

Solomon me convenceu a me tratar, com esse gesto humano e terno que é o seu livro. A dor merece sair do armário, assim como a sexualidade, e Solomon tira tudo lá de dentro, não deixa nada pra trás. Seus trabalhos de fôlego, que envolvem pesquisas amplas, passam por questões pessoais, e talvez por isso sejam tão empáticos. Quase sempre, sair do armário acaba sendo um gesto pelo outro.

A boa nova para todos aqueles que sofrem de depressão, conhecem alguém que sofre ou se interessam pela doença é que o livro, lançado no Brasil em 2002 e fora das livrarias há algum tempo, ganha nova edição da Companhia das Letras agora em julho, quando o autor desembarca em Paraty para a 12ª edição da Flip. (Essa é a segunda boa nova, para quem não sabia).

A terceira boa nova é que pedimos um novo texto ao autor, em que ele atualizasse o cenário dos tratamentos contra a depressão e contasse o que aconteceu com ele desde a publicação do livro. Diante da encomenda de 3 mil palavras, Solomon se animou e nos entregou um texto de 20 mil palavras: oitenta páginas inéditas, escritas exclusivamente para a nova edição brasileira. O demônio do meio-dia ganhou um novo capítulo, um epílogo.

Nele, ficamos sabendo, por exemplo, que o botox vem sendo testado como tratamento da depressão (leia mais aqui). Que Solomon se transformou num depressivo profissional, o que veremos de perto na Flip. E que as coisas podem estar melhores desde a época em que ele saiu do armário, quando a doença era mais estigmatizada, mas ainda há grande hostilidade contra quem sofre de doenças mentais, e o estigma desencoraja outras pessoas a procurarem tratamento: daí a importância desse gesto.

Abaixo, em primeiríssima mão, as primeiras páginas do texto inédito.

* * *

Epílogo

para T.R.K.

Vinte anos se passaram desde a minha primeira depressão grave. Tenho uma doença mental, diagnosticada há quase metade da minha vida, e não posso mais me imaginar sem ela. Parece menos alguma coisa que me aconteceu do que uma parte de quem eu sou; certos dias, é a coisa que me define, mas é sempre pelo menos uma coisa que me define. Já não fico pensando sobre quando estarei fora de tratamento, da mesma forma que não fico imaginando quando vou deixar de comer ou dormir. É difícil saber o quanto a depressão me define devido à minha experiência com a própria doença e o quanto ela está gravada na minha identidade em virtude da postura pública que assumi ao falar sobre ela. O fato de ter escrito O demônio do meio-dia me transformou em um depressivo profissional, o que é uma coisa esquisita de ser. Um curso da universidade que frequentei recomenda o livro e consequentemente fui convidado a dar uma palestra. Quando era estudante, eu sonhava em ser um escritor tão talentoso que os alunos daquela universidade estudariam minha obra. Mas, nessa fantasia, não antevia minha obra como um livro de memórias selecionado para um curso de psicologia anormal.

Para mim, qualquer pensamento sobre a depressão tornou-se uma questão dialética. Por um lado, minha vida é tão menos afetada pelo problema do que antes que às vezes a escuridão daqueles episódios originais parece um sonho distante. Por outro lado, sentir-me seguro é quase sempre o prelúdio para uma das minhas recaídas ocasionais, e, quando ela bate, sinto mais uma vez que jamais escaparei da escuridão. Por um lado, estou mais acostumado a esses mergulhos do que costumava estar; posso sentir a depressão incubando do mesmo modo que artríticos sentem a chuva iminente. Por outro lado, é chocante a cada vez que acontece; esqueço como ela é uma sensação física, como é implacável: o aperto no peito, a apatia. Esqueço o arrasamento de meu ego, a luta para não acreditar que cada pensamento distorcido é um insight. Quando não estou deprimido, tiro força e beleza da depressão; quando estou deprimido, não encontro nenhuma dessas coisas. Oculto isso melhor do que costumava; posso funcionar surpreendentemente bem, mesmo quando me sinto como se estivesse morrendo — ou como se quisesse morrer. Mas a ansiedade continua sendo meu pior inimigo, e às vezes acordo sentindo que o dia é mais do que consigo suportar. Uma rotina de terapia e medicação parece um preço pequeno a pagar por uma equanimidade relativa, mas odeio o tempo e o gerenciamento que tudo isso exige. Detesto ter um cérebro frágil e saber que, ao fazer algum plano, devo prever a possibilidade de que minha mente me traia no curto prazo. Não deixei a depressão para trás: apenas a mantenho à distância.

Tive um pouco de sorte nos últimos vinte anos. Casei com meu marido, John, a pessoa mais gentil que já conheci, e tive filhos que ao mesmo tempo exigem muito e proporcionam grande felicidade. É possível conquistar sozinho certos aspectos de estabilidade, mas ela também vem de outras pessoas, e John me deu um lastro. Ele é paciente e gentil quando estou deprimido. Mas já não estou sozinho na depressão, e essa é uma mudança fundamental. Posso ter a sensação subjetiva de que a vida é intolerável, mas sei que o que sinto é inconsistente com o que é verdadeiro: tenho uma vida boa. Encontrei uma psicofarmacologista brilhante que montou uma rotina de medicação que na maioria das vezes tem uma eficácia surpreendente, com efeitos colaterais relativamente pequenos. Nós descobrimos como consertar quando o problema aparece. Na psicoterapia, frequento um analista que é sábio e engraçado. Uma vez, quando me mostrei um tanto desdenhoso em relação a alguns sinais de alerta precoces da depressão, ele comentou: “Nesta sala, Andrew, nunca esquecemos que você é totalmente capaz de tomar o caminho mais rápido para o porão de pechinchas da saúde mental”.

Eu controlo minha vida. Não perco um único dia de medicação. Com a ajuda de meus dois médicos, ajusto as doses e tento modificar meu comportamento assim que reconheço o menor indício de uma recaída. O propranolol, um betabloqueador que posso usar quando me sinto especialmente ansioso, diminui o meu ritmo cardíaco e me permite respirar. Ele não tem os efeitos sedativos dos benzodiazepínicos. Algum tempo atrás, aumentei meu Zyprexa, depois diminuí um pouco a dose, e gostaria de cortar totalmente, mas, em bem mais de um ano, nunca encontrei o momento certo para enfrentar a possibilidade de uma escalada da ansiedade. Sou fanático quanto ao sono e disposto a adiar quase tudo para ter certeza de que durmo o suficiente; John é quem se levanta com nossos filhos no meio da noite, se isso for necessário. Faço exercícios regularmente, tanto para o bem-estar físico como mental. Consumo bebidas alcoólicas em pequenas quantidades e ainda menos cafeína (embora tenha um fraco por chocolate amargo, que não posso comer se estou me sentindo ansioso).

Ao mesmo tempo, não estou disposto a fazer algumas concessões. Levo uma vida fascinante e estressante, e não vou abrir mão disso. Vou a todos os lugares e me dedico a pessoas demais; adoro minhas próprias ideias e tenho curiosidade pelas ideias de outras pessoas; sou um malabarista desajeitado, mas entusiasmado entre a família, os amigos e o trabalho. Prefiro tomar meus remédios e viver no mundo do que reduzi-los e me fechar em mim mesmo. Quando estou bem, faço tudo o que posso, e às vezes isso parece bipolar dois. Mas meu comportamento não é hipomaníaco; ao contrário, ele reflete a minha compreensão de que a capacidade de ser funcional pode me abandonar a qualquer momento e que devo explorar meus períodos funcionais ao máximo.

Às vezes, meus filhos são meus antidepressivos. Prometi a mim mesmo jamais pensar em suicídio depois que me tornei pai e não agir de modo deprimido perto deles se puder evitar fazê-lo, e estar com eles fortalece essas obrigações benignas. O som da voz deles tem um efeito milagroso quando estou leve ou moderadamente deprimido. Embora eles também possam me deixar furioso e preocupado, nunca me fazem sentir menos envolvido no mundo. Contudo, tento protegê-los não só da minha depressão, mas também da capacidade deles de mitigá-la, porque não quero que tomem isso como uma obrigação. John é de uma grande ajuda sempre que estou mal; quando estamos juntos em nosso quarto eu me sinto mais seguro do que me sentia em meu quarto sozinho, e não o afasto muito de minha realidade. O amor ajuda quando a depressão está em seus estágios iniciais. Mas, quando ela realmente se agrava, a maior parte dessa energia se esvai. Consigo dizer que as coisas estão ficando sérias quando minha ansiedade não responde ao riso de meus filhos. Nesse momento, meu trabalho é proteger as crianças de meu desligamento, agir do modo como eu gostaria de me sentir. Essa é a empreitada mais desgastante do mundo, embora haja certa satisfação sinistra em levá-la a cabo.

* * * * *

Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

 

Livro: você tem um amigo

Os livros são os nossos grandes amigos. Sempre que queremos passar um tempo lendo uma boa história, eles estão lá para nos fazer companhia. Para comemorar o Dia do Amigo, que acontece no dia 20 de julho, vamos fazer uma promoção no Twitter para presentear nossos amigos leitores. Para participar, responda a seguinte pergunta:

“Qual livro que traz a amizade como tema é o seu favorito?”

Responda e compartilhe marcando o nosso Twitter @cialetras e o link http://sorteia.eu/bdk e concorra a um kit com 10 livros da Companhia das Letras que têm como centro da história grandes amizades.

Exemplo de tweet:

“Qual livro que traz a amizade como tema é o seu favorito?” – O mundo de sofia, @cialetras http://sorteia.eu/bdk

Veja quais são os títulos da promoção:

1. A festa da insignificância, Milan Kundera
2. Fim, Fernanda Torres
3. Mil rosas roubadas, Silviano Santiago
4. O rio é tão longe (Cartas a Fernando Sabino), Otto Lara Resende
5. A vida do livreiro A. J. Fikry, Gabrielle Zevin
6. A vida secreta das abelhas, Sue Monk Kidd
7. Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, Benjamin Alire Sáenz
8. O menino do pijama listrado, John Boyne
9. As brasas, Sándor Márai
10. O mundo de Sofia, Jostein Gaarder

O resultado da promoção será divulgado no dia 18 de julho aqui no blog.

Aproveite este dia para presentear os seus amigos com um bom livro. Feliz Dia do Amigo!

PROMOÇÃO ENCERRADA

A ganhadora do kit foi a Renata Serapião. Obrigado a todos que participaram!